Coreanos tentam matar o presidente em Operação Hunt

Famoso pelo mundo após sua premiada participação na série Round 6 (ou Squid Game), Lee Jung-jae já gozava de boa fama em sua Coréia natal desde meados da década de 90, quando estreou como ator na TV e no Cinema. Agora, ele faz sua estreia como diretor e produtor num projeto que vem sendo desenvolvido há cinco anos: Operação Hunt (Heon-teu, 2022), longa que chega aos cinemas essa semana.

O atraso na produção, devido a várias circunstâncias, permitiu a Jung-jae assumir a direção e mexer no roteiro da estreante Jo Seung-Hee, atuando também como produtor. Em maio de 2021, as filmagens finalmente começaram e o filme teve sua estreia oficial no Festival de Cannes de 2022. Para o Festival de Toronto, o diretor viu a necessidade de reeditar a obra para facilitar o entendimento da trama pelo público ocidental.

No começo da década de 80, temos três eventos reais importantes na história da Coréia do Sul que servem de base ao roteiro de Hunt. Em maio de 1980, calcula-se que até 600 pessoas possam ter sido assassinadas no chamado Massacre de Gwangju, quando a população dessa cidade tomou o poder para protestar contra a ditadura vigente. O exército chegou e conteve os insurgentes, matando-os, e os números verdadeiros ainda são debatidos.

Em fevereiro de 1983, um capitão da força aérea da Coréia do Norte desertou e pousou seu MiG-19 em Seul. Ele foi prontamente incorporado à força aérea do país e chegou a coronel. Em outubro do mesmo ano, houve uma tentativa de assassinato do presidente Chun Doo-hwan em Rangum, hoje Mianmar. O bombardeio causou a morte de 21 pessoas e deixou 46 feridos. Um suspeito preso confessou ser um militar norte-coreano, mas o país negou ser o mandate do atentado.

Não é necessário conhecer esses fatos para entender a trama, mas ajuda. O cenário político da Coréia do Norte do final dos anos 70 e início de 80 é complexo. Quando o filme começa, conhecemos dois chefes de unidades da agência de inteligência da Coréia do Sul. Park Pyong-ho (Jung-jae) lidera a equipe que cuida de assuntos relacionados a estrangeiros, enquanto Kim Jung-do (Jung Woo-sung, de Golpe de Sorte, 2020) fica à frente do grupo doméstico.

O passado dos dois, que já se cruzaram, traz alguma tensão, que aumenta bastante quando chega a informação de que há um traidor infiltrado na agência. Todos são suspeitos e as duas equipes passam a ser investigadas. Não vão faltar perseguições, tiros e explosões, tudo perpassado por intrigas políticas que dão um ar de seriedade a um filme que, no fim das contas, é divertido e bem feito, figurando bem no filão de ação e espionagem.

Apesar de um pouco longo, com 2h11min, Hunt passa rápido, mantendo a atenção do público, que pode ficar um pouco perdido em algum momento, mas logo se situa. Lee Jung-jae se firma como um grande talento do Cinema sul-coreano e seu longa chegou à quarta maior bilheteria de uma obra sul-coreana em 2022, além de levar um punhado de prêmios de associações locais. Como ator, estará na próxima série do universo de Star Wars, The Acolyte.

Quem procura ação não vai se arrepender

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Shyamalan traz estranhos que Batem à Porta

O novo filme do diretor, roteirista e produtor M. Night Shyamalan chega aos cinemas e todos já ficam apreensivos. Conhecido pelas viradas de roteiro que nem sempre funcionam bem, ele tem adaptado histórias de terceiros e o resultado melhorou muito, mostrando que seu maior talento é a direção criativa, e não a necessidade de enganar o espectador. Seu mais novo esforço, Batem à Porta (Knock at the Cabin, 2023), reforça esse aspecto. Se não é marcante como um Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), ao menos não é ruim como um Fim dos Tempos (The Happening, 2008).

Mais uma vez estragando férias familiares, como fez em Tempo (Old, 2021) e A Visita (The Visit, 2015), Shyamalan nos apresenta à bonita família formada por Papai Eric (Jonathan Groff, de Mindhunter e Matrix Resurrections, 2021), Papai Andrew (Ben Aldridge, de Fleabag) e a pequena Wen (Kristen Cui). Em férias, eles alugam uma cabana isolada e esperam por dias tranquilos e de descanso. No entanto, quatro estranhos chegam e, como o título entrega, batem à porta.

