Os Melhores de 2025

Como é costume, virada de ano é sinônimo de balanço com a lista dos melhores filmes. Alguns chegaram ao Brasil em 2025, mesmo sendo de 2024, e só entram os que já foram lançados comercialmente no Brasil. Aqueles que foram criticados aqui têm link para o texto completo. É bom reforçar que não dá para ver tudo, o tempo anda escasso. Faltas importantes devem ser sentidas, e já adianto a de O Agente Secreto, erro que pretendo corrigir em breve.

Ao invés de fechar um top 10, repassei as anotações do ano todo e iria indicar todos os destaques, na ordem em que foram assistidos. Assim, ficariam várias recomendações para quem não os viu. No entanto, a lista ficou em 12, só dois de diferença.

Agradeço a quem acompanhou O Pipoqueiro em 2025 e seguimos juntos para mais um ano. O esforço para ver o máximo de produções continua sendo feito, e o de escrever sobre elas também. A repescagem foi grande, confira nos posts anteriores. Um grande ano a todos, com ótimos filmes!

Anora

Conclave

A Verdadeira Dor

Um Completo Desconhecido

Better Man

Pecadores

Homem com H

Superman

A Vida de Chuck

Os Enforcados

Uma Batalha Após a Outra

Valor Sentimental

“Olha aí, primo, estamos entre os melhores filmes de 2025 pro Pipoqueiro”

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Repescagem 2025: Pacote de Filmes

F1 (dirigido por Joseph Kosinski)

Impulsionado pelo acesso sem precedentes aos bastidores da Fórmula 1, inclusive com a presença de vários nomes reais, o filme aposta na imersão como principal motor narrativo, acompanhando um piloto veterano que retorna à categoria principal para provar que ainda há espaço para ele em um esporte obcecado por juventude e dados. Brad Pitt encarna esse arquétipo com carisma relaxado, quase melancólico, enquanto a direção de Joseph Kosinski transforma cada curva em espetáculo sensorial, buscando um resultado ainda superior ao de Top Gun: Maverick (2022). A história segue o manual do drama esportivo clássico, com rivalidades previsíveis e conflitos resolvidos na pista, mas o impacto vem menos do roteiro batido do que da autenticidade cuidadosamente construída, com a técnica imperando.

Missão: Impossível – O Acerto Final (Mission: Impossible – The Final Reckoning – dirigido por Christopher McQuarrie)

No suposto encerramento da saga de Ethan Hunt, a narrativa gira em torno de uma ameaça abstrata e contemporânea — o controle total da informação —, servindo como pretexto para uma sucessão de desafios que testam não apenas a lógica do mundo, mas o próprio corpo do protagonista. Tom Cruise, novamente no centro de tudo, atua como último bastião de um cinema baseado em presença física, enquanto o elenco de apoio funciona mais como engrenagem do que como contraponto dramático real. É muita gente boa reunida para servir como escada. A história avança em escala global, com perseguições e dilemas morais que prometem muito mais do que entregam, reforçando a sensação de que o filme está mais preocupado em se afirmar como evento do que em fechar seus conflitos com densidade. A sensação de que tudo foi ensaiado permanece até o fim.

Pecadores (Sinners, dirigido por Ryan Coogler)

O foco do filme recai sobre personagens aprisionados em escolhas duvidosas, em um contexto onde fé, poder e violência se misturam sem possibilidade clara de redenção. A trama acompanha figuras que sabem estar erradas, mas seguem adiante mesmo assim, num jogo de culpa que se acumula ruma a uma conclusão que eles esperam que seja positiva. O diretor Ryan Coogler parte para uma história diferente de suas escolhas usuais, com muita música envolvida. O elenco, liderado por Michael B. Jordan, em mais uma colaboração com o diretor, sustenta esse peso moral com atuações contidas, evitando o melodrama fácil. Quando o roteiro confia nos silêncios e nas tensões implícitas, ele cresce, como num bom filme de terror.

