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Papai e a direção

Tais Civitarese

Tirar carteira de motorista foi o primeiro grande desafio de minha vida. Foi a primeira travessia entre uma atividade da qual eu tinha completo pânico para um estado de superação e calmaria.

Tudo, porém, começou bem antes dos meus 18 anos. E, para explicar isso, tenho que falar sobre papai.

Papai ama carros, sempre amou. Tinha como hobby experimentar diversos modelos, visitar as concessionárias de seus amigos e conferir as novidades. Conhecia cada lançamento, vendia e comprava veículos para todos parentes e conhecidos. Sabia dizer com precisão se algum automóvel já havia batido e inspecionava latarias com destreza de profissional.

Ao mesmo tempo, sempre foi extremamente superprotetor comigo e com minha irmã. Essa combinação resultou em um receio absoluto de que nos envolvêssemos em algum acidente de trânsito, de modo a sempre tratar o assunto “carro” com um misto de fascínio e apreensão. Papai financiou generosamente minhas 126 aulas de direção e fez de tudo, ou quase tudo para me impedir de aprender a dirigir – sem saber, é claro.

Até ter a idade adequada, eu não podia sequer sentar no banco do motorista. Não sabia ligar um veículo e nem exatamente quais eram as funções do espelho retrovisor. Conhecia várias marcas e modelos (na época, o sucesso da vez eram os “Monzas” e “Kadetes”), sabia diferenciar os fabricantes e sempre aprendi que, na dúvida, era melhor escolher o Volkswagen. No entanto, daí a saber distinguir o acelerador, o freio e a embreagem eram outros quinhentos. Freio de mão era um enigma e estacionar de ré, um mistério dos mais obscuros.

Gastei um punhado de aulas para aprender apenas o básico.

Meu primeiro exame de rua foi, como não poderia deixar de ser, um fiasco. Fiz freadas bruscas, cometi erros grosseiros, quase provoquei um acidente em um cruzamento. Se me lembro bem, o examinador sequer chegou ao fim daquela penúria, deu logo o sinal vermelho.

Para o segundo exame, contratei um instrutor com fama de durão, conhecido por conseguir aprovar os piores rodas-duras da cidade. Começamos praticamente do zero e com muita paciência, ele me ajudou a aprender aquilo que se tornariam os famosos ‘automatismos’ de direção.

Oitenta aulas de rua, um propranolol e mais um exame depois, tirei a carteira.

De vez em quando, enquanto guio, ainda ouço a voz de papai me dizendo: Cuidado! Mais pra lá! Ui! Vai bater! – dentro da minha cabeça.

Se anda ao meu lado, permanece tendo sustos e sobressaltos a cada manobra.

Aos cinco anos, prometi a ele que quando fosse adulta, o levaria para passear no shopping.

Resta saber se ele vai superar a emoção e pegar essa carona comigo…

Tais Civitarese

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