Categories: Daniela Mata Machado

De mala e cuia pro deserto

Daniela Mata Machado

Corre aqui, menina! Precisando te contar uma coisa… Eu acho que comecei a envelhecer. Escutei esses dias uma palestra no YouTube dizendo que a velhice era feito uma viagem ao deserto do Saara. E que a gente não se preparava pra ela e aí caía naquele lugar sem uma garrafa d’água, sem mala, com a roupa errada, sem uma sombrinha… Enfim, a tal da viagem era uma desgraceira danada. Eu perdi uns pedaços do vídeo. Parece que dá pra embarcar nessa viagem com uma malinha melhor e que isso dá uma aliviada no passeio. Mas o caso é que, pelo visto, é uma viagem só de ida e ninguém sabe quanto tempo vai durar. Agora cê pense, menina: como é que faz a mala pra um lugar quente, seco, que não tem nem água se a gente não sabe quanto tempo vai ter que ficar lá? A médica que falava no vídeo era bonitona, sorria muito e parecia feliz, mesmo sabendo que já tava com as passagens compradas pr’essa tal viagem. Mas eu só consigo pensar que não tenho nem um tênis que não me doa os pés e que pra caminhar daqui até ali na pracinha tem dia que esse esporão já me lasca de tanto doer.

Ai, menina… Diz que meditação ajuda. Cê sabe que eu sei meditar, né? Sei bastante. Diz que aprender música também é bom. Sei nada de música, menina. De música, eu só sei mesmo é ouvir. E cantar um cadiquinho, quando tô no chuveiro ou então depois de tomar uns golo porque cantar sóbria na frente dos outros não dá não, né? Ô, moça, eu sei que ainda não tô velha. Sei bem. Quer dizer, se bem que minha avó na minha idade já era velha, né? Mas cê tá certa, o povo agora dura mais, como diria minha mãe. Dura bem mais, né? Será que é bom durar tanto, menina? Se for pra ficar passando aperto nesse tal de Deserto do Saara, eu não tô sabendo se é assim tão bom, não.

Tem uma senhorinha aqui na frente que anda toda empertigada. Sobe essa pirambeira aqui de casa melhor do que eu, cê precisa ver. Deve ter feito uma mala boa pro deserto essa doninha. Em compensação, a outra aqui debaixo não anda boa do corpo nem da cabeça. Encontro com ela todo dia quando saio pra trabalhar e todo dia ela pergunta a mesma coisa. Quer sempre saber o meu nome e onde é que eu trabalho. Deve ter embarcado pro tal do deserto só com umas coisinha pouca essa aí. Ou será que não? Ela não parece infeliz não. Me lembra um pouco aquele filme que tinha o Dia da Marmota, já viu esse? Que todo dia repete a mesma coisa e a pessoa não lembra. Vai ver a doninha fez a mala pequena justo pra não ficar carregando coisa que não precisava.

Eu vou precisar assistir o tal do vídeo de novo. Pra entender que diabo de coisa tem de ter na mala pra ir pra esse deserto. Será que a gente já tá no caminho? É, cê também já tá bem da minha idade, né não? Será que vale a pena caçar esse vídeo de novo? E se a gente descobrir que não dá mais tempo de fazer outra mala e vai ter que ir com essa que já tá pronta mesmo? Esse trem de envelhecer né bom não, viu? E ainda essa história de viagem pro deserto, agora. Vou pedir aquele menino, Cassinho, pra ver se me ensina a tocar violão. Música é bom, né? Vou ver se ainda dá tempo de botar um violão na mala.

Blogueiro

View Comments

Share
Published by
Blogueiro

Recent Posts

O rei está nu, sem coroa e algemado

“O ex-príncipe Andrew foi preso”. O texto poderia ser só isso. Esta frase sintetiza boa…

17 horas ago

Entre o véu e o espelho

Sandra Belchiolina Sem falso moralismo — porque ele derrete no primeiro suor de fevereiro —…

2 dias ago

Em nome do amor

Daniela Piroli Cabral danielapirolicabral@gmail.com O pai não aceita o fim da relação de 15 anos…

3 dias ago

Lembranças dos melhores tempos

Na próxima semana, pretendo, vou discorrer sobre mais um carnaval bem curtido na minha existência.…

4 dias ago

O Fantástico Mundo de Zé

Victória Farias “Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele…

4 dias ago

Como quem ama o primeiro amor

Silvia Ribeiro Te amo. De um jeito esquisito, mil vezes por dia, na minha dança…

5 dias ago