David Fincher apresenta seu Assassino na Netflix

Um nome como o de David Fincher é sempre cercado de muita expectativa. A reunião do diretor com Andrew Kevin Walker, o roteirista de um de seus maiores sucessos, Seven (1995), gerou ainda mais barulho e todos estavam de olho na Netflix para o lançamento. A verdade é que O Assassino (The Killer, 2023) desapontou muita gente. Está longe de ser ruim, como alguma bobagem estrelada por Liam Neeson, mas esperava-se que fosse mais do que apenas bom.

No papel título, temos o sempre competente Michael Fassbender (o Magneto na versão mais jovem dos X-Men), mais silencioso do que nunca. Ele vive um assassino de elite, de tocaia, esperando pela chegada da vítima, que ele não conhece. Quando o tal sujeito chega, algo dá errado e começa o problema. O roteiro de Walker é baseado numa série de quadrinhos franceses escritos por Alexis “Matz” Nolent e ilustrados por Luc Jacamon. Não há nenhum furo incontestável, mas há situações que podem ser discutidas e parecem improváveis. Ficamos esperando um arroubo de genialidade, como vimos em Seven, Clube da Luta (Fight Club, 1999) ou Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), por exemplo, e ele não chega.

Conhecemos do protagonista apenas o essencial, como sua preferência peculiar pelas músicas dos Smiths. Ele não chega a ser raso, mas também não é nenhum primor de desenvolvimento. Todas as figuras que cruzam o caminho dele passam pela mesma situação: nem nome têm. São apenas tipos, peças de um mecanismo que parece rodar sozinho, ninguém tem culpa de nada ou é o responsável. As interações de Fassbender com seus colegas são em sua maioria interessantes, ficando o destaque por conta da “expert” de Tilda Swinton (de Asteroid City, 2023). Para nós, brasileiros, uma participação curiosa é a de Sophie Charlotte (de Meu Nome É Gal, 2023), que não tem como fazer muito com alguns segundos em cena.

Além das canções não originais da banda de Morrissey, a trilha ficou a cargo da dupla vencedora de dois Oscars Trent Reznor e Atticus Ross, colaboradores frequentes de Fincher. Desde A Rede Social (The Social Network, 2010), essa é a quinta parceria. Dessa vez, no entanto, não ouvimos nada memorável, é tudo muito discreto. Ainda assim, a dupla recebeu uma menção especial no Festival de Veneza. Como os diálogos são escassos, a fotografia precisaria ser especialmente bem sucedida, mostrando o que precisamos saber. O oscarizado diretor de fotografia Erik Messerschmidt (de Mank, 2020) cumpre bem sua função, aproveitando tanto os cenários internos quanto os externos, situando o espectador.

Algo que pode e deve ser debatido sobre O Assassino é o humor sutil que permeia a trama. O protagonista passa uma aura de infalível, de sempre prever tudo e não deixar escapar nenhuma ponta – como deixam claro os chavões que ele fica repetindo mentalmente. No entanto, sempre que ele é bem sucedido, o acaso interveio, monstrando que ele não é tão fodão assim. Talvez ele não fosse o antagonista ideal para James Bond, mas para Maxwell Smart, o Agente 86. Uma nova sessão do longa pode vir a revelar novos detalhes. Afinal, estamos falando de David Fincher.

Sophie Charlotte despe-se de sua beleza para aparecer em O Assassino

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Muito mais que um Trapalhão, Mussum ganha homenagem

Chegou aos cinemas a vida de um grande brasileiro que talvez não tenha seu devido valor reconhecido. Antônio Carlos Bernardes Gomes era um sambista naturalmente engraçado que acabou virando comediante e entrava todas as semanas nas casas de milhares de espectadores como um dos Trapalhões. Mussum – O Filmis (2023), atualmente na quarta posição entre as maiores bilheterias no país, foi o grande vencedor na 51ª edição do Festival de Cinema de Gramado e funciona como uma bela homenagem.

O carismático Ailton Graça (de M-8, 2019) lidera o elenco vivendo o protagonista em idade adulta, e Yuri Marçal (de Vale Night, 2022) faz o mesmo papel, mais jovem, sendo tão bem sucedido quanto o colega. Carlinhos, como Antônio Carlos era conhecido, era um menino pobre, criado pela mãe, que parecia destinado às Forças Armadas, mas o samba falou mais forte. Muitos devem conhecer Mussum apenas dos programas humorísticos, o que torna mais interessante saber quais caminhos a vida dele tomou. E ainda conferimos a caracterização de várias outras celebridades que aparecem aqui e ali. A semelhança de Gustavo Nader e Zacarias é impressionante!

