Oscar 2025 – O Brutalista

O Brutalista (The Brutalist, 2024) – indicado em dez categorias, incluindo Filme, Direção (Brady Corbet) e Ator Principal (Adrien Brody).

No final da Segunda Guerra, um conceituado arquiteto húngaro judeu sobrevive a um campo de concentração, consegue emigrar para os Estados Unidos e, enquanto tenta trazer a esposa e a sobrinha órfã, busca sobreviver de pequenos trabalhos.

Dos dez filmes indicados ao prêmio principal no Oscar 2025, O Brutalista é aquele que tem mais cara de Cinema clássico. É uma cinebiografia (mesmo que fictícia), o protagonista sobreviveu ao campo de Buchenwald, a trama passa por quase todo o século XX, a fotografia tradicional mostra o desenvolvimento dos Estados Unidos… São vários os elementos que nos remetem aos clássicos. Isso e o fato de ser longo, muito longo! Tem até intervalo nas sessões!

Adrien Brody, com a cara de coitado costumeira, mostra todo o sofrimento de László Tóth, que passa por várias situações difíceis e acaba até viciado em heroína. A não ser por uma polêmica besta quanto à manipulação do sotaque húngaro por inteligência artificial em pouquíssimos diálogos, que pode influenciar negativamente a escolha, o Oscar já é dele. Seria o segundo, depois do igualmente sofrido Wlasdyslaw Szpilman, de O Pianista (2002). Dois colegas coadjuvantes foram também lembrados pela Academia: Felicity Jones, que vive a esposa de Tóth, e Guy Pearce, na pele do milionário que emprega Tóth.

Uma indicação ao Oscar que se mostra inexplicável é a de melhor montagem. O filme é excessivamente longo, não deixando nada de fora. O montador Dávid Jancsó (de Pedaços de uma Mulher, 2020), húngaro como o personagem, parece ter gostado muito de tudo que foi filmado, e às vezes não sabe como juntar as partes, apelando para o bom e velho fade out, quando você apenas escurece a imagem e passa para a próxima cena. Algumas partes são muito explicadas, enquanto outras não merecem a mesma atenção. O tom episódico afasta o público, que não se envolve pelos dramas vividos, deixando a experiência de assistir meio fria.

Os pontos negativos levantados acima deixam claro que não se trata do melhor filme do ano, ou mesmo de algo memorável que vá marcar a sétima arte. É sim um bom filme, que merece atenção. Mas as exageradas dez indicações ao Oscar mostram que o ano foi fraco para o Cinema: faltou candidato em algumas categorias ou sobrou preguiça por parte dos membros da Academia, que votaram nas mesmas obras para tudo, para facilitar. E eles nem devem conhecer a arquitetura brutalista, e o filme não explica o título.

Exemplo de arquitetura brutalista, feita com concreto bruto

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Admirável Mundo Novo estreia outro Capitão América

O grande blockbuster que estreia na semana, fugindo dos indicados ao Oscar, é a próxima produção da Marvel: Capitão América: Admirável Mundo Novo (Captain America: Brave New World, 2025). Com a difícil missão de suceder o admirado Steve Rogers de Chris Evans, o Sam Wilson de Anthony Mackie está sempre fazendo ou ouvindo discursos e ficamos em dúvida: quem está ali é o personagem ou o ator? Afinal, a mesma dificuldade que Wilson sente em substituir Rogers, Mackie sente em entrar no lugar dos Vingadores originais.

Muito tem sido falado a respeito do filme, pegando carona no fracasso dos últimos lançamentos do estúdio, como o terrível Thor: Amor e Trovão (Thor: Love and Thunder, 2022) e o morno Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania (Ant-Man and the Wasp: Quantumania, 2023). Pessoal se empolga nas críticas e acabam sendo injustos com a obra, que não é essa bomba toda! É um fan service total – aquele produto que alegra os fãs por trazer aquelas piscadelas para eles, com personagens meio obscuros dos quadrinhos ganhando vida (Joaquin Torres, Coral, Ruth Bat-Seraph, Dennis Dunphy…), além de recuperar filmes (e séries) anteriores, como Falcão e o Soldado Invernal, O Incrível Hulk e Os Eternos. E explicar o sumiço de um personagem desde os primórdios do MCU, além de honrar o veterano Isaiah Bradley (Carl Lumbly).

