Quando a gente se esforça pra parar, a gente não para. Porque parar não exige esforço. Era mais ou menos isso o que dizia o texto do oráculo que eu consultei anteontem. Ou foi o que absorvi dele. Já há muitos anos eu me dedico ao silêncio, à pausa, aos retiros, aos mantras e ao aprendizado de tudo o que possa me tirar do movimento incessante que, algumas vezes, quase me levou ao colapso. Mas foi o oráculo de anteontem que me mostrou que eu jamais saí do moto-contínuo que me levava de nenhures a parte alguma.
A respiração serenava apenas o tempo da meditação. As dores desapareciam somente até o próximo conflito. O repouso era breve. A voz mansa sufocava o grito, mas não muito. Houve muitas e muitas noites de angústia e horror que nenhum óleo de lavanda foi capaz de amainar. Eu repetia, na forma de mantra, a ideia de que era preciso soltar o controle. E me controlava. Me cerceava. Me congelava em forminhas pequenas para que minha água não derretesse, molhando aquela escultura de origami onde eu acreditava morar a minha paz.
“Não é preciso aprender. É soltar o que você sabe, o que você pensa que é.” E eu me esforçava. Tentava aprender a não aprender. Soltar o que eu pensava que pensava que era e me agarrar no que eu pensava que agora, de fato, era. “Quando a gente se esforça pra parar, a gente não para.” O que esse raio de oráculo quer dizer? O que, nesse mundo de meu Deus, não exige esforço? Quem é a pessoa que eu posso ser que não exija de mim um esforço hercúleo?
“Você precisa buscar a sua criança interior.” Deus meu, eu ouvi tanto essa frase! A minha criança interior é tímida, atrapalhada e quer ser atriz de televisão. É um combo inviável para o sucesso que me disseram ser importante. E ela não é silenciosa, exceto quando submersa no seu fantástico mundo interior ou diante de seres que a ameaçam. Quase todos os seres, é verdade.
“A meditação é despir-se de tudo aquilo que você acha que é. E o que você de fato é vai brilhar.” Era mais ou menos isso o que a Marcia Baja dizia. Como eu admiro aquela moça! Ela não se esforça para parar. Ela para. E eu tentava, sem sucesso, mimetizar seus movimentos – ou a ausência deles – para alcançar aquela paz que ela emana. Mas isso era só mais uma coisa que eu achava que era: uma yogini serena. E não é isso que vai brilhar em mim. Porque também disso é necessário me despir.
Eu gostaria de encerrar esta crônica dizendo que finalmente entendi o que o oráculo gostaria de me dizer e que isso determinou a virada de chave definitiva na vida de uma menina tímida e atrapalhada que queria ser atriz de televisão. Mas a verdade é que tenho 50 anos e ainda estou de pé, segurando a chave enfiada na mesma fechadura, que me parece emperrada. “Parar não exige esforço”, era o que dizia o oráculo. Talvez eu devesse apenas soltar a bendita chave e largar pra lá essa ideia revolucionária de tentar abrir portas. Mas ainda não sei. E, para piorar minha situação, decidi perder o medo do ridículo e encerrar este texto com aquela frase clichê, atribuída a Sócrates: “Só sei que nada sei”.
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