Warner/DC acerta o tom com Shazam

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Quando a Warner/DC anunciou que faria um filme do Shazam (antigamente conhecido como Capitão Marvel), era para ficar com os dois pés e uma mão atrás. Afinal, Shazam sempre foi um personagem leve, quase infantil, e a ideia da empresa de um universo sombrio, cínico e soturno não combinava em nada com essa essência. Felizmente, os fracassos (nesse caso, o retorno financeiro abaixo do esperado pelo estúdio) de público e crítica de Homem de Aço, Esquadrão Suicida e Batman vs Superman acenderam o sinal amarelo no estúdio. Ao invés de tentar fazer algo diametralmente oposto ao que a principal concorrente – a Marvel Studios – estava fazendo, porque não seguir a mesma fórmula?

O principal movimento da Warner na direção certa foi diminuir os poderes de Zack Snyder, até então a mente por trás de toda a iniciativa da criação de um universo cinematográfico da DC, e trazer Geoff Johns a bordo. Para aqueles que o desconhecem, Johns é uma das principais mentes criativas da editora. Atuando como roteirista de quadrinhos, ele foi o responsável por reformular personagens como o Lanterna Verde, Aquaman e o próprio Shazam, só para citar alguns, antes de passar um tempo como chefe criativo da empresa e, finalmente, abrir uma produtora exclusivamente para cuidar das adaptações da DC para a telona.

A influência de Geoff como produtor pode ser sentida inicialmente em Mulher-Maravilha (2017), que já se diferenciava bastante dos filmes de Snyder. Ao invés de um sentimento de desesperança e cinismo, com personagens atuando de forma sombria e, muitas vezes, descaracterizados em relação aos quadrinhos, vimos no filme da Amazona um primeiro sinal do que estava por vir. Filmes mais leves, mais divertidos e, porque não?, mais coloridos, onde a esperança é o sentimento mais presente.

Se, em Aquaman (2019), os fatores diversão e cores se fizeram bastante presentes, em Shazam eles chegam a limites jamais explorados em um filme da DC. Sim, fãs da DC que acham que os filmes da Warner só podem ser sérios: Shazam é o filme da DC que mais segue a fórmula da Marvel Studios. E, considerando todos os elementos que giram em torno do personagem, nada funcionaria melhor do que isso.

Para não estragar surpresas, o que pode-se dizer sobre Shazam (2019) é que se trata de um filme de origem. É um filme sobre como o orfão Billy Batson (Asher Angel, da série Andi Mack), por uma série de acasos, acaba sendo agraciado com os poderes do Mago Shazam (Djimon Hounsou, de Capitã Marvel, 2019) e assume o posto de campeão da magia. Ao dizer o nome do mago, Billy se transforma no mortal mais poderoso da Terra (vivido por Zachary Levi, da série Chuck).

Shazam é um filme que trata, de maneira bem condizente com seu material de base, como um menino rebelde de 14 anos se comportaria se, de repente, adquirisse capacidades super-humanas e como ele tiraria proveito delas. As sequências em que a versão adulta de Billy testa seus poderes, com a ajuda do “especialista em heróis” Freddy (Jack Dylan Grazer, de It, 2017), um dos adolescentes que mora na mesma casa de acolhimento de Billy, são hilárias. Freddy, aliás, é um dos grandes trunfos do elenco. Ele incorpora o nerd fã de super-heróis que, muitas vezes, não sabe muito o que diz, mas, graças ao seu conhecimento a respeito de seres poderosos, é fundamental na jornada de Billy para se tornar o campeão que deve ser.

Shazam é, principalmente, um filme sobre o valor da família. Sendo um órfão que sempre se virou sozinho, família é uma das coisas que o menino menos valoriza. Mas, na hora em que o bicho pega, quando a cidade da Filadélfia – e o próprio mundo – está sendo ameaçada pelo Dr. Silvana (Mark Strong, dos dois Kingsman – abaixo), que quer os poderes de Shazam para si, Billy descobre que apenas com o apoio de sua família, mesmo que emprestada, é o que fará a balança do poder pender a seu favor e colocá-lo devidamente na jornada de herói.

Shazam é, de longe, o filme mais divertido dessa safra de produções da Warner. E não poderia ser diferente, já que ele conta a história de um menino que, do nada, se transforma em um adulto superpoderoso e volta a ser menino bastando dizer uma palavra. Tanto a personalidade de Billy quanto a de Shazam foram muito bem trabalhadas e, se alguém tinha dúvidas a respeito da capacidade de Zachary Levi para o papel, elas se dissipam logo de cara. Claro, o filme tem aqueles problemas que a maioria das produções desse gênero carregam em seu DNA, como personagens tomando decisões que servem apenas à trama, o abuso da suspensão de descrença em algumas passagens e um terceiro ato um tanto quanto mais longo do que o necessário. Isso, no entanto, não tira em nada seus méritos.

