J. Edgar de Eastwood continua misterioso

por Marcelo Seabra

JEdgar

Fazer um filme sobre uma figura pública é sempre complicado. Muita gente pode ficar chateada, há muita vaidade envolvida. Mas esse nem é o principal problema: dependendo do biografado, muito ainda pode ser um mistério. Em J. Edgar (2011), o diretor Clint Eastwood tenta contar uma história nebulosa e junta dois tipos de informações: as que todo mundo já conhecia e as não-confiáveis, que devem ter sido deduzidas pelo roteirista ou pelo próprio personagem.

J Edgar HooverO que dizem de Woody Allen tem servido também a Eastwood: mesmo quando se trata de um filme menor de sua carreira, ainda é melhor que praticamente tudo mais que estiver em cartaz. O problema é que o que mais interessa na vida de John Edgar Hoover (ao lado), o eterno diretor do FBI, é a quantidade de segredos que ele guardava. Mas guardava tão bem que permaneceram assim. O filme se torna interessante, então, por abranger as quase cinco décadas em que ele ficou à frente da instituição que ajudou a criar, e passamos pela evolução do bureau. Hoje, parece que sempre se usou impressões digitais para investigar um crime, mas não era bem assim.

O roteirista do longa, Dustin Lance Black, é geralmente referenciado como ativista pelos direitos dos homossexuais, e seu trabalho mais famoso, pelo qual ganhou um Oscar, é sobre o primeiro político americano abertamente gay: Milk (2008). A escolha de Lance Black, portanto, já indica uma faceta de Hoover que será explorada pelo filme, algo que pode ter deixado muitos americanos insatisfeitos. Afinal, para o tal “americano médio”, é inconcebível que um grande herói da justiça e dos bons costumes seja gay. Ainda há bastante preconceito na sociedade. O próprio Hoover era o primeiro a condenar e zombar de homossexuais, além de acumular outros vários prenconceitos. Não havia, entre os agentes contratados por ele, negros ou mulheres.

J. Edgar traz uma das melhores interpretações de Leonardo DiCaprio, o que não é pouco, analisando-se seus trabalhos mais recentes. Ele se prepara para sua quinta colaboração com Martin Scorsese (The Wolf of Wall Street), diretor que já arrancou dele ótimas performances, como em O Aviador (The Aviator, 2004), no qual vive o excêntrico milionário Howard Hughes. Como Hoover era um sujeito sem um pingo de carisma ou simpatia, DiCaprio faz um ótimo trabalho se segurando, agindo com discrição e fazendo as coisas acontecerem à sua volta, mas sem chamar atenção para si. O monstro que Hoover parece ter sido (pelo que lemos ou ouvimos na mídia) não chega a dar a cara, mas fica muito claro que ele não se mantém tantos anos como (supostamente) o segundo homem mais importante do país sendo bonzinho ou seguindo as leis à risca. Para cada presidente eleito, parece haver um dossiê pronto com todos os dados necessários para uma chantagem.

J. Edgar

Os demais nomes do elenco também cumprem bem suas funções, mesmo que debaixo de quilos de maquiagem. Armie Hammer, o príncipe de Espelho, Espelho Meu (2012 – acima, com DiCaprio), é o único prejudicado pelo envelhecimento mal feito, mais parecendo um boneco de cera de Madame Tussauds. Mesmo assim, ele não fica atrás de Naomi Watts (de O Impossível, 2012) ou Judi Dench (de Skyfall, 2012), todos muitos competentes. Hammer vive Tolson, o braço direito e provável amante (platônico) de Hoover, enquanto Naomi é a secretária de extrema confiança e Judi faz a mãe, que transmite ao filhos todos os seus prenconceitos e receios.

Indo do que se sabe ao que se supõe, o roteiro mostra passagens históricas importantes para a história dos EUA, mas se preocupa mais em apresentar o homem por trás do mito. O sequestro do bebê Lindbergh, por exemplo, foi extensamente documentado, e no entanto sempre há detalhes até então desconhecidos. Há passagens em que se há a clara impressão que o filme está suavizando certos fatos e características de seu protagonista, mas há que se dar um desconto. Como é Hoover quem dita sua história para um funcionário datilografar, ele lembra da forma que acha mais interessante. Como Tolson coloca, as informações no livro que Hoover está escrevendo vão de exageros lisonjeiros a mentiras grosseiras. Em momento algum, diz-se que o filme é uma aula de história. Alguém razoavelmente informado saberá separar, no conforto do sofá, fatos de possibilidades, ou ao menos ficará com um pé atrás.

O diretor Eastwood orienta seu astro

O diretor Eastwood orienta seu astro

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Impossível é ficar impassível

por Marcelo Seabra

The Impossible

Em 2004, o mundo aprendeu o significado da palavra tsunami. A costa oeste de Sumatra, na Indonésia, foi o epicentro de uma tragédia quando ondas gigantescas atingiram violentamente catorze países, devastaram várias comunidades e tiraram a vida de mais de 230 mil pessoas. Uma das famílias vitimadas é retratada em O Impossível (Lo Imposible, 2012), drama que recria aquele cenário para dar ao público uma dimensão mais real do que teria acontecido. As cenas de destruição e os momentos seguintes não são recomendados aos mais sensíveis.

The Impossible

Apesar de ter cenas fantásticas feitas digitalmente mostrando o tsunami, o maior mérito do filme é ter ótimas atuações, uma visão bem sóbria, sem sentimentalismo barato, e usar bem as tais cenas sem chamar atenção para elas. Da forma que tudo é conduzido, você realmente acredita estar frente à criação de Deus, e não de técnicos de informática, como se fossem cenas de arquivo de um telejornal privilegiado. Os efeitos são perfeitos, ainda melhores do que vimos em Além da Vida (Hereafter, 2010), e casam muito bem com o drama da família Bennett, apenas uma em meio a tantas que foram atingidas. Foram usados como base os relatos dos Belon, os espanhóis que estavam na Tailândia, em férias, em 2004, e eles inclusive foram à estreia do longa. Segundo o jornal Orlando Sentinel, eles estiveram à disposição da produção para contar tudo e esclarecer dúvidas.

