Categories: Taís Civitarese

Edouard Louis

Recentemente, assisti a um vídeo do escritor francês Edouard Louis em que ele dizia que gostava de escrever sobre as coisas feias do mundo para que fossem vistas e, consequentemente, consertadas. Segundo ele, falar de coisas belas e de finais felizes não lhe interessava, pois refere-se àquilo que já está em ordem e não ao que merece atenção.

Ao refletir sobre essa afirmativa, concordo bastante com ele porque a leitura de belas histórias é, por vezes, como uma anestesia. Oferece escapismo e nos distancia da realidade com todas as suas agruras. Desta forma, aquilo que nos previne de sentir também nos esquiva de agir, o que pode ter como consequências a alienação e a omissão diante dos problemas.

Entretanto, há momentos em que não se está disposto a encarar as facetas sombrias da vida e tudo o que se quer é leveza e alheamento. 

Após a leitura de dois de seus livros, concluí que o que Edouard faz com maestria é descrever as dores humanas de maneira bela e, assim, demonstrá-las para nós sem tanto peso. Em “O fim de Eddy” ele fala de assuntos como homofobia, violência doméstica, negligência e alcoolismo. Fala também sobre as misérias de se viver em uma sociedade classista na posição desfavorecida dela. Em “Lutas e metamorfoses de uma mulher” conta a história de sua mãe, resignada diante do machismo e da invisibilidade no seio familiar e social. O que poderia ser um encadeamento de tragédias, surpreendentemente, revela uma abordagem honesta e com nuances de leveza, ao longo da qual a leitura não se torna completamente desprovida de sensações agradáveis. O incômodo está ali, mas está também a delicadeza.

Ao assisti-lo falar, percebe-se que a elegância é parte inerente à sua persona e, portanto, não poderia estar completamente ausente de seus textos. 

O paradoxo de tratar de coisas feias com palavras bonitas talvez seja um caminho menos repelente para pessoas que buscam na leitura um bálsamo, mas sem que esta perca seu papel de provocar e de gerar transformações.

 

Imagem: Getty images

Tais Civitarese

Share
Published by
Tais Civitarese

Recent Posts

Entre o véu e o espelho

Sandra Belchiolina Sem falso moralismo — porque ele derrete no primeiro suor de fevereiro —…

12 horas ago

Em nome do amor

Daniela Piroli Cabral danielapirolicabral@gmail.com O pai não aceita o fim da relação de 15 anos…

1 dia ago

Lembranças dos melhores tempos

Na próxima semana, pretendo, vou discorrer sobre mais um carnaval bem curtido na minha existência.…

3 dias ago

O Fantástico Mundo de Zé

Victória Farias “Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele…

3 dias ago

Como quem ama o primeiro amor

Silvia Ribeiro Te amo. De um jeito esquisito, mil vezes por dia, na minha dança…

3 dias ago

Dia de Alegria

Mário Sérgio “Domingo, colorido pelo sol: as morenas na praia que gingam no samba e…

4 dias ago