Além de Graça e Marçal dividirem um personagem, Cacau Protásio (de O Porteiro, 2023) e Neusa Borges (da série Auto Posto) fazem o mesmo com a mãe de Mussum, Malvina. Todos são bem sucedidos, quase sem exageros, e Paulo Cursino, o roteirista (de Vizinhos, 2022), consegue fugir das armadilhas do dramalhão, do choro fácil. Silvio Guindane, ator que faz sua estreia na direção de um longa, conduz com mão leve e evita o tom episódico que cinebiografias costumam ter, apenas passando pelos fatos cronologicamente.

Um elemento que sem dúvida chama a atenção nesse Mussum – O Filmis é a trilha sonora. Além dos Originais do Samba, grupo do qual Antônio Carlos fazia parte, temos muitos outros artistas que passam pela história e dão uma palinha. Jorge Ben e Elza Soares são alguns deles, bem representados e tocados. Max de Castro, responsável pela trilha, foi outro premiado em Gramado, num total de seis estatuetas. Prêmios merecidos para um filme bem feito que ainda vai levar muito público aos cinemas.

As duas versões de Os Trapalhões

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George e Tammy contam sua tumultuada história

George Jones foi um dos maiores nomes da música country norte-americana. Um belo dia, foi apresentado à novata Tammy Wynette, que passou a cantar com ele e atingiu enorme sucesso também. Essa é a história vista nos palcos, quando os dois se apresentavam juntos e a atração mútua era inegável. O que de fato aconteceu tomamos conhecimento na minissérie George & Tammy, cujos seis capítulos foram exibidos na TV americana entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023 e hoje estão disponíveis no serviço de streaming da Paramount.

Para quem gosta de conhecer melhor a vida de celebridades, essa série é um prato cheio. Baseado no livro da única filha do casal, Georgette Jones, que serviu como consultora para a produção, o roteiro pode até ter inconsistências quanto à ordem de certos eventos, mas os fatos narrados são bem coerentes. Nada que dê para perceber sem uma longa pesquisa. Ao contrário de filmes como Johnny e June (Walk the Line, 2005) e Ray (2004), há mais tempo para o desenvolvimento das situações e das relações entre os personagens, fazendo com que nos importemos mais com eles. E o tom fique menos episódico.

O ponto positivo que salta aos olhos nesse tipo de produção é invariavelmente o trabalho dos atores, e aqui não é diferente. Michael Shannon, o General Zod da DC (em Homem de Aço e Flash), e Jessica Chastain, oscarizada por Os Olhos de Tammy Faye (The Eyes of Tammy Faye, 2021), travam um duelo bonito de se ver, mostrando a força e as fraquezas de seus personagens. Shannon, escalado após um problema de agenda forçar Josh Brolin a sair, dá dignidade a Jones até correndo bêbado de cueca pela rua, indo facilmente de um extremo a outro. E Chastain confere a Wynette a majestade que a cantora tinha, com todas as nuances necessárias. Não coincidentemente, o criador da série, Abe Sylvia, é um dos roteiristas de Tammy Faye, colocando Chastain para cantar mais uma vez.

Em determinado momento, uma fã pergunta a Wynette algo relacionado ao fato dela sempre cantar sobre homens, se colocando em uma situação de submissão. Infelizmente, essa não é uma discussão desenvolvida pela produção, mas percebemos uma mudança de posicionamento pela cantora, que passa a não tolerar certos abusos. Chastain de fato consegue criar uma figura tridimensional, de vários lados, que ama e sofre, mas não é boba. E as músicas dos dois artistas não roubam a cena, tocando pontualmente, sem forçar ninguém a gostar delas. É importante mencionar que são Shannon e Chastain que cantam, e não fazem feio.

Mesmo que contada de forma tradicional e cronológica, a história de George & Tammy não é muito presa a datas, e às vezes não sabemos nem a década do que está acontecendo. As mudanças de penteados, maquiagem e figurinos são discretas e só chamam atenção quando o salto temporal é maior. O que importa, mesmo, é a interação entre George e Tammy, e os coadjuvantes que vamos conhecendo. Figuras como Walton Goggins (de Entre Armas e Brinquedos, 2020) e Steve Zahn (de The White Lotus) trazem ainda mais valor à produção.