Thunderbolts (dirigido por Jake Schreier)

Na periferia do universo Marvel, os Thunderbolts são como um time B dos Vingadores. A história se organiza em torno de um grupo formado não por heróis, mas por sobras: personagens usados, descartados e reunidos mais por conveniência política do que por afinidade. Florence Pugh dá densidade emocional à narrativa ao interpretar “a outra Viúva Negra”, alguém que oscila entre cinismo e desejo de pertencimento, enquanto figuras como o Soldado Invernal de Sebastian Stan reforçam a ideia de passado mal resolvido como identidade. A trama aposta em missões sujas e acordos morais questionáveis, mas frequentemente recua quando ameaça tensionar demais o status quo. O resultado é um filme que ensaia maturidade e, mesmo sem chegar muito longe, consegue divertir.

Casa de Dinamite (A House of Dynamite, dirigido por Kathryn Bigelow)

O thriller se constrói a partir de um espaço fechado, físico e emocional, no qual personagens em atrito transformam decisões pequenas em desastre em potencial. A história avança lentamente, apresentando relações frágeis, interesses conflitantes e um clima constante de iminência, mais interessado no “antes” do colapso do que em sua explosão de fato. O elenco trabalha de forma contida, sustentando a tensão no olhar e na pausa, ainda que o roteiro nem sempre saiba quando parar. Quando evita o excesso explicativo e confia na ameaça latente, o filme encontra força; quando cede à necessidade de impacto, dilui aquilo que tinha de mais instigante. E acaba.

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Repescagem 2025: Homem com H

Há filmes que não pedem licença: entram em cena com a disposição de encarar o que costuma ser varrido para debaixo do tapete. Homem com H (2025) é um deles. O longa, dirigido por Esmir Filho, não se interessa por suavizar arestas nem por oferecer um retrato confortável de seu personagem central. Ao contrário: escolhe o confronto direto, apostando que a verdade, quando bem encenada, é mais potente do que qualquer verniz conciliador.

No centro de tudo está Jesuíta Barbosa, que aproveita uma das melhores oportunidades de sua carreira: interpretar o cantor Ney Matogrosso. Seu trabalho não se limita à imitação ou ao gesto externo: há um mergulho corporal e emocional que sustenta o filme inteiro. Barbosa constrói um personagem pulsante, contraditório, às vezes desagradável, mas sempre humano. A homossexualidade não surge como “tema”, e sim como identidade vivida, com desejo, culpa, liberdade e medo coexistindo no mesmo espaço. É uma atuação que exige entrega e que encontra no ator alguém disposto a se expor o necessário.

O elenco ao redor acompanha esse movimento com grande segurança. Não há atuações infladas, nem personagens tratados como escada dramática. Cada figura, algumas bem famosas, que atravessa a trajetória do protagonista parece existir para além da função narrativa, o que reforça a sensação de um mundo vivo, atravessado por afetos, tensões e silêncios. O filme confia nos atores e, em troca, recebe interpretações maduras e precisas, na medida certa.

A grande coragem de Homem com H está na forma como encara seus temas mais espinhosos. A homossexualidade é mostrada sem filtros morais ou didatismo, e a AIDS surge com o peso histórico e emocional que lhe é devido, sem melodrama nem exploração sensacionalista. O filme olha para esse período de frente, recusando tanto a idealização quanto o discurso higienizado que costuma transformar dor em lição edificante.

Esmir Filho opta por uma narrativa fragmentada, que acompanha o personagem em diferentes momentos de sua vida. Essa escolha, na maior parte do tempo, funciona como reflexo de uma existência marcada por rupturas e reinvenções constantes. No entanto, é também aí que reside o único tropeço mais evidente do filme. O salto entre acontecimentos importantes, especialmente na reta final, cria uma sensação de episódios. Quando o espectador começa a assimilar plenamente o peso do percurso, o filme simplesmente termina, de forma abrupta, quase seca demais para uma história que parecia pedir algum tipo de conclusão que pontuasse que a vida de Ney segue a pleno vapor.