Pontas foram deixadas nas obras mencionadas e Admirável Mundo Novo as fecha com competência, o que deve satisfazer a base de fãs. Ao mesmo tempo, pode ser um problema não ter visto essas obras e ficar perdido nas referências – o que aponta ao meme de que os filmes da Marvel são um esquema de pirâmide. Sem inventar, era fácil ver senhoras na sessão do filme que deviam estar passeando no shopping e decidiram ver alguma coisa, e você vê essas pessoas deixando a sessão antes da cena pós-crédito, o que comprova a teoria de que elas não são necessariamente o público alvo. Fica a esperança de que elas tenham ao menos gostado da experiência. E não que a única cena pós-crédito (no final mesmo!) vá acrescentar alguma coisa…

As questões políticas tratadas em AMN são responsáveis pelos pontos mais interessantes do filme e os mais problemáticos. Para começo de conversa, temos um general se tornando o presidente dos Estados Unidos. O que é a indicação óbvia de que as coisas vão dar errado, já que general deveria ficar no quartel (num mundo ideal). A equipe de marketing do sujeito o aconselhou a raspar o bigode, o que gera as piadinhas de que ele mudou de visual. Que justificam a presença de um novo ator, já que o fantástico William Hurt faleceu. E trouxeram o nada mais que extraordinário Harrison Ford para o papel. O que acaba se tornando um problema, já que ele atrai o foco para ele e todo o resto do filme se torna fraco quando ele não está em cena. Era melhor ter trazido de volta o Sam Elliot do Hulk de Ang Lee.

Ao contrário de Capitão América: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, 2014), AMN não consegue sustentar a imagem de trama de espionagem, já que tudo é feito às claras e até cartazes já haviam revelado os supostos segredos do filme. Sem falar no trailer. O que nos leva ao tão comentado Hulk Vermelho, recurso pouco aproveitado no filme, mas introduzido de maneira bem razoável. Thaddeus Ross ganha mais profundidade e acaba se tornando mais interessante do que o babaca que ele sempre foi, que sempre ganhou tudo no braço. Ajuda muito ser interpretado por Ford, que traz seu carisma junto e meio que cede seu peso ao MCU.

Mackie não perde para outros protagonistas da Marvel, ele é uma figura forte o suficiente para sustentar o nome Capitão América. O fato de ele ser um Capitão América negro em um país ainda muito racista não é tratado, em mais uma oportunidade perdida pelo filme. Ele reflete a possibilidade de ser o representante de um país com um presidente com o qual ele não concorda, e querendo ou não ele é visto como o executor de tal presidente, ou menino de recados. Ele julga ser importante apoiar o presidente, quem quer que seja. Ele nunca concordou com Ross em nada, e os dois invariavelmente estiveram em lados opostos. Só que ele acha importante apoiar o presidente. O que nos leva ao questionamento automático: ele apoiaria um energúmeno como Trump? É esse Capitão América que queremos?

O fato de AMN ter menos piadinhas já é louvável. O modus operandi da Marvel estava ficando cansativo, com tantos personagens sendo os arautos de Tony Stark no stand up comedy. O diretor Julius Onah (cujo longa mais conhecido é O Paradoxo Cloverfield, 2018) segue uma linha mais séria, mesmo tendo um Joaquin Torres piadista no nível Deadpool. Torres é vivido por Danny Ramirez, que já havia sido parte da Marvel em poucos episódios de The Gifted. Fica claro que será um novo personagem a ser acompanhado.

Admirável Mundo Novo é marcado por várias oportunidades perdidas, com muitas possibilidades de críticas políticas não aproveitadas. Mesmo sem tomar partido, o maior crime do longa acaba sendo não ser emocionante. Pelo contrário, AMN lança algumas hipóteses e entra em piloto automático. Alguém pode alegar que a questão política não era importante. Claro, não era, a Marvel podia simplesmente fazer um filme covarde. Mas o problema é maior: a questão política é a pecinha que move a trama, e ela é confusa. Logo, o filme serve como um “meio do caminho”, um filme sem razão de ser. É uma aventura divertida que não desamina o espectador. A sensação de que é um “meio do caminho”, no entanto, não o deixa até o próximo filme estrear. E um certo novo metal super resistente ganhar seu merecido espaço.

Continua um mistério o fato da calça do Hulk aguentar firme

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Oscar 2025 – Sing Sing

Sing Sing (2023) – indicado em três categorias: Ator Principal (Colman Domingo), Canção Original e Roteiro Adaptado.

