James Franco e Bryan Cranston se constrangem em comédia

por Marcelo Seabra

Poucas vezes na vida foi produzido algo tão desagradável quanto uma das estreias da semana. Tinha Que Ser Ele? (Why Him?, 2016) se diz uma comédia, mas é daqueles filmes que dependem 97% de piadas de mal gosto sobre sexo e os outros 3% de referências a excrementos e fluídos corporais. Ou seja: talvez uma criança possa achar graça, mas seus pais não a deixarão ver. Ao menos, não deveriam.

A expressão “vergonha alheia” ganha aqui um novo significado. E ele se chama James Franco. Apesar de carismático, o ator já mostrou que não consegue manter distância de projetos caricatos, apelativos e sem graça, como provam Festa da Salsicha (2016), Sexo, Drogas e Jingle Bells (2015), A Entrevista (2014) e É o Fim (2014). Como acontece com Will Ferrell (o vilão de Zoolander 2), Franco parece sofrer de egocentrismo agudo e só se dá bem em projetos que não encabeça, apenas participa.

Outro que passa por um grande embaraço é Bryan Cranston. Com uma longa carreira no Cinema e na TV, o ator ganhou exposição mundial com seu papel em Breaking Bad, série na qual ele vivia um pacato professor de química que gradualmente se torna um implacável traficante de drogas. Aqui, ele faz um pai que sai da fria Michigan para visitar a filha na Califórnia e descobre que o relacionamento dela com o namorado é mais sério do que parecia. Franco é Laird Mayhew, um milionário da tecnologia que tem um estilo de vida caro e espalhafatoso. A descrição mais adequada para ele seria “sem noção”, já que o rapaz faz coisas que ninguém, com o mínimo de juízo, faria ao conhecer a família da namorada.

Com a ajuda dos empregados, como o mordomo engraçadinho (Keegan-Michael Key, de Keanu: Cadê Meu Gato?!, 2016), e de algumas figuras reais, como o empresário Elon Musk e o cozinheiro Richard Blais, além da voz de Kaley Cuoco (de The Big Bang Theory) como uma SIRI melhorada, Mayhew quer proporcionar aos Flemings uma memorável comemoração de Natal. Ned, o pai, só passa raiva, mesmo que a esposa e o filho encontrem formas de se divertirem. Quem realmente vai sair da sessão nervoso é o público.

Filmes como Minha Mãe É uma Peça 2 (2016) são apenas sem graça, daqueles que você fica na expectativa de ver algo engraçado e inteligente e isso nunca acontece. Já em Tinha Que Ser Ele?, não só o humor passa longe como é tudo de péssimo gosto. Não só há piadas de banheiro, mas também no banheiro. Assim como Paulo Gustavo, Franco, seu diretor e roteiristas (entre eles, Jonah Hill, de Cães de Guerra, 2016) parecem achar que falar palavrão é engraçado por si só. Desse jeito, não há necessidade de se esforçar para criar algo que preste. É puro desperdício de trilha sonora e de participações especiais. Ah, e tem cena pós-créditos, e ela é tão dispensável quanto o resto do filme.

O constrangimento de Cranston é visível

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Kong volta a atacar em aventura divertida

por Marcelo Seabra

Em 2005, Peter Jackson resolveu dar a King Kong o tratamento que o gorilão merecia, mas entregou um filme frio, que chamou mais atenção por seus defeitos que por seus acertos. Em 2017, voltamos a ver o personagem na tela grande, mas com uma diferença fundamental: trata-se de uma das mais divertidas aventuras dos últimos anos. Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island, 2017) traz uma equipe formada por militares e cientistas que vão visitar a misteriosa ilha sem saber que estão prestes a se deparar com o maior primata do mundo.

Sem uma relação clara com o King Kong de 1933 ou suas refilmagens, não sabemos exatamente se trata-se de uma história independente, um reboot ou de uma pré-continuação. Mas ela é ambientada durante a presidência de Richard Nixon, no fim da Guerra do Vietnã, o que a colocaria após a original. Com um enredo simples, o filme se beneficia de um bom elenco, ótimos efeitos visuais e sonoros e uma montagem ágil, que não deixa o ritmo cair. A equipe conta com membros de etnias diferentes e ambos os gêneros, o que mostra uma preocupação com a diversidade tão buscada nesses dias. Ponto para o pouco conhecido Jordan Vogt-Roberts (de Os Reis do Verão, 2013), que comanda a festa.

O personagem de John Goodman (de Rua Cloverfield, 10, 2016 – acima), Bill Randa, trabalha para uma corporação ligada ao governo e consegue, junto a um senador (Richard Jenkins, de Rastro de Maldade, 2015), autorização para explorar uma ilha desconhecida, cercada por tempestades eternas, que teria um ecossistema próprio, diferente de tudo o que conhecemos. O objetivo seria estudar e aprender, mas Randa parece ter sua agenda escondida. Para a missão, são reunidos alguns burocratas, um biólogo (Corey Hawkins, de Straight Outta Compton, 2015), uma geóloga (Tian Jing, de A Grande Muralha, 2016), uma fotógrafa (Brie Larson, de O Quarto de Jack, 2016) e um bocado de militares, liderados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson, de Os Oito Odiados, 2015). Como Randa tem receio do que irá encontrar lá, convoca também um rastreador experiente (Tom Hiddleston, o Loki da Marvel).

