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Tempos modernos

Silvia Ribeiro

Com a comodidade dos tempos modernos as pessoas se abduzem do que lhes parece mais laborioso e se aprazem com as espetaculosas praticidades. Em todos os âmbitos e derivados.

Lidam com os sentimentos como se chegassem ao supermercado em busca de algum alimento que não demanda esforço, e colocam nos seus carrinhos facilidades degustativas como se quisessem dizer o quanto é festivo fazer parte da tribo.

A moda é:

Sentimentos que podem ir ao micro-ondas.

Desaprendem o valor nutritivo de um toque, de um abraço demorado, de um beijo de língua, de um sorriso astuto, do som de uma campainha, e até de um simples alô no telefone.

Vão colocando pra dentro de si efeitos colaterais sem nem se dar conta da sua intoxicação. E com isso abrem crateras emocionais que enlouquecem qualquer divã e saturam os consultórios de psiquiatria.

Rezam uma cartilha totalmente teórica e com fundamentos que não sabemos onde ficam e nem aonde vão dar. E nem pense em  acompanhar, porque eles mudam como trocam de roupa.

Engraçado como o politicamente correto tão recitado de norte a sul não tem endereço fixo. E além disso não conversa com todo mundo, não sai pra balada, e que dirá possui RG.

Se alimentam de pimenta nos olhos dos outros é refresco, de dançar conforme a música, de salve-se quem puder, de minha vida minhas regras, da lei do mais forte. E dos célebres contatinhos descartáveis que passam longe de uma possível reciclagem.

É o toma lá da cá mais próximo da nossa rotina, o fala que eu não te escuto mais legível, a maldade autodidata mais exibicionista, e um prazer por prazer pedindo passagem. A egomania virando arroz com feijão nas nossas mesas.

As vezes desconfio que aquelas tais regrinhas básicas que falam dos nossos direitos e dos nossos deveres estão esquecidas por aí, em alguma carteira de escola ou se sentindo envergonhadas com o seu mal uso.

Apressam o tempo do plantio e tencionam a colheita instantânea, e arar a terra é coisa de gente matuta. O florir não é mais o artista principal tampouco lhe contaram qual é a estação do ano.

E com tudo isso vamos ficando contaminados por agrotóxicos de vocabulários onde o sujeito pode ser qualquer um, e o adjetivo é de fabricação própria.

Até que num certo momento o coração reclama e o corpo padece.

Mas nada que um bom detox de amor não cure.

Blogueiro

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