No filme, somos apresentados ao casal Maria e Henry e seus três filhos, todos bem jovens, que vão à Tailândia em férias. Logo na viagem, dentro do avião, já começamos a ver aquelas pessoas e a prever o que acontecerá a eles, e o aperto no peito começa. Após algumas belas cenas em família, eles se divertem na piscina do resort e alguns estranhos sinais começam a aparecer. Não há tempo para qualquer tipo de providência: ondas de 30 metros de altura invadem tudo e levam com extrema violência o que estiver pela frente em questão de segundos. Daí em diante, acompanhamos o desespero da mãe para encontrar o marido e os filhos.

Naomi e HollandO jovem Tom Holland (ao lado), que faz o filho mais velho, Lucas, consegue transmitir vários sentimentos de uma vez com competência de veterano. Ele vai do desespero à tristeza à coragem e perseverança que só podemos torcer por mais filmes que aproveitem esse talento todo. Os outros garotos, Samuel Joslin e Oaklee Pendergast, também se garantem e não ficam para trás. Ewan McGregor (de Amor Impossível, 2011), o pai, faz o necessário como um sujeito retraído que tira forças não se sabe de onde e segue em frente, dividindo com o personagem o constrangimento na hora de chorar e reconhecer sua própria falta de esperança. Quem rouba a cena é Naomi Watts (de A Casa dos Sonhos, 2011), sempre serena, que vira uma onça quando necessário. Mesmo em condições deploráveis, sua Maria defende a prole e não desiste inclusive de salvar um garotinho desconhecido. A atriz inclusive foi indicada ao Globo de Ouro 2013 pelo trabalho.

McGregor e Naomi trabalharam juntos em A Passagem (Stay, 2005) e demonstram uma boa química juntos. Ambos já passaram dos 40, parecem mais jovens e têm um quê de maturidade e carisma que faz o público acreditar na dinâmica da família e torcer por eles. Uma crítica sofrida por O Impossível vem daqueles que acusam o longa de valorizar o drama de estrangeiros enquanto as maiores vítimas da tragédia foram os próprios moradores. Mas se realmente houve uma família passando por uma situação como aquela, qual o problema em segui-la? E os Bennett servem como representação de tantos outros que estavam ali, na mesma situação, em uma terra estranha, com uma língua difícil de ser compreendida, vivendo o que podia facilmente ser o inferno.

Cinco anos depois de realizarem o terror O Orfanato, o diretor  Juan Antonio Bayona e o roteirista Sergio Sánchez se reúnem novamente e entregam outra obra forte e bem cuidada. Bayona demonstra controle pleno de seu ofício e passa a ser um nome visado por Hollywood, que parece estar sempre à caça de novos talentos para não ficar só no “mais do mesmo”. O Impossível não é daqueles filmes piegas que buscam a todo custo as lágrimas do público. Mas não se assuste se elas rolarem assim mesmo.

Naomi e McGregor se unem aos Belon na premiere de O Impossível

Naomi e McGregor se unem aos Belon na premiere de O Impossível

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Suspense bem amarrado traz um ótimo Richard Gere

por Marcelo Seabra

Arbitrage

Longe de ser uma garantia de bons filmes, Richard Gere volta e meia acerta na mosca nos projetos que escolhe estrelar. Cabe ao público peneirar e descobrir as pérolas, caso de As Duas Faces de Um Crime (Primal Fear, 1996), por exemplo. Felizmente, cabe nesse grupo a estreia de Nicholas Jarecki na direção, A Negociação (Arbitrage, 2012), longa que chega aos cinemas esta semana trazendo uma ótima interpretação de Gere, que vive o tipo que amamos odiar.  Não foi surpresa que o ator tenha sido lembrado entre as indicações ao Globo de Ouro 2013, anunciadas recentemente.

Arbitrage BritGere interpreta Robert Miller, um milionário muito bem visto na sociedade que está no meio do processo de venda de suas empresas. Em determinado momento, sua filha Brooke (Brit Marling, de A Outra Terra, 2011 – foto) pergunta por que ele estaria vendendo tudo, e ele apenas desconversa. Logo descobrimos que Miller deu um jeito de encobrir seus registros financeiros pegando dinheiro emprestado para tapar buracos. A venda das empresas o salvaria financeiramente e seria um dos maiores casos de fraude da história. Nada muito longe do que vemos nos jornais diariamente e que o filme Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011) mostrou muito bem.

Arbitrage sceneAlém dessa situação financeira, Miller também guarda segredos em sua vida pessoal: ele mantém uma amante (a belíssima Laetitia Casta, de Gainsbourg, 2010 – ao lado) na folha de pagamento de sua empresa sob a desculpa de patrocínio às artes, já que ela gerencia uma galeria, e a refinada esposa (Susan Sarandon, do segundo Wall Street, 2010) já se acostumou com as fugas do marido. Como se não bastasse a situação da negociação das empresas, com vários empecilhos sendo colocados pelo comprador, Miller se vê em meio a uma investigação de assassinato que poderá trazer muita atenção indesejada para ele.

