Daniela Piroli Cabral
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Mal começamos a experimentar o fim da pandemia e o contexto traz à tona a velha discussão entre salvar vidas e resguardar a economia. E, ao contrário do que nos fez acreditar a ingenuidade nossa de cada dia, não aprendemos nada com a pandemia. Saímos do cataclisma feridos, calejados, traumatizados, mas infelizmente não aprendemos nada. 

A pandemia nos fez mais individualistas do que nunca. A despeito do forte abalo que nosso grande ecossistema passou, saímos mais prepotentes do que antes, acreditando que é direito adquirido subjulgar o meio ambiente.

É isso que a recente aprovação da mineração na nossa serra do curral vem nos mostrar. A preponderância do poder econômico em detrimento da proteção de qualquer forma de vida. Deliberadamente vão destruir nosso ecossistema, nosso solo, nossa água, nosso ar, nossa fauna e flora. Vão destruir nosso patrimônio ambiental, cultural, turístico. Vão destruir nosso quintal. Vão matar a nossa identidade. Vão acabar com a nossa saúde. Física e mental.

Não aprendemos nada com o passado, nada com os desastres, nada com a pandemia. Nenhuma lição de integração, de coletividade, de sustentabilidade. Nada. A banalização da necropolítica. A cotação do valor da vida despencou nas bolsas de valores. 

A velha política predatória que visa o lucro a qualquer custo continua a vencer. A devastar, a erodir, a expropriar, a matar. A mentalidade escravagista, violenta e desumana volta a imperar e a explorar como sempre. 

A serra agoniza, a natureza sofre, a sociedade clama por piedade. 

Hoje choramos as mesmas lágrimas de lama e sangue que Carlos Drummond de Andrade chorou em seu poema “Triste Horizonte”, de 1976.

Hoje choramos um choro formado nas políticas de morte e na fome de dinheiro, na ganância do capital que se sobrepõe a toda forma de vida. Hoje choramos os mais de 600 mil mortos, choramos os 270 mortos em Brumadinho e os 19 em Mariana. Crimes para os quais não há restituição ou reparação possível.

Hoje o ciclo se repete. Daqui a pouco teremos outros desastres e os soterrados seremos nós mesmos.

Mas iremos resistir enquanto houver pulso, esperança e vida. Salvem a serra, salvem nosso mirante, nosso horizonte, nossa moldura, nossa identidade.

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