Packard e seu pelotão estão se preparando para deixar o Vietnã, já que Nixon mandou as tropas voltarem. Mas fica muito claro que o coronel não se adaptaria à vida na cidade e ele abraça a oportunidade de continuar em missão. Quem não fica muito feliz com a notícia são os soldados, mas eles o acompanham fielmente. A fotógrafa de Larson sabe que há algo inusitado com relação à ilha e já tem um Pulitzer em vista quando entra no navio. As mulheres são bem tratadas pelo roteiro, não são apenas damas em perigo. E Conrad, o especialista em encontrar pessoas, topa pelo dinheiro, o mercenário de plantão. Ele faz o tipo machão de sempre, mas é respeitoso, educado e eficiente, o que foge bem do estereótipo.

Os personagens do filme são rasos, mas interessantes o suficiente, e as relações entre eles são bem críveis. Kong mantém as características que conhecemos e a dinâmica é a mesma dos filmes anteriores: ele ataca como revide, nada é gratuito. O experiente Terry Notary dá vida ao gorila através de captura de movimentos, como fez na franquia do Planeta dos Macacos – ao lado de Toby Kebbell, que também está no elenco. Há ainda uma participação muito bacana de John C. Reilly (de Os Guardiões da Galáxia, 2014), sempre uma figura que vale a pena acompanhar, e uma ponta do cantor Miyavi (de Invencível, 2014).

Outra característica que chama a atenção é a trilha sonora. A original, grandiosa na medida, casa bem com as cenas de perigo, e a parte no Vietnã conta com músicas consagradas com o peso de Creedence, Jefferson Airplane, Stooges, Hollies, David Bowie, Black Sabbath e até o nosso Jorge Ben. Os ótimos efeitos visuais permitem ver a textura do pêlo de Kong, o movimento da água e até as criaturas fantásticas, que entram no meio da ação tão naturalmente que até compramos a ideia. O casamento de todas essas qualidades dá, como resultado, o que costumamos chamar de “sessão da tarde”, ou seja, entretenimento para ninguém botar defeito. E não perca a cena escondida!

Samuel L. Jackson lidera os militares

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Médico rural se acha Insubstituível

por Marcelo Seabra

Famoso para o grande público internacional desde sua comovente atuação em Intocáveis (Intouchables, 2011), François Cluzet volta a misturar drama e comédia em Insubstituível (Médecin de Campagne, 2016), que chega aos cinemas essa semana pela Cineart Filmes. Naquele mesmo tom sério que, volta e meia, é atropelado por algo cômico, Cluzet vive um médico do interior que descobre estar doente e precisa achar um substituto para poder se ausentar. E ainda nos dá a oportunidade de conhecer um pouco da vida numa pequena cidade da França.

Provando aquela máxima de que os próprios médicos são seus piores pacientes, o Dr. Jean-Pierre Werner (Cluzet) descobre um tumor no cérebro e, junto com notícia, recebe a recomendação de descansar e se dedicar ao tratamento. Acostumado a longas jornadas de trabalho, Werner é o único médico em uma cidadezinha a muitos quilômetros do hospital mais perto. Dividindo seu dia entre os atendimentos em seu consultório e as visitas à população, o doutor não vê como poderia parar para se tratar. Deixar a comunidade na mão é algo impensável e ele segue em sua rotina extenuante.

Seguindo a indicação de seu médico, Werner recebe a Dra. Nathalie Delezia (Marianne Denicourt, de Hipócrates, 2014) e começa a treiná-la como sua auxiliar, deixando-a no escuro quanto à sua doença. Numa cidade onde todos estão acostumados com o Dr. Werner, é de esperar que haverá problemas com a Dra. Delezia. E o veterano não vai largar o osso facilmente. Enfermeira experiente, Nathalie resolveu partir para a medicina mais tarde, e não se identificou com o trabalho no hospital geral. Daí, a opção pelo campo.

Os sintomas de Werner são um pouco estranhos. O tumor no cérebro deve estar comprimido nervos ópticos e auditivos e as consequências vão se manifestando aos poucos. Por isso, ele só vê metade do prato de comida, por exemplo, o que não é muito crível. Experimente olhar para uma pizza e tampe um olho. Você a vê inteira, e não apenas um lado, certo? O outro sintoma é sentir cheiro de queimado, o que não deixa de ser curioso, apesar de possível. E, uma vez começado o tratamento, os efeitos da quimioterapia não podem ser percebidos. Enquanto um vizinho de cadeira está careca, Jean-Pierre permanece como estava.