Com a classe e a tranquilidade de sempre (que nem sempre casam bem com o papel), Gere confere a seu Robert o ar necessário de um almofadinha que está acostumado a se safar de qualquer situação, mas está bem ciente de sua condição de engodo. A forma como ele dispensa uma revista que traz a sua foto na capa é bem sugestiva. O detetive vivido por Tim Roth (da série Lie to Me) representa o sentimento de busca por justiça que qualquer um teria nessa situação, ele parece acostumado a ver poderosos saírem livres de acusações sérias. Dessa vez, ele pretende conseguir uma condenação. Susan Sarandon faz uma mulher que, apesar de forte e socialmente atuante, é resignada quanto aos casos do marido e se contenta em ter uma bela família e recursos financeiros que parecem intermináveis.

Jarecki evita o jargão do mercado financeiro e consegue criar um interessante suspense. Roteirista do fraco Informers – Geração Perdida (2008), ele parte para um mundo que conhece, já que vem de uma família próspera e é filho do filantropo Henry Jalecki, conhecido pelo pioneirismo nas estratégias de negociação de commodities. Além deste pano de fundo, que parece uma bomba pronta a explodir, ele ainda insere a investigação de assassinato, o que eleva bastante a tensão, e consegue deixar tudo muito bem costurado. É curioso perceber que, mesmo sabendo que o personagem não vale nada, torcemos por ele, o que traz até um certo sentimento de culpa. Este é um mundo sem heróis, e Miller vai buscar sobreviver, não importa em quem tenha que pisar.

Jarecki dirige seu astro

Jarecki dirige seu astro

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A vida de Pi mereceu um livro e um filme

por Marcelo Seabra

Life of Pi

Dando continuidade a uma carreira marcada pela diversidade, Ang Lee partiu para a adaptação de um livro sobre um garoto indiano que vive uma jornada fantástica. Depois de se voltar para os costumes de diferentes povos, filmar um herói dos quadrinhos e até retratar um polêmico romance homossexual, Lee filmou As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012), do livro de Yann Martel, lançado em 2001. Usando o recurso 3D para dar profundidade a algumas lindas paisagens, Lee entrega uma obra esteticamente perfeita e com passagens bem marcantes.

De cara, no trailer, as imagens já causavam sensação e davam uma amostra da beleza que estava por vir. A reconstituição de parte da Índia é fantástica, tanto de Pondicherry, a “Riviera Francesa do Leste”, quanto da área mais pobre. A família de Pi (nascido Piscine Molitor Patel) tinha posses, seu pai era um empresário, e ele cresceu no zoológico deles, em meio aos animais. Tendo sido educado como hindu, Pi descobre o cristianismo e ainda chega a estudar o islamismo, praticando as três religiões. Durante uma crise econômica, o pai decide vender suas propriedades e embarcar para o Canadá, onde poderia vender os animais e ter uma vida no mesmo padrão com o qual estavam acostumados.

Life of Pi posterComo o cartaz entrega, Pi acaba no meio do oceano, em um pequeno barco, com nada menos que um tigre de Bengala como companheiro de viagem. A jornada que o jovem vive poderia colocar em xeque a fé de muitos, mas Pi se mantém humilde e obediente, à disposição de qualquer que seja a divindade. Por algum motivo, muitos parecem ter entendido que se tratava de um filme infantil. Não era normal o tanto de crianças na sessão (apesar de que o maior incômodo é sempre causado por adultos inconvenientes). É sobre um adolescente, mas não é necessariamente para este público. As questões que preocupam Pi são universais, como as populares “que sou eu?”, “para onde vamos?” e “quem é responsável por isso tudo?”.E é importante ressaltar que não é preciso ser religioso para apreciar o longa. E as respostas não se resumem a “42”, nem tampouco a um encontro na cabana. O título nacional, além de afastar o filme da obra que lhe deu origem, descaracteriza a ideia de magnitude que cerca Pi: ao invés de A Vida de Pi, ficou parecendo sessão da tarde, daquele tipo com “uma galerinha que apronta todas”.

A exemplo de Náufrago (Cast Away, 2000), em que Tom Hanks tinha como companheiro Wilson, a bola de vôlei, Pi se relaciona com o tigre Richard Parker (todos os nomes esdrúxulos são devidamente explicados) e isso o mantém são. Ao mesmo tempo em que funciona como antagonista, o tigre extremamente bem feito acaba sendo um amigo, algo que faz com que Pi continue agarrado a sua esperança. Os dois atores que vivem o protagonista, tanto o iniciante Suraj Sharma quanto Irrfan Khan (quase não visto em O Espetacular Homem-Aranha, 2012), fazem um ótimo trabalho, e o elenco de apoio não fica para trás. Milagre que Dev Patel (de Quem Quer Ser um Milionário?, 2008) não apareça, já que ele parece ser o indiano de plantão e ainda divide o sobrenome com o personagem.

Nos estágios iniciais de desenvolvimento, o diretor ligado ao projeto era ninguém menos que Manoj Nelliyattu Shyamalan, ou M. Night Shyamalan, também nascido em Pondicherry. Passaram outros e a adaptação acabou ficando com Ang Lee, cineasta bem estabelecido que em mais de uma oportunidade já demonstrou ter sensibilidade para contar boas histórias, independente da escala. O roteiro de David Magee (de Em Busca da Terra do Nunca, 2004) é bem amarrado, às vezes até muito explicativo. O tom de fábula permite que os aspectos religiosos da trama sejam suavizados e não incomodem. Um filme que propõe debates interessantes e respeita a posição de cada envolvido, sem pregar em momento algum, já merece a nossa atenção, independente de seus outros méritos.

As imagens maravilhosas são um grande diferencial de As Aventuras de Pi

As imagens maravilhosas são um grande diferencial de As Aventuras de Pi

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Emily Blunt e Ewan McGregor fazem um belo casal

por Marcelo Seabra

Salmon Fishing

Após uma tímida passagem pelos cinemas, Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen, 2011) poderá ser mais apreciado no conforto de casa, e já está disponível para locação. Mais um caso extraordinário de título nacional mal escolhido, o longa tem seu ponto forte no simpático casal protagonista, vivido por Ewan McGregor e Emily Blunt. É inevitável que eles vão ver algo a mais um no outro, o que o título já reforça, mas assisti-lo não deixa de ser uma experiência agradável, ainda que rapidamente esquecível.

