A verdade da vida no Cinema

por Caio Lírio

Cinema Verite“É preciso trazer a mosca da parede para dentro da sopa”. A lógica, muito bem defendida pelo europeu Jean Rouch, seria a melhor definição para o Cinema Verdade, em contraponto ao Cinema Direto, que se limitava – através da captação simultânea de som e imagem – a observar o mundo, sem interagir. Rouch propõe que a mosca (câmera) saia do seu estado cômodo e adentre o universo que registra (sopa), ou seja, intervindo diretamente no desenvolvimento e tema do filme, deixando isso claro para o público. Sua premissa traduz a verve inovadora do produtor Craig Gilbert para, então, criar o primeiro reality show de que se tem notícia na história da televisão mundial.

A ideia genial de Gilbert consistia em registrar para um programa de TV o dia a dia de uma típica família americana de classe média alta, durante sete meses. Seus protagonistas: os Louds, da cidade de Santa Bárbara, na Califórnia. O pai é o empreiteiro Bill Loud (Tim Robbins) e a mãe e dona de casa, Pat (Diane Lane). Os cinco filhos do casal: Lance (Thomas Dekker), o mais velho, com então 20 anos e recém mudado para Nova York; os adolescentes Kevin (Johnny Simmons) e Grant (Nick Eversman); a jovem Delilah (Caitlin Custer) e Michelle (Kaitlyn Dever), a mais novinha, que na época tinha 14 anos. Mais que um programa televisivo, podemos configurar a ocasião como uma verdadeira experiência antropológica, onde, ao invés de buscar tribos e culturas distantes, Gilbert (James Gandolfini) se atém a algo que estava debaixo dos narizes telespectadores: a própria sociedade americana, em uma época de grandes rupturas sociais, comportamentais, sexuais e culturais.

O programa, com o título An American Family, foi ao ar em 1973, em 12 episódios de uma hora, e provocou um impacto até então nunca visto na TV americana. Foram registradas mais de 300 horas de material bruto, algo que levanta, mais uma vez, a discussão sobre a manipulação, através dos cortes da edição, na construção da narrativa televisiva, seja ela ficcional ou documental. Nisso, podemos dizer que a câmera do show deixou de ser apenas uma mosca na parede, como muitos pensavam que seria, para chafurdar no prato de sopa fervente que era a vida dos Louds. Muitos anos depois, em 2011, os diretores Robert Pulcini e Shari Springer Berman (de Anti-Herói Americano, 2003) encenaram todo o ocorrido em seu Cinema Verité (2011), longa para a TV que teve oito indicações ao Emmy Awards e três ao Globo de Ouro de 2012.

Cinema Verite cast

A dupla foi buscar nos anos 70 a história real daquela família, que no início achou tudo aquilo muito divertido, mas acabaram percebendo o quão tempestuosa se tornou a proposta. Era um verdadeiro pesadelo, manipulados pelo produtor, e tendo sua privacidade desnudada aos poucos em frente a milhões de telespectadores ávidos por bisbilhotar a vida alheia, tudo em nome da audiência. O filme mexe justamente na ferida exposta do programa de TV, que foi a questão da manipulação, revelando, assim, como Gilbert interferiu no documentário. O maior exemplo disso foi a traição de Bill, que teria sido revelada a Pat pelo próprio produtor, numa visível busca por mais dramaticidade e audiência. Enquanto a privacidade da família era revelada, Gilbert não escondia o tom sensacionalista dado ao programa. O elenco, talentoso e afiadíssimo, é um dos pontos fortes do longa e destaca bastante o esfacelamento da estrutura familiar. Enquanto Diane Lane apresenta uma matriarca espirituosa e irônica, mas ao mesmo tempo confusa com a repentina fama – mostrando Pat como uma persona extremamente complexa – Tim Robbins faz um Bill Loud que é o oposto de uma sociedade conservadora e careta. Na outra ponta, temos James Gandolfini, que traz um Craig Gilbert sedutor e ao mesmo tempo intimidador. Os Louds realmente ultrapassaram a barreira dos 15 minutos de fama e até hoje a história rende boas discussões quando o assunto é privacidade e vida alheia na televisão.

Dez anos depois, Alan e Susan Raymond, que acompanharam a família durante a execução do reality, filmaram An American family revisited: The Louds 10 years later. Os Raymonds tornaram-se documentaristas de prestígio, ganhando o Oscar em 1993 com o longa I Am a Promise: The Children of Stanton Elementary School. A mesma sorte não teve Gilbert, que nunca mais foi o mesmo desde o final da sua criação televisiva. Ele nunca mais trabalhou em cinema e TV e hoje vive, aos 85 anos, atormentado pelo que fez com os Louds. O ex-produtor também tentou processar a HBO e impedir o lançamento de Cinema Verité. Quanto à família, o que mais se destacou desde então foi Lance, que criou uma banda de rock (The Mumps), tornou-se um colunista envolvido com a causa gay e morreu de Aids em 2001, aos 50 anos. Pat e Bill se reconciliaram e estão juntos.

