A maria-farinha caminha ligeira em direção à onda do mar que recua da arrebentação. Aqui a água é limpa. Boa para banho, para a vida e para pesca. Caminho tranquila de manhã pela orla da praia nublada, observando as composições marítimas deixadas nas areias pelo recuo da maré.
Vejo algas de tons avermelhados e marrons, o sargaço como chamam aqui na Paraíba. Há conchas, fragmentos de folhas, restos de lixo deixados pela espuma do mar. Uma boneca sem as pernas e os braços, uma chuteira azul, pé direito, tamanho 43, uma garrafa de plástico preta retorcida. As formações marítimas incrustadas nela revelam o tempo em que esteve imersa na água salgada, aguardando a decomposição. O mar esgotou seus esforços e a cuspiu de volta, devolvendo-a para nós.
Mais a frente há uma grande tartaruga morta por algum lixo, agonizou subindo rumo à areia, antes de desovar nas águas quentes, impedida de terminar o seu ciclo natural de vida. A imagem me choca e me atrai. Tiro algumas fotos me sentindo triste pelo contraste da vida. Estou em uma das mais belas e paradisíacas praias em que já estive mas é o imperativo da morte e do lixo que detém a minha atenção.
Os pescadores de arrasto estão trabalhando para retirar a quarta rede do dia que foi lançada ao mar. São três jovens, magros e negros, com uma cinta amarrada na cintura que puxam a corda, pelo próprio esforço do corpo, em direção ao continente. O jovem do meio usa um cajado feito do galho de alguma árvore, para se estabilizar em pé. Os outros, nas extremidades, puxam a corda caminhando com os corpos completamente envergados em direção ao solo, tentativa de otimizar o torque no exercício da força dos braços. Um esforço hercúleo. A corda oscila entre tensão e frouxidão, enquanto, num trabalho de formiguinha, os pescadores vão contraindo os músculos sob a pele suada e queimada pelo sol , vencendo os centímetros da corda, conseguindo lentamente trazer a rede de volta à areia.
Há um técnica ali, um saber investido. Um trabalho de equipe. Um quarto homem enrola a quantidade de corda que vai ficando pela areia e, periodicamente, alterna de lugar com os outros, para lhes proporcionar algum descanso, imagino. Paro e observo de longe aquele ofício, imaginando, pela força feita, uma rede trazendo o peso de uma baleia, um tubarão ou coisa parecida.
O ciclo continua até que a boia aparente sinaliza que a rede está perto. Neste momento, vários homens se juntam na orla e, ao mesmo que a retiram gradualmente do mar, chacoalham-a e dobram-a sobre si mesma. Eu, ansiosa por saber o que foi pescado, não vejo nada além de folhas, sargaço e piabas. Quando a rede sai toda das águas, ela é levada até a orla e revirada, seu conteúdo é despejado na areia. Não há baleia, tubarão, nem ao menos peixes maiores, como imaginei.
Ali, mulheres e crianças pequenas se juntam ao grupo, selecionando o material que será vendido. Nesse momento vejo que o que interessa são os camarões, que brilham os raios de sol, facilitando a seleção. Vinte e cinco reais o quilo. Aquele camarão será vendido por 25 reais o quilo, alguém me diz. Não compensa, meu deus, é muito esforço por pouco, penso em silêncio. No restaurante ontem, o prato com seis camarões custou 102 reais.
Vou embora pensativa sobre a pobreza, sobre a falta de oportunidades de trabalho, sobre a mais valia e a exploração do trabalho.
É uma realidade muito distante da que eu vivo, na cidade grande, sem mar, sem redes. Coincidência ou não, estou na Paraíba para um congresso sobre Psicologia do Trabalho, onde palestrantes internacionais falarão sobre home office e trabalho na pandemia, sobre as reformas administrativas e previdenciária, sobre a precarização e alienação no trabalho e outras formas de apropriação concretas e simbólicas sobre o trabalho.
Tomara que as próximas marés e as próximas redes tragam além de peixes, mais esperança e justiça social.