O misterioso quarteto, formado por Leonard (Dave Bautista, o Drax dos Guardiões da Galáxia), Sabrina (Nikki Amuka-Bird, de Tempo), Adriane (Abby Quinn, de Adoráveis Mulheres, 2019) e Redmond (Rupert Grint, o Ronny de Harry Potter) traz uma proposta descabida e a família precisa tomar uma decisão. Como afirma o cartaz, a humanidade depende disso. Temos, basicamente, um cenário e um grupo reduzido de atores no tempo presente, mas flashbacks vêm e vão, mostrando como era a vida de Eric, Andrew e Wen até ali.

Como de costume quando se trata de um filme de Shyamalan, contar o mínimo é o melhor. Basta dizer que ele reescreveu um roteiro de Steve Desmond e Michael Sherman, ambos estreando no Cinema, e eles se basearam no livro The Cabin at the End of the World, de Paul G. Tremblay. Ou seja: não é um roteiro original de Shyamalan, que perdeu a mão lá em 2006 (com o pavoroso A Dama na Água). Fora a trilogia finalizada em Vidro (Glass, 2019), que estava traçada há anos, ele vinha cometendo graves pecados.

Batem à Porta começa criando uma atmosfera de tensão eficaz, mas nunca chega a decolar. Mesmo com boas atuações (até do limitado Bautista), ele segue morno em seus 100 minutos. Ao menos, o diretor não entrou na onda dos filmes longuíssimos, resolvendo sua trama relativamente rápido. Os personagens são interessantes, apesar de sabermos pouco deles, e conseguem prender o espectador. Dessa forma, temos uma experiência que passa longe dos traumas causados anteriormente.

A família feliz não sabe o que os espera

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Irlanda é quase um personagem no insólito Os Banshees de Inisherin

Seguindo uma linha psicodélica de histórias de um humor peculiar que só ele poderia bolar, Martin McDonagh ataca novamente na direção e roteiro. Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin, 2022) vem arrecadando prêmios e indicações e finalmente chega aos cinemas brasileiros essa semana, após o anúncio dos finalistas do Oscar. Foram nove indicações, sendo quatro apenas no elenco. McDonagh foi lembrado como diretor, produtor e roteirista. Tudo muito justo.

Com um Oscar na sacola (Melhor Curta por O Revólver de Seis Tiros, 2004) e indicações por outros dois trabalhos (Na Mira do Chefe, 2008, e Três Anúncios para Um Crime, 2017), McDonagh se voltou para a Irlanda, terra de seus pais e onde viveu boa parte de sua vida. Com uma trama que funcionaria muito bem também no teatro, ele juntou velhos conhecidos e a encenou em uma ilha afastada. Mais uma vez, ele tem Colin Farrell e Brendan Gleeson, de Na Mira do Chefe, como principais.

Com nomes e paisagens típicos da Irlanda, o filme nos apresenta a Pádraic Súilleabháin (Farrell), um sujeito simplório que vive numa casinha com a irmã (Kerry Condon, de Três Anúncios) e tem como passatempo ir para o bar local beber e conversar com o amigo Colm Doherty (Gleeson). Num dia qualquer, Colm decide que não quer mais ser amigo de Pádraic e essa situação toma uma proporção enorme. Dá a impressão de ser uma ilha de fofoqueiros, mas é exatamente como acontece numa cidadezinha do interior do Brasil.

Com um elenco de irlandeses (que ainda inclui Barry Keoghan, de Eternos, 2021), não fica difícil situar excepcionalmente bem o espectador. O sotaque faz uma diferença essencial, assim como a cadência das palavras. Fica mais fácil entender os personagens e a realidade em que vivem, numa rotina repetitiva e cansativa. Não a toa, os quatro atores principais estão indicados ao Oscar (Farrell como ator principal, os demais como coadjuvantes). A trilha sonora, de Carter Burwell (frequente colaborador do diretor), também é importante até na caracterização dos dois (ex)amigos, e foi lembrada no prêmio.

