Urso da Cocaína chega aos cinemas em longa divertido

Em 1985, um traficante de drogas estava fazendo o transporte quando o avião, muito pesado, começou a ter problemas. Para garantir o voo, ele começou a jogar sacolas e mais sacolas de cocaína em pleno ar, tudo caindo em um parque ecológico. Um urso negro foi encontrado morto três meses depois, bem longe do local, com 40 embalagens de cocaína abertas. A causa da morte: overdose. Esse fato serve de premissa para O Urso do Pó Branco (Cocaine Bear, 2023), que extrapola a realidade e nos presenteia com o primeiro urso serial killer do Cinema.

Elizabeth Banks, em seu terceiro crédito como diretora (depois de A Escolha Perfeita 2, 2015, e As Panteras, 2019) resolveu contar essa história como se fosse a vingança do urso, como ela afirmou em entrevistas. Com roteiro de Jimmy Warden (de A Babá: Rainha da Morte, 2020), o longa é um slasher estilo anos 80 – inclusive ambientado nessa década – com uma diferença: ao invés de um vilão sobrenatural, como Jason Voorhees, temos uma força na natureza. Um urso doidão na droga.

O filme toma o cuidado de deixar claro que ursos negros americanos não atacam humanos, não são territorialistas ou violentos. Nesse caso, o comportamento do animal teria sido totalmente alterado pela cocaína. Vários personagens são criados para serem vítimas em potencial. Traficantes, oficiais da lei, turistas e crianças são algumas das possibilidades. E há passagens muito divertidas, mortes toscas e membros sendo arrancados.

À frente do elenco, a eterna Felicity Keri Russell faz uma mãe que precisa ir atrás da filha fujona, interpretada pelo prodígio Brooklynn Prince (de Projeto Flórida, 2017). O maluco do avião é vivido pelo marido de Russell e parceiro de The Americans, Matthew Rhys. Temos ainda Margo Martindale (de Bem-Vindos à Vizinhança), Jesse Tyler Ferguson (de Modern Family), Alden Ehrenreich (de Han Solo, 2018), O’Shea Jackson Jr. (de Obi-Wan Kenobi), Isiah Whitlock Jr. (de Destacamento Blood, 2020) e o saudoso Ray Liotta (de História de um Casamento, 2019) em um de seus últimos trabalhos. Entre nomes mais ou menos famosos, todos funcionam muito bem.

Banks demonstra segurança na direção, entregando uma obra enxuta, direta, com um bom equilíbrio entre humor e suspense e dividindo bem o tempo de cena dos muitos personagens – dos quais sabemos pouco, mas o suficiente para nos importarmos. E, no fim, nos pegamos também torcendo pelo pobre urso, que não tem culpa de ter ficado louco na cocaína. Só confesso que cheguei ao final da sessão ainda sem saber o que é “pintar a cachoeira”.

A diretora levou o “amigo” para apresentarem uma categoria no Oscar

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Daisy Jones and The Six traz uma fantástica banda de um sucesso só

Já estão disponíveis no Amazon Prime Video os dez episódios da minissérie Daisy Jones and The Six, nova produção dos estúdios Amazon. O livro fez grande sucesso nos EUA quando lançado, em 2019, e por isso a adaptação vinha acompanhada de muita expectativa. Aparentemente, o barulho em torno da obra diminuiu quando ela estreou, mostrando uma recepção bem fria por parte do público norte-americano. Agora, os brasileiros podem entender o porquê disso.

Feita em formato de documentário, a série – ficcional, é preciso ressaltar – acompanha jovens músicos na década de 70 buscando realizar o sonho de serem famosos. Os caminhos da banda The Six se cruzam com o de Daisy Jones, a garota acaba se juntando a eles e, juntos, conseguem finalmente atingir o topo das paradas de sucesso. Então, acontece o impensável: a banda acaba e cada um segue o seu rumo. Vinte anos depois, esse documentário pretende investigar as causas do rompimento. Algo que era comum na época e há até um termo para isso: “one hit wonders“, ou “as maravilhas de um sucesso só”.

Temos, na série, dois protagonistas, e a relação entre eles é o principal ponto a se acompanhar. Vivendo Daisy, Riley Keough (de O Diabo de Cada Dia, 2020) consegue dar doçura a uma personagem que poderia ser vista como insuportável e egoísta. A atriz realmente faz um ótimo trabalho evitando exageros na composição, mas não disfarçando os problemas da moça. O mesmo pode-se dizer de Sam Claflin (de Peaky Blinders), ator que ficou famoso fazendo um draminha água com açúcar (Como Eu Era Antes de Você, 2016), entre outros trabalhos, e vem se mostrando bem competente. Ele evita fazer um Billy Dunne prepotente e arrogante, apenas mostrando traços disso aqui e ali.

