O próximo carnaval

Tadeu Duarte
tadeu.ufmg@gmail.com

O próximo carnaval do Brasil será ainda mais insano.

Ainda este ano poderemos lavar a alma depois de anos de humilhação, arminha com as mãos e chinelagem vulgar.

Finalmente soltaremos nosso grito preso na garganta.

Este segundo carnaval será ainda mais anárquico, não precisa fantasia nem cordões de segurança. A festa vai ser nas ruas, praças e quintais.

A previsão é que um pouco mais de 50% dos brasileiros caiam na folia democrática, enquanto os zumbis de morte encefálica e lambe-rolistas de porta de quartel poderão se reunir novamente suplicando intervenções militar, divina ou intergalática.

Só restou o Velho da Havan com seu terno verde periquito, a boca de alarme do Malafaia e os livros do Olavo para fazer barricadas contra a justiça e a Constituição.

Eu sonho com esse momento.

Quem me vê  sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar. Eu tenho tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar…

Vou comemorar uma semana bebendo Corote com Dolly citrus, 51 com Fanta uva e latões de Itaipava quente. Vou escalar numa só perna a Serra do Curral, nadar no Arrudas e beijar a boca do jacaré da Pampulha.

Em meu delírio de felicidade, vou confraternizar com todos os marginalizados do fascismo gospel militar brasileiro: pretos, pobres, quilombolas, macumbeiros, cracudos, mendigos, alcoólatras, putas, travestis, boycetas, sapatões e veados.

Ando tão fã de minorias que, se bobear, volto da folia grávido de um anão albino trans.

Podem já ir se preparando, no dia D e na hora H da vacina atrasada do Pazuello, o carnaval vem.

Demorado, atrasado e incompleto, mas vem.

Cerquem às embaixadas: o Vagabundo Geral da República é um cocô preso prestes a receber a descarga da história.

 

 

 

 

 

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