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Espero que não se importe


Victória Farias

“Só tem um jeito de sobreviver bem às perseguições: nunca aja igual aos perseguidores, nem como eles gostariam que você agisse.”

Althielis

Fique à vontade para saber onde estou. Quer saber o valor líquido do meu contra-cheque também? Não precisa pedir, você sabe onde encontrá-lo na minha carteira virtual.

Meus batimentos cardíacos, passos, ciclo menstrual. Você sabe de todos os aniversários, feriados, acontecimentos importantes. Sabe que uma bomba caiu em algum lugar antes mesmo dela ser fabricada. 

Falando assim, tenho a impressão de que eu deveria te agradecer, mas não vou. Fazemos o que fazemos, você, tem mania de acabar a bateria bem quando eu preciso pedir um Uber – no crédito, claro. E eu uso e abuso das suas funcionalidades com um pouco de desdém. Assim nossas rotinas vão se alternando.

Eu há muito não vejo a cor de uma nota de real. Isso não significa que eu não tenha algum valor em dinheiro – embora às vezes não tenha mesmo – mas, se tenho nota, esqueço de usá-la.

O débito, crédito e a facilidade do pagamento por aproximação fazem todo o trabalho, e eu só preciso querer – ou pensar que quero.

Todo mundo sabe, embora às vezes os seus se façam de desentendido, que você escuta todas as minhas conversas, à espreita, e depois me oferece o que bem entender em forma de propaganda. 

Para minha fome, cupom de fastfood, para minha vontade de conhecer outros países, código de promoção de passagens aéreas, para minha dor de cabeça, que confesso aos sussurros para uma colega de trabalho, uma promoção de paracetamol na página de uma farmácia – patrocinado.

Me vende para todo mundo fácil, fácil e faz da minha dor – seja ela qual for – um deleite comercial.

Esses dias estava eu despretensiosamente mexendo em você, apertando seus botões e medindo minha capacidade de equilíbrio em não te deixar cair segurando com uma mão só, quando recebi uma notificação dizendo que nos últimos três dias, minha localização tinha sido compartilhada com meu banco digital, no mínimo, 93 vezes.

Eu não faço 93 refeições em três dias. Eu não digo “eu te amo” 93 vezes em três dias. Eu não escovo os dentes 93 vezes em três dias. Mas, ainda assim, pareço ser 93 vezes importante para você.

Então, hoje a noite, quando me avisar por meio de sinais sonoros e luzinhas piscando que sua bateria está acabando, espero que não se importe se eu não me importar. Serão elas por elas.

Você não conta para eles onde estou, e eu não te mostro o caminho do lixo eletrônico. 

Victória Farias

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