Taís Civitarese

Um dia, ele espichou de tamanho e sua perna se encheu de pêlos. A voz ficou grossa e na pele brotaram muitas espinhas. Pensei que estava tudo acabado. Que meu menino já era um rapaz. E não sei por qual motivo recuei da cena. Dei-lhe espaço, passei a dedicar-me mais ao caçula e a outros afazeres.

Os novos traços do Lucas me passaram a falsa impressão de que ele já estava pronto. Ludibriei-me pela ação de seus hormônios e pensei que minha função ali já estava praticamente encerrada.

Custei a identificar o erro. Por trás daquele garoto ainda existia e existe um menino.

Hoje entrei em seu quarto para ajudá-lo a organizar suas coisas. Entre desenhos, adesivos, chaveiros, lápis, cabos e peças de jogos, encontrei dois olhos enormes com as íris iguais a jabuticabas. Eram os olhos de quando ele era pequeno. Os mesmos olhos de bebê que continuavam a me olhar da mesma maneira. Os olhos curiosos que segui por onze anos. Estavam intactos, disfarçados de olhos de adolescente. Emoldurados por sobrancelhas grossas e por longos cílios pretos. Eram os que me miravam do colo, que eu ansiava por cerrarem-se à noite, que me sorriram tantas vezes com carinho e gratidão.

Diante deles percebi que tudo continuava idêntico. Neles estava um filho que ainda precisa de apoio, de presença e de escuta. Ainda frágil em muitos momentos. E forte para se admirar em outros tantos.

Voltaram à memória todas as coisas que já vivemos juntos. Seu nascimento e crescimento, suas etapas, suas fases. Tornou-se um garoto enorme, comprido, prestativo e esperto. Um pouco como imaginei que seria e outro tanto diferente.

Que sua adolescência seja regada de amor assim como foi sua infância. Que a independência venha com o tempo, forjada com calma em base de segurança. Que se desmistifique essa pressa de crescer. E que meu colo de mãe não se intimide com esta nova dimensão.

Tais Civitarese

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