Cinema Verité faz da ambiguidade dos personagens um espelho da própria estrutura ambígua do programa e revela uma essência que até hoje buscamos entender nos realities shows que dominam a grade de programação das emissoras de TV: porque ainda somos fascinados pelo espetáculo da vida alheia e o que essa busca diz sobre nós mesmos? Esse é um retrato cruel e sem concessões que levanta muitas questões. Até onde temos esse direito, qual o limite desta mórbida curiosidade e quem é inocente ou culpado? As teses levantadas pela série ecoam em nossas mentes como um sistema intermitente de vigilância emocional. George Orwell talvez adorasse observar e avaliar o comportamento dessas pequenas moscas nos nossos pratos sujos de sopa. Nós, provavelmente, iríamos preferir passar despercebidos na parede da sala de jantar.

Os Louds, do Cinema e de verdade

Os Louds, do Cinema e de verdade

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Jennifer Lawrence é o tordo da Esperança

por Marcelo Seabra

Mockingjay

Depois de duas aventuras, Katniss Everdeen continua aprendendo o que é necessário para ter uma revolução bem sucedida. Mesmo que não buscasse isso. Em Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1), entramos mais na disputa entre rebeldes e governo oficial e entendemos que, apesar das intenções, a forma de atuar de ambos é basicamente a mesma. Talvez por isso, as coisas tenham ficado mais interessantes na franquia: a ação diminuiu proporcionalmente às estratégias para vencer a guerra. Para manipular a opinião pública, vale criar heróis, difamar o oponente e apelar à emoção.

Entre as obras voltadas ao público de jovens adultos, e não são poucas, Jogos Vorazes permanece como a mais interessante. As sequências mantêm o bom nível observado no primeiro, no qual a escritora Suzanne Collins junta um punhado de referências, soma algumas boas alegorias e metáforas e constrói uma história rica estrelada por uma protagonista forte. Juntando tudo isso à bela e competente Jennifer Lawrence (abaixo), uma atriz em ascensão, com Oscar e tudo, e um ótimo elenco de apoio, o resultado tem sido bem sucedido entre público e crítica, o que é cada vez mais raro. Mesmo arrecadando um pouco menos que os antecessores, os bolsos dos realizadores não têm do que reclamar.

Mockingjay Lawrence

Resgatada do cenário destruído dos jogos, Katniss descobre que há um grupo de insurgentes contra o Presidente Snow (Donald Sutherland). Os rebeldes são liderados por outra presidente, Alma Coin, que coordena os distritos contra a capital e busca acabar com a ditadura de Snow. Além de termos uma ótima adição ao elenco, com Julianne Moore (de Carrie, A Estranha, 2013) no papel, abre-se uma discussão intrigante sobre a natureza do líder. Até que ponto pode-se ir em defesa de um ideal supostamente nobre? Quando a presidente passa a ser tão prejudicial quanto o presidente? Qual a diferença entre os dois regimes?

A população passa a viver em um subsolo construído às pressas após o distrito ser atacado por bombardeios e sobrar pouca coisa. Coincidentemente, a casa da heroína fica intacta, e temos mais algumas incongruências e clichês ao longo das duas horas de projeção. Nada que estrague, mas que poderia ter sido facilmente contornado. A participação de Peeta Mellark (Josh Hutcherson) diminui, embora a importância do personagem para a trama aumente. O oposto acontece com o outro galã, Gale (Liam Hemsworth), que aparece mais, mas se torna apenas um soldado, como vários outros. E Katniss ganha novos companheiros, que devem inclusive captar imagens da moça para construir uma espécie de propaganda política usando-a para fazer o povo se unir e partir para a guerra. Natalie Dormer (abaixo), que vive uma dessas aliadas, pode ser vista em diversas produções, de The Tudors e Game of Thrones, na TV, a Rush (2013) e Capitão América (2011).

Mockingjay Dormer

Assim como o diretor, Francis Lawrence, vários membros do elenco do longa anterior voltam, sendo os destaques Elizabeth Banks e Woody Harrelson. Ela tenta dar um toque fashion aos uniformes militarizados que os rebeldes usam, se recusando a se conformar com o que tem para vestir desde que saiu da capital. Ele fica sóbrio pela primeira vez em muito tempo e terá um papel importante na formação do “Tordo”, como todos se referem ao símbolo da revolução personificado por Katniss. Outro que repete seu papel é Philip Seymour Hoffman, e causa um certo desconforto saber que tanto talento foi desperdiçado com a morte súbita do ator no início do ano. Suas cenas ainda não haviam sido finalizadas e algumas falas foram passadas a outros personagens, para que não fosse necessário fazer truques digitais com a imagem dele.