A exemplo de praticamente todas as adaptações de histórias em quadrinhos atuais, Shazam tem duas cenas após seu final, uma no meio dos créditos e uma logo após eles. E, para aqueles que ficaram intrigados com o grande trecho aqui dedicado a Geoff Johns, sugiro que, após assistirem ao filme, leiam o encadernado estrelado pelo personagem de autoria de Johns. Ele foi lançado no Brasil há algum tempo pela Panini, mas, caso você tenha certa fluência em inglês, pode conferir online aqui.

Devagarzinho, Shazam chegou e passou na frente dos colegas

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Tim Burton dá vida a Dumbo

por Marcelo Seabra

Na onda do que parece ser um novo subgênero cinematográfico, as adaptações live action de clássicos Disney, chega às telas Dumbo (2019), novo trabalho do criativo diretor Tim Burton. Numa tentativa de fazer uma obra com os pés no chão, os animais falantes foram cortados e o elenco humano cresceu, buscando compensar essas faltas. O problema de ter muitos coadjuvantes é não poder dar muita atenção a nenhum, e eles ficam longe de atingir o mesmo pico emocional que os ratinhos engraçadinhos do original.

No meio de tantos personagens, até o próprio Dumbo perde espaço. O elefantinho adorável é criado por uma computação gráfica eficiente, como também os demais efeitos visuais do longa. Outro ponto positivo é a reunião de Burton com atores de produções passadas. Temos na tela ninguém menos que Michael Keaton, que viveu Batman (1989 e 1992) e Beetlejuice (1988), além do “Pinguim” Danny DeVito e da “Miss Peregrine” Eva Green. DeVito, inclusive, viveu outro dono de circo do diretor em Peixe Grande (Big Fish, 2003). Encabeçando o elenco, temos um correto Colin Farrell (de As Viúvas, 2018) como um viúvo que volta da guerra para se reconectar aos filhos e à vida civil.

A história do filme é basicamente a mesma do desenho de 1941: um elefantinho nasce num circo que anda meio capenga e é a esperança de dinheiro entrando. Num primeiro momento, todos fazem pouco do bichinho pela estranheza de suas orelhas enormes. Mas eles logo entendem que aquele é o grande trunfo de Dumbo: ele pode voar. Há muitas diferenças entre as duas obras e não vale a pena entrar nesses detalhes, já que uma independe da outra. Mas os temas permanecem os mesmos: aceitação, relações familiares, o mal da ganância.

Como é costume nas produções de Burton, a riqueza dos cenários é espantosa. Tudo é colorido, mas de um jeito meio sombrio, como a Gotham de Batman (1989). O parque Dreamland, inclusive, lembra muito o esconderijo do Coringa em A Máscara do Fantasma (1993), com invenções que vislumbram um futuro bem tecnológico. A diferença de Dumbo para os demais trabalhos do diretor é o tom infantil. Filmes como O Lar das Crianças Peculiares (2016), Frankenweenie (2012) e até Alice no País das Maravilhas (2010) são protagonizados por crianças e as têm como público principal, mas não deixam de agradar os adultos também, revelando camadas que podem ser percebidas por diferentes faixas etárias.

Alguns enquadramentos em olhares e expressões soam forçados e, por vezes, diálogos são excessivamente expositivos. Há situações irreais até para esse universo de fantasia. E esse clima de fábula é constantemente esfregado na cara do espectador, com ênfase até da trilha sonora. Ehren Kruger, roteirista de longas pesados como O Suspeito da Rua Arlington (1999), O Chamado (2002) e A Chave Mestra (2005), também tem suas derrapadas, como três dos Transformers, Os Irmãos Grimm (2005) e Ghost in the Shell (2017), além do constrangimento adolescente Sangue e Chocolate (2007). Dumbo é mais um ponto contra nessa carreira irregular.

As produções de Burton sempre têm cenários maravilhosos

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A história do Mötley Crüe contada pela própria banda

por Arthur Abu

Não é sobre sexo, drogas e rock ‘n’ roll. É sobre muito sexo, abuso de drogas e rock ‘n’ roll do início ao fim. The Dirt (2019), nova produção original da Netflix, estreou recentemente no catálogo. A cinebiografia não é necessariamente uma homenagem ao Mötley Crüe, mas uma confissão relevante de seus quatros membros sobre a história da banda, incluindo vários episódios controversos.

Dois minutos é o suficiente para meros curiosos mudarem de canal e se desculparem com a família (como se tivessem caído no infame gemidão do WhatsApp) ou se empolgarem ao se darem conta de que essa não é uma cinebiografia chapa branca estilo Bohemian Rhapsody (2018), apesar de que comparações serão inevitáveis.

Nikki Sixx (Douglas Booth, de Mary Shelley, 2017), Tommy Lee (Colson Baker, de Bird Box, 2018) Mick Mars (Iwan Rheon, de Game of Thrones) e Vince Neil (Daniel Webber, de O Justiceiro) são quatro rebeldes sem causas ou calças que se juntam para formar uma banda de rock que atinge o sucesso quase instantaneamente. O quarteto tem personalidades tão marcantes que elas chegam a ser caricatas. Logo na introdução, fica claro que veremos em cada um os distintos excessos da vida de um rockstar.

