Pacote do Oscar 2026

Bugonia – Indicado a 4 Oscars (Filme, Trilha Sonora Original, Atriz Principal e Roteiro Adaptado)

A nova parceria entre o diretor Yorgos Lanthimos e sua musa Emma Stone é mais estranha que a média, com uma pitada de comentário social. Há, não só nos Estados Unidos, muitas pessoas que acreditam em teorias malucas e vivem como se elas fossem influenciar suas vidas. Uma dessas sandices é de que há uma raça alienígena entre nós, em cargos e posições importantes, e é nisso que aposta o personagem do ótimo Jesse Plemons (de Tipos de Gentileza, 2024, de Lanthimos). Ele sequestra uma CEO (Stone) de uma empresa rica para evitar que a raça dela destrua a Terra.

Os diálogos são afiados e os duelos travados entre Stone e Plemons são divertidos, deixando de fundo a crítica a esses malucos que acreditam que estrelas de Hollywood bebem sangue para se manterem jovens, Elvis está vivo numa fazenda e assim por diante. Todo um cenário interessante montado ao longo do filme é jogado fora por um roteiro preguiçoso, que escolhe uma saída fácil e burra. Na busca por mostrar o quanto é diferentão, Lanthimos passou da conta e errou o alvo.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You) – Indicado a 1 Oscar (Atriz Principal)

Linda tem uma filha cuja doença nunca fica clara, mas sabemos que demanda muito da mãe. O apartamento da família teve uma infiltração, abriu-se um buraco e ela não consegue resolver as coisas com o senhorio. O marido tem um emprego que o mantém longe por longos períodos, o que o impede de ajudar. E a relação com seu psicólogo é complicada, já que os dois trabalham juntos, o que os faz participar da vida um do outro mais do que deveriam.

O filme busca colocar o público no mesmo ponto de vista da protagonista, o que dá um nervoso danado. E a ótima atuação de Rose Byrne, vencedora em Berlim, é a cereja do bolo, mostrando Linda como uma pessoa normal, crível, por quem logo criamos empatia. A diretora e roteirista Mary Bronstein levou 17 anos para ocupar as funções novamente, desde seu promissor Yeast (2008), e devemos torcer para que não demore tanto a atacar novamente.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet – Indicado a 8 Oscars (incluindo Filme, Direção, Atriz e Roteiro Adaptado)

Em março de 2020, quando o mundo parava frente à pandemia de COVID-19, chegava às livrarias o livro de Maggie O’Farrell que requentava um mito antigo: o de que Shakespeare teria escrito seu Hamlet inspirado pela morte de seu filho, Hamnet, vitimado pela peste bubônica. É bom esclarecer que trata-se de uma ficção, a começar da suposição de que o bardo inglês escreveria histórias com bases autobiográficas – sem mencionar os aspectos espirituais/fantasiosos da trama. Mas deve-se reforçar que o filme que adapta esse livro é de fato muito bem realizado e conta com duas atuações grandiosas, com Jesse Buckley e Paul Mescal vivendo o casal Shakespeare.

Quando o longa começa, conhecemos as duas famílias e acompanhamos os filhos, Agnes e William, se apaixonarem e constituírem seu próprio núcleo. Enquanto Agnes, retratada quase como uma bruxa (boa), prefere viver na natureza do campo, Shakespeare sabe que sua vida está onde o público está, e se divide entre sua casa e a cidade. O filme não é bem sobre o que acontece, mas o como. Muitos fatos já são conhecidos, outros são supostos ou deliberadamente inventados pelo roteiro, assinado por O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, mas tudo se encaixa de forma satisfatória e deve arrancar umas boas lágrimas.

Valor Sentimental (Affeksjonsverdi) – Indicado a 9 Oscars (incluindo Filme, Filme Internacional, Direção e Atriz Principal)

Um pai idoso, desses gênios difíceis que a arte tanto conhece e representa, reencontra as filhas no velório da ex-mulher e tem a chance de se reaproximar pela arte. Vencedor do Grande Prêmio em Cannes e ovacionado por espantosos 15 minutos, o longa de Joachim Trier o revela um diretor e roteirista (com Eskil Vogt) maduro, que sabe como tratar de temas espinhosos sem melodrama e sem apontar dedos. Evitando excessos para os dois lados, Trier conseguiu um raro equilíbrio, e não a toa vem sendo lembrado em festivais mundo afora.

