Indiano se perde da família e chega no Oscar

por Marcelo Seabra

Mais um dos destaques do Oscar, acumulando um total de seis indicações, chega aos cinemas essa semana. Lion: Uma Jornada para Casa (2016) está entre os nove melhores filmes do ano, segundo a Academia, e narra uma história real que deve fazer muita gente derramar lágrimas. É daquele tipo que todos sabem como começa e como termina, mas o durante é o mais importante. Tem gente achando que a badalação se deve ao trabalho dos irmão Weinstein, notórios lobistas de premiações, mas o longa de fato tem seus méritos.

No início, temos uma cidadezinha da Índia, onde um garotinho e seu irmão procuram formas de ganhar dinheiro. O elenco dessa primeira parte é cativante, com destaque para o pequeno protagonista, Sunny Pawar (abaixo), um achado de tão adorável. Quando ele se perde do irmão, e passa por algumas atribulações, a história dá um salto e o vemos como um adulto que leva sua vida na Tasmânia, com os pais adotivos, até que começa a ver meios de buscar sua família perdida. A versão mais velha do personagem é vivida por Dev Patel (dos dois Exótico Hotel Marigold), que dá continuidade à saga de forma bem competente.

Baseado no livro do próprio Saroo Brierley, o roteiro de Luke Davies (de Life: Um Retrato de James Dean, 2015) até consegue desenvolver bem o que seria um fiapo de trama, rendendo o suficiente para ocupar duas horas de modo que não fique cansativo. É compreensível que a falta de formas para encontrar a família de sangue tenha feito o sujeito desistir, para não ficar alimentando esperanças de algo que ele julgava impossível. Mas o filme mostra como se aquela busca tivesse se tornado uma obsessão repentina, o que ficou um tanto estranho. Com medo de magoar a mãe adotiva, ele faz tudo em segredo, e é aí que Nicole Kidman (de O Mestre dos Gênios, 2016) tem oportunidade de brilhar mais.

É inexplicável como Patel recebeu várias indicações, e até venceu o BAFTA, como Melhor Ator Coadjuvante. Com o rosto estampado no cartaz, ele é claramente o ator principal. A indicação como Melhor Atriz Coadjuvante de Kidman, sim, é correta, podendo-se aí discutir se a interpretação era realmente merecedora de tanto barulho, com outras grandes que acabaram de fora. No caso de Patel, é jogada pura dos produtores para que ele tenha mais chance, já que na categoria principal a briga é mais feroz. Se ele é coadjuvante, pode-se concluir que o filme não tem um ator principal. Rooney Mara (de Carol, 2015) e David Wenham (de 300: A Ascensão do Império, 2014) completam o elenco, tendo pouco a fazer. A indiana Priyanka Bose vive a mãe biológica de Saroo.

Com a experiência adquirida em comerciais de TV e como assistente na minissérie Top of the Lake, Garth Davis faz com Lion sua estreia no Cinema e já levou o prêmio para iniciantes do Sindicato dos Diretores. Com uma montagem adequada e uma bela fotografia, ele costurou tudo e ainda conseguiu fazer bom uso do Google Earth, ferramenta fundamental na busca de Saroo. E não ficou com cara de marketing, o que é o melhor. É apenas mais uma peça em um filme redondinho, correto.

Nicole Kidman responde por uma das seis indicações ao Oscar

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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