Ney, Esmir e Jesuíta no lançamento do filme

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Repescagem 2025: A Vida de Chuck

Baseado em um conto pouco conhecido de Stephen King, do livro Com Sangue, A Vida de Chuck (The Life of Chuck, 2025) é daqueles filmes que parecem surgir fora do radar e, justamente por isso, acabam se impondo com mais força. Não há aqui a tentativa de capitalizar o King do terror imediato ou da iconografia pop. O diretor Mike Flanagan se interessa pelo lado mais silencioso do escritor, aquele que usa o sobrenatural como ferramenta de reflexão, não como espetáculo. O resultado é um dos filmes mais sólidos e inesperados do ano. E gostosos de assistir.

A premissa, à primeira vista modesta, acompanha a vida de um homem comum narrada de trás para frente, começando pelo fim. Essa inversão não funciona como truque de roteiro, mas como chave conceitual. O filme sugere desde o início que a morte é apenas o ponto final visível de algo muito maior, e que o verdadeiro mistério está no percurso. Flanagan, velho conhecido do mundo de King, conduz essa estrutura com cuidado, evitando explicações excessivas e confiando na força acumulativa das cenas, muitas vezes construídas a partir de gestos pequenos e situações aparentemente triviais.

O sobrenatural, marca quase inevitável tanto de King quanto de Flanagan, surge de forma discreta, sutil. Ele não interrompe a narrativa nem se impõe como ameaça clara, funcionando mais como um desajuste no mundo, algo fora do lugar, mas nunca completamente explicado. É uma escolha inteligente, que preserva o tom melancólico do filme e impede que a história escorregue para o sensacionalismo. O estranho aqui não assusta: inquieta.

O elenco sustenta essa abordagem com precisão. Tom Hiddleston (o Loki do Universo Marvel) tem uma atuação notadamente contida, talvez uma das mais maduras de sua carreira. Ele compõe Chuck como alguém que carrega o peso do tempo sem dramatizá-lo, trabalhando com silêncios, olhares e uma presença que nunca pede o centro da cena, mas sempre o tem. Os atores que interpretam Chuck em outras fases da vida mantêm uma coerência emocional rara, como se o personagem fosse menos uma soma de momentos e mais um estado contínuo de consciência.

A direção de Flanagan é funcional no melhor sentido da palavra. Ele filma sem ansiedade, respeitando o ritmo interno da história e resistindo à tentação de sublinhar emoções. A montagem acompanha essa lógica, deixando que as conexões entre passado e futuro se formem de maneira orgânica. Nada parece calculado para arrancar lágrimas. Quando a emoção surge, é porque o filme construiu o terreno para isso.

A Vida de Chuck não é um filme sobre grandes feitos ou revelações espetaculares. É sobre a beleza do ordinário, ou como uma vida comum pode conter um universo inteiro. O diretor já havia topado o grande desafio de dar sequência ao clássico O Iluminado (The Shining, 1980), nos dando o ótimo Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019). Ao adaptar um conto menor de Stephen King com tamanha sensibilidade, Flanagan entrega uma obra que dialoga com o fim, mas celebra o percurso. Um filme sereno, preciso e, sem exagero, um dos melhores do ano.

Flanagan apresenta parte de seu elenco

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Repescagem 2025: Springsteen: Salve-me do Desconhecido

Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me From Nowhere, 2025) é um filme que se recusa a funcionar no ritmo que se espera de uma cinebiografia musical. Em vez da ascensão fulminante, dos conflitos espetacularizados e do desfile de sucessos, o longa aposta num ritmo lento, na repetição e em uma sensação constante de deslocamento. É um filme sobre um artista famoso, mas pouco interessado na fama e no distanciamento que ele julga que virá. O centro aqui é o processo e, sobretudo, o desconforto que ele produz.

A narrativa, baseada no livro de Warren Zanes, acompanha um recorte específico da carreira de Bruce Springsteen, mas evita transformá-lo em mito. O que vemos é um sujeito assustado com a proporção que seu trabalho tomou. Seus primeiros dois discos não atingiram grande sucesso comercial, o que começou no terceiro e atingiu um pico no quinto, The River. O longa parte do final da turnê de promoção desse disco, quando ele volta para casa e começa a trabalhar no que seria seu próximo disco. Os executivos da gravadora esperam aproveitar aquele momento de alta para faturar, mas Bruce pensa diferente. Em suas reflexões, relembra a infância e o relacionamento complicado com o pai (Stephen Graham), o que impacta as novas composições.