O belo trabalho de Nicolas Gaurin (também de Hipócrates) nos revela uma fotografia singela, que capta muito bem a beleza e a simplicidade do campo. Se o roteiro, assinado pelo diretor, Thomas Lilti, e Baya Kasmi (ambos também de Hipócrates), não guarda grandes surpresas, é nos detalhes que Insubstituível ganha seu público. As interpretações dos protagonistas são primorosas, assim como a dos coadjuvantes, que dão vida à vila e trazem graça a seus diálogos. Para quem gosta de filmes de costumes, é um prato cheio.

Mistura de George Harrison e Dustin Hoffman, Cluzet é um dos grandes nomes do Cinema francês

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Big Little Lies é a nova atração da HBO

por Marcelo Seabra

Seguindo a tradição de Game of Thrones e Westworld, para ficar nas mais recentes, a HBO volta a atacar com uma nova série, pronta para fazer barulho. Big Little Lies é uma espécie de mistura de Desperate Housewives e Twin Peaks: é estrelada por famílias de classe alta em uma cidadezinha idílica, onde todos parecem perfeitos, mas há segredos que indicam o contrário. Logo no primeiro episódio, descobrimos que alguém foi morto. O curioso é que a questão principal não fica só no habitual “quem matou?”, mas também no “quem morreu?”.

O produtor David E. Kelley, responsável por marcos da TV como O Desafio (The Practice) e Ally McBeal, criou a série baseando-se no livro homônimo de Liane Moriarty, lançado em 2014. Os roteiros dos sete episódios da primeira temporada são assinados por Kelley e a direção ficou por conta de Jean-Marc Vallée, dos elogiados Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013) e Livre (Wild, 2014). Também no projeto desde o início, a atriz Reese Witherspoon, que trabalhou com Vallée em Livre, é creditada como produtora executiva.

A atração tem como protagonistas três mulheres fortes, cada uma com seus problemas familiares, e elas têm em comum a idade dos filhos, todos na mesma escola. Madeline (Witherspoon) tem duas filhas de maridos diferentes e precisa lidar com a proximidade do ex, que tem uma filha na mesma sala da mais nova e outra esposa. Celeste (Nicole Kidman, de Lion, 2016) largou a família e sua bem sucedida carreira de advogada para se casar e se mudar para longe, onde vive com um marido rico e abusivo e dois filhos pequenos. E Jane (Shailene Woodley, da franquia Divergente), recém chegada na cidade, é uma mãe solteira que cai nas graças de Madeline e as três fecham um laço de amizade. A outra figura proeminente da comunidade é Renata Klein (Laura Dern, mãe de Witherspoon em Livre), com quem Madeline bate de frente e a briga toma proporções enormes.

Uma suposta agressão, no primeiro episódio, coloca as duas dondocas em lados opostos e aflora o lado briguento de Madeline, que mal precisa de uma desculpa para querer mandar em todo mundo. Renata também está acostumada a vencer e não deixa barato os ataques. Desde o início, sabemos que uma pessoa foi morta e diversos depoimentos dos cidadãos, assim como uma coletiva da polícia, vão jogando informações que demoram um tanto a fecharem. Por isso, o público fica a maior parte do tempo no escuro, imaginando o que teria acontecido. Enquanto isso, podemos acompanhar ótimas interpretações das quatro, além de nomes como Adam Scott (de Krampus: O Terror de Natal, 2015), Alexander Skarsgård (o novo Tarzan, de 2016) e Zoë Kravitz (de Animais Fantásticos e Onde Habitam, 2016), que estão entre os coadjuvantes.

Exibida no domingo à noite, horário que a HBO reserva para suas grandes produções, Big Little Lies já vai para seu quarto episódio. Mas, para quem não pegou o início, ou se perdeu durante o Carnaval, o canal reprisa com frequência, é só consultar a programação. Aonde vai chegar, não sabemos, mas a jornada, com uma belíssima fotografia e uma trilha sonora bem interessante, tem sido promissora.

Não se preocupe, no fundo elas são todas amigas

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Hugh Jackman se despede de Wolverine em alta

por Marcelo Seabra e Rodrigo “Piolho” Monteiro

Depois de 17 anos e oito filmes, Hugh Jackman decidiu que era hora de aposentar as costeletas e as garras de Wolverine, partindo para o último. Logan (2017), que estreia essa semana, é o canto do cisne do ator na pele do mais famoso mutante da Marvel. Apesar de alguns furos de roteiro e situações resolvidas de maneira preguiçosa, é uma despedida muito digna. É uma surpresa ver uma trilogia que começou tão mal terminar tão bem, com uma história original que nos mostra um Logan que é ao mesmo tempo sentimental e selvagem. Este é de longe o melhor dos três filmes solo do personagem, além de adicionar elementos que podem – ou não – ser utilizados pela Fox em um futuro próximo.