Uma história sobre um sheik tentando levar a pesca de salmão para o deserto do Yêmen tinha que ter uma interessante sátira política por trás. Parece, pelo que falou-se em diversas análises, que o livro de Paul Torday de fato se desenvolve nessa direção, mas esta é uma opção que o diretor Lasse Hallström e o roteirista Simon Beaufoy preferem dispensar, ficando no terreno seguro da comédia romântica. Hallström não costuma passar do sentimentalismo barato, como fica claro em Regras da Vida (1999), Chocolate (2000), Sempre ao Seu Lado (2009) ou o mais recente Querido John (2010), entre outros. Beaufoy, Oscar por Quem Quer Ser um Milionário? (2008) e indicações por 127 Horas (2010) e Ou Tudo, Ou Nada (1997), deve ter se contentado em seguir a visão do cineasta.

Salmon Fishing couple

Ewan McGregor ficou bem conhecido do grande público quando viveu o jovem Obi-Wan Kenobi na nova trilogia de Star Wars (1999-2005), mas já era tratado como grande promessa devido a dois longas independentes: Cova Rasa (Shallow Grave, de 1994) e Trainspotting (1996). Sempre versátil, ele alterna produções maiores e cheias de ação com dramas e comédias menores. McGregor se mostra a escolha ideal para fazer par com Emily Blunt, ambos trazem uma aura de elegância e charme a seus papéis. Ela chamou a atenção como a antipática assistente de O Diabo Veste Prada (2006) e aparece bem em cena com qualquer colega, como Matt Damon em Os Agentes do Destino (2011).

No filme, o Dr. Alfred Jones (McGregor) é um dos maiores peritos em pesca da Inglaterra e, por isso, é procurado por uma representante de uma grande firma de investimentos (Emily) para tornar possível o projeto de seu cliente, um riquíssimo sheik do Yêmen (Amr Waked). O excêntrico multimilionário pretende levar para sua terra natal o seu passatempo favorito, a pesca de salmão. Na cabeça dele, é claro, o projeto é muito maior, significaria levar vida a uma região árida, de gente sofrida. Milhões de dólares serão gastos para construir lagos artificiais e, o pior, levar milhares de salmões vivos da Inglaterra para o Yêmen.

Salmon Fishing KristinA trama, num primeiro momento absurda, é encarada pelo governo inglês como uma boa possibilidade de reforçar as relações amigáveis entre os dois países, uma notícia positiva para os jornais, que não envolveria guerra ou mortes. A assessora de imprensa do Primeiro Ministro mobiliza todos que puder para que os peixes façam a viagem necessária. Kristin Scott Thomas (a tia Mimi de O Garoto de Liverpool, 2009 – foto) faz sua Patricia Maxwell roubar o filme e parece propositalmente exagerada, trazendo humor em quase todas as suas cenas.

Outro diretor, um mais corajoso e autêntico, teria dado a Amor Impossível mais humor e aproveitaria a verve crítica da história de Torday. Nas mãos de Hallström, não passa de uma comédia romântica que tem os seus méritos, mas deixa aquela sensação de desperdício de material e dos talentos envolvidos. E é bem incompreensível que tenha recebido três indicações aos Globos de Ouro, como se o ano não tivesse tido obras muito superiores para ocuparem as categorias de musical ou comédia. Não sei quando “bonitinho” passou a ser o suficiente para indicações a prêmios.

Gente rica não é louca, é excêntrica

Gente rica não é louca, é excêntrica

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Duas visões sobre O Hobbit

The Hobbit

Para marcar a estreia do aguardado O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, O Pipoqueiro ataca logo com duas críticas sobre o longa. Em alguns momentos, elas apontam pontos similares, mas são em seu cerne bem diferentes.  Confira as duas abaixo.

O Hobbit ganha adaptação fiel e divertida

  • por Rodrigo “Piolho” Monteiro

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada é o primeiro filme da nova trilogia do diretor/roteirista Peter Jackson (O Senhor dos Anéis, King Kong) a revisitar a obra do escritor sul-africano J. R. R. Tolkien. Desde que fora anunciada, a adaptação causou uma dose quase equivalente de frisson e apreensão entre os fãs do livro. Inicialmente, o projeto seria um filme único, produzido por Jackson e dirigido por Guilhermo Del Toro (“Hellboy”). Devido a uma série de problemas, Del Toro acabou abandonando a empreitada e Jackson não só resolveu acumular as funções de roteirista, produtor e diretor como também chegou à conclusão de que, assim como “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit” deveria ser uma trilogia.

Nesse ponto, veio a apreensão dos fãs do material original, já que O Hobbit é um livro curto – menos de 300 páginas – e com uma escrita muito menos elaborada do que qualquer uma das partes de O Senhor dos Anéis, de forma que caberia tranquilamente em apenas um longa-metragem. Mesmo após Jackson ter anunciado que usaria materiais extras, especialmente os encontrados nos apêndices de O Senhor dos Anéis, para contar sua história, a desconfiança permaneceu. Assim sendo, é bom que fique claro que O Hobbit é uma adaptação muito mais livre em relação ao material original do que Jackson fez com a trilogia do anel. A essência do livro, claro, está lá, mas a história foi bastante esticada para que preenchesse os 166 minutos da película. Algo que também será feito nos filmes seguintes, com toda a certeza.