Os roteiristas de A Esperança, Peter Craig (de Atração Perigosa, 2010) e Danny Strong (de Virada no Jogo, 2012), são novos na franquia, e fizeram um bom trabalho na questionável divisão do terceiro livro em dois filmes. Era necessário? Talvez não, mas eles aproveitaram bem a oportunidade para desenvolver as situações que careciam de mais tempo, e o resultado não ficou muito longo – como o episódio anterior. E tem agradado os fãs dos livros, que consideram a adaptação fiel. Agora, é esperar até novembro do ano que vem, quando descobriremos como essa saga termina.

Em memória de Philip Seymour Hoffman - 1967 - 2014

Em memória de Philip Seymour Hoffman – 1967 – 2014

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Vampiros e debilóides se saem bem nas bilheterias

por Marcelo Seabra

Dumb and Dumber To

Tirando Interestelar e o novo Jogos Vorazes, os blockbusters que estão quase monopolizando as salas nacionais, os grandes destaques atuais nas bilheterias são improváveis patinhos feios. Nos Estados Unidos, o primeiro lugar é de Debi & Lóide 2 (Dumb and Dumber To, 2014), sequência da engraçada besteira de 1994 que reúne os atores e os diretores originais vinte anos depois. No Brasil, até pouco tempo atrás, a posição era de Drácula: A História Nunca Contada (Dracula Untold, 2014), fantasia que descarta quase tudo que se sabe sobre o personagem de Bram Stoker para colocá-lo como um herói amargurado que precisa salvar seu povo.

Depois de um longo período de desenvolvimento, inclusive com troca de estúdio e problemas de financiamento que quase afastaram os protagonistas, os irmãos Peter e Bobby Farrelly conseguiram dar nova vida a Lloyd Christmas e Harry Dunne. Os dois debilóides já haviam ganhado uma pré-continuação com elenco mais jovem e um desenho animado. Mesmo não tendo mais o frescor que mostraram no primeiro e em outros longas do início da carreira, como Quem Vai Ficar com Mary? (There’s Something About Mary, 1998), os Farrelly conseguiram se manter fiéis ao espírito dos palermas que criaram, mantendo a mesma estrutura de road movie e o mesmo tipo de humor.

Dumb and Dumber To scene

Há alguns anos sem emplacar nenhum sucesso, Jim Carrey volta a viver Lloyd, que se junta a Harry (Jeff Daniels) para mais aventuras na estrada. Eles saem em busca da filha desconhecida de Harry, entregue para adoção, e continuam burros e irritantes como sempre. As conclusões a que eles chegam são as mais cretinas possíveis, o que gera algumas situações bem engraçadas. Há piadas de baixo nível, já que isso também faz parte do arsenal dos Farrelly, mas a maioria se apóia na inocência e na ignorância dos personagens. Eles fazem graça com as explicações absurdas sobre o buraco de vinte anos que não acompanhamos, há insinuações de homossexualismo e eles continuam tendo delírios cada vez mais reais, como os que Lloyd tinha com “Mary Sansonite”. Até o garoto cego do pássaro está de volta, agora mais velho e mais precavido contra os vizinhos. A forma que Harry encontrou para conseguir pagar o aluguel é hilária, e reparem no colega de quarto.

As principais adições para o elenco são razoáveis. A sumida Kathleen Turner (de Californication) mostra que sabe brincar consigo mesma, fazendo piada com sua forma física atual – a mesma estratégia usada em Friends. Laurie Holden (de The Walking Dead), Rachel Melvin (de Days of Our Lives) e Steve Tom (de Os Candidatos, 2012) formam a nova família da história, com o esforçado Rob Riggle como empregado, fazendo graça com uma batida trama de infidelidade e assassinato. Nada de novo, como se pode perceber, mas ainda assim tem seus momentos. Apesar do nome de Carrey ser utilizado com mais destaque, Daniels é tão bem sucedido quanto o colega na recriação do personagem e no timing cômico.

Dracula Untold

Também com bom resultado financeiro, mas nem tão interessante, é a nova encarnação de Drácula, nessa História Nunca Contada – talvez porque tenha acabado de ser inventada. Já que o uso de revistas em quadrinhos está na moda, este filme dá a nítida impressão de que se trata de uma adaptação de graphic novel, o que poderia explicar a transformação do personagem em um herói guerreiro que precisa descobrir como poupar as crianças de seu reino do rei turco, sendo que ele próprio foi “emprestado” pelo pai para o povo vizinho num estranho processo de aculturamento. Luke Evans, em alta atualmente por suas participações nas franquias do Hobbit e Velozes e Furiosos, vive Vlad, o príncipe que esconde um passado de chacinas e hoje só quer proteger sua família e seu povo. O ator é forte e carismático o suficiente para liderar a trama, ao contrário do vilão mequetrefe feito por Dominic Cooper (o Howard Stark do Universo Marvel), patético como um rei que deveria ser poderoso e admirado, mas está mais preocupado com sua barba estilosa.

