Eu descobri que era resistente a morfina depois de uma cirurgia. Uma enfermeira veio e informou que estava aplicando 10 ml no soro, o máximo que poderia me oferecer dentro de um espaço de tempo. Não resolveu. Se ela tivesse colocado água mineral ao invés do remédio, talvez o efeito placebo teria melhor resultado.
A dor, em todos os sentidos, era excruciante. Lembro dela citando um por um dos fármacos que estavam entrando veia afora e goela a dentro. Tylex parecia bala de goma; toragesic tinha um gostinho engraçado de morango; miosan só serviu para me deixar mais acordada e paracetamol tratou logo de não fazer nada daquilo que se propõe.
Todos eles nos seus devidos horários. De 6 em 6 horas, de 8 em 8 horas, de 12 em 12 horas. De todas as posições, a única que se mostrou unicamente suportável foi quando uma amiga me segurava e me acalentava. Nessa eu não tinha vontade de sair correndo desesperadamente clamando por socorro.
Meu fígado, que nunca foi cristão, implorava para todos os anjos, arcanjos e entidades. Minha cabeça, existencialista que só ela, jurava naquilo que não existia.
Me lembro que antes de entrar no quarto, ainda sob efeito da anestesia, eu havia anunciado a todos que tinham ouvido: “não se preocupem! Eu sou imune à dor.” Depois da segunda hora de um choro copioso, tive que mudar meu discurso para “não se preocupem, a dor é imune a mim.”
Eu nunca fui de desconfiar da medicina, muito menos dos seus feitos milagrosos à vida humana, mas naquele dia eu desconfiava de tudo. Inclusive da própria dor. Afinal, não podia ser real. Não depois de experimentar todas as fórmulas químicas randomicamente testadas.
De lá, saí cambaleando. Trocando todas as palavras do dicionário que eu havia inventado, e com um pedido médico para testar minha imunidade biológica aos matadores de dor. Mas tudo está bem. Afinal, cada um tem a carcaça dura que merece.
Pintura: Aula de anatomia – Michiel Jansz van Mierievelt
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