A ótima Renate Reinsve, descoberta por todos no fantástico agridoce A Pior Pessoa do Mundo (2021, também de Trier), faz a filha atriz do famoso diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgard). Enquanto ela segue fazendo peças prestigiadas de teatro, ele busca seu novo trabalho, que poderia reerguer sua carreira. As várias camadas vão sendo reveladas e descobrimos que relações familiares não são preto no branco: as zonas cinzas ocupam muitos espaços. Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning também estão muito bem, completando as quatro atuações indicadas pela Academia.

Song Sung Blue: Um Sonho a Dois – Indicado a 1 Oscar (Atriz Principal)

É muito interessante visitar o submundo americano dos imitadores de cantores, aqueles que ganham a vida em circuitos de restaurantes e cassinos homenageando seus ídolos, vestindo-se e cantando como eles. Michael Imperioli, por exemplo, faz um Buddy Holly excelente. É nesse cenário que conhecemos Mike “Lightning” Sardina (Hugh Jackman), um sujeito que sabe que não é compositor, muito menos um sex symbol, mas gosta de entreter as pessoas cantando. Cansado de atender demandas como astros com os quais ele não se identifica, ele parte para um projeto novo, um tributo a Neil Diamond, cantor tão castigado no cinema que milagrosamente liberou o uso de suas músicas. O acompanha a também cantora e tecladista Claire “Thunder” Sardina (Kate Hudson), uma fã antiga com quem ele recentemente se casou.

Sempre uma figura simpática, Jackman convence como o artista de segunda linha (ou terceira) que busca seus sonhos, de preferência sem ter que abaixar a cabeça para ninguém. Por alguma razão, todos gostavam dele e davam novas chances, mesmo quando ele tinha seus estrelismos. Hudson rouba a cena como a outra metade do casal, mostrando ainda ter suas fichas fora das comédias românticas bobinhas. Craig Brewer, diretor e roteirista (ao lado de Greg Khos), era a pessoa certa para o projeto, tendo trabalhado em diversos videoclipes e outros filmes com temática musical, como Ritmo de Um Sonho (2005).

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O Agente Secreto leva o Brasil ao Oscar falando de memória

A ditadura é um assunto caro ao Brasil e ao brasileiro. Se, por um lado, a justiça esqueceu de julgar os envolvidos no regime entre 1964 e 1985, a história não. E O Agente Secreto (2025), mais recente filme de Kleber Mendonça Filho, ajuda contando de um outro modo esse período sombrio.

O longa se passa em um Recife de 1977 mergulhado no carnaval, que alegra sua população e é usado pelos agentes repressores para ocultar as barbáries que cometiam. É nesse contexto e embrenhado nele que Marcelo (Wagner Moura) retorna, mas ainda aparentemente fugindo de algo.

Instalado na pensão de Dona Sebastiana (Tânia Maria), Marcelo se encontra com outras pessoas que precisam fugir ou ao menos se esconder de algo que, no começo do filme, não fica exatamente claro o que é. Em algum momento dos mais de 2h40min de duração, descobrimos que Marcelo, na verdade, é Armando. Um professor com um atrito do passado com alguém de influência no regime que, por conta disso, é perseguido por dois matadores enviados de São Paulo.

É com essa breve sinopse que o filme acontece e onde Kleber Mendonça pode distribuir suas já características marcas. Uma delas é a ótima caracterização da Recife dos anos 70, um trabalho minucioso que nesse ponto lembra seu trabalho anterior, o documentário Retratos Fantasmas (2023).

O cinema, bem como na obra antecessora, é uma espécie de personagem do próprio filme e, a la Tarantino, Kleber sopra cinefilia, enchendo a tela de referências da sétima arte, como o filme Tubarão que de um modo engenhoso se mistura ao imaginário do animal fortemente presente na costa pernambucana. Imaginário que também é trabalhado por Kleber com a Perna Cabeluda. A lenda recifense aqui se mistura com a denúncia dos ocorridos naquela época que, de certo modo, eram omitidos dos jornais locais.

Essa miscelânea de Kleber cria um roteiro que, mesmo com tantas abas abertas, não parece pesar o navegador do filme. Pelo contrário, tudo é construído com calma. Tanto que é possível entender quem reclame dos longos minutos que o filme demora a acontecer e a desenvolver suas tramas. A principal delas é a recuperação da memória de um tempo difícil de recuperar. Armando/Marcelo é uma pessoa que ficou no passado e que pouco se sabe sobre o seu fim, bem como o de sua mãe – algo que ele procura saber melhor no filme – ou mesmo de sua esposa, vivida por Alice Carvalho.