Futuro, aliás, é a palavra-chave aqui, já que Logan mostra o personagem-título em 2029, com um visual bem diferente do que nos acostumamos a ver no cinema. Logan está velho, cansado e quer distância de confusão. Não só isso, mas aparentemente com o avanço da idade, o adamantium que tanto o protegeu parece estar exigindo bastante de seu fator de cura, de forma que esse seu poder já não funciona como antes. Ele ainda consegue resistir a um tiro de escopeta no peito e a múltiplos cortes que matariam uma pessoa comum, mas a recuperação demora mais do que nos acostumamos a ver no cinema e deixam cicatrizes, coisa que antes não acontecia. Ele sofre de uma tosse constante, manca devido a uma ferida antiga, está viciado em antibióticos, bebe mais do que o que seria recomendável e não expele as balas que o acertam com a facilidade de antes. O Wolverine de Logan é, enfim, o retrato da decadência do personagem.

Quando o longa começa, Logan abandonou seu passado heroico e ganha a vida como motorista de limusine, levando adolescentes para festas, noivas para casamentos e coisas do tipo. É um Logan que, em seus últimos anos, quer passar despercebido enquanto junta dinheiro suficiente para se aposentar ao lado de seu mentor, Charles Xavier (Patrick Stewart), que hoje vive recluso no México sendo cuidado pelo mutante Caliban (Stephen Merchant, de The Big Bang Theory). É curioso pensar que, dentre tantos alunos que viviam na Mansão Xavier e eram muito próximos do Professor, é logo o “estranho no ninho” Logan quem vai cuidar de Charles na velhice. Stewart foi envelhecido com uma ótima maquiagem, assim como o amigo Ian McKellen em Mr. Holmes (2015).

Não adianta Logan querer ficar longe da confusão, porque problemas têm o costume de encontrá-lo. Nesse caso, eles veem na forma de Gabriela (Elizabeth Rodriguez, de Orange is the New Black), uma enfermeira que tenta encontrar Logan a todo custo para que ele possa levá-la a um local seguro. Ela o conhece das revistas em quadrinhos que narram as aventuras dos X-Men. Com Gabriela, há uma garotinha, Laura (Dafne Keen), que é a chave do mistério. É óbvio que os perseguidores de Gabriela também estão atrás de Laura e, liderados por Pierce (Boyd Holbrook, de Narcos), não descansarão enquanto não encontrar e eliminar a menina. Holbrook faz um capanga bem eficiente, enquanto o chefe do bando é vivido pelo ótimo Richard E. Grant (de Jackie, 2016), que tem pouca oportunidade de aparecer.

O roteiro, escrito por Scott Frank (de Wolverine: Imortal, 2013) e James Mangold (de Johnny e June, 2005), é levemente (ênfase no “levemente”) baseado no arco de histórias Old Man Logan (O Velho Logan, por aqui – acima), lançado em 2008 e escrito por Mark Millar (que também escreveu a minissérie que foi base para Capitão América: Guerra Civil, 2016). Wolverine está em seus dias de decadência em um futuro distópico. Aqui, no entanto, Logan divide o foco com Laura, ou X-23, personagem criada por Chris Yost para a série animada X-Men: Evolution e que, a exemplo da Arlequina da DC, acabou migrando para os quadrinhos.

Laura, inclusive, é o destaque da película, com Keen (abaixo) fazendo sua estreia em longas de maneira bastante competente. Ela consegue vender bem a ideia da criança que passou boa parte de sua vida reclusa, sendo treinada para ser nada mais do que uma máquina de matar e que, pela primeira vez, não só está conhecendo o mundo, como sentimentos que não o ódio e a frieza. Sua interpretação transmite bem a ideia do animal selvagem que reage com violência a todo o momento em que se vê acuado, mas também da criança inocente que precisa que adultos lhe imponham limites, ainda que Logan não seja exatamente conhecido por ser um modelo de comportamento.

O terceiro longa solo de Wolverine se destaca também pelo fato de ser o primeiro a mostrar o personagem com a violência que lhe é característica nos quadrinhos, com membros decepados e mortes mais explícitas na tela. Isso, claro, é uma influência direta do sucesso de Deadpool (2016), que provou à Fox que um filme com uma censura mais alta pode ser, sim, lucrativo. No entanto, é saudável notar que Mangold e Frank trabalharam bem a liberdade proporcionada por essa censura mais alta. Logan tem uma boa dose de violência e sangue, mas ela é sempre justificada dentro do universo ficcional onde a história se desenvolve, não sendo simplesmente a violência pela violência, no intuito de chocar a audiência, a exemplo do que fazem cineastas como Eli Roth. Vale destacar também a trilha sonora, com algumas músicas muito bem escolhidas e que resumem bem o tom da película. Se no trailer tínhamos Johnny Cash com Hurt, no filme ele vem com The Man Comes Around. Mangold, que também dirige Logan e tem no currículo a cinebiografia de Cash, vem se mostrando um mercenário de respeito. Se não é exatamente um autor, um cineasta com estilo próprio, cumpre bem as tarefas que assume.