O ritmo deliberadamente arrastado não é um defeito, mas uma estratégia: o filme cria um tempo morto que espelha o estado mental do personagem, preso entre a necessidade de seguir em frente e a incapacidade de se reconhecer onde está. O estranhamento nasce justamente dessa recusa em acelerar. Springsteen compra um gravador e produz em casa, sozinho, o que seriam esboços de suas novas canções, apenas para mostrar para a banda e acelerar as sessões no estúdio. Ele conhece e se interessa por uma mulher (Odessa Young), mas sempre a mantém à distância. É curioso apontar que a mulher, Faye, foi inventada pelo (geralmente fraco) roteirista e diretor Scott Cooper, reforçando a visão depressiva que temos do protagonista. 

É nesse espaço de suspensão que a relação entre Springsteen e seu empresário e produtor, Jon Landau (acima), ganha peso dramático. O filme trata esse vínculo menos como parceria profissional e mais como um pacto ambíguo, marcado por uma confiança que beira a fé. As conversas entre os dois raramente são diretas; o que importa está sempre no subtexto, nas concessões silenciosas e nos limites que não sabemos bem onde começam ou terminam. O empresário não surge como vilão nem como mentor iluminado, mas como alguém que também opera no escuro, tentando administrar um talento que não se deixa organizar com facilidade. Tanto Springsteen quanto Landau tiveram papel ativo como consultores na obra, mas afirmam não terem mexido em nada.

Jeremy Allen White, o astro da série The Bear, sustenta o filme com uma atuação que evita a caricatura e a imitação. Até porque ele não se parece fisicamente com o cantor. Ele não tenta “virar” Springsteen, e sim captar uma postura, um modo de ocupar o espaço, uma inquietação permanente. Seu Bruce é fechado, pouco comunicativo, muitas vezes opaco. Aí mora uma armadilha: pode-se julgar o personagem chato, cansativo, características que facilmente se transferem ao filme. White trabalha com contenção, deixando que o desconforto se manifeste no corpo e no silêncio, sem precisar verbalizá-lo o tempo todo. O perfeccionismo que ele passa a empregar nas demos o torna um sujeito complicado de lidar, quando Jeremy Strong, vivendo Landau, tem a chance de brilhar.

Springsteen: Salve-me do Desconhecido exige paciência e entrega. Ele não oferece respostas claras nem grandes momentos catárticos. O que propõe é uma experiência de aproximação lenta, quase desconfortável, com um artista em conflito com a própria imagem e com as engrenagens que o cercam. Ao escolher o estranhamento como motor narrativo, o filme se afasta da lógica celebratória e toma um caminho que pode não agradar a todos. Bem como as opções de carreira de Springsteen.

Springsteen afirmou publicamente que já pensa em uma sequência

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Repescagem 2025: Blue Moon

Ambientado em um recorte histórico bem delimitado, Blue Moon (2025) aposta na reconstrução de personalidades e ambientes de época com grande apuro técnico, como se estivesse interessado em preservar uma certa memória cultural, mostrando exatamente como as coisas aconteceram. O problema é que essa fidelidade formal, enquanto os minutos passam, cobra seu preço, fazendo parecer um cansativo teatro filmado.

Blue Moon é um drama centrado em um encontro entre figuras do meio cultural norte-americano dos anos 1930. O protagonista é o compositor e letrista Lorenz Hart, habitual parceiro de Richard Rodgers, que foi seu protegido. O filme acompanha uma noite específica, a do lançamento da peça Oklahoma!, marcada por conversas, tensões e acertos de contas. Hart se vê confrontado pelo avanço do tempo, pela transformação da indústria do entretenimento e pela percepção de que seu espaço está se estreitando, já que ninguém mais aguenta seus excessos. Oklahoma! foi escrita por Rodgers e Oscar Hammerstein e Hart se ressente de ter sido deixado de lado.