Participando de um programa de teatro na prisão de segurança máxima Sing Sing, John “Divine G” Whitfield (Colman Domingo) encontra seu propósito na arte, despontando como uma das lideranças do grupo, enquanto tenta provar sua inocência e recuperar a liberdade.

Indicado ao Oscar pela segunda vez consecutiva, novamente vivendo uma figura real (como em Rustin, 2023), Colman Domingo faz o detento Divine G, o principal nome do RTA, sigla em inglês do programa Reabilitação pela Arte. Além de atuar, ele escreve peças e ajuda o diretor (Paul Raci) a orientar os colegas. Tudo isso sem perder de vista seu objetivo principal: provar sua inocência e sair da cadeia. Domingo mostra mais uma vez ser um dos melhores atores em atividade, sempre com muita naturalidade em diálogos por vezes complexos e em cenas que exigem emoção.

Tirando Domingo, Raci (de O Som do Silêncio, 2019) e Sean San Jose, atores profissionais, o restante do elenco principal é formado por ex-detentos de verdade, pessoas que cumpriram sua dívida com a sociedade e passaram pelo programa Reabilitação pela Arte. Há, no filme, imagens reais deles representando, o que torna a história ainda mais pungente. Um dos atores principais, Clarence “Divine Eye” Maclin, usa seu próprio nome, já que o personagem que ele vive é muito próximo dele mesmo.

O grande trunfo de Sing Sing, a realidade daqueles personagens e suas histórias, acaba sendo também o problema do filme. Não há um clímax e os pequenos conflitos que surgem são bem discretos, fazendo parecer que tudo acaba de repente. Você está acompanhando, esperando algo que vá sacudir aquela realidade, e a sessão chega ao fim. Dá a entender que essa trama funcionaria melhor no teatro, onde a direção mais convencional de Greg Kwedar seria bem adequada. Ainda assim, é uma bela obra sobre esperança e sobre o poder transformador da arte.

Maclin descobriu o RTA depois de seis anos em Sing Sing

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Oscar 2025 – Setembro 5

Setembro 5 (September 5, 2024) – indicado em uma categoria: Roteiro Original.

Em 5 de setembro de 1972, uma equipe de televisão americana especializada em esportes se prepara para cobrir os Jogos Olímpicos de Verão em Munique, Alemanha. De repente, chega a notícia de que um grupo invadiu o alojamento dos atletas e fez a comissão israelense de refém. A pauta muda completamente e a equipe precisa se adaptar.

Muita coisa se junta para fazer crescer a tensão em Setembro 5. Um evento mundial já chama a atenção o suficiente, aumentando a responsabilidade da equipe do canal ABC. Um sequestro ao vivo, bem próximo de onde eles trabalhavam, piora a situação, levantando diversas questões morais e éticas. Seria correto mostrar o que estava acontecendo para o mundo e correr o risco de transmitir um assassinato? Esse era um dos pontos.

À frente da equipe estava um produtor pouco experiente, Geoffrey Mason (John Magaro, de Vidas Passadas, 2023), que não imaginava o quanto sua missão iria se complicar. Dividindo o peso das decisões estavam o executivo do canal, Roone Arledge (Peter Sarsgaard, de Batman, 2022), e o veterano Marvin Bader (Ben Chaplin, de A Escavação, 2021), e os três nem sempre concordavam com a próxima ação a ser tomada. Um interessante grupo de coadjuvantes completa o quadro e quem mais brilha é Leonie Benesch (de A Sala dos Professores, 2023), uma alemã em meio aos americanos que servia de intérprete.

Os fatos narrados em Setembro 5 são amplamente conhecidos e já foram inclusive mostrados em outros filmes – Munique (Munich, 2005), por exemplo, traz o que teria acontecido após, a resposta dos israelenses. Se você não sabe, é uma oportunidade a mais de manter o suspense do premiado roteiro de Tim Fehlbaum, Moritz Binder e Alex David. E a montagem enxuta e ágil ajuda muito, mantendo o ritmo acelerado que os personagens deviam estar vivenciando. O trabalho de Fehlbaum na direção só parece fácil: ele consegue cobrir os fatos e situar o espectador sem se colocar no foco.

As decisões eram tomadas por esses três

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Oscar 2025 – Nosferatu

Nosferatu (2024) – indicado em quatro categorias: Fotografia, Design de Produção, Figurino e Maquiagem e Cabelo.