Billy é o líder dos Six, na verdade uma banda formada por cinco integrantes, já que um pula fora antes da fama. Quando Daisy entra no barco, os dois batem de frente disputando o papel de líder. Os demais membros também têm seus dramas contados, mas em uma proporção bem menor. Outros papéis de destaque são defendidos por Camila Morrone (de Desejo de Matar, 2018), que vive a esposa de Billy e fecha o triângulo amoroso; Tom Wright (de Medical Police), que faz o empresário e figura paterna de todos eles; e Timothy Olyphant (de Justified), o gerente de turnê que os mantêm juntos.

O elenco de Daisy Jones and The Six não tem ninguém destoante, eles fazem o que podem com o material. Os problemas estão no roteiro, bobinho e previsível, e em algumas opções da direção, que se repete muito em seus recursos e torna o andamento modorrento. Os personagens, em suas versões mais velhas (alguns com as mesmas caras, fora um cabelo grisalho e a chapinha de Claflin), dão depoimentos para a câmera e o que mais vemos são momentos de silêncio com caras e bocas, como se calados eles já dissessem muito. Na segunda ou terceira vez, isso irrita, e segue assim.

As referências, tanto na ficção (Quase Famosos, 2000, por exemplo) quanto na vida real (alô, Fleetwood Mac!), são óbvias e pulam na nossa cara, e as ótimas músicas da trilha não original ajudam a marcar as épocas. As dancinhas e figurino de Daisy emulam Stevie Nicks diretamente, e outras bandas vêm à mente em certas passagens. As canções originais do livro foram descartadas e Blake Mills foi contratado para refazer tudo do zero, contando com a colaboração de gente do cacife de Jackson Browne, Marcus Mumford e Phoebe Bridgers. O disco, Aurora, está disponível nos serviços de streaming de áudio.

Relatos de quem leu o livro de Taylor Jenkins Reid apontam outras diferenças entre o texto original e a adaptação, mas nada que fuja do normal em uma adaptação: um personagem cortado aqui, uma situação melhor desenvolvida ali. Os produtores, roteiristas e showrunners da atração,  Scott Neustadter e Michael H. Weber, já são uma dupla criativa há anos e têm altos ((500) Dias com Ela, 2009) e baixos (Cidades de Papel, 2015) em seus currículos. Dessa vez, ficaram bem no meio do caminho e criaram a perfeita definição para a expressão “guilty pleasure”: algo que não é exatamente bom, mas te atrai o suficiente para acompanhá-la e você fica com aquela pontinha de culpa por gostar.

A bela Camila Morrone completa o triângulo amoroso com Keough e Claflin

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The Last of Us é o mais recente sucesso da HBO

Com o nono episódio exibido na noite do Oscar, roubando audiência da Academia, a primeira temporada de The Last of Us chegou ao fim. Elogiadíssima pelos novatos nesse universo, a série conseguiu agradar também os fãs do videogame. Além de um farto orçamento, que permitiu muito cuidado na produção, a HBO garantiu fidelidade à obra original, satisfazendo gregos e troianos. E a segunda temporada já está confirmada.

Criado pela desenvolvedora norte-americana Naughty Dog, também responsável por Uncharted: Drake’s Fortune (que virou o filme com Mark Wahlberg e Tom Holland), The Last of Us é um jogo para o Playstation 3, lançado em junho de 2013, que ganhou uma sequência em 2020, além de produtos em outras mídias, como uma revista em quadrinhos. Tido como um dos melhores jogos já inventados e com vários prêmios na sacola, era questão de tempo até que ele ganhasse vida na TV ou Cinema.

A história de The Last of Us, longe de ser muito fantasiosa, parte de uma possibilidade: e se as alterações climáticas fizessem o fungo Cordyceps se tornar resistente à temperatura do corpo humano? Teoricamente, ele poderia tomar conta dos seres humanos infectados, como já faz com insetos, e é dessa premissa que o jogo e a série partem. As pessoas se tornariam zumbis violentos e as cidades entrariam em colapso.