Ethan Hawke surpreende fazendo esse papel no mesmo ano em que lançou O Telefone Preto 2 (The Black Phone 2, 2025), mostrando sua versatilidade. Ele sustenta o filme com uma interpretação segura, consciente do tom que a obra exige. Seu personagem é construído menos por grandes arcos dramáticos e mais por inflexões de voz, pausas calculadas e uma presença que domina a cena. Hawke entende que Blue Moon depende de ritmo interno e domínio da fala, e entrega exatamente isso: um trabalho técnico, preciso, que nunca descamba para o excesso. É uma atuação que mantém o filme em pé mesmo quando ele ameaça se repetir. Ajuda estar em sua oitava parceria com o diretor Richard Linklater, da “trilogia do Antes”.

A narrativa se constrói quase toda a partir do embate verbal entre os personagens, sendo os principais, além de Hart: Richard Rodgers (Andrew Scott, de Vivo ou Morto, 2025), Elizabeth Weiland (Margaret Qualley, de A Substância, 2024) e o barman Eddie (Bobby Cannavale, de MaXXXine, 2024), que sabe que não deve, mas continua servindo o alcóolatra Hart. Os diálogos, criados a partir de cartas entre Hart e Weiland, exploram as relações profissionais desgastadas, vaidades, dependências emocionais e a dificuldade de lidar com a própria obsolescência. Mais do que contar uma história de ascensão ou queda, o filme observa um artista em crise, preso entre o passado que o consagrou e um futuro que já não parece lhe pertencer. É menos um retrato biográfico tradicional e mais um estudo de caráter sobre ego, criação e esgotamento.

O problema é que o filme parece confiar demais nessas trocas entre os atores. A ausência de variação visual e rítmica transforma a agilidade dos diálogos em um exercício de resistência. O que no início soa estimulante, aos poucos se torna cansativo, não por falta de qualidade, mas por saturação. Falta ar, falta deslocamento, falta uma dinâmica que vá além da palavra.

Blue Moon termina como um filme correto, bem interpretado e formalmente coerente, mas também exaustivo. É um trabalho que se contenta em permanecer num único registro até o fim. Em seu trabalho anterior, Assassino por Acaso (2023), Linklater conseguiu um ótimo equilíbrio entre comédia, ação e romance, o que não repetiu aqui. Ao optar por filmar o teatro sem traduzi-lo plenamente para o cinema, o diretor entrega bons momentos isolados, mas deixa a sensação de que poderia ter ido além se tivesse ousado sair um pouco do palco.

Linklater levou seu elenco a Berlim para o lançamento

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Repescagem 2025: Jay Kelly

Jay Kelly, disponível na Netflix, é um filme que se coloca num lugar delicado entre a comédia e o drama, com uma reflexão sobre a vida sob os holofotes. George Clooney (de Tudo Pelo Poder, 2011) interpreta Jay, uma estrela de cinema madura que, em uma viagem pela Europa com sua equipe e, em especial, com seu empresário, Ron, começa a confrontar não só o incerto futuro de sua carreira, mas também as dificuldades nas relações pessoais com quem é mais próximo. Parece tão familiar quanto previsível principalmente para quem já viu obras do diretor Noah Baumbach (de História de Um Casamento, 2019), que passam por territórios parecidos.

A escolha de Clooney para o papel título é bastante acertada. Ele carrega no olhar e em sua presença em cena uma espécie de cansaço existencial que casa com a proposta do filme: um homem famoso e bem-sucedido que parece pouco certo de quem ele é fora daquela persona pública. Essa tensão implícita entre a imagem e o sujeito real é o que sustenta grande parte da narrativa, e Clooney a explora com gestos comedidos, que evitam o melodrama.

O roteiro, coassinado por Baumbach e Emily Mortimer (a Candy do filme), se apoia em diálogos que muitas vezes atingem um ritmo ágil e espirituoso, e revelam camadas de relacionamento e frustrações de forma mais eficiente do que os momentos silenciosos. Há um prazer claro em ouvir personagens articularem suas inseguranças e contradições, e é nesse terreno verbal que Jay Kelly encontra seus melhores instantes.