Para os atores se destacarem tanto em um filme, os diálogos precisam ajudar, e essa é uma constante no trabalho de McDonagh. Frances McDormand e Sam Rockwell ganharam vários prêmios trabalhando com ele (em Três Anúncios). Os personagens soam como pessoas reais, por mais insólita que seja a situação, e logo passamos a nos importar com eles. Certamente, você conhece um Pádraic, um Colm, uma Siobhán ou mesmo um Dominic. Não com esses nomes, claro.

Kerry Condon começou a trabalhar com o diretor aos 17 anos, no teatro

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Chainsaw Man merece todo o hype que vem recebendo

Antes mesmo de estrear, Chainsaw Man (2022)  já era mania entre os fãs das animações japonesas. Especialmente nas convenções de cultura pop, banners e cosplayers  do personagem eram vistos em todos os lugares. Isso, por si só, já me deixou com um pé atrás. Afinal, episódios recentes mostraram que, muitas vezes, quanto maior o marketing ao redor de um filme ou série de TV, menos o produto vale essa divulgação (alô, atores de The Boys que passaram semanas criando expectativas para o decepcionante Herogasm, estou falando com vocês). Dessa vez, no entanto, a regra foi quebrada. Chainsaw Man é uma das coisas mais divertidas dos últimos anos e honrou a obra homônima de Tatsuki Fujimoto.

A série gira em torno de Denji. No começo de sua adolescência, ele perdeu o pai – a mãe já estava fora de cena. Pior ainda, seu progenitor tinha uma grande dívida com um chefão da Yakuza (a máfia japonesa) e caberia à Denji acertar as contas. Sem ter fundos para tal, ele é obrigado a aceitar um trabalho de caçador de demônios. Aqui é bom esclarecer que, nesse universo, as mais diversas criaturas demoníacas andam livremente pela Terra, sendo caçadas por departamentos públicos e agências privadas.

Enquanto nessa profissão, Denji encontra Pochita, um cão-demônio cujo traço mais característico é uma serra elétrica no lugar do focinho. A dupla acaba se tornando amiga, com Denji e Pochita caçando demônios juntos e dividindo seus parcos recursos. Quando chega aos 16 anos, as coisas se complicam ainda mais para Denji. Um demônio consegue seduzir seu patrão e, em troca de um poder gigantesco, exige sua vida. Denji e seu cão são atacados. Denji é morto. Pochita, às portas da morte, decide tomar o lugar, literalmente, do coração de seu melhor amigo.

Com isso, Denji não só volta à vida como se torna um ser meio humano, meio demônio. Sempre que necessário, ele consegue manifestar serras elétricas de seus braços e cabeça, juntamente com um rosto demoníaco. Obviamente, ele vai, agora, se dedicar ainda mais à caça de demônios, certo? Bom… Sim e não.

Denji acaba sendo recrutado pela principal agência governamental japonesa dedicada à caça de demônios e recebe uma oferta irrecusável: “ou trabalha conosco para sempre ou é executado imediatamente”. Entre a cruz e a espada, ele acaba optando pela primeira.

Apesar da descrição relativamente sombria acima, a verdade é que Chainsaw Man é uma comédia de ação deliciosa, recheada de sangue, tripas e situações insólitas. Denji é um personagem daqueles que têm o carisma reservado para os que, na definição de um dos personagens do anime, “tem alguns parafusos soltos”. Suas motivações são tão básicas e sem noção que acabamos nos simpatizando muito com ele. Todo o elenco de apoio, incluindo sua diretora, Makima, seu supervisor direto, Aki, e os demais caçadores de demônios de sua equipe – Power, Himeno, Kobeni e Arai – são bem construídos dentro do exagero característico da tradição das animações japonesas.

Com 12 episódios de cerca de 23-25 minutos cada, Chainsaw Man está disponível no serviço de streaming Crunchyroll. Vale muito à pena conferir e aguardar pela segunda temporada, a ser lançada em 2024.

Não são poucas as referências cinematográficas em Chainsaw Man

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Tár reafirma o talento de Cate Blanchett

Em uma entrevista, o diretor Todd Field (de Pecados Íntimos, 2006), que queria muito Cate Blanchett em seu próximo filme, contou que a agente da atriz disse que ela não teria disponibilidade pelos próximos três anos. Dirigindo, ele ficou tão chateado que bateu o carro. Sensibilizada, Hylda Queally mandou o roteiro para sua cliente e elas conseguiram ajeitar a agenda para Blanchett participar. O resultado, Tár (2022), chega aos cinemas brasileiros hoje, com seis indicações ao Oscar, incluindo três para Field e uma para Blanchett.