Kleber mostra essa dificuldade em recontar e entender essas histórias “desaparecidas” pela ditadura na figura de duas pesquisadoras que surgem em cenas com cortes bruscos, jogando o filme em um presente opaco e sem a mesma textura do período do filme. Essa quebra e o final mais uma vez trazem justificativas para quem não gostou do filme. Propositalmente Kleber interrompe a narrativa e nos lembra que o final de Armando/Marcelo não é conhecido. E talvez, nunca será mesmo.

Com uma ótima campanha nos Estados Unidos e muita pirraça, O Agente Secreto colocou o Brasil mais uma vez no Oscar. Dessa vez, em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator com Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco, para Gabriel Domingues.

O personagem central, que parece feito sob medida para ele, é vivido por Wagner Moura com muita competência, de modo a justificar sua indicação ao Oscar. Outra que ocupa a tela de carisma e personalidade é Tânia Maria (acima), que não teve campanha para Oscar, mas ganhou o imaginário brasileiro.

A seu modo, Kleber coloca toda textura nacional, em especial a do Recife, na roda de conversa da indústria cinematográfica. E o Brasil conhece outras teias da ditadura, que não agiu apenas no porão do DOI-CODI, mas também no cotidiano pelo país todo. Seja pela burocracia, pela omissão ou mesmo em “pernas cabeludas” que aterrorizaram pessoas então marginalizadas.

Kleber dirige Wagner em cena de O Agente Secreto

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Personagem menor da Marvel ganha série simpática

Chegando discretamente ao catálogo da Disney+ e sem o barulho típico das grandes apostas do estúdio, Magnum (ou Wonder Man, no original) se apresenta como uma dessas anomalias curiosas do Universo Marvel que parecem pedir menos devoção e mais curiosidade. A série parte de um conceito quase metalinguístico, acompanhando um herói que transita entre a indústria do entretenimento e o espetáculo super-heroico, e encontra aí um tom mais leve, irônico e autoconsciente. Em vez de vender urgência apocalíptica, prefere observar os bastidores, os egos e as engrenagens de um mundo onde salvar o dia é apenas mais um papel a ser interpretado.

Nos quadrinhos, Simon Williams sempre foi um personagem sem lugar. Criado nos anos 60, surgiu como vilão, morreu cedo, voltou à vida e acabou se tornando um Vingador pouco convencional, com uma carreira paralela como ator em Hollywood. Chamado lá fora de Wonder Man, chegou ao Brasil como Magnum. A Marvel nunca soube exatamente o que fazer com ele, e talvez por isso mesmo tenha se permitido arriscar mais agora na TV, sob o selo supostamente mais pé no chão Spotlight (o mesmo de Echo e Demolidor: Renascido). Magnum entende essa natureza errática e faz dela um trunfo: em vez de tentar encaixar o personagem à força em uma mitologia rígida, assume sua instabilidade como identidade, algo raro em um estúdio acostumado a personagens moldados para franquias.

A história funciona justamente por ser modesta em ambição e precisa em foco. Ao acompanhar Simon tentando se firmar como ator enquanto lida com superpoderes secretos e um passado mal resolvido, a série encontra conflitos reconhecíveis, ainda que embalados por elementos fantásticos. O roteiro sabe equilibrar humor e melancolia, usando o ambiente de estúdios, audições e produções decadentes como espelho de um herói que não sabe muito bem quem é quando as câmeras se apagam. É um conflito pequeno, mas honesto, e por isso mesmo eficaz.

Yahya Abdul-Mateen II ( o vilão do Aquaman da DC) sustenta a série com uma performance cheia de nuances, alternando carisma, insegurança e um certo cansaço existencial que combina com o personagem. Ele entende que Simon Williams não é um herói confiante, mas alguém constantemente em teste, e testando os outros. Ao seu lado, Sir Ben Kingsley surge quase como um presente tardio ao público. Reabilitado depois da recepção negativa de Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013), ele retoma Trevor Slattery com um prazer visível, transformando o personagem em um mentor patético e fascinante. A dinâmica entre os dois, baseada em vaidade, afeto torto e oportunismo, é o coração da série.