Em 1838, um corretor precisa ir à Transilvânia colher a assinatura de um conde recluso para fechar a venda de uma mansão antiga. Lá chegando, ele começa a suspeitar que seu cliente seja um vampiro. O conde, por sua vez, se interessa pela noiva do corretor e planeja ir atrás dela, levando a morte a uma fictícia cidade da Alemanha.

Em 1922, sem conseguir adquirir os direitos de adaptação do romance Drácula, o famoso diretor alemão F.W. Murnau seguiu assim mesmo, mudando nomes e alguns detalhes, e realizou sua própria versão da história de Bram Stoker. Nosferatu é uma das mais lembradas obras do expressionismo alemão e até hoje é referência para o Cinema de terror. Em 1979, foi a vez de Werner Herzog filmar a história e, agora, Robert Eggers nos oferece a versão dele.

Revelado no ótimo A Bruxa (The Witch, 2015), que foi seguido pelos igualmente competentes O Farol (The Lighthouse, 2019) e O Homem do Norte (The Northman, 2022), o diretor reúne um bom elenco e reconta a história do Conde Orlok (Bill Skarsgård), que vai aterrorizar o casal Ellen (Lily-Rose Depp) e Thomas (Nicholas Hoult) e toda uma cidade para ter a mulher a seu lado. O elenco ainda conta com Aaron Taylor-Johnson, Emma Corrin, Simon McBurney e os favoritos de Eggers, Ralph Ineson e Willem Dafoe.

Mais do que cenários interessantes ou caracterizações aterrorizantes, Eggers cria uma atmosfera. É algo que segue na cabeça do público após a sessão, que se sente assombrado pela lembrança do que viu. Skarsgård disse em entrevistas que não pretende novamente viver algo tão maligno. Orlok não tem o histórico romântico e trágico de Drácula, ele é apenas algo mau, secular e asqueroso, dá nojo só de olhar. E, em torno dele, o senso de perigo é constante, ninguém está a salvo quando Orlok está por perto. Até relevamos as inconsistências do roteiro.

Mesmo pobre, o casal de protagonistas parece feliz, e Thomas está no caminho para ter sucesso no trabalho. É Natal, tudo parece correr bem. A mera menção a Orlok já abala a felicidade deles, e Ellen sabe que ele está ligado ao passado dela. Lily-Rose Depp, quase sempre muito atormentada, faz um ótimo trabalho, enquanto Hoult é o tipo ambicioso que não dá ouvidos ao que seriam desvarios da esposa e encara a viagem ao castelo sombrio que os locais evitam a todo custo.

Perigosamente esbarrando num tom teatral às vezes, Nosferatu consegue se equilibrar. Enquanto alguns personagens não têm muita profundidade, estando ali apenas para preencher certas funções do roteiro, outros conseguem ocupar esses buracos. Tudo pontuado por uma trilha sonora perturbadora de Robin Carolan, repetindo a parceria de Homem do Norte com mais faixas perturbadoras, na bela fotografia propositalmente escurecida de Jarin Blaschke, pela quarta vez trabalhando com Eggers. Se o Nosferatu original influenciou tudo que veio depois, esse novo é influenciado e ao mesmo tempo vai influenciar o que vier pela frente. “Não participem das obras infrutíferas das trevas”, diz a Bíblia. Eggers trouxe a luz e revelou o oculto.

O Nosferatu de 1922, vivido por Max Schreck

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Oscar 2025 – Wicked

Wicked (2024) – indicado em 10 categorias, incluindo Filme, Atriz Principal (Cynthia Erivo) e Atriz Coadjuvante (Ariana Grande).

A bruxa má do oeste, uma das vilãs mais famosas da literatura e do cinema, de O Mágico de Oz, morreu, e a outra bruxa ilustre da história, Glinda (Ariana Grande), relembra sua relação com a ex-amiga. Elphaba (Cynthia Erivo), uma jovem que curiosamente nasceu com a pele verde, sempre deixada de lado pela família, acompanha a irmã mais nova à escola de magia onde ela vai estudar e acaba matriculada também, e tem uma jornada meteórica até conhecer o grande e poderoso Mágico de Oz, mas descobre também uma verdade chocante.