É preciso estabeler, de cara, que Tár não é fácil: nem a personagem, nem o filme. Trata-se da cinebiografia fictícia de uma grande maestro (como ela prefere) que, quando a encontramos, está em franca ascensão. Ganhadora de diversos prêmios e atual condutora da prestigiada Filarmônica de Berlim, ela frequentemente é convidada para palestrar, dar aulas, entrevistas etc. E todos querem trabalhar com ela, aceitando até posições menores do que buscavam.

Lydia Tár (Blanchett) tem uma vida aparentemente equilibrada, com esposa (Nina Hoss, de O Homem Mais Procurado, 2014) e filha em um apartamento cômodo e a atividade profissional em polvorosa. Algumas atitudes e decisões dela vão mexer um pouco nessa estrutura, usando aquele velho estereótipo do “gênio que é difícil de lidar”. Seria ela, além de muito competente, arrogante? Ou estaria apenas apontando a verdade sem papas na língua? Algumas sequências nos deixam com esse questionamento. Ora ela parece ser muito atenciosa, ora muito escrota. À medida que o filme avança, entendemos bem o que está havendo.

Difícil não se lembrar de Cisne Negro (Black Swan, 2010), guardadas as devidas proporções. O talento e a dedicação da protagonista lhe roubam um pouco da sanidade mental, o que até pode propiciar a criatividade e o desenvolvimento artístico. Até certo ponto. A diferença, aqui, é que há um peso maior na questão do caráter. Se tem uma atriz que dá conta de nos deixar com a pulga atrás da orelha, é Blanchett, que evita qualquer possível armadilha e sabe a hora de exagerar e de se conter. Boa parte do interesse que o longa pode despertar reside na atriz.

Entre os coadjuvantes, temos uma figura interessante na assistente Francesca (Noémie Merlant, de Retrato de uma Jovem em Chamas, 2019), muito dedicada e respeitosa para com sua mentora. Seria genuíno ou interesse? Outros destaques, além da ótima Nina Hoss, são Mark Strong (de Cruella, 2021) e Julian Glover (de Game of Thrones), compondo personagens que se mostram complexos no que revelam e no que deixam abaixo da superfície.

Se os diálogos, escritos por Field, ajudam os atores e facilitam o trabalho deles, também podem afastar parte do público. Fora a questão técnica, já que muito do que é falado em alemão não é legendado na versão que foi exibida nos cinemas, há a complexidade das falas. Em certos momentos, os personagens parecem rodear com palavras empertigadas e não chegar a lugar algum. Se isso pode ser uma intenção clara do diretor e roteirista, acentuando a vaidade e a falsidade do meio mostrado, pode também manter o espectador desinteressado. Muitas pessoas deixaram a sessão antes do fim.

Ao final das duas horas e quarenta minutos de projeção, a única certeza acerca de Tár é o talento de Blanchett, que pode levar seu terceiro Oscar – a presença (da voz) do colega Alec Baldwin é um bom sinal, já que ele esteve nos dois filmes anteriores (O Aviador, 2004, e Blue Jasmine, 2013). Quanto aos possíveis erros e acertos de Field, tudo pode ser discutido. O filme poderia ser mais curto? Certamente. Deveria. Há pontas soltas ao final? Sim. Pode-se argumentar que as coisas, na vida real, não são mastigadas e explicadas, e as pessoas são complexas. Algumas, mais do que outras.

Entre concertos, ela arruma tempo para dar aulas Master

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Repescagem 2022: Glass Onion

Depois do sucesso de Entre Facas e Segredos (Knives Out, 2019), o diretor e roteirista Rian Johnson (de Star Wars: Os Últimos Jedi, 2017) conseguiu fechar acordo com a Netflix para uma continuação. Na verdade, para outro caso investigativo do famoso detetive Benoit Blanc, interessante personagem de Daniel “James Bond” Craig. Não há ligação entre os filmes e, gostando-se de um, fica a recomendação para se assistir ao outro.