The Hobbit BilboA primeira parte da nova trilogia de Jackson começa no dia do 111º aniversário de Bilbo Baggins (Ian Holm), poucas horas antes da festa de comemoração da ocasião, evento que também marca o começo de A Sociedade do Anel, primeiro filme da trilogia de O Senhor dos Anéis. Os eventos mostrados aqui, no entanto, são anteriores aos mostrados em A Sociedade. Aqui, vemos o momento em que Bilbo decide começar a escrever a história de como embarcou na maior aventura de sua vida, um conto que deixará para seu sobrinho Frodo (Elijah Wood, em uma ponta). O conto – e o filme – começa 60 anos antes, quando o então jovem Bilbo (Martin Freeman, da série Sherlock – acima) é abordado por Gandalf, o Cinza (Ian McKellen) para que faça parte de uma comitiva de 13 anões liderada por Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage, de Capitão América) com o objetivo de recuperar Erebor, a montanha na qual sua raça de anões habitara por séculos e o tesouro nela contido, das garras do dragão Smaug.

Essa é, essencialmente, a história de O Hobbit. Para que seu filme durasse mais, Peter Jackson adicionou passagens retiradas de outras fontes, especialmente dos apêndices de O Senhor dos Anéis, como dito no primeiro parágrafo deste texto, para justificar a duração do filme que, apesar de longo, não é cansativo. Um desses enxertos é a trama paralela que mostra a rivalidade entre o orc Azog (Manu Bennett) e Thorin, sobre a qual não discorrerei para evitar possíveis spoilers (Azog aparece no Apêndice A de O Senhor dos Anéis).

The HobbitA primeira parte da trilogia O Hobbit reflete o fato de o material original ser um livro infantil. Se em O Senhor dos Anéis há um único anão como alívio cômico, aqui temos 13 deles, todos muito bem caracterizados, a maioria piadista, mas pelo menos cinco deles com personalidades bem desenvolvidas. O filme usa e abusa de coincidências e algumas situações têm soluções que aqueles não familiarizados com o material de Tolkien podem achar incômodas ou mesmo completamente sem sentido, ainda que diversas delas – como a cavalaria chegando quando os heróis do filme mais precisam de ajuda – sejam apenas clichês cinematográficos.

No fim das contas, O Hobbit é, como seu subtítulo diz, uma jornada inesperada. Tecnicamente impecável – a versão resenhada é a convencional, de 24 frames por segundo e em duas dimensões –, ele fica abaixo das expectativas criadas graças ao trabalho de Peter Jackson em O Senhor dos Anéis. No entanto, não deixa de ser um filme divertido, que traz aos fãs de longa data um sentimento de “volta pra casa” já que, ainda que apresente um bom número de novos personagens, outros – como Saruman (Christopher Lee), Galadriel (Cate Blanchet), Elrond (Hugo Weaving), Gollum (Andy Serkis) – fazem aparições, assim como são revisitados locais como Moria e Valfenda. Há interessantes sequências de ação e algumas boas ideias que, esperamos, sejam bem desenvolvidas em suas duas continuações. Vale dizer que, ainda que seja uma adaptação bem livre da obra original, assim como em O Senhor dos Anéis, há diversas sequências que levam às telas de maneira quase literal o que se vê no livro de Tolkien, o que se torna um atrativo a mais para os fãs do escritor.

The Hobbit

Peter Jackson cansa com o longo Hobbit

  • por Marcelo Seabra

Mesmo para quem não era exatamente um fã de Tolkien, a trilogia Senhor dos Anéis no cinema foi um feito admirável. Por isso, o mundo aguardava ansioso o desenrolar do drama da adaptação de O Hobbit, livro de Tolkien que conta uma história pré saga dos anéis. A produção passou alguns perrengues e todos ficaram satisfeitos com a notícia de que Peter Jackson voltaria àquele universo, novamente na cadeira do diretor, e traria muitos de seus colaboradores habituais. Um bom elenco foi reunido, com vários rostos que já freqüentaram a Terra Média, e tudo seguia um ótimo caminho.

Com relação ao time reunido por Jackson, incluindo-se aí os atores, tudo funciona muito bem tecnicamente. O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012) chega aos cinemas essa semana inclusive com inovações tecnológicas, já que foi filmado a 48 fps (o dobro de frames que se usa em um filme) e ainda em 3D. Esse aspecto não poderá ser comentado aqui porque a sessão para a imprensa foi em 2D convencional, com os 24 fps de sempre. A trilha sonora é mais uma vez de Howard Shore, oscarizado pelo primeiro e pelo último episódios da trilogia anterior, e ele acerta nas composições, que trazem um espírito de aventura adequado. O diretor de fotografia Andrew Lesnie, também premiado pela Academia por A Sociedade do Anel (2001), volta à função e é responsável por cenas fantásticas, aproveitando ao máximo os lindos cenários criados pela turma da  WETA. Alguns closes eram desnecessários, mas isso empalidece no todo.

The Hobbit bookEsta adaptação de O Hobbit tem dois grandes problemas. O primeiro é a fonte que o origina, o livro de Tolkien. Muitos fãs podem maldizer o trabalho dos roteiristas, grupo formado pelo consagrado trio Jackson, Phillipa Boyens e Fran Walsh, com a adição de Guillermo del Toro, que estava escalado como diretor no início do desenvolvimento. O Hobbit, o livro, é bem infantil e tem um tom bobo que incomoda. Se o alívio cômico da trilogia dos anéis era o anão da turma, imagina ter 13 deles como protagonistas? Estão sempre fazendo bagunça e rindo uns com os outros com piadinhas bestas, mas sendo heróicos quando necessário. Imagine o fardo quando eles começam a cantoria! O outro complicador é a necessidade de Jackson, que ninguém entendeu (além do óbvio: grana), de ter transformado um volume nem muito grande em três longas realmente longos. O primeiro dura nada menos que 169 minutos, o que exige bastante enrolação e cenas que se estendem muito além do necessário, além de costuras com subtramas de outras histórias que foram parar ali.