Depois de assustadoras 7500 apresentações na Broadway, ao longo de mais de 20 anos, e originando montagens em outras cidades e países, a peça Wicked finalmente chegou ao Cinema, depois de uma longa gestação. Cynthia Erivo e Ariana Grande vivem as protagonistas (apesar de Grande ser lembrada nas premiações como coadjuvante), as duas ótimas em seus papéis. Grande, especialmente, está muito engraçada, e muito à vontade, com Erivo bem perto, dando simpatia e humanidade a uma personagem que nos habituamos a odiar.

Um musical da forma que imaginamos um musical ser, clássico, Wicked conta com músicas bem feitas, que entram em momentos chave da trama e a fazem avançar, ou até esclarecem como os personagens se sentem. A lógica do que já conhecemos daquele universo é respeitada, funcionando como uma pré-continuação de O Mágico de Oz – e até vemos Dorothy e sua turma de relance. Ter a sempre interessante presença de Jeff Goldblum é um toque impagável! E há uma pancada de participações especiais, incluindo as intérpretes das protagonistas na peça: Idina Menzel e Kristin Chenoweth.

Com cores chamativas, figurino luxuoso e cenários grandiosos, Wicked é um filme bonito de ver, com uma fotografia que explora bem a terra dos Munchkins. E há ainda a trilha original de John Powell, que ressalta momentos importantes sem se sobrepor ou incomodar. Depois do sucesso de Podres de Ricos (Crazy Rich Asians, 2018), Jon M. Chu passou batido com Em um Bairro de Nova York (In the Heights, 2021), e aqui volta a chamar atenção e a mostrar seu talento na direção, entregando uma obra divertida, coesa e fluida. E a segunda parte, Wicked: For Good, filmada junto, chega aos cinemas em novembro próximo.

De uma forma bem leve, o filme não deixa de tratar de um assunto bem pesado: o autoritarismo. A relação daquela sociedade com os animais, até então falantes e inteligentes – que o diga o Dr. Dillamond de Peter Dinklage – vai se deteriorando até o ponto em que os encontramos, numa metáfora fácil com qualquer minoria do mundo real. A amizade entre Galinda e Elphaba também é um ponto sensível, ela passa de uma antipatia a uma relação de interesse até chegar a ser de fato algo real e honesto, apenas para chegar a um impasse. E vemos, mais uma vez, que as aparências enganam, e o que acontece nos bastidores muitas vezes não chega ao grande público. Que segue celebrando a morte da bruxa má do oeste sem saber quem são os verdadeiros vilões.

A irritante Galinda é um grande momento na carreira de Ariana

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Oscar 2025 – Ainda Estou Aqui

Ainda Estou Aqui (2024) – indicado em três categorias: Filme, Filme Internacional e Atriz Principal (Fernanda Torres).

No Brasil dos anos 70, em plena ditadura militar, uma família de classe média alta vive uma vida aparentemente tranquila até que agentes não identificados entram na casa e levam o pai (Selton Mello) para interrogatório, deixando a mãe (Fernanda Torres) sem notícias do marido e tendo que criar sozinha os filhos.

A história foi escrita e Ainda Estou Aqui tem três indicações ao Oscar. Fernanda Torres, indicada como Melhor Atriz Principal, já levou o Globo de Ouro, outro feito inédito para o país. Independentemente do que se queira dizer sobre a validade ou idoneidade dos prêmios, o reconhecimento já é um marco inédito. E quem acompanha as intrigas nas campanhas pelo Oscar sabe que as chances de vitória, ao menos em duas categorias, são reais. Ufanismo à parte, o filme realmente é extremamente bem feito, passa uma mensagem forte e necessária e todos os prêmios são merecidos.

Por mais que se conheça a história de Rubens Paiva (já famosa há décadas e tornada ainda mais conhecida pelo livro de seu filho, Marcelo Rubens Paiva, que serviu de base para o filme), é chocante vê-la representada na tela. E com todos os detalhes que a família lembra. Pensar que ela é apenas uma das milhares que o país registrou é ainda mais revoltante. Pessoas entram na sua casa, se julgam acima do bem e do mal e sequer oferecem alguma identificação, lhe resta apenas acreditar que são agentes do governo. O que não diz muita coisa, levando-se em conta que o governo era regido por um ditador escolhido por sua patota, guiado por interesses próprios, tão corrupto e canalha quanto qualquer outro cidadão. Ódio e nojo definem bem!