Glass Onion: Um Mistério Knives Out (2022) ficou um título nacional ridículo. O original significa nada mais que ver algo onde não há nada. Numa cebola de vidro, seria fácil ver que não há nada em cada camada. Como analisar as letras dos Beatles atrás de significados que nem os quatros imaginaram. E é o nome da mansão do bilionário Miles Bron (Edward Norton), com quem várias pessoas têm o rabo preso.

Convidados para um final de semana numa ilha paradisíaca, os amigos são surpreendidos por um assassinato. Que sorte ter um detetive por perto! As estranhas coincidências são explicadas e o roteiro quase não tem furos, mas fica claro que Johnson deve ter voltado no início várias vezes para incluir pistas e informações que seriam úteis no final. Além da trama divertida à Agatha Christie, temos um ótimo elenco, que inclui Kate Hudson, Kathryn Hahn, Janelle Monáe, Leslie Odom Jr. e Dave Bautista, além de ótimas pontas.

Qualquer filme de mistério que se preze tem uma cena de jantar com todos os convidados

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Tom Hanks é um homem chamado Otto

“Nenhum homem é uma ilha”, escreveu John Donne. Pois um homem chamado Otto (o título original) bem gostaria de ser uma, sem ninguém em volta para incomodá-lo. “Idiotas”, ele está sempre repetindo. O Pior Vizinho do Mundo (A Man Called Otto, 2022) chega aos cinemas essa semana se aproveitando da imagem de bom moço de Tom Hanks, colocando-o como um idoso mal humorado que está sempre fazendo os outros seguirem as regras. Por mais bestas que possam ser.

De tão sistemático e quadrado, Otto parece ser a versão mais velha de Forrest Gump (1994), grande personagem de Hanks. Não chega a ser um criminoso, como em Estrada para Perdição (Road to Perdition, 2002), nem um provável escroque como o Coronel Parker de Elvis (2022). No entanto, está longe dos bonzinhos que chegavam para o ator no início de carreira, o que mostra que Hanks tem sido bem criterioso (já há alguns anos) ao escolher seus papéis. Não é fácil atrair simpatia para o antipático Otto.

Quando o conhecemos, ele vive sozinho, prestes a se aposentar em uma empresa à qual se dedicou por anos e que não lhe deu valor algum. Com uma vida insossa e sem perspectivas, o suicídio parece uma boa ideia. Em meio a flashbacks que nos apresentam melhor ao sujeito e à Sonya (Rachel Keller, de Dirty John), vizinhos novos chegam e começam a alterar aquela rotina monótona e aborrecida.

O roteirista, David Magee, tem um histórico de filmes com temas pesados que conseguem se manter otimistas, sem sentimentalismos baratos (como em Em Busca da Terra do Nunca, 2004, e As Aventuras de Pi, 2012). Magee se baseia, aqui, não só no livro de Fredrik Backman, mas também no longa sueco Um Homem Chamado Ove (2015), de Hannes Holm, que teve duas indicações ao Oscar (Melhor Filme Internacional e Melhor Maquiagem e Cabelo).

Em Busca da Terra do Nunca marcou a primeira colaboração de Magee com Marc Foster, diretor de Otto que tem obras bem diversas em sua filmografia: de James Bond (Quantum of Solace, 2008) a dramas pesados (como O Caçador de Pipas, 2007), passando por comédias (Mais Estranho que a Ficção, 2006) e zumbis (Guerra Mundial Z, 2013). Foster segura no drama, conseguindo evitar apelações, mesmo tratando-se de uma história triste. Não será fácil, para o público, evitar as lágrimas, mas Foster e Magee não abusam.

Em meio a toda essa tristeza, o casal novo na vizinhança proporciona momentos mais leves, sempre mantendo um certo realismo. O marido (Manuel Garcia-Rulfo, de Esquadrão 6, 2019), é meio palerma, quem mantém a família no bom caminho é a esposa (Mariana Treviño, de Club de Cuervos – acima), que acaba tendo mais interações com Otto. Temos outros vizinhos, com destaque para Jimmy – Cameron Britton chamou bastante atenção como um psicopata em Mindhunter e é sempre uma figura interessante. Mack Bayda (de Ouija, 2020), como Malcolm, nos proporciona um momento bem emocionante.