O que realmente diferencia Magnum do restante do Universo Marvel é sua recusa em parecer essencial. Não há ganchos desesperados para o próximo grande evento, nem a sensação de que cada diálogo carrega implicações cósmicas. A série se permite ser uma comédia dramática com superpoderes, quase um comentário lateral sobre o próprio MCU. Ainda assim, Simon Williams se encaixaria com facilidade nesse universo justamente por ser um corpo estranho, alguém que poderia circular entre Vingadores e produções B de Hollywood sem jamais se sentir totalmente pertencente a nenhum dos dois mundos.

Por trás da série estão Destin Daniel Cretton, diretor de Shang-Chi (2021), e Andrew Guest, produtor da série do Gavião Arqueiro. Duas figuras experientes dos estúdios Marvel que trazem referências claras à sátira da indústria do entretenimento e a narrativas mais íntimas, menos preocupadas com pirotecnia. Há ecos de comédias amargas sobre fama, fracasso e identidade, filtradas pelo verniz Marvel. Se o futuro reserva uma expansão desse mundo ou se Simon Williams fica por aqui, ainda é cedo para dizer. Ao menos por enquanto, Magnum prova que ainda há espaço no estúdio para histórias de gente que não quer salvar o mundo, apenas conseguir pequenas vitórias e sobreviver ao dia a dia.

O personagem Simon Williams, como era originalmente nos quadrinhos

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Pluribus traz de volta criador de Breaking Bad e debate a felicidade

O que você faria em um mundo onde todos são felizes, menos você? Essa pergunta é a premissa de Pluribus, nova série da Apple TV com assinatura de Vince Gilligan. A série sair pelo streaming consagrado por Ruptura e pela mente do criador de Better Call Saul e Breaking Bad gerou as devidas atenções e expectativas do público, com muito murmurinho.

Com a primeira temporada finalizada em 2025, Pluribus acompanha Carol Sturka, uma escritora estadunidense que, do dia para a noite, se torna a única pessoa não feliz do planeta. Com um adicional: todas as outras fazem de tudo para agradá-la. Instigada, Carol começa a desvendar o que fazer para que tudo volte ao normal, algo que faz a série debater coletivismo x individualismo, consciência coletiva, felicidade, existencialismo e até mesmo geopolítica. 

Se a graça de Pluribus está em descobrir como a trama se desenrola sabendo-se o mínimo possível – algo que o próprio criador recomenda, inclusive, entregando pouco na campanha de divulgação – resta dizer das expectativas em torno da mais nova obra da mente por trás de Breaking Bad.

E Gilligan nos presenteia com uma história em que estar do lado do personagem central não significa exatamente estar do lado certo da história – bem como em Breaking Bad – ou ao menos, ele deixa esse debate com o espectador. Algumas marcas do criador podem ser vistas em Pluribus: câmeras em ângulos ousados, protagonista dúbio, planos abertos explorando melhor o cenário – aliás, familiar aos fãs de Breaking Bad e Better Call Saul – e uma história que envolve, por mais que seu ritmo lento explore muito mais silêncios do que ação.

E tem Rhea Seehorn, mais conhecida como a Kim Wexler de Better Call Saul. Em Pluribus, ela é dominante, transparecendo todas as emoções de Carol com naturalidade e eficiência. O público se apaixona ou a repulsa de maneira igual, a depender de como ele interpreta da série. Se Pluribus já é um sucesso de público e crítica, muito se deve à já premiada pelo Globo de Ouro Seehorn.

Ainda que a grande qualidade de Pluribus seja a de descobrir todo o mistério e o que está se passando junto a sua protagonista, não é pecado afirmar que o debate em torno da série dá pano para manga. Vince se exime de tomar partido ou induzir de maneira maniqueísta qual lado tomar e deixa na mão do público o julgamento e a famigerada pulga atrás da orelha para desvendar esses mistérios.

Pluribus faz todo o jus de ser desde já a série mais assistida da Apple TV, algo que certamente o nome de Vince Gilligan ajudou a conseguir. Agora, já deixa ansiosas as pessoas que querem saber onde a história vai parar – algo que, infelizmente, deve demorar a acontecer.

Gilligan e Seehorn lançaram a série em Los Angeles

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Prime Video joga a culpa nas mulheres

Em 2015, a escritora Andrea Mara foi buscar o filho pequeno, que havia ido brincar com um amiguinho da escola, e se deparou com uma casa vazia. A cabeça começou a imaginar vários cenários, todos desesperadores, mas o engano foi logo esclarecido: a família havia se mudado, as crianças estavam sãs e salvas em outro endereço. Isso foi o suficiente para Mara imaginar toda uma trama e lançar o livro All Her Fault, agora adaptado para uma série premiada do streaming Peacock.

