Um jovem amigo me deu a dica: – ouça os audiobooks, você vai adorar!
A princípio resisti, mas ele continuou falando. – Você pode ouvir no carro, em qualquer lugar, numa caminhada, na esteira. Basta fones de ouvido e o celular.
A conversa foi boa e amena, acabei me convencendo. Baixei o aplicativo (acho muito engraçadas essas expressões modernas). Vi que não era tão simples assim, eu deveria fazer uma assinatura e pagar por ela. Mas, como o valor era pequeno, arrisquei.
Surgiram à frente dos meus olhos diversos títulos, melhor dizendo, surgiram diante de meus ouvidos.
Empolgado, fui clicando e clicando e vi vários dos clássicos, livros que li ainda menino ou adolescente. Pensei comigo: que ótima oportunidade em revisitar essas obras maravilhosas!
De fato, os livros lidos na infância ou na mocidade não são os mesmos quando os lemos na fase adulta. Os ângulos de visão, as expectativas, os sonhos, os choques de realidade, as esperanças, tudo isso vai se amoldando ao longo da vida. Mesmo que as letras, teimosamente, continuem as mesmas, nossos olhos as interpretam de maneira diferente. E isso é muito interessante.
Comecei pelo meu favorito: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Resolvi dar uma caminhada pela rua. Vesti um calção e uma camiseta, além do inseparável boné (os carecas sabem bem como isso funciona). Calcei um tênis confortável e, com os fones de ouvido, comecei a mergulhar no universo machadiano.
Nos primeiros segundo me encantei com a sonoplastia: os barulhos de portas rangendo, da chuva, a mudança na entonação de voz do narrador. Enfim, situações que só nos fazem mergulhar no universo da história.
Não me lembro em quantos dias, mas as oito horas de narração passaram rapidamente e, durante os capítulos, fui me lembrando da obra e do momento em que estava quando li o livro pela primeira vez. Aliás, única vez, pois agora eu ouvi o livro!
Pois bem, quando jovem tinha a certeza absoluta de que Capitu traíra Bentinho com Escobar. Ambos o traíram. Hoje, tenho cá as minhas dúvidas. E essas indagações é que fazem dessa obra um marco na literatura nacional.
Adorei! Adorei!
Em seguida, mergulhei no universo de Manuel Antônio de Almeida, relembrando as diabruras do Leonardo em Memórias de um Sargento de Milícias. Que delícia a narrativa, outra obra que revisitei em poucos dias.
E o melhor de tudo é que ouvir não me tira a vontade de ler, ao contrário, estimula! Continuo com meus hábitos seculares de ler pelo menos vinte páginas diárias, dele não abro mão.
Mas falava dos audiobooks.
Como essa transferência de sentidos nos faz bem. Escutar um livro. Nunca tinha pensado sobre isso antes. A mobilidade é fascinante e nos permite preencher o vazio por vários minutos durante o dia.
É isso mesmo! Já fizeram as contas de quantos minutos são perdidos no cotidiano? A fila para fazer a fezinha na Loteria, a espera do elevador, o sentar na sala de espera do médico, aguardando uma consulta. Dirigindo o carro, sem nenhuma preocupação em molestar o indivíduo que te deu uma fechada. Enfim, são várias as ocasiões em que podemos ouvir um livro sem que com isso deixemos de nos ater às nossas obrigações diárias.
Minha iniciativa em falar sobre o tema é que, embora reconheça que audiobooks nada têm de novidade, só os descobri agora. Logo eu que, à primeira vista, sempre fui avesso às constantes mudanças tecnológicas …
Mas me rendi, ainda que tais mudanças para alguns sejam até arcaicas. Aderi a essa nova “velha” mania e continuarei me deliciando. E já me impus um parâmetro: só os clássicos! Eles soam melhor nas vozes dos narradores, penso eu. Os contemporâneos continuo tratando de ler.
Vou seguir com Machado, Alencar, Aloízio, Camilo, uma turma de craques da pena que merecem ser cultuados, relidos e ouvidos.
Escutando as narrativas me sinto imerso na história, como se os personagens de fato estivessem falando comigo. É uma sensação diferente e muito prazerosa.
Convido a todos para essa peripécia. Apurem ou ouvidos, deixem os corações atentos e partam em viagem, podem até se dar ao luxo de fazê-lo de olhos fechados…
Que fantástico: “ler” de olhos fechados…!
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