No entanto, essa fluência nos diálogos não impede que a trama siga caminhos familiares demais. A progressão da crise pessoal de Jay, as tentativas de reconciliação com familiares distantes e o percurso quase ritualístico pela Europa acabam por dar ao filme um contorno previsível: sabe-se cedo demais onde cada arco irá desembocar, ainda que o como seja interessante de acompanhar.

A valorização do papel do empresário vivido por Adam Sandler (de Jóias Brutas, 2019) é uma das escolhas mais sensíveis do filme. Ron não é apenas o suporte prático de Jay, ele representa uma espécie de espelho moral e emocional, alguém que é leal e acredita em Kelly, fazendo o lado bom dele aparecer, e não apenas o ego. A interação entre os dois acrescenta uma textura humana que, em muitos momentos, enriquece o que poderia ser apenas mais um estudo de vaidade hollywoodiana.

Embora simpático, Jay Kelly é um filme mediano, que trabalha temas relevantes, como identidade, legado, arrependimento, sem nunca ultrapassar a fronteira do familiar. É um filme cativante, a que se assiste com interesse, mas cuja previsibilidade narrativa e hesitação em aprofundar de forma mais ousada suas propostas deixam a sensação de oportunidade apenas parcialmente aproveitada.

Clooney empresta seu carisma ao personagem título

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Repescagem 2025: Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Chegando esse mês na Netflix, Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man, ou simplesmente Knives Out 3) confirma o que já vinha ficando claro nas duas aventuras anteriores da franquia: quando o mistério é bem bolado, o cinema de gênero pode ser ao mesmo tempo engenhoso e divertido. Rian Johnson retorna com autoridade ao universo que criou, assinando um roteiro bem escrito que se equilibra com uma trama complexa e clara que exige que o espectador fique dedicado até o último minuto.

O mistério central — intricadamente costurado e pontuado por reviravoltas que raramente soam gratuitas — é um dos grandes méritos do filme. Johnson sabe que o público contemporâneo já não se satisfaz com artifícios óbvios; ele constrói uma teia onde cada personagem carrega motivos críveis, e onde a verdade, quando finalmente exposta, ressoa menos como golpe de mestre e mais como consequência lógica de pistas inteligentemente distribuídas. Não se trata apenas de surpreender, mas de fazer sentido.

Essa verossimilhança se reflete nos personagens. Cada figura que circula pelo enredo possui uma coerência interna que vai além do estereótipo do “suspeito de mistério policial”. Ao invés de servirem apenas como peças expositivas, eles respiram, com desejos, contradições e pequenas falhas que os tornam palpáveis. Essa humanização dos personagens enriquece a experiência, porque o suspense não se apoia apenas no quebra-cabeça, mas nas relações entre quem está envolvido.

E boas atuações completam esse quadro sólido, começando pelo mestre de cerimônias, o grande detetive Benoit Blanc, um Daniel Craig ainda mais à vontade no papel. Ele faz parecer que o personagem terá vida eterna, repetindo a dobradinha com Johnson sempre que convocado. Como de costume, os demais nomes são todos novos, com Josh O’Connor à frente, seguido de Josh Brolin, Glenn Close, Jeremy Renner, Mila Kunis, Andrew Scott e etc etc etc. Todos muito bem, com destaque para a segurança de O’Connor e Close, sempre roubando cenas.

A condução do diretor é outro elemento que distingue Knives Out 3. Johnson mantém um pulso firme sobre o ritmo, alternando momentos de investigação meticulosa com intervalos de respiro que jamais soam dispersivos. Ele nunca perde de vista que, em um filme de mistério, a montagem, a composição de cena e o controle do tempo são tão essenciais quanto as palavras no papel.

Knives Out 3 não reinventa a roda, e nem pretende. O que ele faz é lembrar que, com um bom roteiro, personagens críveis e uma direção atenta, o cinema popular ainda pode oferecer mais do que puro entretenimento: ele pode exercer um convite inteligente à participação ativa do espectador. É um filme que honra suas promessas e, acima de tudo, reafirma que o bom mistério continua sendo, quando bem feito, uma forma refinada de narrativa cinematográfica. Pena que não passou pelos cinemas.