Em sua primeira adaptação de um jogo, a HBO incubiu o produtor Craig Mazin (vindo do sucesso de Chernobyl) do trabalho, e ele contou com a consultoria de Neil Druckmann, o diretor criativo da Naughty Dog que comandou o projeto. Só pelos nomes envolvidos, já dá para perceber que o estúdio levou a tarefa a sério. Como os atores que viveram os personagens no game não são tão conhecidos, coube aos produtores escalar nomes mais reconhecíveis.

Para o papel principal masculino, Joel, foi chamado Pedro Pascal, atualmente estrelando também The Mandalorian. Um dos grandes atores do momento, devido a estes dois sucessos, Pascal caiu muito bem e usa um sotaque texano, se aproximando bem do jogo. Para viver Ellie, a garota que Joel protege, foi escolhida, em meio a uma centena de candidatas, Bella Ramsey, altamente recomendada pelos showrunners de Game of Thrones, que atestaram o talento da jovem atriz.

Com a dupla principal definida, era o momento de escolher os muitos coadjuvantes que participam de episódios esporádicos, como o terceiro, que conta em paralelo a história de Frank e Bill, dois sobreviventes que cruzaram o caminho de Joel. Não se surpreenda se os dois atores escalados (acima), Nick Offerman (de Pam & Tommy) e Murray Bartlett (de The White Lotus), ganharem vários prêmios nas próximas oportunidades. Os dois são ótimos e dão muita dimensão a personagens que, no jogo, eram pequenos ou quase inexistentes. Outra atriz marcante que aparece é Anna Torv (de Mindhunter), que faz uma Tess dura e amável ao mesmo tempo. Outras surpresas com relação ao elenco vão sendo reveladas ao longo da temporada.

Sob essa desculpa de apocalipse zumbi, vários temas interessantes são tratados e The Last of Us se mostra uma série em várias camadas. Antes de mais nada, aqui são as relações humanas que importam, sejam entre casais, pais e filhos, irmãos etc. É o que motiva a maioria dos personagens a seguirem adiante em meio a tanta destruição e morte. Todos esses predicados fazem com que a segunda temporada (ou parte) já seja extremamente aguardada, mesmo que ela chegue apenas em 2025. Os personagens estarão mais velhos e teremos novas tramas para acompanhar.

Para se ter uma base de comparação, estes são os protagonistas no videogame

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O Capítulo 4 fecha a saga de John Wick

O pai de pet mais letal do cinema está de volta para sua quarta e última aventura nos cinemas. John Wick 4: Baba Yaga (John Wick: Chapter 4, 2023) segue a fórmula bem sucedida de seus predecessores com uma trama simples, alguns rostos novos e mais ação, ou talvez a mesma quantidade de ação de antes. Não sei, mas tem muita ação, pode ter certeza.

A história retoma pouco à frente de onde paramos em John Wick 3: John (Keanu Reeves) se recupera dos ferimentos de sua última incursão no Hotel Continental de Nova York e parte em busca de sua liberdade e da cabeça dos membros da “alta cúpula”, que por sua vez designam o Marquês Vicent de Gramont (Bill Skarsgård, o palhaço de It – A Coisa) responsável por caçar e matar o Baba Yaga. E lhe concedem poder absoluto e todos os recursos necessários para essa nada fácil missão.

A lista de aliados e lugares para se esconder não para de encolher e John se arrisca a buscar refúgio com um velho amigo, Koji (Hiroyuki Sanada, de Mortal Kombat, 2021) gerente do Continental de Osaka. Na condição de “excommunicado”, John põe em risco não apenas a si mesmo, mas qualquer um que o ajude ou que se negue a matá-lo caso a oportunidade se apresente, o que torna cada personagem um potencial caçador de recompensas e qualquer cenário um possível campo de batalha. Um prato cheio para os fãs de filmes de ação.

O bom moço de Hollywood Keanu Reeves volta para viver mais uma vez um de seus personagens mais famosos. Com diálogos curtos e pouquíssimas expressões emotivas, o personagem dificilmente teria tanta popularidade se não fosse interpretado por alguém tão carismático quanto Keanu. Retornam também os veteranos Laurence Fishburne, como o “rei dos mendigos”, Ian McShane como Winston e o recém-falecido Lance Reddick como o simpático concierge Charon. Já o time de rostos novos é encabeçado por Skarsgård, no papel do cruel marquês, Sanada e Clancy Brown (de Dexter), que interpreta um misterioso conselheiro. Os principais caçadores de recompensa são interpretados pelo artista marcial Donnie Yen (de Rogue One, 2016) e por Shamier Anderson (de Invasão), que ajudam a compor as cenas de ação, antes protagonizadas apenas por Reeves e figurantes.