Ao contrário do que faz Zack Snyder, que busca forçar em seus filmes de heróis o pessimismo do Batman de Christopher Nolan, Mangold consegue entregar uma obra com esse tom naturalmente, com um realismo que prova que o tempo passa para todos. Os momentos mais leves logo são cortados, lembrando a Logan que a tragédia o persegue. Ele é um cavaleiro solitário e é muito acertada a referência a Os Brutos Também Amam (Shane, 1953). E é curioso observar que os demais filmes desse universo de mutantes são lembrados, com citações que vão de diálogos sobre os outros colegas a uma espada samurai discretamente colocada no quarto do protagonista. Cabe agora à Fox acertar na escolha de seu substituto, já que é certo que a despedida de Jackman do personagem não significa que Wolverine não retornará brevemente às telas de cinema.

A violência faz justiça ao personagem

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Oscar 2017 – Indicados e Previsões

por Marcelo Seabra

Em pleno domingo de Carnaval, 26/02, teremos a 89ª edição dos Academy Awards, o popular Oscar. O prêmio, entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, serve para chamar atenção para os indicados e vencedores e ainda dá uma bela valorizada nos cachês dos envolvidos. Ele tem mais relevância que alguns, como o Globo de Ouro, pela forma de escolha dos vencedores, e acaba ganhando maior cobertura da imprensa por envolver muitas celebridades.

É claro que, no fundo, acaba sendo um concurso de popularidade, mas é divertido acompanhar a cerimônia e todo o barulho que ela traz. Este ano, o anfitrião será o apresentador e comediante Jimmy Kimmel (abaixo). O campeão de indicações é o queridinho da temporada, La La Land, com 14, seguido por A Chegada e Moonlight: Sob a Luz do Luar, com oito.

Como nos anos passados, abaixo segue a lista completa de indicados em suas respectivas categorias. Marco o meu palpite do vencedor com o número 1 e o meu favorito (que infelizmente não deve ganhar) com o 2. Se coincidirem, basta um X. Todos os filmes já criticados aqui têm um link em sua primeira aparição na lista. Clique para conferir o texto completo.

Melhor Filme

Melhor Diretor

  • Denis Villeneuve – A Chegada 2
  • Mel Gibson – Até o Último Homem
  • Damien Chazelle – La La Land: Cantando Estações 1
  • Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
  • Barry Jenkins – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor Atriz

  • Isabelle Huppert – Elle
  • Ruth Negga – Loving
  • Natalie Portman – Jackie 2
  • Emma Stone – La La Land: Cantando Estações 1
  • Meryl Streep – Florence: Quem é Essa Mulher?

Melhor Ator

  • Casey Affleck – Manchester à Beira-Mar X
  • Andrew Garfield – Até o Último Homem
  • Ryan Gosling – La La Land: Cantando Estações
  • Viggo Mortensen – Capitão Fantástico
  • Denzel Washington – Um Limite Entre Nós

Melhor Ator Coadjuvante

  • Mahershala Ali – Moonlight: Sob a Luz do Luar 1
  • Jeff Bridges – A Qualquer Custo
  • Lucas Hedges – Manchester à Beira-Mar
  • Dev Patel – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Michael Shannon – Animais Noturnos 2

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Viola Davis – Um Limite Entre Nós 1
  • Naomie Harris – Moonlight: Sob a Luz do Luar 2
  • Nicole Kidman – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Octavia Spencer – Estrelas Além do Tempo
  • Michelle Williams – Manchester à Beira-Mar

Melhor Roteiro Original

  • Taylor Sheridan – A Qualquer Custo
  • Damien Chazelle – La La Land: Cantando Estações 1
  • Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou – O Lagosta
  • Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar 2
  • Mike Mills – 20th Century Women

Melhor Roteiro Adaptado

  • Eric Heisserer – A Chegada 2
  • August Wilson – Um Limite Entre Nós
  • Allison Schroeder e Theodore Melfi – Estrelas Além do Tempo
  • Luke Davis – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney – Moonlight: Sob a Luz do Luar 1

Melhor  Animação

  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Moana: Um Mar de Aventuras
  • Minha Vida de Abobrinha
  • A Tartaruga Vermelha
  • Zootopia: Essa Cidade É o Bicho X

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Extremis X
  • 4.1 Miles
  • Joe’s Violin
  • Watani: My Homeland
  • Os Capacetes Brancos

Melhor Documentário em Longa-Metragem

  • Fogo no Mar
  • Eu Não Sou Seu Negro
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America 1
  • 13ª Emenda 2

Melhor Longa Estrangeiro

  • Terra de Minas (Dinamarca)
  • Um Homem Chamado Ove (Suécia)
  • O Apartamento (Irã)
  • Tanna (Austrália)
  • Toni Erdmann (Alemanha) X