“E se…?” é uma ótima forma de exercitar a imaginação e criar uma obra de suspense. Marissa Irvine é mulher ocupada que se divide entre cuidar das finanças de clientes poderosos e de seu filho. O marido, Peter, parece achar que só ele tem obrigações no trabalho, e deixa todo o resto com a esposa. Num desses dias corridos, o pequeno Milo vai direto da escola para a casa de um coleguinha para brincar. A mãe, ao buscá-lo, se depara com uma senhora que não conhece nenhum dos envolvidos. Está formado o ponto de partida do livro e da série, cujos oito episódios estão disponíveis no Prime Video.

Premiada com o Critics Choice Awards pelo papel, Sarah Snook (acima, com Dakota Fanning) encabeça o elenco da atração. Bastante premiada pelo sucesso Succession, Snook vive Marissa, que se vê em um pesadelo que assombra mães e pais: o desaparecimento do filho. Jake Lacy, muito lembrado por The Office, fez um papel parecido em The White Lotus: um marido mimado, que quer o universo girando em torno do umbigo dele. Além de deixar todas as responsabilidades relacionadas ao filho e à casa nas costas da esposa, ele ainda se acha na posição de cobrá-la e criticá-la.

Em entrevistas de divulgação, a escritora enfatiza as relações entre as mulheres da história, reforçando que ela própria tem muito apoio de sua rede. O que mais chama a atenção, no entanto, é o papel dos homens da trama: todos são figuras críveis, bons amigos para outros homens, mas verdadeiros canalhas nos relacionamentos amorosos. O título, que pode ser traduzido como A Culpa É Toda Dela, é muito feliz no uso do pronome possessivo: “dela” indica que a culpa é sempre de uma mulher. Essa culpada pode variar, ou serem todas, mas a culpa nunca é de um homem. Simplesmente porque eles não se responsabilizam.

Os episódios de All Her Fault são bem pensados para prender o espectador, que provavelmente vai passar a noite acordado, emendando um no outro. O volume de segredos que vão sendo revelados é algo assustador, e tudo parte de uma situação bem corriqueira, bem real. Mães e, principalmente, pais podem ficar bem preocupados com suas atuações no dia a dia dos filhos, prestando um pouco mais de atenção. As mães, como mostrado, ficam sobrecarregadas e com uma eterna sensação de culpa, atribuída por elas mesmas ou pelos próximos. E os pais, alienados, receberão a conta em algum momento. Começando por serem comparados com os pais da série, inúteis.

Sophia Lillis tem um papel importante para a trama

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Os Melhores de 2025

Como é costume, virada de ano é sinônimo de balanço com a lista dos melhores filmes. Alguns chegaram ao Brasil em 2025, mesmo sendo de 2024, e só entram os que já foram lançados comercialmente no Brasil. Aqueles que foram criticados aqui têm link para o texto completo. É bom reforçar que não dá para ver tudo, o tempo anda escasso. Faltas importantes devem ser sentidas, e já adianto a de O Agente Secreto, erro que pretendo corrigir em breve.

Ao invés de fechar um top 10, repassei as anotações do ano todo e iria indicar todos os destaques, na ordem em que foram assistidos. Assim, ficariam várias recomendações para quem não os viu. No entanto, a lista ficou em 12, só dois de diferença.

Agradeço a quem acompanhou O Pipoqueiro em 2025 e seguimos juntos para mais um ano. O esforço para ver o máximo de produções continua sendo feito, e o de escrever sobre elas também. A repescagem foi grande, confira nos posts anteriores. Um grande ano a todos, com ótimos filmes!

Anora

Conclave

A Verdadeira Dor

Um Completo Desconhecido

Better Man

Pecadores

Homem com H

Superman

A Vida de Chuck

Os Enforcados

Uma Batalha Após a Outra

Valor Sentimental

“Olha aí, primo, estamos entre os melhores filmes de 2025 pro Pipoqueiro”

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Repescagem 2025: Pacote de Filmes

F1 (dirigido por Joseph Kosinski)

Impulsionado pelo acesso sem precedentes aos bastidores da Fórmula 1, inclusive com a presença de vários nomes reais, o filme aposta na imersão como principal motor narrativo, acompanhando um piloto veterano que retorna à categoria principal para provar que ainda há espaço para ele em um esporte obcecado por juventude e dados. Brad Pitt encarna esse arquétipo com carisma relaxado, quase melancólico, enquanto a direção de Joseph Kosinski transforma cada curva em espetáculo sensorial, buscando um resultado ainda superior ao de Top Gun: Maverick (2022). A história segue o manual do drama esportivo clássico, com rivalidades previsíveis e conflitos resolvidos na pista, mas o impacto vem menos do roteiro batido do que da autenticidade cuidadosamente construída, com a técnica imperando.