Desde o sucesso (talvez inesperado) do primeiro filme da saga, o diretor Chad Stahelski parece apostar no mais, na soma, ao invés da inovação. Se o que deu certo desde o início era ver Keanu Reeves matando bandidos, vamos trazer mais bandidos, mais balas, mais armas, mais perseguições de carro, mas tempo de tela. As narrativas são sempre rasas, sem complexidade alguma. Como preencher tanto tempo apenas com pólvora e sangue e ainda deixar o espectador interessado?

A solução, para que não caíssemos no tédio, foi estética: o espectador agora conta com cenários mais variados. Nas últimas aventuras, John Wick sempre dava as caras em algum outro país ou cenário diferente, mas era sempre algo breve e pouco explorado. Desta vez, temos cenários mais diversos e um pouco de mistério, sem saber para onde iremos em seguida. Um ponto positivo é a trilha sonora: até aqui os disparos das armas eram acompanhados apenas por um techno de boate e temas originais pouco expressivos. Nesse quarto capítulo, temos algumas músicas mais empolgantes e conhecidas que casam com as cenas de pancadaria.

Outra correção de curso é a escalação de um bom antagonista. Se em outros filmes os chefões eram bem esquecíveis ou até ausentes, como no terceiro longa, temos Skarsgård personificando a frieza e a ambição da alta cúpula. O ator parece trilhar uma carreira de personagens antipáticos e cruéis, espero vê-lo em produções mais dramáticas no futuro.

Por fim, temos os furos de roteiro, os descolamentos da realidade, como alguém sobreviver a uma queda de 10 andares, ou o homem mais procurado do planeta e com poucos recursos viajar o mundo inteiro sem ser barrado em um aeroporto. Se nada disso te impediu de chegar até aqui e se divertir, nada mais irá. Admito que fui vencido pelo cansaço e acabei deixando esses questionamentos no passado. Depois de vencer tantos oponentes, a minha lógica é só mais um dos vários adversários que pereceram ao enfrentar o imbatível John Wick.

Skarsgård foi uma boa adição ao elenco da franquia

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Shazam! 2 pode causar fúria no espectador

Shazam volta aos cinemas para mais uma aventura calcada em piadinhas adolescentes e valores familiares. Shazam! Fúria dos Deuses (Shazam! Fury of the Gods, 2023), no entanto, não funciona bem, como foi o caso do primeiro filme. Tudo, agora, é maior: a ameaça, a responsabilidade, os questionamentos… E os furos no roteiro também, com as coisas acontecendo de acordo com a conveniência da história.

A partir do momento em que algo acontece e entendemos o funcionamento do recurso, esperamos que a lógica seja seguida. Por mais louca que seja. O cajado do mago, por exemplo. O problema é quando os roteiristas, se mostrando bem preguiçosos, não voltam àquele recurso, que resolveria o problema e simplificaria as coisas. No primeiro Shazam!, as coisas eram mais simples, o que facilitava respeitar as regras já estabelecidas. A partir do ponto em que o roteiro chama o espectador de burro, fica difícil estabelecer alguma ligação com a obra.

O longa tem um prólogo no qual pessoas em armaduras invadem um museu e roubam um artefato. Misteriosamente, em outro lugar da cidade, a ponte Benjamin Franklin começa a se romper e ameaça milhares de pessoas. A família Shazam se apresenta para salvar o dia, mas não deixam de ser alvo de chacota pela mídia, que os culpa pelos efeitos colaterais que eles causam quando agem. Isso bate forte no jovem Billy Batson (Asher Angel), que se sente um impostor quando se torna o herói com o raio no peito (Zachary Levi).

Nenhum dos seis órfãos superpoderosos tem um nome fantasia, e a sintonia entre eles não anda das melhores. Cada um tem um interesse e Billy fica tentando mantê-los unidos. Freddy (Jack Dylan Grazer e Adam Brody, quando transformado) está maravilhado com seus poderes e chama uma atenção desnecessária. No meio desse caos familiar aparecem as Filhas de Atlas, as vilãs da vez que trarão muita dor de cabeça ao sexteto.

