A espetacular canção, de 1966, do franco-armênio Charles Aznavour, que diz: “Je vous parle d’un temps / Que les moins de vingt ans ne peuvent pas connaître”, nos remete à percepção de que experiências que vivemos são difíceis de explicar a quem desconhece os abismos que tivemos de transpor.
No início de 1983, já havíamos passado por três planos econômicos, chamados Delfim I, II e III, que não melhoraram em nada a inflação absurda que se seguiu ao chamado Milagre Brasileiro, da década de 1970. Após o empenho gigante do governo em industrializar o País, num período de positivismo internacional, aquela deslumbrante onda ascendente chegou ao ponto de arrebentação. Houve o desaparecimento de postos de trabalho e queda do nível de renda. A informatização, cuja expansão foi muito mais rápida do que a capacidade de adaptação dos trabalhadores de então, se instalava. E antes de melhorar, as coisas pioraram bastante, mesmo nas futuras tentativas frustradas de estabilização, com propostas alucinadas como os Planos Dornelles; Cruzado I e II; Bresser; Verão; Color I e II; entre alguns outros.
Um dos indicativos históricos da quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, foi percebido por um investidor em conversa com seu engraxate. Este investidor foi dos poucos que se saíram bem na contramão do desastre que afetou o mundo inteiro. No caso brasileiro, pessoas comuns aplicavam seu dinheiro compulsoriamente, em Overnight ou Open marketing, acreditando que o suposto ganho auferido, da noite para o dia, recompunha seu mínimo capital, quando, na verdade, apenas reduzia a inevitável perda. Nos parece assustador quando lembramos que um dos segmentos empresariais que mais teve lucro produzia etiquetadoras, para remarcar preços nas gôndolas, até duas vezes ao dia.
Milhares de pessoas sucumbiram ao superendividamento nesses tenebrosos tempos. No início de 83 nós, empregados na Açominas, estávamos razoavelmente resguardados.
Não me lembro do propósito, mas fui pedir empréstimo à Fininvest, na inclinada Tamoios entre Afonso Pena e Bahia. Atendeu-me uma atenciosa jovem, encantadora, cabelos longos castanhos muito cuidados, mãos delicadas, sorriso lindo, corpo escultural e voz doce. A maioria dos postulantes a empréstimos estavam em crise financeira, diferente de mim, naquele momento.
A conversa ultrapassou o puro interesse comercial, claro. Ao sair da loja, ela me acompanhou e, quando alcancei a rua, acredito, sua beleza me desequilibrou. A anilha do aparelho ortopédico, na articulação do joelho esquerdo, se abriu e levei um tombo espalhafatoso, memorável. Ela se adiantou bastante preocupada, se dispondo a ajudar. Aqueles olhos divinos iluminavam o fim de tarde. Momento mágico aquele encontro de olhares. Assim começou o namoro apaixonado, cheio de admiração.
Mas como bem observado por Marinho da Muda e João Quadrado no exaltado samba “Ninguém tasca”, gravado em 1972 por Samuel Machado Filho; a partir daquele momento, ficou estabelecido e muito claro que “o meu barraco fica(ria) assim de gavião”. Mesmo amigos muito próximos se encantavam por aquela moça de graça muito além do comum e nem disfarçavam.
Aqueles tempos de juventude nos ofereceram experiências extremadas de perdas e de alegrias.
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