Melhor Curta-Metragem

  • Ennemis Intérieurs X
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode

Melhor Curta em Animação

  • Blind Vaysha
  • Borrewed Time
  • Pear Cider and Cigarettes
  • Pearl
  • Piper X

Melhor Canção Original

Melhor Fotografia

  • Bradford Young – A Chegada 2
  • Linus Sandgren – La La Land: Cantando Estações 1
  • Greig Fraser – Lion: Uma Jornada para Casa
  • James Laxton – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Rodrigo Prieto – Silêncio

Melhor Figurino

Melhor Maquiagem e Cabelo

Melhor Mixagem de Som

Melhor Edição de Som

Melhores Efeitos Visuais

  • Craig Hammack, Jason Snell, Jason Billington e Burt Dalton – Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
  • Stephane Ceretti, Richard Bluff, Vincent Cirelli e Paul Corbould – Doutor Estranho
  • Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon – Mogli: O Menino Lobo 1
  • Steve Emerson, Oliver Jones, Brian McLean e Brad Schiff – Kubo e as Cordas Mágicas
  • John Knoll, Mohen Leo, Hal Hickel e Neil Corbould – Rogue One: Uma História Star Wars 2

Melhor Design de Produção

Melhor Edição

  • Joe Walker – A Chegada 2
  • John Gilbert – Até o Último Homem
  • Jake Roberts – A Qualquer Custo
  • Tom Cross – La La Land: Cantando Estações 1
  • Nat Sanders e Joi McMillon – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor Trilha Sonora

  • Mica Levi – Jackie
  • Justin Hurwitz – La La Land: Cantando Estações X
  • Dustin O’Halloran e Hauschka – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Nicholas Britell – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Thomas Newman – Passageiros

Os atores e atrizes vencedores em 2016

 

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Denzel Washington leva Cercas ao Cinema

por Marcelo Seabra

Uma cerca pode manter o inimigo afastado, mas pode servir para não deixar escapar quem está dentro. E há aquela imaginária, que pode isolar uma pessoa das outras. Os usos podem ser vários, e as metáforas também. Essa é a ideia do título original de Um Limite Entre Nós (Fences, 2016), que poderia simplesmente ter sido chamado Cercas. Denzel Washington e Viola Davis, ambos premiados por suas atuações na peça teatral, reprisam seus papéis como o casal de protagonistas, e Washington ainda assumiu a direção.

A peça, escrita em 1983, é de August Wilson e faz parte de uma série que gira em torno de um mesmo tema: a experiência de afro-americanos nos Estados Unidos e as relações entre as raças. Por isso, desde que se falou em uma adaptação para o Cinema, Wilson sempre exigiu que o diretor fosse afro-americano. Os planos só saíram do papel com o interesse de Washington, que levou o texto à Broadway em 2010 e assumiu a direção do filme, seu terceiro. Wilson, que morreu em 2005, deixou o roteiro pronto. Poucas adaptações foram feitas por Tony Kushner (de Lincoln, 2012), que acabou creditado apenas como produtor.

O texto acompanha o falastrão Troy Maxson (Washington) na Pittsburgh dos anos 50. Tendo saído de casa cedo, ele começou a roubar, foi preso e o conhecemos quando sua vida parece nos eixos. Vivendo com uma boa esposa (Davis) e o filho adolescente (Jovan Adepo, de The Leftovers), ele divide seus dias entre a casa e o trabalho como lixeiro, junto do amigo Jim Bono (Stephen McKinley Henderson, de Manchester à Beira-Mar, 2016). Troy é o tipo do sujeito cheio de verdades, que bate de frente com quem pensa diferente, o que faz com que a sua esposa tenha que aguentar alguns comportamentos reprováveis. Ainda participam dessa rotina o filho mais velho de Troy (Russell Hornsby, também da peça) e o irmão (Mykelti Williamson, de 12 Horas para Sobreviver, 2016), que voltou da guerra deficiente mental.

Talvez pela experiência prévia dos envolvidos, ou devido ao roteiro ter sido escrito por um teatrólogo, o filme mantém o caráter de teatro. Com um cenário repetitivo, os personagens circulam por ali declamando seus textos. Os atores estão ótimos, principalmente o casal principal. Washington dá vigor e carisma a um sujeito com várias e gritantes imperfeições, e só um intérprete desse calibre para trazer simpatia a alguém tão centrado em si mesmo e em suas histórias. Davis faz a esposa que ama o marido apesar de tudo, valorizando as qualidades dele e superando o resto, sendo inclusive a ponte entre ele e os filhos.

Apesar de muito bem escrito, com diálogos bonitos, Um Limite Entre Nós se torna cansativo. A admiração de Washington pelo texto de Wilson é óbvia, mas ele não sabe como lidar. Enquanto há muita falação, falta ação, e as discussões se estendem por duas horas e vinte minutos, muito mais do que o necessário. São tratados temas importantes, como o lugar do negro na sociedade – que deveria ser qualquer um, mas não era – e a hipocrisia de quem prega uma coisa e faz outra, sempre se justificando para parecer correto. Mas o resultado deve ter funcionado melhor no teatro.