Com uma maquiagem pesada, Charles Dance, o Tywin Lannister de Game of Thrones, é o vampiro ancião que pode ter uma saída para Vlad. Todas as regras são criadas para a ocasião, com o mero propósito de seguir o roteiro e atingir um final conveniente que supostamente conhecemos. Ou seja: pode-se mudar toda a história do personagem, contanto que no fim ele se torne o chupador de sangue sanguinário que conhecemos. A necessidade de torná-lo bonzinho é irritante, e os roteiristas estreantes Matt Sazama e Burk Sharpless tentam balancear mencionando o tal passado violento. O diretor Gary Shore, também em sua primeira experiência, não demonstra muita habilidade ao conduzir a produção, com cenas confusas numa geografia estranha.

Quem espera encontrar o trágico anti-herói de Bram Stoker vai se frustrar com a produção. O mesmo vai acontecer com quem busca embasamento histórico, querendo conhecer a verdadeira história de Vlad III, O Impalador, como o subtítulo pode erroneamente induzir. Há tantas produções sobre Drácula, recentes ou antigas, na TV e no Cinema, que é até estranha a insistência em querer contar sua história de forma diferente, ou inédita. Para conferir uma bela adaptação do livro de Stoker, a recomendação ainda é o definitivo longa de Francis Ford Coppola, de 1992. E há outras obras memoráveis a utilizarem vampiros, mas este novo Drácula não é uma delas.

Evans é a nova e heróica encarnação de Drácula

Evans é a nova e heróica encarnação de Drácula

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Flash ganha nova chance na telinha

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

The Flash

Em 1990, a Warner Brothers resolveu levar para as telas de TV as aventuras do Flash, herói velocista da DC Comics que tem bastante importância nos quadrinhos, ainda que – na época – não tivesse tanto apelo ao público. Apesar da série ter durado apenas uma temporada, ela fez com que o personagem se tornasse bastante conhecido – e no Brasil, tornou o uso de dois artigos possível, já que muita gente se refere a ele como “o The Flash” (nome do seriado), confundindo o nome da produção com a alcunha da personagem. Essa popularidade do Flash fez com que, 24 anos depois de sua primeira aparição na telinha, a Warner/DC, em parceria com o canal CW, investisse novamente no personagem, pegando carona no sucesso de outra série do canal que também se foca em uma figura do Universo DC, o Arqueiro Verde (a série Arrow, transmitida no Brasil pelo canal pago Warner Channel).

A nova versão do Flash mistura tanto elementos de histórias clássicas da DC quanto de eventos acontecidos mais recentemente na editora. Ela começa quando o jovem Barry Allen (Grant Gustin, da série Glee) presencia a morte de sua mãe (Michelle Harrison, da série Continuum) em circunstâncias misteriosas. Para a polícia, Nora foi morta por seu marido, o médico Henry Allen (John Wesley Shipp, que interpretou Barry Allen na série dos anos 1990 e o pai do Dawson na série Dawson’s Creek). Barry, no entanto, jura que o responsável pelo assassinato é um borrão amarelo e vermelho, se movendo em supervelocidade. Com a mãe morta e o pai preso, o garoto é entregue aos cuidados do detetive Joe West (Jesse L. Martin, da série Lei & Ordem), um amigo da família – e pai da bela Iris (Candice Patton, de The Game – abaixo, com Gustin).

The Flash

Onze anos depois, encontramos Barry trabalhando como perito criminal assistente do departamento de polícia de Central City. Apesar de brilhante, Barry vive se atrasando para seus compromissos. Isso até o dia em que um acidente espetacular faz com que sua vida mude radicalmente: ao ser atingido por um raio oriundo de um tal acelerador de partículas, ele desenvolve a capacidade de se mover em velocidades impressionantes. Infelizmente para ele – e de maneira muito similar ao que aconteceu em Smallville, série que, por dez anos, explorou a juventude do Super-Homem – o acidente que lhe deu poderes também gerou uma série de pessoas superpoderosas, algumas de boa índole, outras nem tanto. Caberá a ele, com a ajuda dos cientistas Harrison Wells (Tom Cavanagh, de The Following), um dos responsáveis pelo acidente que transformou Barry, Caitlin Snow (Danielle Panabaker, de Sexta-Feira 13, 2009) e Cisco Ramon (Carlos Valdes) usar seus poderes para ajudar as primeiras e capturar as demais.

Pelo que se pode ver até o momento, The Flash pode ser tanto uma série agradável – como Agents of S.H.I.E.L.D. e a própria Arrow – ou um desastre total. Tudo depende de como os roteiristas e produtores trabalharão com essa terceira versão do Flash a estrelar na TV – o personagem, vivido por outro ator, teve pontas em Smallville. Por um lado, a série apresenta coisas interessantes, como diversos easter eggs e uma conexão com eventos vistos recentemente tanto nos quadrinhos da DC quanto em suas animações, especialmente em Liga da Justiça: Ponto de Ignição, além de tentar promover a criação de um universo integrado entre suas séries de TV (Gustin já havia feito duas aparições em Arrow e o colega arqueiro, Stephen Amell, paga o favor no piloto de The Flash). Adicionalmente, o bordão que Flash usa na série, algo como “Meu nome é Barry Allen e eu sou o homem mais rápido do mundo”, foi criado pelo escritor Mark Waid quando de seu período à frente do título do velocista, considerado um dos melhores dos quadrinhos do personagem.