Cada um dos personagens poderia ser a estrela de sua própria história e, por isso, temos um filme sobre uma banda, e não sobre destaques individuais. O elenco jovem e sem rostos muito conhecidos (exceção para Rheon, de Game of Thrones) deixa a caracterização mais natural. Decepcionante é ver praticamente todas as mulheres retratadas como “groupies”, até os relacionamentos mais significativos são superficiais. Fazem parte também do elenco Kathryn Morris (de Fica Comigo, 2017), como a mãe de Sixx, Rebekah Graf faz a famosa atriz Heather Locklear e David Costabile (de The Post, 2017), que vive Doc McGhee, o empresário da banda.

Jeff Tremaine faz sua estreia na direção de uma obra ficcional. Apesar de novato nesse segmento, sua experiência com as bizarrices de Jackass o tornaram a pessoa ideal para levar às telas uma história que não vai jogar a poeira para debaixo do tapete. Fica clara a lição aprendida com Bohemian: eventos e datas da vida real modificados para darem mais dramaticidade à obra irritam não apenas os fãs de carteirinha. E o diretor tem conhecimento de causa, já que produziu também o documentário Mötley Crüe: The End (2016).

Quebras na quarta parede tentam tranquilizar o espectador quanto à veracidade da história, mas ao mesmo tempo são saídas um pouco preguiçosas. Ver outras lendas do rock inseridas na trama, alguns até mais loucos que o próprio Crüe, é um dos pontos positivos. Acertada também foi a decisão de distribuição pela Netflix, e não pela Paramount, que queria lançar um filme mais limpo e apropriado para audiências em geral. Se fosse esse o rumo tomado, provavelmente o filme passaria despercebido em meio a produções musicais mais relevantes.

O figurino e a maquiagem retratam muito bem os “fucking 80s”, como diz Sixx. A resolução disponível em Ultra HD 4K deixa bem viva a pluralidade de cores da época, tornando a estética bem confortável. O roteiro de Amanda Adelson e Rich Wilkes (de Triplo XXX, 2002) é baseado em The Dirt: Confessions of the World’s Most Notorious Rock Band, best seller assinado pelos próprios membros da banda – auxiliados por Neil Strauss. Recheado de clichês, o texto segue uma fórmula já esperada e não surpreende em momento algum.

O foco aqui é a viagem, e não o destino. Incluindo vários sucessos, como Kickstar My Heart e Home Sweet Home e ainda três novas canções feitas para o filme, The Dirt é um presente para os fãs da banda. Para aqueles não tão familiarizados, talvez o sentimento seja o mesmo que senti ao ver o show deles no Rock in Rio 2015 (sem conhecê-los bem): é um espetáculo divertido. Não vai emocionar, mas talvez convença a ler um pouco mais sobre os caras ou adicionar uma música ou outra nas playlists mais agitadas. Afinal, o próprio diretor admitiu que gostava da banda, mas que não era um super fã.

Os membros da banda prestigiaram o lançamento da Netflix

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Basquete voa alto na Netflix

por Marcelo Seabra

Sempre lembrado por ser um artista inconformado, que busca inovações e projetos variados, Steven Soderbergh dominou a forma de filmar com um Iphone e seu longa mais recente está na Netflix. High Flying Bird (2019) é praticamente um teatro com cenários variados, com diálogos densos e uma série de personagens inteligentes que constantemente se desafiam. E o bônus é a mensagem que fica, contra a ganância que cerca o esporte, que muda o foco do que realmente importa.

Depois da marcante estreia, com o independente e elogiado Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies and Videotape, 1989), Soderbergh enfileirou muita coisa boa, de filmes para o Cinema grandiosos e premiados a séries de TV. Ganhou um Oscar de Melhor Diretor por Traffic (2000), quando concorria também por Erin Brockovich (2000). O também premiado Tarell Alvin McCraney, roteirista de Moonlight (2016), se juntou ao diretor para desenvolverem uma história criada por André Holland (de Castle Rock). Não poderia ser diferente: o ator vive o protagonista de High Flying Bird.

Ray Burke é um agente esportivo em meio a um lockout, uma espécie de greve de patrões. Os dirigentes dos times brigam por mais dinheiro dos canais de TV, que pagam pelos direitos de transmissão das partidas. No fogo cruzado, estão os jogadores, que ficam com suas carreiras paralisadas. O principal cliente de Ray é o novato Eric Scott (Melvin Gregg, de American Valdal), que teve seu sonho de jogar na NBA colocado em espera. Entre o agente e o jogador está a assistente vivida por Zazie Beetz (de Velvet Buzzsaw, 2019), uma atriz a ser acompanhada.

