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O homem histérico

Taís Civitarese

– Observação: esse texto não se dirige a nenhuma minoria. Muito pelo contrário…

Até que ponto vale responsabilizar os outros pelas nossas mazelas?

Quem estuda um pouco de psicanálise – nem é preciso muita – sabe que compartilhamos com o acaso algum grau minimamente tangível de responsabilidade sobre aquilo que nos acontece. Seja esta uma pseudociência – como pensam alguns colegas – ou não, a verdade é que a teoria inaugurada por Freud no início do século XX propõe um modelo bastante útil para repensarmos nosso posicionamento no mundo e seguirmos em direção àquilo que melhor nos contempla.

Se os traumas definissem o futuro, viver seria uma eterna miséria. Os algozes existem para todos, muitos deles habitam inclusive cenários inesperados, como mesas fartas, salas de piso encerado e cômodos com vasos de flores nas mesas.

O romantismo serve-me apenas em sua estética. Na idade em que estou, tenho uma preguiça absurda do romantismo enquanto filosofia. Está desgastado, datado, pueril. Werther se matou por apaixonamento, Jean Valjean sofreu eternamente após roubar maçãs. Foi lindo, foi legal, mas chega.

Os anos 80 exploraram essa narrativa ao máximo com seus filmes de herói e seus dramas de amor, mas já terminaram. Os anos 90 também. O subjetivismo não combina mais. Em um planeta que esquenta dia a dia, em mares que nos brindam com “algas” feitas de sacos plástico a enrolar-nos nas pernas e diante da proliferação de ditaduras que propagam distopias e amealham cada vez mais apoiadores, desculpem-me alguns amigos, seu egocentrismo me dá preguiça. Favor procurar ajuda – inclusive posso indicar profissionais – para estar sãos e unir esforços em torno da coletividade. Saúde mental já é tema em domínio do senso comum e acessível. Ignorar isso não orna com 2025.

Estar são é também uma responsabilidade social. Romper com o narcisismo primário, ainda que se esteja para lá dos 40 anos….

Algumas vezes pode ser divertido performar o personagem injustiçado e debelar-se em nome de uma boa prosa. Viver definitivamente incorporado neste papel é deveras cansativo, entediante e tolo. Sabemos o caminho a tomar: terapia, exercício físico e ajuda profissional.

Particularmente é necessária humildade para se sanar muitas de nossas dores. É necessário tempo, esforço, desapego de si mesmo. Desapego também das mentiras que nos contamos. Porém, fazê-lo e quase como que promover um bem público. É trazer paz ao entorno, economizar forças dos que nos amam, ser minimamente salutar.

Cuidar da saúde mental é uma gentileza social.

Há muitas coisas importantes com que se preocupar e que exigem atenção…

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  • Além de muito bem escrito, esse texto joga luz sobre essa epidemia de narcisismo vitimista do mundo de hoje. Amei, bravíssima Tata!

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