Mário Sérgio

Ter saúde e as funções do corpo funcionamento pode ser considerado uma dádiva. Muitas vezes não nos apercebemos do quanto isso faz diferença em nosso viver cotidiano. Alguém observou em analogia ao sal, dizendo que ninguém comenta que esse tempero é ótimo ou que seu sabor é diferenciado em eventual relação com outras marcas. Todavia, sua falta causa estranheza e faz com que o nosso paladar reclame sua ausência. E é assim com nossos órgãos ou membros. Só conseguimos, na maioria das vezes, avaliar e dar o devido crédito, quando, por algum fator interno ou externo, deixa de funcionar a contento. 

Casos como o meu, em que as sequelas de poliomielite afetaram sobremaneira as pernas – totalmente a esquerda e parcialmente a direita –, nos obrigam a uma adequação das funções dos membros superiores. Para suprir as deficiências representadas pela fragilidade e insegurança das pernas, desenvolvemos a musculatura de braços e mãos que passam a executar funções que, em condições normais, não lhes seria requerido. 

Para subir ou descer uma escada, por exemplo, valho-me de mãos e braços para erguer ou declinar o corpo, enquanto as pernas e os pés só assumem a função do deambular, quando já devidamente apoiados. A dependência é tanta que soerguer o corpo quando sentado só me é possível com ajuda externa ou com o auxílio dos membros superiores. Sem isso me seria impossível ficar de pé.

Nesse período de festas natalinas e de réveillon, experimentei situações inusitadas. Uma delas, enquanto preparava um petisco, o óleo superaquecido inflamou e precisei aplacar o “incêndio” antes que suas proporções saíssem do controle. Mas meu deslocamento, de pé, é um tanto lento e isso causou certo pânico nos presentes. Consegui resolver e rimos do susto, mas é sempre um risco quando tais situações ocorrem, em função de meu moroso caminhar.

Outro episódio, mais complexo e com consequências dolorosas, foi quando me levantei da cadeira em que trabalhava. Ao ficar de pé, a trava do aparelho ortopédico, tutor longo, que uso na perna esquerda, não travou de forma adequada. Então no primeiro passo que tentei, o equipamento se abriu e levei um tombo cinematográfico. A mão direita estava muito próxima da mesa de trabalho, portanto num ponto afastado do chão. Dependo mais dela mais hoje em dia, em função do fato de a esquerda ter sido amputada e reimplantada, perdendo parte de sua funcionalidade. Coube-me, ato contínuo, instintivamente tentar aparar a queda com a mão e o braço esquerdos. Nessa tentativa, todo o peso, ampliado pela velocidade da queda, deveria ser suportado até que o corpo atingisse, como se esperava, mais lentamente o chão. 

Ocorre que, aos 67 anos, parte da força e da habilidade já se perderam na jornada da vida. Já não sou tão ágil nem tão forte. O ombro deslocou, a musculatura dos braços se ressentiu e eu esborrachei no chão. Passei o primeiro dia de 2025 entre consultas e exames no pronto-socorro. E os dias seguintes com uma tipoia. Comecei com o “lado” esquerdo.

 

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