Outro fator irritante é a fartura de coincidências, ou se poderia dizer que o timing dos personagens é sempre ótimo. Todo mundo aparece no momento em que é necessário à trama, de gente a outras espécies que não tinham sido apresentadas – e nunca fica claro suas funções, além de magicamente resolver impasses e ajudar a turma a se aproximar do destino almejado. A palavra conveniência define o filme, já que do início ao fim muitas atitudes contrárias ao que era sinalizado não são justificadas. “Ele apenas mudou de ideia”, é o que se deve pensar, na falta de uma saída melhor.

The HobbitUma saída fácil é acrescentar personagens e seus intérpretes que haviam aparecido antes em O Senhor dos Anéis. Afinal, quem não gostaria de ver Andy Serkis novamente como Gollum, aquela criatura trágica que aprendemos a amar? Além de Serkis, Jackson conta com Ian McKellen (Gandalf – ao lado), Ian Holm (Bilbo mais velho), Elijah Wood (Frodo), Hugo Weaving (Elrond) e Cate Blanchet (Galadriel), além de ter criado a oportunidade de se desculpar com Christopher Lee, que teve seu Saruman praticamente cortado dos anteriores. Além desses velhos conhecidos, há vários novatos nesse universo, com destaque para Martin Freeman, que vive a versão mais jovem de Bilbo Baggins (ou Bolseiro), e Richard Armitage (de Capitão América, 2011), que ficou com o papel de líder dos anões. Ele repete a caminhada de Aragorn, já que é um rei sem reinado em busca de uma recolocação à frente de seu povo.

Ao final de quase três intermináveis horas de exibição, fica a sensação de que um filme apenas teria sido mais do que o suficiente para uma adaptação decente de O Hobbit, e poderia ser até mais curto. Cortaria-se alguns personagens e seus núcleos, chegaria-se logo aos finalmentes e não terminaria com aquela mesma sensação de incompletude que pairou ao final de A Sociedade do Anel. Só faltou aparecer o “Continua”, tão usado na TV. Vamos torcer para que Jackson repita seu feito e faça sempre filmes melhores do que seus antecessores, como foi com As Duas Torres (2002) e O Retorno do Rei (2003).

Peter Jackson dirige Martin Freeman, o novo Bilbo

Peter Jackson dirige Martin Freeman, o novo Bilbo

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Alex Cross ganha terceira aventura no cinema

por Marcelo Seabra

Alex Cross

Criado por James Patterson, o detetive e psicólogo Alex Cross é protagonista de uma longa lista de livros e já ganhou duas adaptações ao cinema, chegando este ano à terceira. Anteriormente vivido por Morgan Freeman, Cross agora é Tyler Perry em A Sombra do Inimigo (Alex Cross, 2012), longa que pretende começar uma nova franquia com o personagem mais jovem. A próxima aventura já está em desenvolvimento, mas esta nova é tão mal escrita e cheia de furos que a expectativa para outras não é das melhores.

O que havia sido feito em Beijos Que Matam (Kiss the Girls, 1997) e Na Teia da Aranha (Along Came a Spider, 2001) se repete: não é propriamente a adaptação de um livro específico de Patterson, mas uma mistura da trama principal de um com elementos de outros. A colcha de retalhos que resulta disso é frequentemente digna de risos, o que não é muito interessante quando se trata de um policial sobre um serial killer com gosto por tortura e assassinato. Ter um comediante conhecido por se vestir de mulher no papel principal não ajuda, mas Tyler Perry nem é o pior dos problemas. Ele sai de seu terreno habitual e deixa de lado momentaneamente sua amada Madea, personagem de uma série de filmes, programas de TV e peças criada e vivida por ele mesmo. Ao tentar dar um ar sereno a Cross, Perry evita mostrar emoções e praticamente não abre a boca para falar, o que torna necessário o uso de legendas até para nativos da língua inglesa.

Alex Cross - Fox

O antagonista também deve ser uma figura forte para tornar a disputa interessante, e cabe a Matthew Fox (acima) viver o psicopata conhecido como Picasso. Lembrado pelas séries Party of Five e Lost, Fox passou um bom tempo na academia, raspou o cabelo e aprendeu todas as expressões faciais de um homicida exagerado, compondo um tipo bem careteiro e raso. Edward Burns (de Solteiros com Filhos, 2011) vive o parceiro e amigo de Cross, um policial que se acha muito bonito, o que podemos deduzir pelas expressões que o ator sustenta. Completando o elenco, temos participações menores de Giancarlo Esposito (da série Breaking Bad), Jean Reno (de Assalto ao Carro Blindado, de 2009), John C. McGinley (o Dr. Cox de Scrubs) e Cicely Tyson (de Histórias Cruzadas, 2011). Ninguém em um momento muito memorável, é importante ressaltar.

Alex Cross é um personagem cuidadosamente construído por Patterson livro a livro, com 20 histórias publicadas, e tem vendas expressivas para o mercado literário. Merecia, no mínimo, um diretor melhor que Rob Cohen, conhecido por bobagens às vezes divertidas, como Velozes e Furiosos (The Fast and the Furious, 2001), e na maioria apenas ruins, como Sociedade Secreta (The Skulls, 2000), Triplo X (Triple X, 2002) e Stealth (2005). Marc Moss, o roteirista, só trabalhou em Na Teia da Aranha, que já não é nenhuma beleza, e não tem mais nenhum trabalho na área, enquanto Kerry Williamson, sua dupla, estreia na função. Patterson devia ter aproveitado seu crédito como produtor para trazer gente mais capacitada, com uma bagagem boa. É por exemplos como esse que entendemos aqueles escritores que relutam tanto para venderem os direitos sobre suas obras.