Os verdadeiros George Jones e Tammy Wynette, em 1968

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Scorsese acerta de novo com Assassinos da Lua das Flores

Depois de nove colaborações com Robert De Niro e cinco com Leonardo DiCaprio, Martin Scorsese resolveu reunir os dois atores consagrados na adaptação de um livro de sucesso lançado em 2017. Trabalhando juntos pela primeira vez sob a batuta do amigo, os dois velhos conhecidos têm desempenhos não menos que fantásticos em Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023), como todos os demais envolvidos. Scorsese, em vias de completar 81 anos, prova mais uma vez ser um dos melhores cineastas da história do cinema com uma trama de ambição, corrupção e morte.

Na década de 1920, indígenas da tribo Osage descobrem petróleo em suas terras e negociam os direitos de exploração, tornando-se alguns dos cidadãos mais ricos dos Estados Unidos. Infelizmente, dinheiro traz consigo o pior do ser humano e logo os crimes começam a acontecer, colocando em risco a vida de todos eles. E havia dois agravantes: crimes cometidos em terras indígenas não eram investigados pela polícia branca; e ninguém dava a mínima quando um deles era assassinado. Causava mais comoção chutar um cachorro, como um deles descreve.

Nesse cenário, conhecemos os personagens principais e uma infinidade de coadjuvantes, todos bem introduzidos e desenvolvidos dentro do necessário. Cortesia de Eric Roth, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Forrest Gump (1994) e indicado outras seis vezes, e do próprio Scorsese, que adaptaram o livro de David Grann, jornalista que já originou outros quatro filmes (como Justiça em Chamas, 2018). De Niro e DiCaprio, que contracenaram pela primeira vez em O Despertar de Um Homem (This Boy’s Life, 1993), dispensam apresentações e merecem todos os elogios possíveis. O outro destaque fica para Lily Gladstone (da série Billions), atriz que tem ascendência indígena e, apesar de ter menos experiência, não fica atrás dos colegas.

Cada personagem tem uma jornada bem particular e muito interessante. Ernest Burkhart, vivido por DiCaprio, é recém-chegado da guerra e vai procurar o tio bem sucedido em busca de uma oportunidade. Ele não chega a ser ingênuo, mas começa bem mais inocente. Bill Hale (De Niro), o tio, é chamado por muitos de Rei e age como tal. É o típico cidadão de bem, visto por todos como bonzinho e caridoso, que tem seus planos escusos sempre prontos para serem executados. E Mollie (Gladstone) ficou rica repentinamente e precisa aprender a lidar com tudo que vem com a riqueza, inclusive a disputa de pretendentes. De quebra, ainda temos um relance dos primórdios do FBI, a polícia federal norte-americana.

Os 200 milhões de dólares do orçamento foram muito bem gastos. Além de pagar o elenco, que ainda conta com nomes como Jesse Plemons, John Lithgow e o oscarizado Brendan Fraser, o longa conta com um design de produção primoroso, que recria a cidade principal e os vilarejos que a cercam, e conta inclusive com consultores dos próprios Osage, para dar veracidade aos figurinos, cenários e costumes. Mais uma vez, quem cuida da montagem é Thelma Schoonmaker, histórica colaboradora de Scorsese. O excesso de duração, com 3h26min, é discutível, mas não percebemos nada sobrando, o que novamente é ponto para a montadora. E, falando em colaborador frequente, não podemos esquecer o já saudoso Robbie Robertson, ex-membro da The Band e responsável por várias das trilhas do diretor, que também faz um ótimo trabalho com as canções da época. Além das músicas de nativos norte-americanos, Robertson compôs a trilha original, que completou antes de falecer, no último mês de outubro.

Filmado nas terras dos Osage, em Oklahoma, Assassinos da Lua das Flores traz muita verdade, fazendo com que essa triste história fique bem conhecida, e certamente será destaque na próxima temporada de premiações. Scorsese, Roth e Gladstone, principalmente, devem concorrer a muitos prêmios, entre outras categorias. Mesmo que, em breve, o filme chegue ao serviço de streaming Apple TV+, é um daqueles que merecem ser vistos na tela grande, em toda a sua riqueza de detalhes e sem interrupções. Como diz o meme que leva a imagem de Scorsese: “isso é Cinema!”.