O ritmo sofre algumas quedas e o meio do filme se torna um pouco monótono. Mas os diálogos afiados seguram a onda, incluindo na lista de bons intérpretes o cartola de Kyle MacLachlan (de Twin Peaks) e a sindicalista de Sonja Sohn (de Luke Cage). Outras duas participações que merecem ser mencionadas são as de Bill Duke (de Raio Negro), ótimo veterano que vive um técnico de basquete da comunidade local, e Zachary Quinto (o Spock de Star Trek), sempre eficiente como o chefe engomadinho de Burke. E há ainda alguns interessantes depoimentos de astros do esporte.

Alternando-se entre imagens urbanas simples e eficazes e cenários fechados, de escritórios e até elevadores, Soderbergh usa seu IPhone 8 de forma bem satisfatória, creditando sua fotografia e montagem aos pseudônimos de sempre, Peter Andrews e Mary Ann Bernard. Esse formato deve trazer muita agilidade ao projeto, facilitando sua chegada à Netflix. Quando você assusta, o filme, cuja produção foi anunciada há pouco, já está disponível.

Soderbergh conduz as filmagens com seu IPhone

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Netflix reúne veteranos para uma Operação Fronteira

por Arthur Abu

Um grupo de ex-soldados de operações especiais se reúne para uma última missão. O alvo? O chefe de um dos maiores cartéis de drogas da América do Sul. O propósito? Ficarem ricos.

Apesar dos dias de glória dos “guerreiros”, como se intitulam, terem ficado para trás, o elenco de Operação Fronteira (Triple Frontier, 2019) está longe de ser um grupo de veteranos esquecidos. Os amigos são recrutados por Santiago “Pope” Garcia (Oscar Isaac, de Star Wars – Os Últimos Jedi, 2017) e liderados pelo relutante Tom “Redfly” Davis (Ben Affleck, o atual Batman).

Eles são levados à tríplice fronteira da América do Sul inicialmente apenas para uma missão de planejamento estratégico. Mas a oportunidade de voltarem para suas vidas monótonas com os bolsos cheios de dinheiro certamente vai complicar não apenas a missão, mas a confiança entre eles. Com os personagens aos poucos mostrando suas verdadeiras facetas, nos questionamos se queremos ou não que eles completem a missão.

Completando o time de soldados, temos o palestrante do exército e condecorado capitão William “Ironhead” Miller, interpretado por Charlie Hunnam (do novo Rei Arthur, 2017). Apesar de, em seus últimos projetos, ter feito o papel de líder rebelde, Hunnam entrega uma performance mais discreta e deixa a liderança para a experiência de Affleck e o carisma de Isaac.

Pedro Pascal (de Narcos) está bem como o problemático piloto Francisco “Catfish” Morales e Garrett Hedlund (de Mudbound, 2017) fecha o time, como o irmão mais jovem de Ironhead. Sua interpretação varia de jovem irresponsável ao mais humano entre um esquadrão treinado para matar. Fora o quinteto, temos Reynaldo Gallegos (de Logan, 2017) como o chefão do tráfico, Lorea, e a bela Adria Arjona (de Círculo de Fogo 2, 2018), que faz o contato de Pope no cartel.

Decepcionam-se aqueles que assistem querendo apenas explosões e tiros do começo ao fim. O filme não é tão raso. A Netflix volta a abordar a lealdade entre “irmãos de armas” e o sentimento de rejeição sentido pelos ex-combatentes, temas recorrentes na recém-cancelada série O Justiceiro. Mas mesmo essa lealdade é testada e a ganância pode transformar essa fortuna em um Tesouro de Sierra Madre (como no filme de 1948).

A trilha sonora, empolgante desde o início, vai do Trash Metal, com Pantera e Metallica, aos clássicos de Bob Dylan, Creedence Clearwater Revival e Fleetwood Mac. O roteiro demora a retomar o ritmo explosivo do começo, com a sequência numa favela, e utiliza a trilha recheada de sucessos talvez para manter interessados os espectadores em momentos mais monótonos.

A produção sofreu vários atrasos e mudanças no elenco. Inicialmente, a vencedora do Oscar Kathryn Bigelow (de Guerra ao Terror, 2008) estava cotada para dirigir um elenco que cogitou Tom Hanks, Johnny Depp, Channing Tattum, Tom Hardy e Mahershala Ali. Bigelow acabou ficando com a produção executiva, mas seu parceiro constante Mark Boal se manteve como roteirista. A direção de J. C. Chandor (de O Ano Mais Violento, 2014), como sempre, nos presenteia com um bom filme, com uma história ambiciosa. Aqui, o porém é o ritmo inconstante.

Durante as filmagens, o elenco fez a festa de funcionários de um restaurante no Havaí

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Repescagem Oscar 2019: Querido Menino Anulado

por Marcelo Seabra

À medida em que os filmes vão estreando nos Estados Unidos, começa o barulhinho de Oscar, com previsões e suposições. Quando as indicações são reveladas, a carreira internacional dos que não estrearam ainda é diretamente afetada. Tivemos, esse ano, duas produções muito boas que passaram batido por terem sido esnobadas no prêmio. Ambas sobre famílias, focando no filho e suas questões. Enquanto Querido Menino (Beautiful Boy, 2018) mostra um rapaz se afundando em drogas, Boy Erased – Uma Verdade Anulada (2018) nos apresenta a um jovem que entra num programa de conversão de gays.

