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A pescadora e o mar

Sandra Belchiolina

Estar na Bahia é estar no fluxo do tempo e no ritmo das marés, das chuvas, dos ventos e do sol.
Impossível não sentar e re-sentar à beira-mar sem se encantar com o azul ou verde do mar, sentir a brisa e o som das ondas ou das músicas baianas — Bethânia, Gal Costa, Caetano e Gil na sonoridade.

Escrevo esta crônica de uma barraca tradicional — Panela de Cumuru — que fica à beira-mar, o que torna o prazer da escrita ainda maior. Entre as mesas, onde alguns amigos engatam uma prosa, um casal entra no mar e segue nadando um pouco mais além; duas jovens e cunhadas atravessam a rua, e a conversa se alonga nas águas.
Na barraca, um quadro me chama a atenção: é Maria pescadora e seu marido, também pescador, Sr. Dos Reis.

Certa vez, fui conversar com Maria e escrevi isto em 2020. Quis falar mais, mas ainda não tive oportunidade. Ainda assim, deixo algo sobre sua escolha:

“Encontrei-me com a pescadora quando caminhava pela vila dos pescadores, indo em direção à Praia dos Barcos. Quando passamos por um casal, minha amiga sinalizou que era uma dupla de pescadores. Passaram por mim e fiquei encantada. Nunca ouvira falar de uma mulher como pescadora profissional. Naquele dia, ambos vestiam camisetas rosas, e a sintonia do par era admirável. Virei-me para trás e queria tirar uma foto. Ponderamos: não era a hora.

Hoje dei sorte! Encontrei-a na praia desenrolando a rede de pesca. Pedi para tirar uma foto e contei-lhe que era a primeira pescadora que eu conhecia. Muito simpática, relatou parte de sua história e encantei-me ainda mais. Chamou-me a atenção seu corpo forte e musculoso. Vê-se que são marcas do seu trabalho no mar, na pesca marítima.” (blogmirante, 2020)

Naquela manhã de 2020, Maria contou-me que, quando sua mãe faleceu, ficou desesperada e correu para o mar num momento de grande dor. Foi salva! Apaixonou-se também pelo mar e, desde então, é par do Sr. Dos Reis, na vida e na pesca.

A maré está enchendo, o casal acaba de sair, e agora são três jovens proseando nas águas mornas do Atlântico, em Cumuruxatiba. E a brisa prazerosa segue no balanço dos barcos.

Blogueiro

View Comments

  • Que crônica linda...que vontade de usufruir desse paraíso sem pressa, sem lenço e sem documento como na música de Caetano Veloso. Feliz quem pode ser, viver e estar no paraíso chamado Cunuruxatiba... Salve a Bahia!!!

  • Tive o prazer de me emocionar com a história e conhecer os protagonistas dessa crônica. Muito bem observado e muito bem narrado os fatos simples do cotidiano dos moradores da belíssima Cumuruxatiba.
    Que o tempo continue passando sem pressa, e que a preguiça seja sempre gostosa!

    • Olá Jonathan! Obrigada. É uma festa de luz e cores que o mar de Cumuru nos proporciona. Abraços, Sandra

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