Dois dos destaques do filme: Gladstone e Scorsese

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Ângela Diniz tem sua história contada no Cinema

Está em cartaz e merece ser conferido o longa que conta um fato real e estarrecedor, muito discutido até hoje. Ângela (2023) se debruça sobre os últimos dias da vida de Ângela Diniz, socialite mineira assassinada em meados da década de 70. Com interpretações fortes, o filme faz um bom trabalho ao construir uma relação tóxica e mostrar como as coisas podem facilmente sair dos eixos quando uma das pessoas envolvidas é completamente desequilibrada.

Insatisfeita em um casamento de quase dez anos, Ângela pediu o desquite, aceitou perder a guarda dos filhos para conseguir se separar e acabou indo parar no Rio de Janeiro. Lá, se envolveu com o famoso colunista social Ibrahim Sued e conheceu aquele que seria o seu algoz, Raul “Doca” Street. A vida de Ângela teve outras situações complicadas ou mal explicadas, como o assassinato do caseiro ou ela sequestrar a própria filha, mas os realizadores do filme optam por focar no relacionamento dela com Raul, que por algum motivo não é chamado de Doca, como era conhecido.

Por alto, boa parte dos brasileiros, principalmente os mineiros, deve conhecer o caso, que volta e meia ganha os holofotes por discussões jurídicas. Um conhecido podcast recente narrou os fatos detalhadamente, mas é claro que não caberia tudo em um longa metragem. Talvez por julgar que todos conheçam as informações periféricas, o roteirista Duda de Almeida (de séries como As Aventuras de José & Durval) exclui muita coisa, e algumas informações são jogadas para o espectador pela metade, sem nenhuma explicação.

Vivendo a protagonista, Ísis Valverde faz um ótimo trabalho – exceto quando chora, soando exagerada e falsa. Com uma personagem muito mais rica que as das novelas que faz, a atriz usa e abusa de seu carisma, beleza e sotaque, nos dando uma ótima ideia de como Ângela devia ser. A outra metade da complicada relação é interpretada por Gabriel Braga Nunes, outra figura excelente que traz humanidade e violência na mesma medida para o assassino, nos mostrando que monstros não necessariamente têm a aparência monstruosa. Pelo contrário, podem ser galantes e sedutores. Em papéis menores, temos os também competentes Bianca Bin, Alice Carvalho, Gustavo Machado, Carolina Manica e Emílio Orciollo Neto.

Tendo tido a experiência de filmar a vida de Elis Regina em Elis (2016), o diretor Hugo Prata ainda comandou oito dos 13 episódios de Coisa Mais Linda, série ficcional que retrata o mesmo período vivido por Ângela e tem muitas similaridades com a história dela. Uma grande diferença entre as obras, no entanto, é a trilha sonora: enquanto a série traz faixas clássicas da MPB e samba, o filme apresenta músicas instrumentais genéricas e sem qualquer apelo.

A sessão de Ângela é justificada pela química entre o casal principal, que pega fogo, e pela história real da socialite covardemente assassinada. Inteligentemente, Prata deixou de fora partes mais picantes da vida da biografada, evitando que algum canalha pudesse justificar seu assassinato por seu estilo de vida. Ângela vivia da forma que queria, sem dar satisfações, e isso causava certo escândalo na sociedade brasileira conservadora e hipócrita dos anos 70. Por isso, ela pagou um preço muito alto.

Ísis Valverde e a verdadeira Ângela Diniz, a quem ela dá vida

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Diretor de Halloween agora ataca O Exorcista

Esperaram 50 anos do lançamento de O Exorcista (The Exorcist, 1973) para revisitarem o já clássico longa, essencial em qualquer lista de melhores de terror – ou de qualquer gênero. Chega aos cinemas essa semana O Exorcista – O Devoto (The Exorcist: Believer, 2023), sequência direta para o original que conseguiu um feito inédito: trazer de volta Ellen Burstyn, que viveu a mãe da garota possuída mais famosa da sétima arte. E o acordo financeiro de mais de 400 milhões de dólares garante que a produtora Blumhouse fará uma trilogia, independente do resultado deste episódio.