O elenco continua muito carismático – a excessão é Levi, que andou falando bobagens anti-vacina em redes sociais. Na tela, no entanto, ele funciona bem e precisamos relevar o pensamento do ator para apreciar o filme. Helen Mirren (de Velozes e Furiosos 9, 2021) e Lucy Liu (de Kill Bill, 2003) são adições fortes e funcionam muito bem, assim como Rachel Zegler, apesar de sua personagem não ter muita lógica. Djimon Hounsou volta ao papel do mago e é responsável por alguns momentos mais leves.

Como visto também em O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), seres muito poderosos em guerra tendem a causar muita destruição e o público logo fica anestesiado. Algumas sequências parecem custar a passar por causa disso, e era comum ver o pessoal no cinema olhando as horas, ansiando pelo final. Que é bem descabido, não faz sentido algum. E há duas cenas pós-créditos. A exemplo da Marvel, elas demandam algum conhecimento prévio para serem compreendidas, não só do primeiro filme, mas dos quadrinhos e de outras produções desse universo.

Helen Mirren é a grande adição ao elenco da continuação

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Entre Mulheres traz uma história impactante

Último dos indicados ao Oscar de Melhor Filme a chegar aos cinemas brasileiros, Entre Mulheres (Women Talking, 2022) traz exatamente o que seu título original indica: mulheres conversando e buscando um consenso. O tópico da discussão é complexo e entra na seara da religião. Estariam elas à mercê da vontade de Deus, tendo por isso que se resignar, ou poderiam tomar providências? Essa é a grande questão, discutida ao longo de cento e poucos minutos.

O livro de Miriam Toews que serviu de base ao roteiro remonta a uma história real: entre 2005 e 2009, mais de 100 mulheres na Colônia Manitoba, na Bolívia, foram anestesiadas e estupradas por homens locais usando remédios animais. Quando as atacadas chamavam atenção para o fato, eram tidas como histéricas, imaginativas, e os atos chegaram a serem atribuídos a demônios.

Mesmo com homens sendo pegos no ato, nada aconteceu a eles. Religiosas e ultraconservadoras, essas mulheres chegaram a um impasse: deveriam elas ficar quietas e aceitar; dar o grito e lutar; ou simplesmente partir? Essa trama foi recontada de forma ficcional por Toews e adaptada para o Cinema por Sarah Polley (lembrada por comandar Entre o Amor e a Paixão, 2011, entre outros). Elas se reúnem e conversam sobre o que fazer, mostrando que as mulheres devem se apoiar e são mais fortes juntas.

Escrito e dirigido por Polley, Entre Mulheres garantiu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e traz um elenco fantástico. À frente, temos três nomes mais do que competentes: Rooney Mara (de O Beco do Pesadelo, 2021), Claire Foy (de O Primeiro Homem, 2018) e Jessie Buckley (de Estou Pensando em Acabar com Tudo, 2020). Duas veteranas fecham o núcleo principal: a também produtora Frances McDormand (de A Tragédia de Macbeth, 2021) e Judith Ivey (a mãe de Keanu Reeves em Advogado do Diabo, 1996).

Com um texto bem escrito e ótimas atrizes para defendê-lo, a qualidade do resultado é garantida. E ainda vemos Ben Wishaw (o Q de 007) no único papel masculino do longa, deixando os holofotes para grandes mulheres contarem uma história aparentemente simples, mas muito impactante. Polley não perde a oportunidade de fazer um belo manifesto sobre as dificuldades que as mulheres vivem num mundo misógino, inclusive onde os homens se dizem religiosos e cidadãos de bem.

A figurinista Quita Alfred teve trabalho para retratar os menonitas

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Oscar 2023 – Indicados e Previsões

Domingo, 12/03, é dia de Oscar! A 95a edição da festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS) será realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles, como tem sido, e conta com o apresentador e comediante Jimmy Kimmel à frente. São 10 indicados como Melhor Filme e um total de 23 categorias, o que costuma alongar a duração da cerimônia.

O filme com maior número de indicações esse ano é Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once, 2022). A protagonista,  Michelle Yeoh, é a primeira indicada como Melhor Atriz na história a se identificar como asiática. Angela Bassett, coadjuvante em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (Black Panther: Wakanda Forever, 2022), é a primeira atriz indicada por um filme da Marvel e apenas a quarta atriz negra a ter mais de uma indicação. O maestro e compositor John Williams é o indicado mais velho, aos 90 anos, e emplacou sua 53a indicação, perdendo apenas para Walt Disney (59). Williams já venceu cinco vezes

O diretor, produtor e roteirista Steven Spielberg é a única pessoa a ser indicada ao Oscar em seis décadas diferentes, e esse não é o único recorde dele. Ele empatou com William Wyler com 13 filmes indicados na categoria principal e tem nove indicações como Melhor Diretor, assim como Martin Scorsese.