O padre e o detetive são os personagens principais desse mistério

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Stephen King chega aos cinemas até como Richard Bachman

São tantos os livros de Stephen King adaptados ao Cinema todos os anos que sobra até para Richard Bachman, o pseudônimo falecido. Na década de 70, o escritor adotou o outro nome para não saturar o mercado, podendo assim lançar mais de um livro por ano, além de testar seu talento, vendo se conseguia vender sem o seu já estabelecido nome por trás. Pois a proposta, agora, chegou ao cinema, com dois filmes recentes baseados em livros assinados por Bachman. Só que, na ficha técnica, no entanto, consta King como o autor: ele realmente vende mais.

A Longa Marcha (The Long Walk, 2025) é um filme aparentemente simples, com um orçamento baixo para os padrões de blockbusters (U$20 milhões), que consegue um resultado muito bom. Apostando nas relações entre os personagens, o roteiro revela no conta-gotas o que precisamos saber sobre eles para nos importarmos, e logo temos nossos favoritos.

Seguindo um tema pouco explorado na época, que ganhou muita força nos anos 2000, King escreveu sobre um futuro (próximo) no qual uma crise econômica quebrou os Estados Unidos e o país promove anualmente uma disputa, selecionando um candidato de cada um dos 50 estados para a Longa Marcha. Eles saem caminhando e precisam manter o ritmo, ou recebem advertências. Na terceira, são executados pelos militares que acompanham a prova. A ideia é promover a bravura dos inscritos, que serviriam como exemplos para os cidadãos empobrecidos em casa que não viam uma luz no fim do túnel.

O diretor, Francis Lawrence, tem experiência com o tema, trazendo em seu currículo quatro longas da franquia Jogos Vorazes, além de Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007). E o roteiro é de J.T. Mollner, mesmo nome que escreveu o surpreendente Desconhecidos (Strange Darling, 2023). No elenco, Cooper Hoffman (de Licorice Pizza, 2021) lidera um grupo menos conhecido, mas muito eficaz – e você deve reconhecer o eterno “Jojo Rabbit” Roman Griffin Davis. Do outro lado, liderando os fascistas executores, ninguém menos que Mark Hamill, o próprio Luke Skywalker, que dá o peso necessário ao misterioso Major.

A outra grande estreia da temporada que traz o nome de King (onde deveria constar Bachman) é O Sobrevivente (The Running Man, 2025), nova adaptação do livro de 1982. O diretor e roteirista Edgar Wright é responsável por bons filmes, como Todo Mundo Quase Morto (Shawn of the Dead, 2004) e Noite Passada em Soho (Last Night in Soho, 2021). Ao mesmo tempo, assina obras duvidosas, como Scott Pilgrim (2010) e Baby Driver (2017). Infelizmente, esse novo trabalho cai na segunda turma, com saídas e soluções bem fracas que, desde o início, deixam claro a preguiça dos roteiristas (Wright e Michael Bacall, também de Scott Pilgrim).

O filme começa mostrando (sem querer) que Ben Richards não era um bom funcionário, e ao mesmo tempo a empresa não dava boas condições de trabalho. Mostrando o sujeito como um coitadinho, vítima do sistema, acompanhamos sua luta para conseguir um paracetamol para a filha, que arde em febre. Parecendo sem saída, Richards aceita participar do programa espetaculoso The Running Man, no qual ele e mais dois candidatos devem sobreviver um mês sendo caçados por psicopatas mascarados contratados da Rede. E qualquer cidadão de bem que queira treinar a pontaria e ganhar um dinheiro.

O longa é bem mais fiel ao livro que a primeira adaptação levada aos cinemas, de 1987, que tinha Arnold Schwarzenegger como Richards. O personagem funcionava muito mais como um militar rebelde que se recusou a cumprir ordens fascistas. O atual, vivido pelo simpático Glen Powell (de Twisters, 2024), demonstra ter habilidades e consegue proezas que nenhum pai de família comum conseguiria. Se o programa, em 1987, era restrito ao prédio da Rede, agora é no mundo, o que torna as coisas para Richards muito mais difíceis. Ou, ao menos, deveria.