Se O Pior Vizinho do Mundo não chega a ser um destaque na fantástica carreira de Hanks, passa longe de ser uma vergonha, como Larry Crowne (2011) ou Joe Contra o Vulcão (Joe Versus the Volcano, 1990). É um filme sensível, com sequências engraçadas e o carisma inegável de seu astro. E ainda foi uma boa oportunidade para Hanks trabalhar com o filho, Truman Hanks (de Relatos do Mundo, 2020), os dois no mesmo personagem, inclusive.

Os Hanks posam com o casal de vizinhos na estreia

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M3gan é a nova boneca a nos assombrar

Imagine juntar, num mesmo filme, algo parecido com Chucky, o brinquedo assassino, Christine, o carro de Stephen King, e Robocop, com uma pitada de Ultron. Com uma peruca e um vestido e temos M3gan, a boneca protagonista do filme homônimo (2023) que chega aos cinemas hoje. Se a mistura sugerida causa estranheza, o mesmo acontece com a boneca, com seus olhos enormes e profundos, e com o filme, que sustenta uma seriedade até certo ponto para virar um derivado de Sexta-Feira 13.

Obras de ficção-científica, até as ruins, costumam trazer discussões sobre temas caros à humanidade, e M3gan começa por esse caminho. Tópicos como luto, solidão, uso excessivo de telas por crianças e os limites éticos da tecnologia são alguns dos tratados, com maior ou menor ênfase, mas sem muita profundidade. A ideia é apresentar a boneca o quanto antes, já que ela é a atração aqui, e dar o palco a ela. A introdução é bem feita, sem correria, e dá uma boa base para que compremos a ideia.

A garota Cady (Violet McGraw, de Viúva Negra, 2021) fica órfã e vai morar com a tia, a engenheira de robótica Gemma (Allison Williams, da série Girls e de Corra!, 2017). Sem a menor ideia de como cuidar de uma criança, ainda mais numa situação tão delicada, e apertada de prazos no trabalho, Gemma acaba unindo o útil ao agradável e dá à sobrinha sua mais recente invenção: uma boneca que “aprende” sozinha, assimilando as informações percebidas de sua dona, com quem se conecta, e baixando da internet. O complexo nome que ela recebe é representado pela sigla M3gan.

Mais do que depressa, tem início uma bela amizade, ou assim parece. A boneca logo desenvolve um senso de proteção de Cady e se mostra manipuladora e perigosa, burlando qualquer trava que possam ter colocado nela – como as diretrizes que impediam Robocop de ferir executivos da O.C.P. As referências dos responsáveis pelo longa não param aí, sobra para clássicos como O Iluminado (The Shining, 1980) e O Exorcista (The Exorcist, 1973).

A dancinha da boneca virou moda imediatamente no TikTok, fazendo com que a expectativa pela estreia fosse às alturas. M3gan já passou dos US$ 100 milhões de arrecadação, tendo gasto US$ 12 milhões em sua realização. Isso é garantia de uma continuação, que já foi marcada para 2025 e pode ajudar a firmar a boneca como um novo ícone do terror. Ajuda ter por trás dois gigantes do Cinema de terror atual: Jason Blum e James Wan, este também responsável pela história e criador de outra boneca encapetada: Annabelle.

A estreia do longa em Los Angeles foi marcada por oito modelos vestidas como M3gan

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Babilônia é a homenagem de Chazelle a Hollywood

Com La La Land (2016), Damien Chazelle fez uma homenagem a Los Angeles e aos musicais, gênero que tanto gosta. Agora, o diretor partiu para um projeto um tanto mais ambicioso para reverenciar a Hollywood clássica, seguindo os passos de gigantes como os irmãos Coen (de Ave, César!, 2016), David Fincher (de Mank, 2020) e Quentin Tarantino (de Era Uma Vez Em… Hollywood, 2019), para ficar em exemplos recentes. Babilônia (Babylon, 2022) tem tudo em larga escala: grandes astros, muitos figurantes, cenários opulentos, uma extensa duração e um orçamento em torno de US$ 78 milhões.

