Incorrência ao desespero

Victória Farias

Sem a possibilidade de contagem da ocorrência de fenômenos desesperadores, a situação não está fácil. Os tempos não estão só difíceis, estavam, há alguns meses. Agora, nos encontramos em um momento em que todas as palavras do português relacionadas à desgraça precisam de um novo significado. Tá aí uma palavra que me ensinaram a nunca usar: desgraça, que se caracteriza pela ausência da Graça Divina. Sendo assim, atualmente, a ausência da Graça Divina nos basta, não deveríamos contar também com as boas intenções dos homens, aí já é demais.

Começando pelo pensamento de onde estamos como indivíduos, terminando no absurdo das cobranças de fretes orbitantes das mercadorias compradas pela internet, é difícil saber se em circunstâncias diferentes, paralelas, estaríamos melhores ou piores. A certeza que fica é: pagar metade do valor de um produto no transporte não é legal. Se sempre ouvimos sobre a melhoria da qualidade das estradas brasileiras, por que a cada dia que passa as distâncias se parecem cada vez maiores dentro do território? Não só físicas, obviamente. 

A cada mês e a cada atualização das atividades maléficas do nada saudoso coronavírus, tenho a impressão de que o país, impossivelmente, se contorce e devagar, como se em uma tortura dilacerante, se divide em dois, três, quatro, muitos. Como disse no início, até se eu fosse uma exímia matemática, o que não é o caso, seria difícil contar. 

Ainda assim, constantemente e com uma insistência que chega a incomodar, vejo pedidos e evocações de esperança ao meu redor. As notícias boas, que chegam minguadas pelas atualizações nas redes sociais, parecem um riso estranho e bondoso em meio a gritarias e feitiços contra a vida. Às vezes, e sem querer, me pergunto: quem ousa ter esperança? Quem, em sã consciência, se permite, mesmo que por um segundo, lembrar que já tivemos dias melhores e que, como se em um passe de mágica, eles pudessem voltar a acontecer?

A resposta para a minha pergunta é, surpreendentemente, muita gente. Essa mania minha de pensar que coisas ruins feitas por muitos invalidam as boas feitas por poucos já deveria ter caído em desuso. Era esperança, de fato, querer que o mundo mudasse pela a ação de todos. Mas isso não vai acontecer. Agora, como quem aprende a caminhar com dois pés esquerdos, o que nos resta é remanejar esse sentimento, tão grande, para caixinhas.

Assim, eu tiro a esperança do mundo e a coloco onde lhe é de direito: nas pessoas. Coloco nos companheiros desse querido espaço Mirante, que diariamente me enchem os olhos pela paixão pela vida e pelo exemplo que me dão, continuamente, de que não existe nada melhor do que um dia após o outro. Coloco nos meus amigos, que distantes em quilômetros se fazem pela presença. Coloco na minha família, que por tudo me deu um sobrenome para chamar de meu. Sem a possível contagem da ocorrência de fenômenos desesperadores, prefiro não contar, mas até que seja impossível, seguirei daqui admirando. 

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