Perry, Rachel Nichols e Burns são o trio que vai perseguir Picasso

Perry, Rachel Nichols e Burns são o trio que vai perseguir Picasso

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Brad Pitt é um competente homem da máfia

por Marcelo Seabra

Killing Them Softly

A máfia funciona mais ou menos como o governo de um país. Essa parece ser a ideia que fica após uma sessão de O Homem da Máfia (Killing Them Softly, 2012), nova parceria entre o diretor e roteirista Andrew Dominik e Brad Pitt, mesma dupla de O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford (2007). O ator mais uma vez mostra ser versátil e esperto o suficiente para não ficar preso à sua própria imagem, enquanto Dominik comprova ser um grande contador de histórias, seja em um faroeste histórico ou em um policial contemporâneo. E usar Johnny Cash e Velvet Underground na trilha só conta pontos a favor.

Pitt tem ótimas atuações em sua carreira, o que não significa que não tenha certos maneirismos que são repetidos com frequência. Mesmo assim, ele confere a seu Jackie Cogan o ar necessário: um sujeito razoavelmente inteligente e violento na mesma medida, que consegue circular bem tanto entre advogados importantes quanto entre a escória do pior nível. Ele é o sujeito que você vai querer contratar se precisar matar alguém ou, resumindo de um jeito simplista, se tiver um problema complicado para resolver. Ao mesmo tempo em que tenta ser solidário e companheiro, ele é prático e objetivo, e um tanto frio. Cogan prefere matar de forma suave, sem envolvimento emocional, como o título original indica, o que manteria seu profissionalismo.

Killing Them Softly duoSomos apresentados a um criminoso de segunda (Scoot McNairy, de Argo, 2012 – à direita) que procura uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Para ajudá-lo na missão, convoca o nada confiável Russell (Ben Mendelsohn, de Batman Ressurge, 2012 – à esquerda), um drogado que não parece fazer nada direito. Depois de darem um golpe em Markie (Ray Liotta, de Anti-Heróis, 2011), eles acreditam estarem tranqüilos e com alguma segurança financeira. É quando entra em cena Jackie Cogan, uma mistura de investigador e executor da máfia que vai tentar juntar as peças e castigar os responsáveis. Afinal, a casa de jogos era administrada por gente importante e “a rua” precisa saber que a situação foi resolvida de forma exemplar, para que outros não resolvam tramar crimes parecidos.

O contexto em que a história é ambientada fica claro logo de cara: o ano é 2008, pouco antes da vitória de Obama nos Estados Unidos. A necessidade de Dominik de reforçar constantemente a situação econômica ruim e a falta de esperança no modelo vigente dos americanos cansa, ele poderia ter confiado um pouco mais na capacidade do público de entender isso mais sutilmente. Mas nada que deponha contra, e os discursos e matérias jornalísticas usados para dar um ar de realidade são até interessantes para criarem esse contraponto entre criminosos e políticos, algo muito familiar para o brasileiro. É desanimador saber que aquela confiança depositada em Obama não foi totalmente retribuída, já que a saúde do país não melhorou muito.

Killing Them Softly GandolfiniAs situações enfrentadas pelos personagens mostram a imagem que os gângsters podem ter de si mesmos: seres infalíveis e bem sucedidos destinados à glória. Na realidade, vemos algo longe disso, principalmente na figura do matador Mickey (James Gandolfini, o Tony Soprano da TV – ao lado). Ele é alcoólatra, vive a possibilidade de ser preso por uma besteira (em comparação com as atrocidades que cometeu) e foi abandonado pela esposa. Nada mais perdedor. O advogado vivido por Richard Jenkins (de Amizade Colorida, 2011) não é diferente: ele precisa consultar uma junta para ter qualquer definição quando surge um impasse, um processo cansativo e burocrático. Jogos, assassinatos e extorsão não passam de um negócio, com as mesmas complicações que negócios lícitos podem trazer. O golpe aplicado causa uma crise econômica no submundo local que parece refletir o cenário nacional.

Apesar de alguns diálogos serem mais longos do que o necessário, o que torna alguns trechos um pouco cansativos, a construção dos personagens é rica e o desenrolar das situações é simples, e talvez por isso mesmo bem verossímil. Dominik se baseou em um livro de 1974, Cogan’s Trade, do falecido George V. Higgins. O autor descrevia bem o que estava acontecendo sem ser didático além da conta, o que situa sem ser desnecessariamente expositivo ou repetitivo. A linguagem utilizada é própria do submundo, e Pitt e seus colegas de cenas mantêm essa agilidade, trazendo a trama para dias mais próximos dos que vivemos, mesmo que com ar setentista. A época muda, mas os desafios e as armadilhas são os mesmos.

Uma negociação burocrática como essa nem parece envolver assassinato

Uma negociação burocrática como essa nem parece envolver assassinato

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Holy Motors é uma ótima fuga do habitual

por Marcelo Seabra

Holy Motors

Ex-crítico de cinema e cineasta bissexto, o francês Leos Carax entrega mais um trabalho, quatro anos depois do anterior, Tokyo! (2008). Já está no circuito dito de arte Holy Motors (2012), longa que deve passar batido pela maioria da população, mas que vai recompensar quem se atrever a conhecer Monsieur Oscar. Não é uma obra muito simples conceitualmente, mas não se trata de nada estranho ou hermético, muito menos enganoso, à moda de David Lynch. Quanto mais se assiste, mais claras as coisas ficam, apesar de nunca ficarem totalmente explicadas. Cabe a interpretação do público, que junta as peças e define sua verdade.