Outra que fez um número bonito é Cate Blanchett, que esteve em dez indicados como Melhor Filme e emplacou a oitava indicação como atriz, empatando com Judi Dench, Glenn Close e Geraldine Page. Só perdem para Bette Davis (10), Katharine Hepburn (12) e a recordista Meryl Streep (21). Se ganhar, será seu terceiro Oscar, se igualando a Streep, Frances McDormand e Ingrid Bergman, abaixo apenas de Katharine Hepburn (4).

Abaixo, você confere a lista de indicados por categoria, com links para as críticas disponíveis no Pipoqueiro. O número 1 em frente indica o meu palpite para o vencedor e o número 2 indica aquele que eu gostaria que ganhasse. Se os dois coincidirem, terá apenas um X.

Melhor Filme

Top Gun: Maverick

Entre Mulheres

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo – 1

Os Banshees de Inisherin – 2

Triângulo da Tristeza

Os Fabelmans

Nada de Novo no Front

Avatar: O Caminho da Água

Elvis

Tár

 

Melhor Direção

Martin McDonagh – Os Banshees de Inisherin

Todd Field – Tár

Ruben Östlund – Triângulo da Tristeza

Daniel Kwan & Daniel Scheinert – Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo – 1

Steven Spielberg – Os Fabelmans – 2

 

Melhor Ator

Brendan Fraser – A Baleia – X

Austin Butler – Elvis

Colin Farrell – Os Banshees de Inisherin

Bill Nighy – Living

Paul Mescal – Aftersun

 

Melhor Atriz

Andrea Riseborough – To Leslie

Michelle Williams – Os Fabelmans

Cate Blanchett – Tár – X

Ana de Armas – Blonde

Michelle Yeoh – Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

 

Melhor Ator Coadjuvante

Brendan Gleeson – Os Banshees de Inisherin – 2

Brian Tyree Henry – Passagem

Judd Hirsch – Os Fabelmans

Barry Keoghan – Os Banshees de Inisherin

Ke Huy Quan – Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo – 1

 

Melhor Atriz Coadjuvante

Angela Bassett – Pantera Negra: Wakanda Para Sempre – 1

Kerry Condon – Os Banshees de Inisherin – 2

Jamie Lee Curtis – Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Stephanie Hsu – Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Hong Chau – A Baleia

 

Melhor Filme Internacional

Nada de Novo no Front – 1

Argentina, 1985 – 2

A Menina Silenciosa

Close

Eo

 

Melhor Roteiro Original

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo – Daniel Kwan, Daniel Scheinert – 1

Os Banshees de Inisherin – Martin McDonagh – 2

Triângulo da Tristeza – Ruben Östlund

Os Fabelmans – Steven Spielberg, Tony Kushner

Tár – Todd Field

 

Melhor Roteiro Adaptado

Living – Kazuo Ishiguro

Top Gun: Maverick – Christopher McQuarrie, Peter Craig, Ehren Kruger

Entre Mulheres – Sarah Polley – 1

Glass Onion: Um Mistério Knives Out – Rian Johnson

Nada de Novo no Front – Edward Berger, Lesley Paterson, Ian Stokell – 2

 

Melhores Efeitos Visuais

Top Gun: Maverick

Pantera Negra: Wakanda Para Sempre

Nada de Novo no Front

Avatar: O Caminho da Água – 1

The Batman – 2

 

Melhor Trilha Sonora

Babilônia – Justin Hurwitz – X

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo – Son Lux

Os Banshees de Inisherin – Carter Burwell

Os Fabelmans – John Williams

Nada de Novo no Front – Hauschka

 

Melhor Curta-Metragem de Animação

My Year of Dicks

Ice Merchants

An Ostrich Told Me the World Is Fake and I Think I Believe It

O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo – X

The Flying Sailor

 

Melhor Filme de Animação

Red: Crescer É uma Fera

Pinóquio – X

Marcel the Shell with Shoes On

A Fera do Mar

Gato de Botas 2: O Último Pedido

 

Melhor Canção Original

Naatu Naatu – RRR – X

This Is a Life – Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Lift Me Up – Pantera Negra: Wakanda Para Sempre

Hold My HandTop Gun: Maverick

ApplauseTell It Like a Woman

 

Melhor Curta-Metragem em Live Action

An Irish Goodbye – X

The Red Suitcase

Le Pupille

Ivalu

Night Ride

 

Melhor Documentário de Longa-Metragem

All That Breathes

Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft

All the Beauty and the Bloodshed

A House Made of Splinters

Navalny – X

 

Melhor Documentário de Curta-Metragem

Haulout

The Martha Mitchell Effect

Stranger at the Gate

Como se Mede um Ano?

