Nas ótimas aulas de português, com o mestre Carlos Alberto Maciel, ficávamos encantados com a parte de literatura e com clássicos da poesia. E para fixar conceitos, às vezes, as avaliações incluíam um texto poético autoral que deveria ser lido à frente da classe. Momentos de pura diversão e aprendizado. Um daqueles alunos estava apaixonado, como a maioria de nós. Adolescentes fascinados e arrebatados, descobrindo os olhares, o caminhar, o cheiro, o toque; sentindo o pulsar descontrolado do coração em presença do objeto de nosso desejo, de nosso sonho. Esse jovem tinha o hábito de usar o pronome reflexivo “se” em diversas construções frasais, de forma equivocada. Do mesmo jeito que o bom narrador esportivo Milton Leite costuma parodiar jocosamente alguns jogadores: “Agora eu ‘se’ consagro!”. E ainda, meu contemporâneo de Escola ‘plagiava’, inocentemente, trechos das músicas interpretadas por Roberto Carlos, seu grande ídolo. A mistura ficava absolutamente hilária. Quase daria para cobrar ingresso naquelas aulas.
Depois daqueles tempos memoráveis, tive apenas um contato com o colega querido. Foi em 1985, um período especialmente marcante. Entre os diversos aspectos, ocorreu a morte do primeiro presidente civil em vinte anos; surgiram diversas bandas de rock como Guns-N’-Roses. Entre várias nacionais, a Engenheiros-do-Hawaii. Enquanto a fantástica Ultrage-a-Rigor lançava com enorme sucesso: “Nós vamos invadir sua praia”. Além disso, foi o ano de lançamento de um dos maiores hits de todos os tempos: “We are the Word”, bem como o ano em que tive a mão esquerda amputada numa serra circular.
Fui doador de sangue, no Hemominas, a cada três meses, por dez anos. Quando voltei de SP onde, depois de quatro meses convalescendo pelo reimplante da mão, fiquei mais quatro em tratamento e expectativa de cicatrizações. Ao final de outubro, já estabilizado, sem ferimentos nem pontos, soube que a mãe de uma amiga precisava de doadores de sangue, em razão de um tratamento. Me dispus imediatamente e me dirigi àquela Fundação, na avenida Ezequiel Dias.
Saber que meu sangue é tipo O, RH positivo, só é possível porque Karl Landsteiner, grande cientista austro-americano, Nobel em 1930, classificou os grupos sanguíneos – sistema ABO -, e identificou o fator RH. Também foi responsável, em 1908, por isolar, pela primeira vez, o Poliovírus, agente causador da paralisia infantil.
Foi naquela sala de coleta que encontrei o contemporâneo de segundo grau. Ele havia encorpado, usava espesso bigode e cabelos bem curtos em contraposição ao modelo hippie dos tempos de Escola. Não o reconheci imediatamente. Mas, quando a simpática moça veio fazer a coleta que, coincidentemente, seria para a mãe de nossa amiga em comum, mais uma vez não tive como segurar o riso. Ela pediu que abrisse e fechasse a mão, enquanto amarrava uma borracha em seu bíceps. Apanhou o algodão com álcool e, no momento que aproximou da dobra do braço, ele disse sério a ela:
– Muito cuidado aí, doutora! Essa é a minha “veia poética”.
Foi nesse dia que descobri que havia sido infectado pela Hepatite C, genótipo 1.
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