Trata-se do sexto longa de Carax, nome artístico de Alexandre Oscar Dupont. Ele conseguiu grande destaque em 1984 com sua estreia, Boy Meets Girl, que foi muito elogiado em Cannes, e repetiu o feito este ano. Mais uma vez, o diretor convida seu ator fetiche, Denis Lavant, muito lembrado por Os Amantes de Pont-Neuf (1991), para o papel principal. Édith Scob também participou de Pont-Neuf, mas a maior parte de suas cenas acabou cortada, o que fez Carax querer compensar a atriz, escalada aqui como a motorista de M. Oscar. O monstro do cinema francês Michel Piccoli, visto recentemente em Habemus Papam (2011), faz uma ponta, assim como as mais badaladas Eva Mendes (de The Spirit, 2008) e Kylie Minogue, cantora que participa de filmes e séries esporadicamente.

Holy Motors

Holy Motors começa com uma rápida introdução onde um sujeito (Carax) acorda em seu apartamento e se descobre dentro de um cinema. A partir daí, conhecemos M. Oscar (Lavant, acima), um personagem misterioso que parece pular de uma vida a outra para cumprir todos os trabalhos programados no início de seu longo dia. Assim como em Cosmópolis (2012), ele tem uma limusine branca como escritório e sua motorista (Édith) vai levando-o de um compromisso a outro. Cada entrada na limusine significa uma cara nova, e ele mesmo faz a maquiagem e toda a composição do próximo trabalho.

Em um dos momentos curtos que vive (ou atua), M. Oscar diz à filha que o castigo dela por ter mentido ao pai era viver como ela mesma, com todo o peso que isso traz. Talvez, dessa frase, podemos supor que ele próprio viva várias vidas para não precisar ser ele mesmo, o que suscita um interessante questionamento sobre identidade e até realidade. Em meio a tantos papéis, fica difícil conhecer o verdadeiro Oscar, e as informações para que isso aconteça são jogadas às migalhas, formando um prazeroso quebra-cabeça.

Com a(s) história(s) de Monsieur Oscar, Carax consegue driblar o estigma de que filmes de arte são sem pé nem cabeça, como alguns gostam de afirmar, ou mesmo cansativos. Holy Motors é um programa para quem procura algo a mais, fugindo das tramas habituais no estilo Hollywood. Não que o cinemão americano não produza bom entretenimento, mas é bom saber que não é só isso que existe, há outras opções.

O diretor Carax (à direita) levou o elenco a Cannes

O diretor Carax (à direita) levou o elenco a Cannes

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Ralph Fiennes estreia na direção com Shakespeare

por Marcelo Seabra

De fato, Jessica Chastain parece onipresente – Os Infratores (2012) passou há pouco pelos cinemas. E mais um filme com a participação da atriz chega às locadoras. Mas, desta vez, os holofotes estão em Ralph Fiennes: o ator faz sua estreia como diretor em Coriolano (Coriolanus, 2011) e ainda protagoniza o longa. Nada melhor, para fazer bonito, que se cercar de gente competente e ainda usar uma história de Shakespeare que parece mais atual hoje que quando foi escrita, tamanha a sua relevância.

Caio Márcio (ou Caius Marcius) foi um general romano que livrou a cidade de Corioli do povo volsco, ganhando por isso o apelido Coriolano. O problema é que os romanos passavam por um período de escassez de comida, eram afligidos pela fome e procuravam um bode expiatório. Como Caio não era um tipo muito simpático ou generoso, acabou sendo apontado como o culpado-mor de todas as agruras e foi expulso da cidade. Deixando para trás a mãe, a esposa e o filho, o general busca asilo na cidade vizinha, inimiga, e prepara sua vingança.

Acredita-se que a história tenha sido escrita em torno de 1608, mas o roteirista John Logan (de A Invenção de Hugo Cabret, de 2011) faz o que funcionou muito bem, por exemplo, em Romeu + Julieta (1996), 10 Coisas que Odeio em Você (1999) e Ricardo III (1995): ele moderniza a trama. O que mais se vê nos telejornais é guerra, imagens desoladoras de países se destruindo por razões diversas (geralmente, dinheiro ou religião), e a tragédia de Coriolano tem seu lugar garantido. Outra característica interessante da peça é o retrato do poder e sua efemeridade – as coisas mudam muito rápido.

Em frente às câmeras, Fiennes (o chefe do MI6 em Skyfall) está fantástico, variando entre um estado contemplativo (friamente calculado) e a explosão extrema. Ele é um bruto que só sabe lidar com a violência, empregando sua inteligência e astúcia a serviço de seu nacionalismo e contra quem se colocar no caminho. Jessica vive Virgínia, a esposa, e a veterana Vanessa Redgrave (de Cartas para Julieta, 2010) fica com o papel de mãe de Caio, a forte Volumnia. Ambas disputam espaço com Fiennes de igual para igual, e ainda cabem em cena o ótimo Brian Cox (de Os Candidatos, 2012) como o político Menenio, e Gerard Butler (Código de Conduta, 2009), que não fede nem cheira como o general inimigo. James Nesbitt (de Domingo Sangrento, 2002), o venenoso Sinício, também merece ser mencionado.

Coriolano funciona para quem aprecia o bardo inglês e para quem nunca chegou muito perto de sua obra. Não precisa ser um iniciado para se interessar por uma história que valoriza o ser humano, com suas qualidades e defeitos, e é bem recheada de ação. As cenas de guerra têm um quê de urgência e caos e o uso de imagens de televisão é acertado, reforçando a atualidade daqueles fatos. Fiennes não costuma ligar seu nome a obras de pouca qualidade e não foi dessa vez que derrapou. Pelo contrário, mostra um futuro promissor como cineasta.

Até a família se ajoelha diante de Coriolano

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