Por outro lado, algumas situações apresentadas aqui lembram tanto Smallville que soam quase como um plágio. Para saber qual dos fatores prevalecerá, só após mais alguns episódios. Até o momento, a série, se não é nada impressionante, também não é, nem de longe, aquela decepção total como muitos esperavam. Teremos 23 episódios nessa primeira temporada para chegarmos a uma decisão. E vale lembrar que o início da carreira do personagem no Cinema já está confirmado, com Ezra Miller no papel (de Precisamos Falar Sobre o Kevin, 2011).

Os universos se encontram na TV

Os universos se encontram na TV

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Longa é construído em 12 anos

por Marcelo Seabra

Boyhood

Algumas experiências no Cinema aparecem de vez em quando e, por mais interessantes que possam parecer, nem sempre dão muito certo. Richard Linklater, diretor de longas populares como Escola de Rock (School of Rock, 2003) e a trilogia de Jesse e Celine, propôs algo inovador: acompanhar um protagonista e seus coadjuvantes por 12 anos, filmando um total de 39 dias. Há projetos que dividem algumas similaridades, como os encabeçados por Lars von Trier (Dimension, já abandonado) e Michael Winterbottom (Todos os Dias, 2012), mas nenhum chamou tanta atenção quanto Boyhood: Da Infância à Juventude (2014), em cartaz atualmente.

Quando tinha seis anos de idade, Ellar Coltrane se tornou o ocasional filho de Ethan Hawke e Patricia Arquette, além de irmão de Lorelei Linklater (filha do diretor), e esse núcleo passou a ser acompanhado pela câmera cúmplice de Richard, que capta aquelas vidas de modo muito natural e dá a impressão de ter sido um processo muito simples. Ao invés de parecer um reality show, Boyhood segue um roteiro bem determinado, com falas que só parecem ser improvisadas, e coloca o espectador ao lado de Ellar e companhia, ao invés de olhando de fora. Hawke, parceiro constante do diretor, envelhece claramente durante a projeção, ganhando muitas linhas de expressão, enquanto Arquette (mais lembrada pela série Medium) tenta esconder a maturidade com maquiagem e cortes de cabelo, como qualquer mulher faz. A edição faz com que as épocas fluam, tornando invisíveis os saltos temporais.

Boyhood Coltrane

Coltrane vive Mason Jr., um garoto que vive com a mãe e a irmã e enfrenta dramas cotidianos comuns. Seu pai aparece depois de algum tempo distante e passa a fazer parte da vida deles, pulando entre empregos, e a mãe luta para estudar e pagar as contas. E, assim, todos vão crescendo, e temos o foco no garoto, vivendo os desafios de amadurecer, se adaptando a novas casas, cidades e pessoas. Algumas passagens são bem sensíveis, muita gente deve se identificar, e outras ficam no banal. Não há uma trama a se desenvolver ou a se resolver, nenhum suspense ou tensão. Apenas a vida passando, e Linklater é inteligente ao explicar muita coisa visualmente, sem precisar criar falas que explicitem como determinado personagem mudou, ou para onde uma situação evoluiu. Não há o brilhantismo que já se espera de Linklater quanto à trilha sonora, que usa basicamente músicas do anos 2000, fora um ou outro clássico.

Para movimentar as coisas, o diretor e roteirista cria alguns conflitos, normalmente ligados à vida romântica da mãe. A vida do pai também consegue caminhar, como era de se esperar, e ambos os intérpretes são competentes. É interessante, ainda que um pouco cansativo em seus 165 minutos, acompanhar o introspectivo Mason, e Coltrane é carismático o suficiente para servir como elo entre todos que compõem o quadro. Fica a dúvida se uma maquiagem eficiente e atores diferentes não resolveriam o caso, ao invés de esperar tanto tempo para finalizar o longa, e se a atenção atraída por Boyhood não se deve somente à curiosidade deste artifício. Feito de uma forma convencional, ainda estaria na lista de melhores do ano de tanta gente?

Linklater apresenta a cara de seu elenco hoje

Linklater apresenta a cara de seu elenco hoje

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O histórico CBGB ganha cinebiografia

por Marcelo Seabra

CBGB banner

Quem gosta de rock certamente já ouviu falar do CBGB, um famoso clube nova-iorquino que se tornou o lar do punk rock americano. Fundado em 1973, ele recebeu aqueles que se tornariam os grandes nomes do gênero, como Ramones, Blondie e Talking Heads, todos antes do lançamento do primeiro disco. Com essa importância toda, era questão de tempo até a casa ganhar um filme que contasse a sua história. De 2013, CBGB – O Berço do Punk Rock não teve um lançamento amplo e, discretamente, chegou à programação da TV a cabo.