Com duas interpretações muito marcantes, Querido Menino traz a família Sheff, da qual o pai é um escritor que mora numa casinha afastada da cidade. O filho, em seus 17, 18 anos, começa a usar drogas e rapidamente perde o controle ilusório que viciados pensam ter. Steve Carell (de Vice, 2018) e Timothée Chalamet (de Me Chame Pelo Seu Nome, 2017) vivem os personagens principais e demonstram uma química enorme, funcionando muito bem como pai e filho.

O fato de o roteiro, escrito por Luke Davies e Felix van Groeningen (também diretor do longa), ser baseado nos livros dos verdadeiros David e Nic Sheff traz muito veracidade ao projeto. Nada é idealizado e acompanhamos de perto o buraco em que o menino se enfia, e acaba aprisionando toda a família. Groeningen vem do elogiado Alabama Monroe (2012), e seu co-roteirista, Davies, fez sua estreia também com um filme sobre drogas: Candy (2006).

Em Boy Erased, um pastor batista percebe que seu filho possa ser homossexual, o que ele considera ir contra suas crenças. Por isso, oferece uma escolha ao jovem: participar de um programa de conversão da igreja, para “resolver o problema”, ou se afastar da família e ser deixado de lado. Não é difícil imaginar o que ele escolhe. E é igualmente fácil se colocar no lugar dele e sentir toda a angústia que se instaura em sua cabeça. E o roteiro também é baseado no livro do personagem, Garrard Conley.

No papel principal, Lucas Hedges (ao lado) mais uma vez mostra que não brinca em serviço. Apesar da pouca idade (nascido em 1996), ele já coleciona ótimos trabalhos, como Manchester à Beira-Mar (2016). E ajuda, claro, ser filho (na ficção) de Russell Crowe (de A Múmia, 2017) e Nicole Kidman (de Aquaman, 2018), dois atores com um grande domínio de sua arte. O bom roteiro, somado ao talento deles, afasta qualquer possibilidade de clichê ou maniqueísmo, mostrando pessoas reais que, mesmo metendo os pés pelas mãos, estão tentando acertar.

A grande surpresa de Boy Erased é descobrir que, além de atuar nele, Joel Edgerton o escreveu e dirigiu. Ele fez sua estreia atrás das câmeras em O Presente (The Gift, 2015), um suspense surpreendente que mostrou que ele sabia bem o que estava fazendo. Aqui, Edgerton dissipa qualquer dúvida que possa ter ficado, se mostrando um diretor correto que entrega um filme bem amarrado, enxuto e poderoso. Ele fica na cabeça por um longo tempo e, assim como Querido Menino, rende boas discussões.

Edgerton brilha em frente e atrás das câmeras

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Tex é faroeste italiano nos quadrinhos

por Kael Ladislau

Adaptar histórias em quadrinhos para o cinema não é coisa nova. Na verdade, é uma prática que se inicia junto do século XX, quando a sétima arte ainda engatinhava, mas já levava o personagem Krazy Kat, de George Herriman, dos jornais para a telona. Hoje dominado pela DC e Marvel, o segmento das HQs no Cinema está cada vez mais seguro e ganhando mais e mais adeptos.

Mas a chamada “nona arte” não tem apenas suas representações pelas gigantes americanas e não conta apenas histórias de ficção-científica. Sua trajetória ao longo da história também perpassa pelo velho oeste americano, contadas por italianos. Sim, o Western Spaghetti também tem seu representante no cinema – e nos quadrinhos. Estamos falando de Tex Willer.

Tex é um personagem de HQ criado em 1948 pelos italianos Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepinni. O fascínio dos europeus pelo gênero puramente americano não era novidade e ele já vinha de décadas. Não diminuiu quando a ditadura fascista boicotava tudo quanto era produto importado. Inclusive os filmes. Foi aí que começou a crescer a produção de faroestes, que contavam histórias passadas nos EUA, mas tudo gravado na Europa. Esse vislumbre também era visto fora dos cinemas, em jornais que publicavam histórias de personagens que se aventuravam pelo Novo México, Arizona, Texas…

É nesse contexto que surge Tex Willer, que teve uma meteórica ascensão e passou pela década de 50 firme e forte e chegou na década de 60 como o principal nome das HQs italianas (os Fumettis). Ele fez com que Bonelli se tornasse uma espécie de Stan Lee macarrônico, criando mais e mais personagens, sempre com Tex de carro-chefe de sua editora. Dado o sucesso do personagem e os faroestes em pleno vapor, é claro que a ideia de levar o mocinho para as telonas surgiu, mas sempre foi postergada. Foi só na década de 80 que finalmente Tex teve suas aventuras contadas nas salas de Cinema, mas…

A década de 80 já não via mais no faroeste o seu maior expoente audiovisual. Na verdade, a ficção-científica ganhava as bilheterias mundo à fora desde o final da década de 60, com Star Wars e 2001, de Kubrick. Se a gente segmentar mais, os faroestes à italiana já não tinham fôlego nenhum: os filmes de Sérgio Leone, maior representante desse subgênero, foram os mais bem recebidos pelo público mundial, isso também em 60 e só. Fora ele, foram poucos cineastas italianos devidamente reconhecidos fora da velha bota ou mesmo na Europa.

