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Agenda woke

Taís Civitarese

A moda agora é deixar de lado a chamada “agenda woke” . Esse papo de inclusão, diversificação das referências, reparações históricas dentre outras medidas. Tudo deve girar novamente – se é que um dia já girou –  em torno da meritocracia, essa linda palavra cuja aplicação em minha casa não serve sequer para treinar os cachorros…

Quanto alivio para alguns que não suportavam mais ter que camuflar a própria intolerância. Que se agarravam as rendas e anáguas do passado com a força de um espartilho apertado. Que nunca toparam perder nada porque, sinceramente, “outro não sou eu e que se dane”.

Há mais ou menos setenta anos formou-se o primeiro médico na minha família. Foi o tio Jorge, irmão de minha avó,  filho de imigrantes libaneses. A partir daí veio a minha tia Lucila, vieram alguns primos mais velhos (por parte de pai)  e eu. Todos alunos de universidades federais.

Por muitos anos, a Medicina foi uma profissão que ofereceu empregos garantidos e remuneração digna para proporcionar uma condição de vida segura para uma família. Em um país de instabilidade econômica, era uma das poucas escolhas que ofereceria um futuro “garantido” a quem nela se aventurasse.

Esse mês o sobrinho da ajudante que trabalha em minha casa passou em Medicina na UFMG, a mesma faculdade que cursei. Ele será o primeiro médico de sua família entre muitas e muitas gerações. Ele sempre foi um menino estudioso e preparou-se em casa para atingir tal feito, não tendo frequentado curso preparatório algum. Seu mérito foi conquistado na base do esforço e da dedicação. Reparem que eu disse “mérito”. Mérito é uma coisa. Apostar corrida com quem sai lá na frente – porque nasceu ali – é outra.

O futuro médico é negro e passou com o auxilio da cota racial. Não fosse essa possibilidade, quantas décadas seriam necessárias para que um estudante inteligente vindo de uma família de lavradores do norte de Minas Gerais pudesse realizar o sonho que compartilha com brancos de classe de média do sul do país? Você sabe muito bem, leitor, que era capaz de o mundo acabar antes disso acontecer…

Se uma das grandes desgraças de nosso Brasil é a desigualdade, que haja a possibilidade de que ela se reduza através de mecanismos como as cotas, que são ampliações de oportunidades e resultados da “agenda woke” (antes dela ser pejorativamente chamada assim)… Essa “agenda” nada mais é do que o fruto de estudos de história, da compreensão de suas injustiças e do desejo de olhar para um futuro com mais equilíbrio e dignidade para todos.

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