Em 1973, a menina Regan MacNeil (Linda Blair) brincou com uma tábua Ouija, começou a conversar com um amigo imaginário e logo passou a vivenciar eventos aterrorizantes, como a cama pular do chão. Ela já estava possuída e a situação só piora. A mãe, Chris (Burstyn), desesperada após não ter uma solução médica, apela à Igreja Católica. Entra em cena o Padre Karras (Jason Miller), que se propõe a ajudar e acaba trazendo para o caso o famoso exorcista Padre Merrin (Max von Sydow), até que chegamos ao esperado exorcismo de Regan.

Com roteiro de William Peter Blatty, adaptado de seu próprio livro, o filme fez uma bilheteria fantástica e foi indicado a 10 Oscars, levando dois – Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som. Marcou para sempre a carreira do já saudoso diretor William Friedkin e teve sequências e derivados, como o horroroso O Exorcista II: O Herege (Exorcist II: The Heretic, 1977), o tenso O Exorcista III (The Exorcist III, 1990) e a recente e fraca série da Fox, cancelada após duas temporadas (2016-2017). David Gordon Green, que comandou a trilogia que deu continuidade a Halloween, está à frente aqui. O que é bem desanimador, já que ele matou Michael Myers (em alguns sentidos), principalmente no segundo e terceiro filmes.

O Devoto, primeira parte da trilogia da Blumhouse, começa com um preâmbulo sobre um casal que está esperando sua primeira filha. Treze anos depois, a menina e uma amiga resolvem invocar espíritos na floresta e dão início à trama. É preciso reconhecer que o filme não é a bomba que está sendo descrita lá fora: alguns críticos têm pegado pesado em suas colocações. Isso provavelmente se deve ao amor que todos têm pelo original, e as comparações são inevitáveis. Se não é uma bomba, esse novo capítulo também está longe de ser bom.

Numa coisa as críticas têm razão: Gordon Green não chega ao dedão do pé de Friedkin e o novo longa não tem a emoção, a tensão ou o suspense do de 73, nem de longe. Dessa vez, temos um pouco mais de apelação nos diálogos e na violência gráfica, com direito a mensagem edificante, o que faz até o mais esperançoso dos cinéfilos desanimar. O filme não consegue homenagear o clássico e não produz nada relevante a este universo, ficando devendo em vários sentidos.

Uma coisa que Gordon Green e seus colegas roteiristas parecem querer fazer devido aos tempos em que vivemos é atualizar alguns elementos, como aumentar a participação feminina na resolução dos problemas e abranger mais religiões que apenas a católica. A forma como as coisas se desenrolam, no entanto, deixa a desejar: o pastor presbiteriano, por exemplo, é mostrado como um zero à esquerda. O final, buscando ser impactante, é bem sem pé nem cabeça, inventando novas regras num jogo que acreditávamos conhecer.

Em comparação com o trabalho da jovem Linda Blair, as duas meninas endemoniadas soam bem genéricas – até por serem duas, dividindo o choque que já quase não existe. E não temos menção a Pazuzu, tornando genérico até o demônio. É ótimo rever Ellen Burstyn num papel que amamos, mas ela merecia um filme melhor. Ou bom, ao menos. Leslie Odom, Jr. (Uma Noite em Miami…, 2020) e Ann Dowd (de Hereditário, 2018) entregam boas interpretações e são os únicos dignos de destaque.

Resta saber o que o produtor Jason Blum e Gordon Green estão planejando para as próximas duas partes, garantidas por contrato. Fotografia, design de produção e outros quesitos técnicos funcionam bem, mas precisam de uma boa história. A melhor coisa desse O Devoto é a música tema, aproveitada do clássico: Tubular Bells, de Mike Oldfield. Ou seja: o que é memorável não é novo. Ficam a lembrança da faixa e o medo do que há por vir. Pelos motivos errados.

Entre a possuída antiga e as novas, fique com a original

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Adolescentes conversam com os mortos em Fale Comigo

É impressionante como os adolescentes personagens em filmes, principalmente os norte-americanos, ainda não aprenderam que não devem brincar com os mortos. Brincadeiras à parte, uma nova obra de terror chegou aos cinemas e trouxe consigo um pouco de ar fresco. Fale Comigo (Talk to Me, 2022) parte do mesmo ponto que muitos outros já invocaram, mas consegue chegar num resultado mais criativo que a maioria, atendendo bem à tão complicada demanda por um bom filme de terror.