Missão: Impossível – O Acerto Final (Mission: Impossible – The Final Reckoning – dirigido por Christopher McQuarrie)

No suposto encerramento da saga de Ethan Hunt, a narrativa gira em torno de uma ameaça abstrata e contemporânea — o controle total da informação —, servindo como pretexto para uma sucessão de desafios que testam não apenas a lógica do mundo, mas o próprio corpo do protagonista. Tom Cruise, novamente no centro de tudo, atua como último bastião de um cinema baseado em presença física, enquanto o elenco de apoio funciona mais como engrenagem do que como contraponto dramático real. É muita gente boa reunida para servir como escada. A história avança em escala global, com perseguições e dilemas morais que prometem muito mais do que entregam, reforçando a sensação de que o filme está mais preocupado em se afirmar como evento do que em fechar seus conflitos com densidade. A sensação de que tudo foi ensaiado permanece até o fim.

Pecadores (Sinners, dirigido por Ryan Coogler)

O foco do filme recai sobre personagens aprisionados em escolhas duvidosas, em um contexto onde fé, poder e violência se misturam sem possibilidade clara de redenção. A trama acompanha figuras que sabem estar erradas, mas seguem adiante mesmo assim, num jogo de culpa que se acumula ruma a uma conclusão que eles esperam que seja positiva. O diretor Ryan Coogler parte para uma história diferente de suas escolhas usuais, com muita música envolvida. O elenco, liderado por Michael B. Jordan, em mais uma colaboração com o diretor, sustenta esse peso moral com atuações contidas, evitando o melodrama fácil. Quando o roteiro confia nos silêncios e nas tensões implícitas, ele cresce, como num bom filme de terror.

Thunderbolts (dirigido por Jake Schreier)

Na periferia do universo Marvel, os Thunderbolts são como um time B dos Vingadores. A história se organiza em torno de um grupo formado não por heróis, mas por sobras: personagens usados, descartados e reunidos mais por conveniência política do que por afinidade. Florence Pugh dá densidade emocional à narrativa ao interpretar “a outra Viúva Negra”, alguém que oscila entre cinismo e desejo de pertencimento, enquanto figuras como o Soldado Invernal de Sebastian Stan reforçam a ideia de passado mal resolvido como identidade. A trama aposta em missões sujas e acordos morais questionáveis, mas frequentemente recua quando ameaça tensionar demais o status quo. O resultado é um filme que ensaia maturidade e, mesmo sem chegar muito longe, consegue divertir.

Casa de Dinamite (A House of Dynamite, dirigido por Kathryn Bigelow)

O thriller se constrói a partir de um espaço fechado, físico e emocional, no qual personagens em atrito transformam decisões pequenas em desastre em potencial. A história avança lentamente, apresentando relações frágeis, interesses conflitantes e um clima constante de iminência, mais interessado no “antes” do colapso do que em sua explosão de fato. O elenco trabalha de forma contida, sustentando a tensão no olhar e na pausa, ainda que o roteiro nem sempre saiba quando parar. Quando evita o excesso explicativo e confia na ameaça latente, o filme encontra força; quando cede à necessidade de impacto, dilui aquilo que tinha de mais instigante. E acaba.

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Repescagem 2025: Homem com H

Há filmes que não pedem licença: entram em cena com a disposição de encarar o que costuma ser varrido para debaixo do tapete. Homem com H (2025) é um deles. O longa, dirigido por Esmir Filho, não se interessa por suavizar arestas nem por oferecer um retrato confortável de seu personagem central. Ao contrário: escolhe o confronto direto, apostando que a verdade, quando bem encenada, é mais potente do que qualquer verniz conciliador.

No centro de tudo está Jesuíta Barbosa, que aproveita uma das melhores oportunidades de sua carreira: interpretar o cantor Ney Matogrosso. Seu trabalho não se limita à imitação ou ao gesto externo: há um mergulho corporal e emocional que sustenta o filme inteiro. Barbosa constrói um personagem pulsante, contraditório, às vezes desagradável, mas sempre humano. A homossexualidade não surge como “tema”, e sim como identidade vivida, com desejo, culpa, liberdade e medo coexistindo no mesmo espaço. É uma atuação que exige entrega e que encontra no ator alguém disposto a se expor o necessário.

