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Taras e manias

Silvia Ribeiro

Somos uma combinação de manias.

Acho que todo mundo traz consigo algo desse tipo, ainda que seja apenas um fiapo sem o mínimo prestígio.

Não reparem, mas tenho uma certa inaptidão de me desenlaçar de algumas delas, e posso dizer que tenho várias. Das mais simbólicas até as mais previsíveis.

E quando percebo elas estão mais em evidência do que eu mesma. São livres, e no entanto, optam por se engaiolarem dentro de mim.

Uma vaga intuição me diz que elas me cativam de forma premeditada e com uma esperteza invejável. Me pego envolvida num abraço único, e estranhamente me sinto confinada por puro gosto junto com elas. Praticá-las pode parecer abrasivo levando em conta o grau de dependência que podem ocasionar, por isso procuro manter uma certa distância e uma boa política de vizinhança.

Gasto um tempão venerando uma roupa que confidencia um arremate venturoso de boas lembranças. Sinto como se aquele tecido me emprestasse uma sensação ilusória que manda a saudade embora, e no fundo vejo que ele tem toda razão.

E quando se trata de uma roupa que foi testemunha de um dia infeliz viro-lhe a cara sem a menor cerimônia. Pra ser sincera, prefiro cortar o vínculo.

Uma excentricidade que me acompanha desde sempre e que não me causa danos nem riscos. Trata-se de algo que vai além de qualquer coisa parecida com exatidão e que pode inspirar muitos divãs.

Nunca levantei a voz pra ela. É aquela relação que acabou de sair do banho e traz consigo um cheirinho de shampoo. Vez ou outra chego à conclusão que é uma ambição pelo passado e que suscita uma proximidade física.

Alguém está ali naquele cabide, disputando o prêmio de melhores momentos dentro do meu guarda-roupa, e isso é sedutor.

Naquele pequeno espaço tem alguém expondo sentimentos e fantasias como se fosse uma lenda viva pronta pra se mostrar, fazendo com que os meus desejos queiram falar também.

Outro dia abri uma gaveta e lá estava uma lingerie no meio de várias outras. Porém, ela não era qualquer uma e não sentia pouco, muito pelo contrário.

Não tinha nenhum pudor, a sua simplicidade sexy combinava com poesias, e ela não se acanhava com a sua cor rubra, nem com os galanteios que ouviu.

E diante daquela renda, por alguns instantes pude tocar a maciez de lábios deliciosos, pude sentir a libido de um olhar abusado, pude ouvir alguém dizendo quero mais. E num certo momento pude vê-la jogada ao chão.

Uma risada debochada dentro daquela gaveta…

Hei! Não sou a sua mania, eu sou a sua tara.

Ah! Essas manias.

Blogueiro

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