 

Fazendo sua estreia na direção de um longa-metragem para o Cinema, os irmãos gêmeos e youtubers Michael e Danny Philippou mostram ter boas ideias e fogem do óbvio. Criando situações interessantes, eles evitam clichês e não tratam ninguém como imbecis, nem o público, nem seus personagens. As mesmas características dos jovens de, digamos, John Hughes, encontramos nesses, com pequenas atualizações. Buscando serem aceitos e fazerem parte, topam se arriscar e fazem algumas burrices. Temos ainda um forte sentimento de perda que vai definir os movimentos de um deles.

Chega às mãos de um colegial popular e ligeiramente babaca uma mão endurecida que, antes de ser revestida, supostamente pertenceu a uma vidente. Ela daria a qualquer um o poder de falar com os mortos e os protagonistas logo se motivam a participar do joguinho. Tudo corre bem num primeiro momento, mas eles não demoram a quebrar as regras e a enfrentar as consequências. As coisas vão acontecendo de forma dinâmica, uma vez que o clima de tensão foi estabelecido, e tudo se encaixa bem.

A atriz Sophie Wilde ganha aqui sua primeira oportunidade num longa, e ainda no papel principal, e deve ficar bem famosa com seus próximos trabalhos. Um deles, O Portal Secreto (The Portable Door, 2023), também traz a colega Miranda Otto, nome mais famoso do elenco desse Fale Comigo. Os demais não destoam, com destaque também para o garoto Joe Bird, que vive um irmão mais novo que quer ser respeitado pela turma mais velha da irmã (Alexandra Jensen).

Não é de se estranhar, dado o histórico dos Philippous, que a trama aproveite a questão das redes sociais e vídeos que viralizam, se provando bem atual. Isso, somado a efeitos práticos e a um grande cuidado com o design de produção, resulta em algo muito crível, com a vitalidade de outros grandes independentes do gênero. Assim como em vários outros casos, os Philippous podem ter dado aqui o pontapé inicial de uma franquia, a exemplo de Uma Noite de Crimes e Jogos Mortais. O primeiro, no entanto, será sempre o mais fresco.

Os Philippou levaram seu elenco ao Festival de Sundance

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Som da Liberdade e suas polêmicas chegam ao Brasil

Chegou aos cinemas essa semana Som da Liberdade (Sound of Freedom, 2023), longa que aguardava por lançamento há algum tempo por falta de fundos e que acabou sendo abraçado por uma produtora cristã, que providenciou o necessário para a estreia em vários países. De cara, a obra foi elogiada e defendida por personalidades norte-americanas de direita, como o ex-presidente Donald Trump e sua família, gerando polêmicas e discussões sobre as reais realizações do protagonista.

Para situar o leitor, a trama acompanha Tim Ballard (Jim Caviezel, o Jesus de A Paixão de Cristo, 2004), um agente do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos que, depois de prender vários pedófilos, consegue finalmente resgatar um garotinho vítima do tráfico sexual no país. Ao ter contato com a família do menino, Ballard descobre que a irmã dele também foi sequestrada e resgatá-la se torna sua missão de vida. Sem apoio de seus superiores, ele pede demissão e segue sozinho, contra tudo e contra todos.

Em 2015, com a chegada do então mais recente trabalho do diretor Clint Eastwood, Sniper Americano, (re)começou-se uma discussão sobre o uso do Cinema como propaganda. Pode um filme tecnicamente impecável ter vários defeitos de ordem ideológica? Assim como o longa de Eastwood, esse Som da Liberdade tem um roteiro altamente questionável. A começar por tratar seu protagonista como um super-herói perfeito, infalível e 100% abnegado, que aceita ficar longe da família por tempo indeterminado e correr o risco de deixar os filhos órfãos por desconhecidos em um país que não é o dele.

Ballard, no filme, não titubeia por um segundo e parece uma força incontrolável. Já o Ballard real foi criticado várias vezes por exagerar seus feitos, e é bom apontar que quase tudo o que vemos na tela é baseado em relatos do próprio. Assim como Chris Kyle, o sniper americano, ele seguiu por conta própria e se tornou uma espécie de justiceiro, atropelando leis por um suposto bem maior. Quando se coloca a famigerada frase “baseado em fatos”, fica impossível não gerar esse tipo de discussão e não ficar pensando no que de fato deve ter acontecido.