À frente de um ótimo elenco, Fernanda Torres assume a liderança e dá grande força e dignidade a Eunice Paiva, tentando transmitir todo o desespero que a verdadeira deve ter sentido. Isso, ao mesmo tempo em que tenta passar tranquilidade aos filhos, em idades variadas, nem todos aptos ainda a entenderem o que estava acontecendo. E no cenário extremamente machista dos anos 70, no qual a esposa precisava de permissão do marido para movimentar uma conta bancária.

Até quando faz filme chatíssimo (Na Estrada, 2012) ou sem propósito (Água Negra, 2005), Walter Salles se mostra um diretor de mão cheia. Em Ainda Estou Aqui, ele está em ótima forma, o que justificaria também uma indicação, que infelizmente não aconteceu. O filme cobre o roteiro muito bem e nos situa não só no tempo, com uma reconstituição de época impecável, mas na situação da família, passando mesmo que en passant por todos os envolvidos. É duro ver um amigo de Rubens sofrendo, provavelmente se castigando: poderia ter sido comigo.

Toda a parte técnica de Ainda Estou Aqui cumpre magistralmente a tarefa dada. Tudo se costura, da nostálgica fotografia de Adrian Teijido (de Sergio, 2020) à montagem ágil de Affonso Gonçalves (de Segredos de um Escândalo, 2023), passando por figurino, design de produção, decoração e demais quesitos. E não podemos nos esquecer da trilha sonora, cirurgicamente escolhida para trazer todo o espírito da época. Não é para qualquer um contar com Tim Maia, Tom Zé, Caetano, Mutantes, Erasmo, Roberto… É mais um dos muitos acertos de um dos melhores filmes lançados nos últimos anos.

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Oscar 2025 – A Substância

A Substância (The Substance, 2024) – indicado em cinco categorias: Filme, Direção e Roteiro Original (ambas para Coralie Fargeat), Atriz Principal (Demi Moore) e Maquiagem e Cabelo.

Uma atriz veterana (Demi Moore), sentindo-se deixada de lado pela Indústria, recebe a oferta de usar uma substância que duplica suas células e cria uma versão mais jovem de si mesma (Margaret Qualley), só exigindo que as duas alternem as semanas de existência.

Velha conhecida do mundo do Cinema, Demi Moore foi escalada como uma atriz que, longe de seus melhores dias, é relegada a um programa de ginástica na televisão. E, mesmo assim, sua atração está por um fio. Ela já não é considerada vendável, alguém que traz lucro para os financiadores. Esta é uma realidade muito comum do lado de cá da tela, e o tema encontrou muita aceitação.

Ao ter a oportunidade de ser uma versão rejuvenescida de si mesma, Elizabeth a abraça e segue as indicações, dando vida a Sue (Qualley). Isso, no entanto, terá outras complicações, já que as duas, mesmo sendo a mesma pessoa, desenvolvem uma rivalidade. Nunca é fácil para uma veterana ver uma jovem desconhecida levando a melhor – mesmo que seja ela mesmo. Ao mesmo tempo, a versão mais nova não quer ser semanalmente colocada para escanteio, já que essa é a regra da substância: a cada semana, uma vive e a outra “descansa”.

Buscando fazer uma crítica a essa valorização exagerada e descabida da juventude, que castiga especialmente as mulheres, e o consequente descarte das mais velhas, o que é facilmente observável na indústria do show business, a diretora e roteirista Coralie Fargeat (de Vingança, 2017) bebe na fonte de muitos outros longas, das inspirações mais óbvias às mais discretas. Em alguns momentos, A Substância parece uma colagem, ou uma grande homenagem, para colocar de uma forma mais amena.

Quando se aproxima do final, o filme parece se tornar outra coisa, podendo assustar os incautos. Para alguns, ele chega ao ápice da crítica social e o choque é necessário. Outros ficarão incrédulos, sem acreditar no exagero que presenciaram. A atuação afetada de Dennis Quaid deixa claro desde o início que A Substância é uma farsa, e é preciso comprar a ideia para que a premissa funcione. No entanto, Fargeat a levou longe demais e acabou perdendo força em sua mensagem.

Moore levou o Globo de Ouro e é uma das cinco atrizes indicadas ao Oscar

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Oscar 2025 – Emilia Pérez

Emilia Pérez – indicado em treze categorias, incluindo Filme, Diretor (Jacques Audiard), Atriz Principal (Karla Sofía Gascón) e Atriz Coadjuvante (Zoe Saldana).