Mas o nosso mocinho dos Fumettis chegou aos cinemas em 1985 com a história Tex Willer e os Senhores do Abismo (Tex e il Signore Degli Abissi). Tex é apresentado de forma fiel a seu cânone: um ranger do Texas – uma espécie de polícia da fronteira – que também é chefe indígena da tribo Navajo, posto herdado de seu sogro falecido e devido ao tremendo respeito que os nativos têm pelo branco. No Cinema e nas HQs, Tex é acompanhado por Kit Carson, outro ranger, e seu fiel parceiro Jack Tigre, um navajo que cavalga ao lado do nosso mocinho. Nas HQs, ainda existe Kit Willer, mas ele não aparece no filme.

Tex é chamado pelo comando dos rangers para desvendar o sumiço de um carregamento de armas militares em pleno deserto. Tex, Carson e Tigre vão investigar esse desaparecimento e descobrem que ele faz parte dos planos de uma espécie de revolta por parte de índios que vivem no México, liderados por uma divindade que se utiliza de pedras vulcânicas para matar seus inimigos.

A história que o filme apresenta é adaptada de uma das inúmeras histórias que Tex vive ao longo desses pouco mais de 70 anos de vida editorial. Mas está longe de ser a melhor ou a mais ideal para ir às telas. A pegada um pouco fantástica não caiu no gosto nem dos fãs, nem do público que não conhecia o personagem e nem mesmo de seus criadores, que detestaram o resultado.

Assinado por Duccio Tessari, que assina a direção de clássicos do bangue bangue italiano como Uma Pistola para Ringo, de 1965, o filme é mal dirigido e tem efeitos pobres. Infelizmente, ele não representa a força que Tex tem na Itália e no Brasil – onde é publicado há quase 50 anos ininterruptamente. Os pontos fortes do filme existem e um deles está no nome de Giuliano Gemma (de O Dólar Furado, 1965 – acima), talvez o maior ator italiano do faroeste. O galã vive o protagonista e sua caracterização é bem satisfatória, tendo o apreço de fãs até hoje.

O elenco ainda tem nomes como William Berger, que interpreta o rabugento, mas divertido, Kit Carson. A maneira como Berger atua, fazendo as caretas e as piadinhas típicas do personagem boneliano é outra atração que caiu nas graças dos fãs. As atuações em si são pontos fortes sobretudo por conta de Gemma e Berger. Mas as locações também merecem menção e os devidos créditos. Os italianos sempre fizeram questão de caprichar nos espaços utilizados e que remetem bem ao Velho Oeste Americano. Ainda, elas lembram bem os cenários vistos no papel em traços como os de Galeppinni, Giovani Ticci, Guglielmo Lettèri, entre outros.

Infelizmente, Tex Willer e os Senhores do Abismo sofreu com a demora em ser realizado, a escolha da história e o pouco caso de seus idealizadores. Mas o ícone Tex Willer vive forte nas bancas da Itália, Brasil e Portugal – por exemplo – e tem ganhado muito público, outrora chamado de velho. Com a “redescoberta” do gênero no Cinema – com novos clássicos como Django Livre (Django Unchained, 2012), Os 8 Odiados (The Hateful Eight, 2015), ambos de Quentin Tarantino, e Bravura Indômita (True Grit, 2010) e o recente A Balada de Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs, 2018), dos irmãos Coen, para citar os mais famosos – sopra um fio de esperança no fã de Tex para ver seu herói novamente no Cinema. Quem sabe surfando na onda do sucesso da Marvel? Dessa vez, a época é a ideal.

O que não faltam são histórias de Tex para serem adaptadas

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Capitã Marvel é a primeira protagonista do estúdio

por Marcelo Seabra

“Lute como uma garota”. Essa é a mensagem que Capitã Marvel (Captain Marvel, 2019) parece querer passar. Consertando uma falha do Universo Cinematográfico da Marvel, o filme traz uma heroína como protagonista e aproveita para dar força às mulheres em diversos momentos. Todas as características que aprendemos a esperar desse filão estão lá, as boas e as ruins. Alguns buracos foram preenchidos, pontas amarradas e brechas para sequências foram deixadas.

Não sendo um profundo conhecedor da personagem nos quadrinhos, não tenho como apontar as alterações que ela sofreu. Mas é seguro afirmar que elas existem e são necessárias. E isso já causou um levante de fãs mais radicais, que não se sensibilizam com questões de direitos humanos, por exemplo, mas gritam a plenos pulmões quando o Cinema mexe em seus cânones sagrados. Não foi a primeira vez, não será a última. Nem uma bela homenagem ao saudoso Stan Lee amolece esses corações.