The Elephant Whisperers – X

 

Melhor Som

Nada de Novo no Front

Avatar: O Caminho da Água

The Batman

Elvis

Top Gun: Maverick – X

 

Melhor Design de Produção

Nada de Novo no Front

Avatar: O Caminho da Água

Babilônia

Elvis – X

Os Fabelmans

 

Melhor Fotografia

Nada de Novo no Front – 1

Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades

Elvis – 2

Império da Luz

Tár

 

Melhor Maquiagem e Penteados

Nada de Novo no Front

The Batman

Pantera Negra: Wakanda Para Sempre

Elvis – X

A Baleia

 

Melhor Figurino

Babilônia

Pantera Negra: Wakanda Para Sempre

Elvis – X

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Sra. Harris Vai a Paris

 

Melhor Montagem

Os Banshees de Inisherin

Elvis – 2

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo – 1

Tár

Top Gun: Maverick

Os cinco atores indicados na categoria principal são estreantes no Oscar

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Pânico VI empurra a franquia adiante

A boa arrecadação e as críticas animadoras do quinto Pânico (Scream, 2022) garantiram à dupla Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin a direção do sexto capítulo, e retornam também os roteiristas, James Vanderbilt e Guy Busick. É a primeira vez que acompanhamos uma trama que não visita Woodsboro, a cidade onde tudo aconteceu (e tem acontecido), e Nova York traz mais possibilidades. E mais suspeitos.

No início de Pânico VI (Scream VI, 2023), reencontramos os quatro sobreviventes do anterior, que se mudaram para uma grande cidade e foram cuidar de suas vidas. Tara (Jenny Ortega, mais conhecida como Wandinha) está na faculdade e tenta viver normalmente, deixando de lado toda a tragédia de seu passado. Já a irmã, Samantha (Melissa Barrera), não acha assim tão fácil seguir adiante e é superprotetora com Tara. Elas continuam tendo por perto os irmãos Mindy (Jasmin Savoy Brown) e Chad (Mason Gooding), e outros personagens aparecem para completar o quadro.

Pelo trailer já dá para entender que alguém em NY sabe do passado do quarteto e vai fazê-los reviver tudo aquilo. A campanha de marketing aproveita bem a sequência no metrô, mas a verdade é que o fato de termos uma cidade grande não é bem aproveitado pelo filme. Poucas cenas se passam em locais abertos e multidões. De resto, é como se eles estivessem em uma cidadezinha, sempre fechados em um lugar pequeno.

A estrutura dessa sexta parte é similar à dos anteriores, com uma introdução interessante com a linda Samara Weaving fazendo uma ponta – ela foi a protagonista de Casamento Sangrento (2019), dos mesmos diretores. A metalinguagem e as piadas e referências cinematográficas continuam fortes, com menos humor e piadas, o que é bom. Regras e conceitos novos são introduzidos (a participação de Tony “Flash” Revolori comprova isso), o que movimenta as coisas um pouco.

Além do quarteto do filme anterior, temos a volta de Courteney Cox, mais uma vez vivendo a enxerida repórter Gale Weathers, e de Hayden Panettiere, que foi ferida no quarto filme e aparece como agente do F.B.I. Algo que pode ser um problema para novatos na franquia é o número de citações diretas aos anteriores, dos assassinos às vítimas, passando por diversas situações. Para quem reclama do “esquema de pirâmide” do Universo Cinematográfico da Marvel, este não fica atrás.

Dentre as novidades do elenco, temos dois rostos conhecidos que chegam para reforçar a turminha jovem. Henry Czerny (também de Casamento Sangrento) é o psicólogo de Sam, enquanto Dermot Mulroney (mais lembrado por O Casamento do Meu Melhor Amigo, de 1997) faz o pai de uma nova amiga dos principais. Depois de fazer Sobrenatural: A Origem (2015) e a série The Purge, Mulroney se junta a outra bem sucedida franquia de terror.