Hillel “Hilly” Kristal aluga uma loja num lugar pobre e decadente de Nova York com a intenção de promover shows de country, bluegrass e blues – de onde vem o nome do estabelecimento. As coisas mudaram logo de cara, quando Hilly abriu as portas para os novatos da Television, que nunca tinham se apresentado, escreviam suas próprias músicas e prometiam ter futuro. Além de carregar seus instrumentos. Essa era a descrição básica de quem se apresentava lá. Nesse espírito, muitos passaram pelo palco escuro e apertado do CBGB. Alguns conseguiram contratos com gravadoras e estouraram, outros sumiram no mundo. Era de se esperar que não teríamos em cena todas as bandas que fizeram parte dessa história, não caberia em 90 minutos. Enquanto alguns aparecem, outros tocam, fazendo uma bela trilha sonora.

CBGB

Causa estranhamento o fato de o fundador da casa, Hilly Kristal, um nova-iorquino notório, ser vivido pelo inglês Alan Rickman (o professor Snape de Harry Potter). Mas, no que diz respeito a Kristal, o problema nem é esse. Ele é mostrado quase que como um palerma, que nunca teria condições de fazer o que ele de fato fez: administrar uma casa de shows lendária e ajudar um tanto de gente no processo. Tudo bem que ele nunca aparentou ter uma situação financeira muito confortável, os preços praticados eram sempre justos, a entrada não era mais do que um dólar. E a falta do pagamento do aluguel fez com que, em 2006, tudo se encerrasse. Mas uma pessoa como o personagem no filme teria falido no mesmo ano. E a verdade é que, após a morte de Hilly, em 2007, descobriu-se que ele tinha quase quatro milhões no banco.

Os problemas factuais do longa são muitos. Depois de desempenhar várias atividades ligadas à música, Kristal abriu um bar, o Hilly’s on the Bowery, que veio a se tornar o CBGB. O filme dá a entender que ele era um vagabundo bancado pela mãe que precisava CBGB Ramoneslevar junto um sócio, Merv (Donal Logue, de Gotham), e a relação entre eles nunca é esclarecida. A música que os Ramones (ao lado) tocam era na verdade uma canção da carreira solo de Joey; há cartazes na parede do bar de bandas que nem existiam ainda; músicas que não haviam sido compostas são tocadas; a versão de Because the Night, de Patti Smith, conta com um misterioso piano do além; a ex-mulher de Hilly, Karen, era presença constante no lugar e a licença para bebidas era no nome dela, e o roteiro a ignora por completo. Estes são alguns exemplos das falhas do roteiro do diretor Randall Miller e de Jody Savin (ambos de O Julgamento de Paris, 2008, também com Rickman). E como poderiam John Holmstrom e Legs McNeil terem inventado o punk, como afirma a legenda, se estavam justamente escrevendo sobre o tema?

Sempre que tentam explicar o punk, sai algo insosso, ou muito errado. É muito difícil tentar passar a atmosfera do que era o punk. Certamente, não era fazer bundalelê para uma criança, como Stiv Bators (dos Dead Boys) teria feito. E o fato do cachorro de Hilly defecar por todo lado é bem lembrado, mas seria assim tão importante ou os roteiristas queriam apenas que o público risse, mesmo que a piada se repita por diversas vezes? Acaba parecendo uma sitcom com um bar no lugar da cafeteria de sempre. Talvez assim, com a cada semana uma banda diferente se apresentando e se envolvendo com o núcleo fixo de personagens, CBGB poderia ter se tornado uma série de TV. Com mais tempo, tudo poderia ser melhor desenvolvido, mais pontas de famosos seriam possíveis e mais casos apetitosos (como os que McNeil e Gillian McCain narram no livro Mate-me Por Favor) seriam contados.

Blondie e Iggy Pop são alguns dos artistas que passaram pelo CBGB

Blondie e Iggy Pop são alguns dos artistas que passaram pelo CBGB

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Nolan leva elenco a outros mundos

por Marcelo Seabra

Introdução (escrita para o especial do Cinema de Buteco)

Christopher Nolan

O cara já começou com o pé direito com uma trama aparentemente simples, mas que guardava uma bela reviravolta, o que seria uma marca em sua carreira. Following (1998), o primeiro filme de Christopher Nolan como diretor, já foi um belíssimo começo de carreira e o gabaritou para fazer aquele que seria o grande cartão de visitas do cineasta: Amnésia (2000), o título nacional para o ótimo Memento. Guy Pearce marcou o Cinema Noir como o desmemoriado que persegue o assassino de sua esposa. E o gênero policial ainda foi premiado com Insônia (Insomnia, 2002), um estudo de personagem que mostra o que pode acontecer com um sujeito que é privado de sono. E ajuda muito ter Al Pacino em cena, além dos oscarizados Hillary Swank e Robin Williams, este como um surpreendente psicopata.