Estreando nos estúdios Marvel, a vencedora do Oscar Brie Larson (por O Quarto de Jack, 2015) vive a personagem do título. O começo do filme é um tanto confuso, misturando linhas temporais e cenários. Isso é compreensível, dado o estado de confusão mental da própria Vers, como a chamam. Tomamos conhecimento de uma rixa entre raças alienígenas e ela está bem no meio, sendo uma peça importante para uma possível vitória. O que complica é o fato de Vers não ter memória de nada anterior a seu resgate, após um acidente.

A partir daí, o roteiro escrito a seis mãos – incluindo os diretores, os parceiros habituais Anna Boden e Ryan Fleck (de Parceiros de Jogo, 2015) – se desenvolve e se encaixa no universo que já conhecemos. Um dos personagens principais, inclusive, é ninguém menos que Nick Fury, na pele de um Samuel L. Jackson rejuvenescido. Os demais filmes não chegam a fazer falta, mas há várias referências. E, falando em referências, é muito clara uma a Indiana Jones. E, como acontece com os Guardiões da Galáxia, a trilha sonora tem grande importância. A diferença é que, ao invés de clássicos sessentistas, temos grandes sucessos dos anos 90, que ajudam a situar a aventura em 1995.

Além das músicas, há vários elementos que reforçam a época. O uso de computadores e internet, por exemplo, gera várias piadas – e foi possível ouvir na sessão uma pessoa dizendo a outra: “Era assim mesmo”, e cair na risada. O humor segue exatamente a linha que conhecemos, com momentos mais inspirados, outros nem tanto. Manter as características que a Marvel já consolidou no Cinema é uma certeza de sucesso. Mas também é uma repetição de uma fórmula que, para muitos, se desgastou. Ou nunca foi exatamente satisfatória.

Outra certeza que temos é dos nomes interessantes no elenco. Além da premiada Larson, são introduzidos Jude Law (de Os Crimes de Gridelwald, 2018), Annette Bening (de Ruby Sparks, 2012), Djimon Hounsou (de Aquaman, 2018) e Ben Mendelsohn (de Jogador Nº 1, 2018), para ficar nos mais famosos. Tudo funciona bem, das atuações aos efeitos. Em certos momentos, o roteiro cai numa mesmice, para logo depois voltar a entusiasmar. E surgem umas tiradas fantásticas, como classificar Fury, um “humano macho”, como de pouco ou nenhum risco. É, de fato, um filme para mulheres, mas que pode também agradar a homens. Basta não ser um chato.

Mendelsohn é o líder dos Skrulls

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Repescagem Oscar 2019: Rua Beale e Poderia Me Perdoar

por Marcelo Seabra

Da mesma forma que a indicação ao Oscar de Melhor Filme pode dar vida nova à carreira de um longa nos cinemas, a não indicação pode jogá-lo para escanteio. Se a estreia ainda não tiver ocorrido quando as indicações são anunciadas, ela pode até não acontecer. Por isso, da mesma forma que obras como Pantera Negra (Black Panther, 2018) e Nasce Uma Estrela (A Star Is Born, 2018) ganharam bastante holofote, outras passaram batido – mesmo que tenham sido indicadas em outras categorias, e até mesmo tenham levado alguma coisa. Duas delas seguem abaixo.

Se a Rua Beale Falasse

Novo trabalho do premiado diretor Barry Jenkins (de Moonlight, 2016), Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk, 2018) recebeu três indicações ao Oscar, levando o de Melhor Atriz Coadjuvante – as outras foram de Trilha Original e Roteiro Adaptado. Regina King, que ganhou vários prêmios nessa temporada, realmente está muito bem como a mãe de uma jovem que tem o namorado preso, falsamente acusado de estupro, e logo descobre estar grávida.

Segundo o escritor James Baldwin, autor da história, a rua Beale do título poderia ser qualquer rua americana, que vê seus cidadãos negros sofrerem abusos sem terem feito qualquer coisa para merecer. No filme, o que vemos é um casal sofrer assédio e, ainda sim, ser apontado como a parte errada da história. Um policial mal-intencionado é o suficiente para jogar um jovem na cadeia e amarrar os destinos de duas famílias.

Com uma fotografia comum e um roteiro e montagem que mais parecem de novela, Se a Rua Beale Falasse de fato não é o melhor filme do ano. Mas certamente merecia mais uma indicação que alguns dos agraciados. A história é forte o suficiente para chamar atenção, e a interpretação do casal central é mais que correta. KiKi Layne e Stephan James (de Selma, 2014) têm uma química convincente e conseguem tranquilamente levar o público para o drama de seus personagens. É um filme que merecia mais atenção.

Poderia Me Perdoar?

