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Outono no Havaí

Victória Farias

A sensação de enfiar os pés na areia nunca havia sido a sua favorita. Ele não gostava muito de areia. Incomodava e entrava em lugares impossíveis de se tirar. À quilômetros de distância do mar, podia sentir os pequenos grãos tentando acessar todos os seus poros e cantos. Mesmo com isso, amava as águas. Mas só de dia. A noite, tinha medo que aquela imensidão vazia o engolisse e o esmagasse em um escuro que parecia ser pesado demais para carregar.

Ainda assim, isso não o impedia de ir em busca das ondas – preferia as calmas – dos litorais ao redor do mundo. Uma folga no trabalho era o suficiente para as malas, já prontas, entrarem no compartimento de bagagens do avião e seguirem para a próxima borda litorânea desconhecida.

Na água tudo era muito leve. Todos os seus problemas se resumiam a tentar boiar o mais próximo possível da costa. E ele quase sempre conseguia. Por minutos, se perdia em sua própria imensidão. Absorto no sal e sujeira, batia sem querer com os pés e mãos nas pessoas a sua volta.

A sua fascinação pelo mar estava exatamente naquilo que não podia encontrar em solo: liberdade. Aqui, na “terra à vista” tudo era muito complicado. Ônibus cheios, gravatas apertadas, pessoas em que ele não confiava lhe lançando sorrisos. Comida cara; um fanatismo à direita. O pôr-do-sol escondido atrás de um “empreendimento de 24 andares, venha conferir!”.

Na calmaria das ondas, perseguia a gratidão que sempre pedia em suas orações. Encontrava outras coisas também, como óculos, chapéus e latinhas de cerveja. Os humanos nunca deixam de ser humanos, – pensava – e, mesmo sabendo que era isso que um dia iria nos destruir, ele não podia deixar de sentir uma pontinha de gratidão – até por isso.

Saía do mar com o sentimento oposto ao que Pedro Álvares Cabral saiu do seu barquinho de papel. Caminhava pela areia triste. Entrava no avião deprimido. Ia trabalhar na semana seguinte inconsolável. Já não era mais outono e o Havaí parecia um sonho distante.

Mas entendia, enquanto olhava pelo 15º andar do “empreendimento de 24 andares, venha conferir!” às 17:59 de uma sexta-feira, que tudo que sentia no mar também não passava de uma ilusão. Como os dedos das pinturas na Criação do Homem de Michelangelo, sabia que nada daquilo, de fato, poderia ser alcançado. E, sobre isso, não conseguia sentir nenhuma pontinha de gratidão.

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Pintura: A Criação de Adão – Fresco de Michelangelo

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