O caminho que Nolan vinha seguindo deu uma grande guinada quando ele topou dar nova vida a um herói que vinha sendo maltratado pelo Cinema. Batman ganhou mais um filme de origem (Batman Begins, 2005), muito bem fundamentado, que acabou transformando Nolan em uma espécie de padrinho dos heróis da DC levados à telona. Entre a primeira e a segunda aventuras da trilogia do Homem-Morcego, o diretor criou, com o irmão e parceiro constante, Jonathan, o filme definitivo sobre mágica: O Grande Truque (The Prestige, 2006). Colocando frente a frente Christian “Batman” Bale e Hugh “Wolverine” Jackman, além de contar com Michael Caine, Scarlett Johansson e David Bowie, Nolan nos mostrou o que é a verdadeira mágica, mas tudo foi sacrificado em uma busca por vingança.

Christopher Nolan Bat

Se “ótimo” já era um adjetivo que acompanhava o diretor, O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) veio para realizar os sonhos que muita gente nem sabia que tinha. O longa conseguiu apagar da memória de todos o icônico Coringa de Jack Nicholson e dar um Oscar, infelizmente póstumo, a Heath Ledger, algo até então inédito para uma adaptação de herói dos quadrinhos. O tom sombrio usado ditou o que seria regra para todos os heróis que se seguiram, e a expectativa para o fechamento da trilogia só crescia. Mas, antes disso, Nolan invadiu os sonhos de pessoas poderosas para roubar informações. Leonardo DiCaprio liderou um elenco fantástico em A Origem (Inception, 2010), outra trama muito bem elaborada, marca por viradas repentinas, que ajudou a cimentar a fama de genial de Nolan.

O terceiro longa de Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Returns, 2012), não atingiu as expectativas de muitos que manifestaram seu descontentamento. Talvez, porque os filmes anteriores tenham subido demais o padrão. Mas não se trata de algo ruim ou de poucas qualidades, é apenas inferior ao anterior, o que já era de se esperar. Agora, tendo abandonado o universo de Bruce Wayne, Nolan partiu para uma viagem pelas estrelas que tem ambição escrito de ponta a ponta. Comparações descabidas já começaram antes mesmo da estréia de Interestelar (Interstellar, 2014), e expectativa é algo a que Nolan terá que se acostumar. Para quem foi capaz de fazer o que ele fez, o mínimo que esperamos é brilhantismo.

Interestelar

Interstellar

E finalmente chegou a hora de conferir Interestelar (Interstellar, 2014) nos cinemas. Para quem acompanha e gosta da carreira de Christopher Nolan, este é um momento muito esperado. Diversas notícias vem sendo divulgadas, críticas levam o cineasta do céu ao inferno, o orçamento de 165 milhões de dólares promete um espetáculo visual. Mas e a história? Mais uma vez contando com roteiro de Nolan e seu irmão, Jonathan, a produção deve responder esta dúvida fundamental: veremos mais viradas interessantes e críveis? Ou teria o diretor enlouquecido com tanto confete jogado nele? Qual é o limite da ambição, antes que se torne pretensão?

Poster InterstellarMatthew McConaughey (ao lado), em seu melhor momento, seguindo o sucesso da série True Detective e o Oscar por Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013), foi escalado para encabeçar o elenco. Michael Caine não poderia faltar. Anne Hathaway, a Mulher-Gato do terceiro Batman, também aparece, assim como Jessica Chastain, Casey Affleck, Topher Grace, Wes Bentley, John Lithgow e Ellen Burstyn, alguns dos nomes famosos que toparam a empreitada. Seguindo o Cinema de autor que já esperamos, Nolan repete alguns pontos comuns em seus filmes. O pior lado da natureza humana, que sempre parece intrigar os irmãos roteiristas, é um tema trabalhado em um trecho importante, com uma participação especial marcante.

A trama começa após alguma catástrofe ter acontecido na Terra. Comida é artigo de luxo, vários tipos de profissionais são obrigados a se tornarem fazendeiros e, por algum motivo, o solo só permite sucesso com milho. Tempestades de poeira atacam a população com frequência e problemas respiratórios são o mal do século. Cooper (McConaughey) deixou de ser piloto para cuidar da fazenda e de seus dois filhos. Seguindo uma pista misteriosa, ele encontra o que sobrou da NASA e descobre que os cientistas têm um plano para salvar as pessoas. E ele, Cooper, seria importantíssimo nessa tentativa. Por que então ninguém o procurou antes, contando com o acaso de ele aparecer de surpresa? Não se sabe.