Inspirando-se em figuras reais, como o ator John Gilbert, Chazelle criou seu roteiro com uma boa dose de ficção, imaginando como era viver na Los Angeles de 1926, na era do Cinema mudo. Numa festa que mais parece filmada por Baz Luhrmann, com um tanto a mais de nudez e drogas, conhecemos nossos personagens principais, todos circulando ao redor do mundo do Cinema: astros, produtores, funcionários e iniciantes sonhando com o estrelato. E sempre ao som da trilha contagiante de Justin Hurwitz, parceiro frequente de Chazelle e vencedor de dois Oscars por La La Land.

Tentando fazer seu nome do zero, temos Nellie LaRoy, vivida por Margot Robbie (de O Esquadrão Suicida, 2021). Nellie pega pequenos papéis e já se considera uma estrela, só o mundo que não sabe disso. Ainda. Diego Calva (de Narcos: México) interpreta Manny, um faz tudo que trabalha para um figurão e sonha em participar de filmes. E o grande nome do Cinema de então é Jack Conrad, feito por um Brad Pitt (de Ad Astra, 2019 – abaixo) especialmente canalha.

Os três protagonistas estão impecáveis, com o menos conhecido Calva despontando para o estrelato – os três foram indicados ao Globo de Ouro, Pitt como coadjuvante. O enorme elenco é cheio de nomes facilmente reconhecíveis, como a ótima Jean Smart, Jovan Adepo, Lukas Haas, Max Minghella, Samara Weaving, Katherine Waterston, Eric Roberts, Patrick Fugit, Ethan Suplee, Olivia Wilde e até o Flea, dos Red Hot Chilli Peppers. Ah, e não nos esqueçamos do Tobey Maguire, mais lembrado como Homem-Aranha e também produtor de Babilônia, que vive um mafioso perigoso.

Falando em Maguire, o longa frequentemente lembra uma outra produção que também contou com o ator em seu elenco: O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 2013), dirigido pelo já citado Luhrmann. Não só eles têm em comum as festas, a ostentação e a megalomania, mas o tema central: o sujeito pobre que quer a todo custo crescer na sociedade, mas teima em colocar como meta conquistar a mulher amada, o que o desvia de seu caminho.

Dentre tantas referências, o aceno a Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952) é o mais óbvio, com várias situações em comum. As gerações mais novas vão entender melhor a chegada do som no Cinema e, quem sabe, se interessar pelos clássicos. Se isso acontecer, a missão de Chazelle foi cumprida com louvor. Os 190 minutos chegam a cansar e o diretor perde um pouco a mão no final extenso, e chegamos a pensar que a projeção nunca vai acabar. Vale a pena insistir. O caos do início se fecha bem e mostra que o também roteirista Chazelle sabia bem onde queria chegar, e acaba o fazendo. Só não precisava demorar tanto!

Spike Jonze faz uma ponta como um cineasta alemão (ao lado de Haas e Pitt)

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Repescagem 2022: Uma Garota de Muita Sorte

Muitos ainda devem se lembrar de Mila Kunis na série That 70’s Show, como a adolescente irritante Jackie – que cresceu e estará na sequência That 90’s Show. Mesmo com algumas participações mais notáveis, como em Cisne Negro (Black Swan, 2010), a carreira da atriz nunca decolou. Em 2022, no entanto, ela pegou seu provável melhor papel até hoje: a protagonista de Uma Garota de Muita Sorte (Luckiest Girl Alive, 2022).

Ani, vivida por Kunis, parece ter uma vida perfeita. Ela é editora de uma revista conceituada e se prepara para se casar com o namorado dos sonhos. Tudo se complica quando ela é procurada por um documentarista que pretende fazer um curta sobre o tiroteio na escola onde Ani estudou. As lembranças dela começam a montar um quadro interessante e o roteiro faz justiça ao livro no qual se baseia, ambos escritos por Jessica Knoll.

Com um bom elenco de apoio, que inclui  Finn WittrockScoot McNairy, Jennifer Beals e Connie Britton, Kunis segura tudo nas costas e faz um ótimo trabalho. Mike Barker estreou na direção com o bom Planos Quase Perfeitos (Best Laid Plans, 1999) e, desde 2007, só dirigia episódios de séries até voltar aos longas. Sua direção não é das mais seguras, parecendo perder o foco às vezes, mas nada que comprometa.

Kunis e Wittrock são um casal aparentemente perfeito

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