O elenco ao redor acompanha esse movimento com grande segurança. Não há atuações infladas, nem personagens tratados como escada dramática. Cada figura, algumas bem famosas, que atravessa a trajetória do protagonista parece existir para além da função narrativa, o que reforça a sensação de um mundo vivo, atravessado por afetos, tensões e silêncios. O filme confia nos atores e, em troca, recebe interpretações maduras e precisas, na medida certa.

A grande coragem de Homem com H está na forma como encara seus temas mais espinhosos. A homossexualidade é mostrada sem filtros morais ou didatismo, e a AIDS surge com o peso histórico e emocional que lhe é devido, sem melodrama nem exploração sensacionalista. O filme olha para esse período de frente, recusando tanto a idealização quanto o discurso higienizado que costuma transformar dor em lição edificante.

Esmir Filho opta por uma narrativa fragmentada, que acompanha o personagem em diferentes momentos de sua vida. Essa escolha, na maior parte do tempo, funciona como reflexo de uma existência marcada por rupturas e reinvenções constantes. No entanto, é também aí que reside o único tropeço mais evidente do filme. O salto entre acontecimentos importantes, especialmente na reta final, cria uma sensação de episódios. Quando o espectador começa a assimilar plenamente o peso do percurso, o filme simplesmente termina, de forma abrupta, quase seca demais para uma história que parecia pedir algum tipo de conclusão que pontuasse que a vida de Ney segue a pleno vapor.

Ney, Esmir e Jesuíta no lançamento do filme

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Repescagem 2025: A Vida de Chuck

Baseado em um conto pouco conhecido de Stephen King, do livro Com Sangue, A Vida de Chuck (The Life of Chuck, 2025) é daqueles filmes que parecem surgir fora do radar e, justamente por isso, acabam se impondo com mais força. Não há aqui a tentativa de capitalizar o King do terror imediato ou da iconografia pop. O diretor Mike Flanagan se interessa pelo lado mais silencioso do escritor, aquele que usa o sobrenatural como ferramenta de reflexão, não como espetáculo. O resultado é um dos filmes mais sólidos e inesperados do ano. E gostosos de assistir.

A premissa, à primeira vista modesta, acompanha a vida de um homem comum narrada de trás para frente, começando pelo fim. Essa inversão não funciona como truque de roteiro, mas como chave conceitual. O filme sugere desde o início que a morte é apenas o ponto final visível de algo muito maior, e que o verdadeiro mistério está no percurso. Flanagan, velho conhecido do mundo de King, conduz essa estrutura com cuidado, evitando explicações excessivas e confiando na força acumulativa das cenas, muitas vezes construídas a partir de gestos pequenos e situações aparentemente triviais.

O sobrenatural, marca quase inevitável tanto de King quanto de Flanagan, surge de forma discreta, sutil. Ele não interrompe a narrativa nem se impõe como ameaça clara, funcionando mais como um desajuste no mundo, algo fora do lugar, mas nunca completamente explicado. É uma escolha inteligente, que preserva o tom melancólico do filme e impede que a história escorregue para o sensacionalismo. O estranho aqui não assusta: inquieta.

O elenco sustenta essa abordagem com precisão. Tom Hiddleston (o Loki do Universo Marvel) tem uma atuação notadamente contida, talvez uma das mais maduras de sua carreira. Ele compõe Chuck como alguém que carrega o peso do tempo sem dramatizá-lo, trabalhando com silêncios, olhares e uma presença que nunca pede o centro da cena, mas sempre o tem. Os atores que interpretam Chuck em outras fases da vida mantêm uma coerência emocional rara, como se o personagem fosse menos uma soma de momentos e mais um estado contínuo de consciência.

A direção de Flanagan é funcional no melhor sentido da palavra. Ele filma sem ansiedade, respeitando o ritmo interno da história e resistindo à tentação de sublinhar emoções. A montagem acompanha essa lógica, deixando que as conexões entre passado e futuro se formem de maneira orgânica. Nada parece calculado para arrancar lágrimas. Quando a emoção surge, é porque o filme construiu o terreno para isso.