Como sempre acontece, algumas das regras e clichês indicados pelos personagens são utilizados pelo roteiro, o que quebra um pouco a metalinguagem. Algumas situações são forçadas, como personagens que somem e aparecem apenas quando necessário, e parte do elenco faz caretas desnecessárias apenas para parecerem suspeitos. Assim, desconfiamos de todos e somos supreendidos por um final não muito inspirado. Nossa única certeza, desde o início da sessão, é que virão muitos Pânico por aí ainda. Só não sabemos se há fôlego para isso.

A sequência no metrô é de longe o melhor momento do longa

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Aftersun traz uma bela relação entre pai e filha

por Laís Simão

Um dos destaques da temporada atual de premiações, Aftersun (2022) retrata a lembrança de Sophie (Frankie Corio), que a partir de vídeos gravados por uma câmera caseira e por fragmentos de sua memória, relembra as férias que passou com seu pai (Paul Mescal). A história se passa em um hotel decadente na Turquia, com ambientação próxima aos anos 90. Por meio de cortes entre o que é lembrança e o que foi registrado em vídeo, a adulta Sophie reconstrói sua história na tentativa de entender melhor o pai.

Nos últimos anos, escutamos com frequência o termo “mãe solo”. A normalização do termo veio para denominar uma realidade vivenciada por diversas mães no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 12 milhões de mulheres brasileiras sabem e vivem essa realidade. No primeiro semestre de 2022, o Portal de Transparência de Registro Civil constatou que no Brasil 100.717 bebês vieram ao mundo sem o registro paterno em sua certidão de nascimento, o que equivale a 6,5% total de recém-nascidos.

O abandono paterno é uma possibilidade que, por vezes, não é alcançado como escolha da mãe. Muito se discute sobre a solidão na maternidade solo, mas pouco se fala sobre a lacuna que fica para o filho que cresce na ausência do pai.

A atuação de Mescal merece destaque. O jovem pai Calum é mostrado em camadas, aos poucos vamos conhecendo melhor suas questões. De pronto é apresentado como um pai companheiro, sensível e protetor. No entanto, a partir do desenrolar de história, percebemos as complexidades que carrega em sua bagagem, sobretudo em relação a sua difícil infância, bem como os atuais problemas financeiros, o que indiretamente é projetado em sua filha.

Mescal se tornou bastante conhecido em seu papel na série Normal People e também recentemente participou do filme A Filha Perdida (The Lost Daughter, 2021), atuando com a célebre Olívia Colman. A escolha por um rosto conhecido foi decisiva, pois auxiliou na imediata confiança e identificação com o personagem. Isso sem contar o carisma do ator, o que lhe garantiu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2023, sendo essa a única indicação de Aftersun para a premiação.

A atriz Frankie Corio é um nome que vale acompanhar. Com apenas 13 anos de idade, já pode se orgulhar do excelente desempenho no filme, que foi seu primeiro papel. Corio soube interpretar os conflitos de uma pré-adolescência em descoberta, sem perder ainda aspectos importantes da infância. Em entrevistas, Mescal não economizou elogios à parceira de atuação e ainda contou que, por orientação da diretora e roteirista Charlotte Wells, antes de iniciar de fato as gravações os atores conviveram em um ambiente livre de câmeras e roteiro, apenas se preocupando em conhecer um ao outro e desenvolver a intimidade que foi perfeitamente demonstrada no longa.

A partir das lentes sensíveis de Wells, a história de Sophie e Calum se misturam com a sua própria. Wells não escondeu do público que Aftersun, seu primeiro filme, possui traços biográficos. A informação não é de todo irrelevante, até mesmo pela forma que a história foi contada: tal como a protagonista que pretende entender a si mesma, Wells fez de uma possível história de abandono uma obra de arte. Outro nome que vale a pena acompanhar.

Por fim, para todos que vivenciaram os anos 90, a trilha sonora foi quase um presente por nos permitir alcançar as lembranças movidas pelas músicas tocadas naquela época, tal como Losing My Religion, de R.E.M, Drinking in L.A., de Bran Van 3000 e Under Pressure, de Queen (embora seja dos anos 80, é quase onipresente entre as gerações).

Para quem não conseguiu assistir ao filme nos cinemas, ele já está disponível no Amazon Prime Video, Apple TV, Youtube e Google Play Filmes.

Wells levou seu elenco a várias premiações

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