Tanto Ballard quanto seu intérprete, Caviezel, já apoiaram publicamente os malucos do QAnon, grupo que acredita que há uma seita envolvendo políticos do Partido Democrata e estrelas de cinema, que sequestrariam crianças para usar um hormônio gerado na tortura delas para se manterem jovens. Dentre outras insanidades, eles dizem que essa seita domina o alto escalão norte-americano, o presidente Joe Biden já teria morrido e o salvador de todos nós seria ninguém menos que o canalha Trump, ídolo deles.

Se Som da Liberdade começa bem razoável, seu roteiro vai se tornando cada menos crível. Tomar conhecimento desses fatos, digamos, externos ao filme faz com que ele fique ainda pior. A organização sem fins lucrativos fundada por Ballard para combater o tráfico infantil já foi acusada até de levar os louros de ações não realizadas por eles. Até o momento, o longa já faturou dez vezes o que gastou para ser produzido, com igrejas e grupos políticos comprando dezenas de ingressos que não necessariamente são usados, prática conhecida como “pay it forward”, na qual os ingressos são comprados e ficam disponíveis para quem não tem condições de arcar com o custo. Sessões ficam esgotadas e as salas, muitas vezes, vazias.

Muitas conspirações foram inventadas em torno de Som da Liberdade, até que uma grande rede de cinemas estaria sabotando-o – o que não tem qualquer fundamento e já foi desmentido até pelos responsáveis pelo filme. O diretor e corroteirista, Alejandro Monteverde (de Little Boy, 2015), já disse em entrevistas que seu filme não tem qualquer ligação com o QAnon, mas seu astro vai na contramão. É triste porque desvia a conversa do conteúdo, focando nas controvérsias e dividindo o público antes mesmo de assistir. Para os bolsos dos produtores, no entanto, a atenção é muito bem-vinda.

O verdadeiro Ballard foi com a família prestigiar o lançamento do longa

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Os Mercenários 4 mostra esgotamento da fórmula de sucesso

Quando foi lançado em 2010, o primeiro filme da franquia Os Mercenários (The Expendables) foi beber na fonte dos filmes de ação da década de 1980, o que garantiu o sucesso da produção. Reuniram astros do gênero consagrados naquela década e na seguinte com novos rostos, apostando em um filme onde a ação falava muito mais alto do que a história em si.

Apoiado no carisma de Sylvester Stallone, Jason Statham, Terry Crews e Dolph Lundgren, apenas para mencionar os principais nomes, Os Mercenários gerou uma franquia que elevou ainda mais as apostas e atraiu nomes como Chuck Norris, Bruce Willis, Jean-Claude Van Damme, Arnold Schwarzenegger e Mel Gibson, dentre outros. A fórmula funcionou bem no segundo filme, de 2012, não tão bem na terceira tentativa, de 2014 e finalmente parece ter se esgotado nesta quarta.

O problema de Os Mercenários 4 (The Expendables 4, 2023) está justamente nos ingredientes usados nessa nova fórmula. A trama é mais ou menos a mesma do segundo filme: o grupo de Barney Ross (Stallone) é contratado pela CIA, através do agente Marsh (Andy Garcia), para recuperar detonadores nucleares de Rahmat (Iko Uwais), um traficante de armas e, preferencialmente, descobrir a identidade de seu comprador, conhecido apenas como Ocelot. A equipe de Ross, que além de Christmas Lee (Statham), conta também com Gunner (Ludgren), Toll Road (Randy Couture) – todos veteranos dos filmes anteriores -, Easy Day (o rapper 50 Cent) e Galan (Jacob Scipio), parte para a missão.

Graças a uma decisão independente de um dos subordinados de Barney, a missão dá errado. A partir dali, as coisas se complicam: em posse dos detonadores, o comprador de Rahmat pretende detonar uma terceira guerra mundial. Com a adição dos novos membros Gina (Megan Fox – acima) e Lash (Levy Tran), o grupo tem pouquíssimo tempo para impedir uma catástrofe de proporções mundiais, além de resolver uma questão pessoal.