O casal principal no teatro

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Garoto cresce Sob a Luz do Luar

por Marcelo Seabra

A vida de todo mundo daria um filme. Uns seriam mais interessantes que outros, claro. Essa é a conclusão que fica ao final da sessão de Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016). O longa, badalado na temporada de premiações e que já acumula algumas estatuetas, acompanha um garoto enquanto ele cresce em meio às dificuldades da vida pobre no sul da Flórida. O fato de ser realizado prioritariamente por negros traz mais verdade às situações, mas o acúmulo de temas tumultua, enquanto a falta de reação do protagonista pode cansar o espectador.

Vivido por três atores em momentos diferentes da vida (Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes), Chiron é filho de uma mãe viciada (Naomie Harris, de 007 Contra Spectre, 2016) e pai desconhecido. Um dia, sem razão alguma, ele aceita a companhia de um desconhecido (Mahershala Ali, de Estrelas Além do Tempo, 2016 – abaixo) e vai comer com ele. O tal sujeito acaba se tornando a figura paterna que faltava, e se mostra carinhoso e compreensivo com o menino. É interessante notar que Paula, numa ótima atuação de Harris, é uma vítima por ser drogada, mas maltrata o filho tanto que ele prefere ficar fora de casa. Já Juan, o pai postiço, é o traficante que fornece para Paula e ajuda a dificultar o ambiente domiciliar dela, provendo ao garoto um muito melhor – com a namorada, Teresa (Janelle Monáe, também de Estrelas). Nada premeditado, mas está tudo conectado e os papéis, invertidos.

Crescendo em meio a essa situação, a mãe de um lado, Juan e Teresa de outro, Chiron sofre nas mãos de fortões por ser miúdo e ter trejeitos que indicam uma possível homossexualidade. O roteiro ainda dá uma forçada no estereótipo colocando o menino, antes calado e tímido, se soltando em uma aula de dança. Para, na sequência, voltar a ser o amuado de sempre. O relacionamento com os colegas não é muito fácil, o que o faz ser solitário e se fechar cada vez mais. E assim o acompanhamos ao longo de poucos anos, quase como um novo Boyhood (2014), e conferimos os caminhos seguidos por ele.

Assim como no igualmente muito falado Precious (2009), várias características dramáticas se sobrepõem, tornando o resultado um pouco exagerado. Duas coisas parecem ter trabalhado a favor de Moonlight: a precisão de seu diretor e roteirista, Barry Jenkins (de Medicine for Melancholy, 2008), tecnicamente impecável, e as atuações, todas niveladas por cima. Jenkins, que baseou o roteiro na peça de Tarell Alvin McCraney, faz opções elegantes e cria cenas poéticas, além de conduzir bem seus três Chirons, para que eles mantenham traços similares e ainda demonstrem uma evolução. Ali, muito elogiado e premiado por seu trabalho, não faz muito além de repetir maneirismos vistos em Luke Cage, só muda de figurino. A risada pausada, o jeito calculado de ser ameaçador… Tudo em sua composição lembra projetos anteriores, além de passar pouquíssimo tempo em cena. Mesmo assim, levou o prêmio do Sindicato dos Atores e é favorito ao Oscar como Melhor Ator Coadjuvante.

Tendo agradado a crítica de uma forma devastadora e com altíssimo aproveitamento em sites agremiadores, Moonlight tem uma bela carreira pela frente nos cinemas. Uma pena que, ao invés de aproveitar o barulho do Oscar, com suas oito indicações, a Diamond Films Brasil tenha optado por uma estreia três dias antes da premiação. Quem quiser formar opinião para dar palpites entre os indicados vai ter um prazo curto.

Os três atores que vivem o protagonista, lado a lado

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Filme de terror promete uma Cura

por Marcelo Seabra

Pela primeira vez em sua carreira, o diretor Gore Verbinski faz juz ao seu nome e vai à loucura com um filme de terror. Com A Cura (A Cure for Wellness, 2016), ele chega mais longe que em O Chamado (The Ring, 2002), compondo uma obra que deixaria a produtora Hammer orgulhosa. Bebendo em clássicos do Cinema B e misturando temas caros ao gênero, como o cientista maluco, casas assombradas e conspirações, o diretor consegue surpreender o público dando algumas viradas loucas na história. Podem não gostar dos rumos tomados, mas ninguém pode dizer que seja previsível. Ou que faltou coragem.