Um poderoso traficante de drogas (Gascón) contrata uma advogada (Saldana) para ajudá-lo a fazer secretamente uma cirurgia de redesignação sexual e passa a viver uma nova vida, deixando para trás as práticas violentas e a família.

Toda temporada de premiações tem o seu delírio coletivo. Filmes como Green Book (2018) e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once, 2022) – para ficar em exemplos gritantes e recentes – não são necessariamente ruins, apenas não merecem toda a atenção que acabam recebendo. Em 2025, essa situação foi longe demais: Emilia Pérez (2024) é recordista em indicações ao Oscar, Globo de Ouro, Bafta e muitos outros, além de ter levado três prêmios em Cannes. O que é algo inexplicável, já que é um drama exagerado, beirando a farsa, raso e estereotipado, realizado em forma de um musical ruim.

O drama não funciona, o roteiro tem uma série de furos e exageros que já deixam claro não se tratar de uma história real (como alguns têm pensado). Passa longe da comédia, já que não é engraçado, muito pelo contrário. E, como musical, é terrível, com números ridículos e apelativos que não acrescentam nada à trama e nem a fazem avançar. Ter duas músicas indicadas a Oscar mostra como o ano foi fraco na categoria. Para as outras onze indicações, não se tem explicação. Assim como considerar Zoe Saldana atriz coadjuvante, já que ela é obviamente a atriz principal.

Uma coisa deve ser dita: Jacques Audiard queria um tom teatral, como numa ópera, e conseguiu. No entanto, pendendo para uma farsa, com a maior parte sendo filmada em um ambiente fechado. Um diretor francês que se propôs a falar da cultura mexicana sem conhecê-la ou ter ideia da língua falada lá. O resultado é ter grupos locais criticando abertamente a produção, que praticamente não usou mexicanos em sua equipe. E o mesmo acontece na comunidade LGBTQIAP+, que não se animou pela produção ter uma atriz trans no papel título. Afirmam se tratar de uma obra sensacionalista e superficial, um desserviço à causa. Sou obrigado a concordar.

Gascón pediu ajuda por suposto ódio na internet, mas todas as críticas são direcionadas ao filme, e não a ela

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Oscar 2025 – Conclave

Conclave – indicado em oito categorias, incluindo Filme, Ator Principal (Ralph Fiennes) e Atriz Coadjuvante (Isabella Rossellini).

Após a morte do Papa, um cardeal inglês (Fiennes) fica responsável por reunir todo o corpo de cardeais para um conclave, evento fechado no qual eles votam para decidir quem será o novo Papa. Lawrence só não contava que haveria tantos segredos envolvidos, e teria tantos desafios.

Os livros de Robert Harris costumam ser tensos, a exemplo dos que originaram os filmes O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010) e O Oficial e o Espião (J’Accuse, 2019). Com Conclave não foi diferente, mas o filme (2024) carece de um pouco de emoção. Atuações fantásticas nos levam por maquinações para descobrirmos quem será o novo Papa, só que as intrigas vão se sucedendo até que repentinamente se acabam. E o filme também.

Com mudanças no cenário eleitoral a cada poucos minutos, logo concluímos algo que deveria ser óbvio: todos os cardeais ali são apenas humanos, passíveis de erros e pecados. Começando pelo reitor Lawrence, que passa por uma crise de fé e não sabe se ainda acredita na Igreja Católica. Nesse momento difícil de provação, ele ainda precisa lidar com a vaidade e as vontades de seus colegas. Fiennes, falando fluentemente inglês, italiano e latim, está ótimo, e merecem destaque também Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellitto e Isabella Rossellini, que em uma grande cena justifica sua indicação ao Oscar.

Desde que comandou o sucesso Nada de Novo no Front (Im Westen nichts Neues, 2022), Edward Berger se tornou um nome a se acompanhar, e Conclave reafirma este talento. Mesmo com um ritmo mais lento, o filme não perde seu rumo, faltando apenas um clímax mais explosivo, ou ao menos chocante. As coisas seguem acontecendo e logo está tudo resolvido, e quem espera algo mais emocionantes ficará desapontado. Ainda assim, Conclave é dos melhores filmes do ano e seguimos acompanhando Berger em projetos futuros.

A atuação de Fiennes recebeu várias indicações a prêmios

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