Poção da imunidade – Fonte: Pixabay
Daniela Piroli Cabral
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(texto original publicado em dezembro de 2020)

Era uma vez (ou outra talvez), num reino muito distante, vivia uma bruxa. Era uma bruxa boa nos seus feitiços e por boa que era, muitas vezes se passava por princesa. E assim pelos caminhos, costumava encantar príncipes e também alguns sapos, equivocadamente.

Eis que um dia veio a má notícia trazida pelos temidos ventos do leste. Uma grande ameaça invisível estaria por vir brevemente e colocaria em risco a vida de todos, sem exceção. O “Grande Mal” não pouparia ninguém. Essa era a grande profecia profetizada nas escrituras fundantes.

Muitos se alarmaram, pensaram em fugir do reino. Alguns gnomos e seres encantados da floresta chegaram mesmo a fazê-lo, através das estreitas frestas nos portais que de tempos em tempos se abriam. As princesas de verdade se recolheram à sua fragilidade e beleza e se queixavam: “Oh céus, o que será de nós?”. A bruxa que era boa ficou resguardada na sua morada, esperando que o grande mal chegasse. A verdade verdadeira é que certeza nenhuma havia e foi inegável o estado de confusão e balbúrdia que assolou o reino naqueles tempos.

Mas o velho Mago Ancião, doutor nas alquimias mais tradicionais, não tardou a anunciar: “Não se preocupem! Eu tenho a poção da imunidade. Quem a beber, não terá mais o que temer!”.

Muitos respiraram aliviados, pois sabiam das habilidades curandeiras do velho Mago. Outros, que já bebiam antecipadamente outras poções milagrosas e alternativas, desconfiaram: “Esse velho está é demente. O Grande Mal não atingirá ninguém”. Os burgueses bradavam: “Temos moedas de ouro e vamos comprar a poção em larga escala. Ponha-a no mercado, então, seu velho”.

Na convenção dos reinos, convocada às pressas, os reis com os reis na barriga deliberavam na sala de estar do castelo: “Tomaremos primeiro nós, porque reino sem rei só existe em contos de fadas”. O outro discordou: “Não, daremos primeiro à plebe, como teste, pois sabe-se lá se essa poção tem efeito contrário?!”. Fato é que nenhum acordo houve naquele dia.

Mas todo mundo sabe que em contos de fadas, as poções só funcionam se forem dadas, merecidas ou conquistadas. Elas são artesanais e cuidadosamente preparadas no caldeirão dos desejos no salão das intenções. E a primeira delas foi dada de presente pelo Mago Ancião à bruxa boa, em retribuição a um antigo favor. 

A bruxa boa bebeu-a de bom grado e passou imune quando a tempestade do “Grande Mal” devastou o reino. Hoje vive a exibir toda a sua imunidade por aí sob a forma de uma encantadora Jacaré, afinal de contas, as poções mágicas podem ter efeitos colaterais. Continua transitando livremente pelos caminhos a atrair príncipes e sapos.

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