Dá para perceber, nas entrelinhas, que a intenção de Wright era fazer um filme divertido, mas aproveitar para fazer algumas críticas. Todas cabíveis, é bom afirmar. O programa força a barra de várias formas e o público compra as ideias facilmente. Tudo é deturpado via Inteligência Artificial, algo que já acontece hoje, e todos acreditam cegamente. Richards é pintado da forma que interessa aos executivos do canal, e isso torna o produtor Dan Killian (Josh Brolin, de A Hora do Mal, 2025) mais poderoso que o presidente de um país. O problema é que tudo isso é mostrado superficialmente e mal amarrado, parecendo o trabalho de um adolescente afobado.

A Longa Marcha e O Sobrevivente são duas histórias passadas em futuros distópicos, que ressaltam a espetacularização da miséria e mostram como o mundo ruma facilmente aos braços do fascismo quando a situação econômica não está boa. É muito fácil acreditar numa fala de crescimento e abundância quando não se tem nada, nem esperança. E os dois filmes atingiram quase o mesmo resultado nas bilheterias: pouco mais de US$60 milhões. A diferença é que A Longa Marcha faturou três vezes o seu orçamento, enquanto O Sobrevivente está longe dos US$110 milhões gastos.

Mark Hamill reforça o elenco de A Longa Marcha

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PTA e DiCaprio se unem para Uma Batalha Após a Outra

Depois de passar pelos cinemas nacionais, Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025) chega aos serviços digitais para aluguel (como o Prime Video) e tem emplacado indicações em premiações como os Globos de Ouro, Critics Choice Awards e diversas associações. Não é difícil prever que o longa deve levar algumas das estatuetas principais da Academia, como Melhor Filme, Diretor e Ator. Seria mais uma consagração para Leonardo DiCaprio e o primeiro Oscar de Paul Thomas Anderson.

Assim como em Vício Inerente (Inherent Vice, 2014), o diretor e roteirista trabalha em cima de uma história de Thomas Pynchon, dessa vez focando em um grupo revolucionário que libertava imigrantes presos nos Estados Unidos. Passados 16 anos, reencontramos Pat Calhoun (DiCaprio), um sujeito de meia idade que passa seus dias invariavelmente chapado de drogas e álcool, enquanto a responsável filha adolescente (Chase Infiniti) segue com seus estudos.

Como que inspirado no clássico Os Miseráveis, Anderson cria um vilão que persegue implacavelmente o grupo, sendo Pat seu alvo principal. Ao contrário do Inspetor Javert, a motivação do Coronel LockJaw (Sean Penn, de Licorice Pizza, também de Anderson – acima) é sexual: depois de ser humilhado pela terrorista Perfidia (Teyana Taylor, de Até a Última Gota, 2025), ela passa a desejá-la. Assim, temos o nosso núcleo principal, cercado por coadjuvantes bem interessantes. Benicio Del Toro (de O Esquema Fenício, 2025) talvez seja o melhor, e menções em premiações não serão acidentes.

Quase como um cosplay de Jack Nicholson, DiCaprio passa boa parte do filme de roupão, com uma acertada cara de perdido, entre o trágico e o cômico, que cabe bem em seu personagem. Penn também capta com sucesso o espírito de seu militar perturbado, que monta toda uma operação para fins pessoais e consegue perturbar uma cidade inteira. Numa mistura de espírito livre e depressão pós-parto, Taylor ainda consegue acrescentar sensualidade a Perfidia, a razão de ser desse filme. Tudo gira em torno dela, e para ela.

Com essa premissa maluca, Anderson faz um filme acelerado, bem montado, que não deixa muito tempo para pensar no absurdo do cenário. Rapidamente, você compra a ideia e segue junto com os personagens. Os heróis são os ditos terroristas e os vilões são as autoridades, os homens de bem, fascistas membros de um clubinho tão exclusivo quanto ridículo. O diretor aproveita para dar umas cutucadas, apontar uns dedos, da forma mais bem sucedida: fazendo um filme divertido.

PTA dirige DiCaprio rumo a prêmios

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