Quanto menos for dito sobre a história, melhor. Trata-se apenas de um jovem executivo americano que deve viajar aos Alpes Suíços para trazer de volta um dos diretores da empresa para que uma fusão seja autorizada e todos ganhem muito dinheiro. O tal veterano foi para um resort caríssimo em férias e decidiu não voltar mais. O que teria acontecido lá? Seria esse lugar como o Hotel California, da música dos Eagles, de onde “você pode fazer o check out, mas não consegue sair”? O título original completo dá uma ideia do que fazem por lá: uma cura para o bem estar.

Como protagonista, temos Dane DeHaan, que viveu James Dean recentemente, em Life (2016). O trabalho do ator é bem competente, mudando de postura de um momento para o outro, e é complementado por uma boa maquiagem. Outro que está em boa forma é Jason Isaacs, o cientista da série The OA. No filme, ele vive o diretor do instituto, alguém que acredita no uso das faculdades medicinais da água local para o tratamento de diversas doenças. Como todos os demais, ele sempre tem um jeito suspeito, e alguns funcionários chegam a ser caricatos. A qualquer momento, Vincent Price poderia aparecer. Ou Bela Lugosi, Peter Cushing… Completando o clima de estranheza, temos Mia Goth (de Evereste, 2015), uma garota que mais parece uma assombração.

Como ponto negativo de A Cura, podemos apontar a duração. É uma história que poderia ser mais simples e divertida se fosse mais objetiva, com muito menos que suas duas horas e 26 minutos. Mas não deixa de ser interessante que Verbinski tenha conseguido um orçamento de US$40 milhões, e nem foi na Universal, estúdio que vem à mente quando se pensa em filmes de terror – caso de Arraste-me para o Inferno (Drag Me to Hell, 2009). Vamos ver se a Fox consegue reaver seu investimento.

Isaacs e Goth completam o elenco

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Indiano se perde da família e chega no Oscar

por Marcelo Seabra

Mais um dos destaques do Oscar, acumulando um total de seis indicações, chega aos cinemas essa semana. Lion: Uma Jornada para Casa (2016) está entre os nove melhores filmes do ano, segundo a Academia, e narra uma história real que deve fazer muita gente derramar lágrimas. É daquele tipo que todos sabem como começa e como termina, mas o durante é o mais importante. Tem gente achando que a badalação se deve ao trabalho dos irmãos Weinstein, notórios lobistas de premiações, mas o longa de fato tem seus méritos.

No início, temos uma cidadezinha da Índia, onde um garotinho e seu irmão procuram formas de ganhar dinheiro. O elenco dessa primeira parte é cativante, com destaque para o pequeno protagonista, Sunny Pawar (abaixo), um achado de tão adorável. Quando ele se perde do irmão, e passa por algumas atribulações, a história dá um salto e o vemos como um adulto que leva sua vida na Tasmânia, com os pais adotivos, até que começa a ver meios de buscar sua família perdida. A versão mais velha do personagem é vivida por Dev Patel (dos dois Exótico Hotel Marigold), que dá continuidade à saga de forma bem competente.

Baseado no livro do próprio Saroo Brierley, o roteiro de Luke Davies (de Life: Um Retrato de James Dean, 2015) até consegue desenvolver bem o que seria um fiapo de trama, rendendo o suficiente para ocupar duas horas de modo que não fique cansativo. É compreensível que a falta de formas para encontrar a família de sangue tenha feito o sujeito desistir, para não ficar alimentando esperanças de algo que ele julgava impossível. Mas o filme mostra como se aquela busca tivesse se tornado uma obsessão repentina, o que ficou um tanto estranho. Com medo de magoar a mãe adotiva, ele faz tudo em segredo, e é aí que Nicole Kidman (de O Mestre dos Gênios, 2016) tem oportunidade de brilhar mais.

É inexplicável como Patel recebeu várias indicações, e até venceu o BAFTA, como Melhor Ator Coadjuvante. Com o rosto estampado no cartaz, ele é claramente o ator principal. A indicação como Melhor Atriz Coadjuvante de Kidman, sim, é correta, podendo-se aí discutir se a interpretação era realmente merecedora de tanto barulho, com outras grandes que acabaram de fora. No caso de Patel, é jogada pura dos produtores para que ele tenha mais chance, já que na categoria principal a briga é mais feroz. Se ele é coadjuvante, pode-se concluir que o filme não tem um ator principal. Rooney Mara (de Carol, 2015) e David Wenham (de 300: A Ascensão do Império, 2014) completam o elenco, tendo pouco a fazer. A indiana Priyanka Bose vive a mãe biológica de Saroo.

Com a experiência adquirida em comerciais de TV e como assistente na minissérie Top of the Lake, Garth Davis faz com Lion sua estreia no Cinema e já levou o prêmio para iniciantes do Sindicato dos Diretores. Com uma montagem adequada e uma bela fotografia, ele costurou tudo e ainda conseguiu fazer bom uso do Google Earth, ferramenta fundamental na busca de Saroo. E não ficou com cara de marketing, o que é o melhor. É apenas mais uma peça em um filme redondinho, correto.

Nicole Kidman responde por uma das seis indicações ao Oscar

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