O grande problema de Os Mercenários 4 é que os roteiristas da vez, Kurt Wimmer, Tad Daggerhart e Max Adams, trabalhando em cima da história criada por Spenser Cohen, Wimmer e Daggerhart, não souberam se aproveitar da fórmula de sucesso dos filmes anteriores – principalmente do primeiro. A comédia bastante presente especialmente nos dois primeiros filmes da franquia foi meio que deixada de lado em detrimento da ação e nem dela o diretor Scott Waugh soube se aproveitar bem. Fora a interação passivo-agressiva nos diálogos entre os personagens de Statham e Stallone, que mostra uma amizade tipicamente masculina, onde os homens se provocam o tempo todo, mas na hora do “vamos ver” podem contar um com o outro, o resto do filme infelizmente não funciona. O mesmo pode ser dito sobre o elenco. À exceção de Lundgren e Couture, os outros personagens não têm muito carisma ou apenas repetem trejeitos de algum de seus predecessores.

Somando-se tudo isso a uma escrita bastante preguiçosa – dá pra saber o final do filme ali pelo meio dele -, é bem provável que essa seja a aventura derradeira dos Mercenários. Salvo se a bilheteria for surpreendente a ponto de valer a pena investir em uma quinta aventura. Nesse caso, seria interessante pensarem numa revitalização da fórmula de sucesso dos dois primeiros filmes.

Alguns dos astros que já passaram pela franquia Os Mercenários

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Operação Lioness é a nova criação de Taylor Sheridan

O incansável Taylor Sheridan, criador, produtor e roteirista dos sucessos televisivos atualmente em exibição Yellowstone e Tulsa King, ataca novamente. Saindo um pouco do regionalismo dessas duas atrações, ele criou Operação Lioness (Special Ops: Lioness), cujos oito episódios da primeira temporada já estão disponíveis no Paramount+ (ou, no nosso caso, no Prime Video). Não é nada que vá mudar o panorama da televisão, mas tem diferenciais bem interessantes e deve arrebanhar uma boa quantidade de espectadores.

A principal característica a se reparar em Lioness é o elenco. À frente, ninguém menos que Zoe Saldana, que tem participação em três grandes franquias do cinema: Guardiões da Galáxia, Star Trek e Avatar. Ela consegue trazer alguma simpatia a uma personagem bem antipática, uma agente da CIA que lidera uma equipe que planta espiãs próximo a alvos da agência para eliminá-los. A mais nova escolhida, Cruz (Laysla de Oliveira, de Locke & Key) é uma fuzileira naval durona que passou por situações difíceis na vida e se alistou. Depois de se destacar em algumas missões, ela é recrutada por Joe. Oliveira também segura bem a tarefa e bate de frente com Saldana quando necessário.

Enquanto o pessoal da linha de frente não é muito conhecido, os superiores são mais marcantes. Logo acima de Joe, temos a burocrata vivida por Nicole Kidman (de O Homem do Norte, 2022), cuja participação é pequena, porém impactante. Kaitlyn parece ficar apenas atrás da mesa, supervisionando o grupo, mas não nega se aproximar da ação quando necessário. Ainda acompanhamos, em paralelo, a história dela com o marido (Martin Donovan, de Tenet, 2020), um figurão do mercado financeiro que parece ter mais acesso a informações privilegiadas que ela.

Completando a hierarquia de poder, temos Michael Kelly (da série de Jack Ryan) como o diretor da CIA, um sujeito que fica pendendo entre sua equipe e os peixes mais graúdos que frequentam a Casa Branca. Entre essa turma, temos o Secretário Mullins, uma figura detestável e contraditória interpretada com um prazer sádico por Morgan Freeman (de Despedida em Grande Estilo, 2017), ao lado de Jennifer Ehle (de Ela Disse, 2022) e Bruce McGill (de Reacher). Com maior ou menor importância para a trama, todos funcionam bem, fechando um time muito competente.

O problema em Operação Lioness começa a aparecer nos episódios finais. Algumas pessoas parecem ter se incomodado com a forma como os militares e a CIA são mostrados, soldados resignados e incansáveis que se sacrificam pelo bem mundial – e não só dos Estados Unidos, veja como são bonzinhos! O defeito maior, no entanto, é a pressa com que o roteiro resolve as coisas, deixando alguns buracos pelo caminho e levando a uma conclusão nada satisfatória. Se houver uma segunda temporada, ainda sem confirmação, será primordial corrigir esses erros.

A personagem de Stephanie Nur é o alvo da operação por ser filha de um terrorista

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