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Sobre a positividade tóxica


Sobre a positividade tóxica – Fonte: Pixabay

Daniela Piroli Cabral
contato@danielapiroli.com.br

Há um tempo venho me incomodando com os discursos sobre o otimismo e a positividade, que são expostos nas redes sociais e também propagados por profissionais dos mais diversos campos (saúde, educação, jornalismo, entre outros). São “gurus da plenitude”, entoando mantras de felicidade e pensamento positivo e “especialistas” em um psicologismo triunfante que prescrevem lições prontas de satisfação e de felicidade.

Alguns são até colegas que acabaram se rendendo aos imperativos do mercado, às magias tecnológicas ou quânticas milagrosas com cem por cento de garantia de satisfação ou o seu dinheiro de volta. O que me assusta, por outro lado, é como tem gente disposta a pagar (e caro) por tratamentos, técnicas terapêuticas e conselhos padronizados sem qualquer respaldo.

Na última semana me deparei com o termo “violência da positividade” no livro Psicopolítica, de Byung-Chul Han. A expressão me saltou aos olhos, pois traduziu exatamente minha sensação de desconforto. Na verdade, mais que um incômodo em relação à todo esse contexto de exaltação do otimismo e do prazer, a violência da positividade é tão destrutiva quanto à da negatividade, pois desumaniza os sujeitos na medida em que os obriga a excluir qualquer vestígio de tristeza, fraqueza, medo, solidão ou tédio. 

O discurso da violência da positividade carrega em si o imperativo de otimização de si mesmo, obrigando os sujeitos a produzir cada vez mais com desempenho e a performar mais eficiência, de preferência com um sorriso no rosto. Neste caso, o parecer se torna mais importante do que ser, o que nos aliena de nossa própria essência humana.

Assim, criou-se um amplo mercado de consumo que se convencionou chamarmos na atualidade de “autocuidado”, mas que acaba sendo uma forma individualizante de culpabilizar as pessoas por eventuais sofrimentos e frustrações. Os indivíduos acabam se sentindo piores porque estão desconectados de sua dimensão humana, que lhes são constitutivas: a falta, o vazio, a dor.

Em um país tão desigual como o nosso, trazer questões coletivas para a gestão do âmbito privado, reforçando que a satisfação com a vida e os estados de ânimo são uma pequena questão de visão de mundo e de pensamento positivo é mesmo reproduzir violências e, no mínimo, estar num estado de alienação.

Eu continuo preferindo o mal humor da manhã, o tédio enfadonho, a lágrima honesta, a dúvida não pasteurizada, a sensibilidade sem anestesias e o vazio permanentemente aberto.

Eu continuo fazendo apologia à angústia, à dúvida, à raiva, à vergonha e ao medo, desde que eles não esmaguem todas as possibilidades de vida real.

Daniela Piroli Cabral

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  • Excelente, o artigo da Dra. Daniela. Nada mais opressor que a "obrigação" de parecer feliz o tempo todo. Aliás, isso não engana ninguém, a não ser a nós mesmos e os tão idiotas quanto os que se deixam "anastasiar" em tal estado. Os patrões fingem que se enganam para, em seu íntimo, se deleitarem com a patética submissão.

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