A Vida de Chuck não é um filme sobre grandes feitos ou revelações espetaculares. É sobre a beleza do ordinário, ou como uma vida comum pode conter um universo inteiro. O diretor já havia topado o grande desafio de dar sequência ao clássico O Iluminado (The Shining, 1980), nos dando o ótimo Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019). Ao adaptar um conto menor de Stephen King com tamanha sensibilidade, Flanagan entrega uma obra que dialoga com o fim, mas celebra o percurso. Um filme sereno, preciso e, sem exagero, um dos melhores do ano.

Flanagan apresenta parte de seu elenco

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Repescagem 2025: Springsteen: Salve-me do Desconhecido

Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me From Nowhere, 2025) é um filme que se recusa a funcionar no ritmo que se espera de uma cinebiografia musical. Em vez da ascensão fulminante, dos conflitos espetacularizados e do desfile de sucessos, o longa aposta num ritmo lento, na repetição e em uma sensação constante de deslocamento. É um filme sobre um artista famoso, mas pouco interessado na fama e no distanciamento que ele julga que virá. O centro aqui é o processo e, sobretudo, o desconforto que ele produz.

A narrativa, baseada no livro de Warren Zanes, acompanha um recorte específico da carreira de Bruce Springsteen, mas evita transformá-lo em mito. O que vemos é um sujeito assustado com a proporção que seu trabalho tomou. Seus primeiros dois discos não atingiram grande sucesso comercial, o que começou no terceiro e atingiu um pico no quinto, The River. O longa parte do final da turnê de promoção desse disco, quando ele volta para casa e começa a trabalhar no que seria seu próximo disco. Os executivos da gravadora esperam aproveitar aquele momento de alta para faturar, mas Bruce pensa diferente. Em suas reflexões, relembra a infância e o relacionamento complicado com o pai (Stephen Graham), o que impacta as novas composições.

O ritmo deliberadamente arrastado não é um defeito, mas uma estratégia: o filme cria um tempo morto que espelha o estado mental do personagem, preso entre a necessidade de seguir em frente e a incapacidade de se reconhecer onde está. O estranhamento nasce justamente dessa recusa em acelerar. Springsteen compra um gravador e produz em casa, sozinho, o que seriam esboços de suas novas canções, apenas para mostrar para a banda e acelerar as sessões no estúdio. Ele conhece e se interessa por uma mulher (Odessa Young), mas sempre a mantém à distância. É curioso apontar que a mulher, Faye, foi inventada pelo (geralmente fraco) roteirista e diretor Scott Cooper, reforçando a visão depressiva que temos do protagonista. 

É nesse espaço de suspensão que a relação entre Springsteen e seu empresário e produtor, Jon Landau (acima), ganha peso dramático. O filme trata esse vínculo menos como parceria profissional e mais como um pacto ambíguo, marcado por uma confiança que beira a fé. As conversas entre os dois raramente são diretas; o que importa está sempre no subtexto, nas concessões silenciosas e nos limites que não sabemos bem onde começam ou terminam. O empresário não surge como vilão nem como mentor iluminado, mas como alguém que também opera no escuro, tentando administrar um talento que não se deixa organizar com facilidade. Tanto Springsteen quanto Landau tiveram papel ativo como consultores na obra, mas afirmam não terem mexido em nada.

Jeremy Allen White, o astro da série The Bear, sustenta o filme com uma atuação que evita a caricatura e a imitação. Até porque ele não se parece fisicamente com o cantor. Ele não tenta “virar” Springsteen, e sim captar uma postura, um modo de ocupar o espaço, uma inquietação permanente. Seu Bruce é fechado, pouco comunicativo, muitas vezes opaco. Aí mora uma armadilha: pode-se julgar o personagem chato, cansativo, características que facilmente se transferem ao filme. White trabalha com contenção, deixando que o desconforto se manifeste no corpo e no silêncio, sem precisar verbalizá-lo o tempo todo. O perfeccionismo que ele passa a empregar nas demos o torna um sujeito complicado de lidar, quando Jeremy Strong, vivendo Landau, tem a chance de brilhar.

Springsteen: Salve-me do Desconhecido exige paciência e entrega. Ele não oferece respostas claras nem grandes momentos catárticos. O que propõe é uma experiência de aproximação lenta, quase desconfortável, com um artista em conflito com a própria imagem e com as engrenagens que o cercam. Ao escolher o estranhamento como motor narrativo, o filme se afasta da lógica celebratória e toma um caminho que pode não agradar a todos. Bem como as opções de carreira de Springsteen.

Springsteen afirmou publicamente que já pensa em uma sequência

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