Na melhor interpretação de sua carreira (o que não é difícil), Melissa McCarthy (de Caça-Fantasmas, 2016) é a protagonista de Poderia Me Perdoar? (Can You Ever Forgive Me, 2018). Ela vive uma escritora intragável que já não consegue arrumar trabalho, apesar do talento para a escrita. Por acaso, ela vê uma salvação em forjar cartas de gente famosa, vendendo para colecionadores pelo suficiente para pagar o aluguel.

Lembrando os melhores filmes de falsários, como Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002), a diretora Marielle Heller (de O Diário de uma Adolescente, 2015) se equilibra bem entre o drama e a comédia, mantendo um humor irônico bem interessante. O roteiro, assinado por Nicole Holofcener (de À Procura do Amor, 2013) e Jeff Whitty, cobre bem os fatos que precisamos saber, tornando a sessão bem enxuta e divertida.

Uma trilha sonora agradável se junta a uma fotografia sensível, que ressalta a beleza da cidade sem idealizá-la. Entre vários acertos, o maior é a participação de Richard E. Grant (de Logan, 2017). Ele aparece de repente, em um bar, e se torna o melhor (e único) amigo da escritora, e rouba a cena sempre que está nela. Não à toa, ambos receberam indicações da Academia, além de Melhor Roteiro Adaptado. O filme não ganhou nada, mas a atenção é muito bem-vinda.

A dupla merecidamente foi indicada ao Oscar

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Na Netflix: Polar e Velvet Buzzsaw

por Marcelo Seabra

Polar

Nada original, a ideia de um assassino fodão que é perseguido por todos os outros é sustentada por um nome apenas: Mads Mikkelsen (o Hannibal da TV). Já vimos essa trama em filmes como John Wick (2014) e nas adaptações de quadrinhos RED (2010) e O Procurado (Wanted, 2008). E Polar (2018) é mais um produto similar, também baseado em quadrinhos, pulando das revistas para a Netflix.

Mikkelsen, um ótimo ator que precisa fazer pouco para satisfazer, vive um assassino conhecido como Black Kaiser que se aproxima dos 50 anos, quando a instituição para a qual trabalha o obriga a se aposentar. Mas a aposentadoria custa caro aos empregadores, que optam por eliminá-lo, enviando um grupo de alta periculosidade atrás dele. É nesse ponto em que começa o festival de absurdos, com cenas de luta e sexo igualmente trabalhadas, nas quais o diretor sueco Jonas Åkerlund se mostra criativo. Pena o roteiro ser tão estúpido.

Duas participações especiais distraem o público da mesmice da trama, e temos Vanessa Hudgens mais uma vez tentando se desvincular de sua imagem de certinha de High School Musical. Uma emboscada numa casa vale o ingresso – se fosse pago – e o que se segue é o esperado, apesar de uma ou outra surpresa. Para quem gosta de ver uns tiros voando e socos acertando seus alvos, é um prato cheio.

Velvet Buzzsaw

A Netflix reuniu o trio de O Abutre (Nightcrawler, 2014) para mais um filme estranho, com personagens de moral duvidosa num mundo cheio de intrigas e mentiras. Ao invés de câmeras perseguindo acidentes à noite, Velvet Buzzsaw (2019) se aventura pelo círculo da arte, nos apresentando a todo tipo de gente que compõe esse universo. Mas, dessa vez, o diretor e roteirista Dan Gilroy perdeu a mão e não conseguiu amarrar as pontas que deixou soltas.

Novamente como protagonista, Jake Gyllenhaal agora é um crítico de arte com influência tamanha que é capaz de valorizar ou derrubar uma obra ou artista. Em meio a uma rotina de sorrisos falsos e palavras vazias, ele se depara com as pinturas de um desconhecido recentemente falecido que havia deixado um pedido claro: no caso de sua morte, que destruíssem toda a sua obra. A ganância fala mais alto e logo tudo é colocado à venda.

Gilroy aproveita essa alegoria para levantar algumas discussões sobre o preço da arte e sua comercialização. Ao criticar a falta de profundidade daquelas pessoas, ele acaba realizando uma obra igualmente rasa. Como trabalha com o sobrenatural, ele até ameaça criar regras, algo necessário para quem está acompanhando e chegou agora. Mas essas regras logo são deixadas de lado, o que deixa o público meio perdido. E os acontecimentos que se seguem entram numa mesmice que será difícil controlar o sono.

Fechando o trio de O Abutre, Rene Russo (acima) vive a dona da galeria que é mais próxima do crítico de Gyllenhaal. O elenco ainda conta com Zawe Ashton, Tom Sturridge, Natalia Dyer, Billy Magnussen e os ótimos John Malkovich e Toni Collette. Mesmo com todos esses nomes, Velvet Buzzsaw (que aparece no IMDB como Toda Arte É Perigosa) não anima. O longa se constrói sobre um mistério que nunca se revela e que não faz sentido. Não funciona como terror, muito menos como drama. É mais um filme para sumir no meio do enorme acervo da Netflix.

Gyllenhaal é atração principal de Velvet Buzzsaw

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