A pergunta acima é um exemplo do grande defeito de Interestelar. O número de situações inexplicadas é grande, é preciso um grande salto de fé para acreditar e, o pior, aceitar tudo. O que teria causado essa invasão da poeira? Por que só plantar milho? À medida que a sessão avança, os problemas vão crescendo, aparecendo aqui e ali, e fica claro que o final vai depender muito de coincidências e chutes. Ao discutir O Grande Truque, um dos melhores trabalhos de Nolan, apontei que o sucesso do filme se deve a ele ser construído sobre um ponto específico, um mistério que é esclarecido oportunamente e surpreende a todos de forma positiva. Exatamente a fraqueza de O Ilusionista (The Illusionist, 2006), outro longa sobre mágica lançado no mesmo ano que decepciona exatamente por depender de uma resposta que nunca aparece ou satisfaz.

Interstellar scene

Claro que, em 169 minutos, muita coisa boa acontece. Alguns conflitos e questionamentos levantados são interessantes, e ótimas atuações ajudam a segurar possíveis furos. McConaughey, por exemplo, transmite muita segurança, é óbvio o tanto que o ator confia no diretor e se entrega ao papel. Os efeitos especiais são fantásticos, criando mundos notáveis e nos mostrando como pode ser um buraco negro por dentro. Há cenários que lembram A Origem, e é impossível não remeter a Arquivo X com tanto milharal. Apesar do lindo visual, a trilha de Hans Zimmer pode irritar, e os melhores momentos são aqueles passados no espaço, quando o silêncio da falta de atmosfera é respeitado.

Em produções recentes, como Lucy (2014) e Transcendence (2014), vemos personagens que, quanto mais se aproximam da perfeição, mais frios se tornam, perdendo o que os torna humanos. Nolan parece caminhar nessa direção, realizando uma obra que mantém o público distante. Essa é uma crítica que o diretor já recebe há algum tempo. Mas, dessa vez, é mais sério: fica a impressão de que, quanto mais se aproximar, pior vai ficar. As imperfeições se tornam mais claras.

Os robôs TARS e CASE são algumas das interessantes criações dos Nolans

Os robôs TARS e CASE são algumas das interessantes criações dos Nolans

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Pierce Brosnan insiste em espionar

por Marcelo Seabra

The November Man

É de se esperar que um ator que viva um personagem icônico como James Bond tenha receio de ficar marcado e que procure fugir ao máximo do papel, com projetos que mirem outras direções. Por isso, foi surpreendente que Pierce Brosnan tenha feito, em 2001, o ótimo O Alfaiate do Panamá (The Tailor of Panama), longa que o colocava novamente como um espião. Mas a história, baseada em um original de John le Carré, era criativa e interessante o suficiente e cabia a Brosnan um tipo cínico e escorregadio, bem diferente do violento e galanteador Bond. Sem medo de se repetir, o ator agora volta a viver um agente especial em The November Man: Um Espião Nunca Morre (2014). Mas o resultado passa longe do Panamá.

Com mais ação que a história de John le Carré, esta, de Bill Granger, não economiza perseguições e tiros, prato cheio para quem prefere um filme mais movimentado. Mas é uma trama bem esquecível, a velha tática do traidor que manipula o herói. Cabe a Brosnan descobrir quem é que está dando as cartas e eliminá-lo. Seu Peter Devereaux é um veterano da CIA que se retirou da correria e administra uma pousada num lugar paradisíaco. Seu antigo colega, Hanley (Bill Smitrovich, de Ted, 2012), o convoca para uma missão que só ele pode realizar: resgatar uma antiga paixão de território inimigo. As coisas, no entanto, desandam e ele se vê perseguido por todos os lados. Para piorar, ele ainda deverá enfrentar seu ex-protegido, Mason (Luke Bracey, de G.I. Joe: Retaliação, 2013 – abaixo).

The November Man

Pouco depois que deixou Bond, era a intenção de Brosnan dar vida a Devereaux. Os direitos sobre a obra foram comprados em 2005 e, por uma série de percalços, a adaptação só aconteceu agora. O ator anunciou que havia conseguido o diretor que queria, Roger Donaldson, e que as coisas finalmente aconteceriam, provavelmente de olho em uma nova e rentável franquia. Mas, ao mesmo tempo em que assina grandes trabalhos, como Sem Saída (No Way Out, 1987), Treze Dias Que Abalaram o Mundo (Thirteen Days, 2000) e Efeito Dominó (The Bank Job, 2008), o cineasta é responsável por bobagens como A Fuga (The Getaway, 1994), O Inferno de Dante (Dante’s Peak, 1997) – também com Brosnan – e o mais recente O Pacto (Seeking Justice, 2011), uma das muitas bombas de Nicolas Cage. Ou seja: trata-se de um diretor de altos fantásticos, mas baixos abissais.

O livro no qual o filme se baseia, There Are No Spies, é cronologicamente a sétima aventura do personagem, e foi lançado em 1986. Coube aos roteiristas, Karl Gajdusek (de Oblivion, 2013) e Michael Finch (de Predadores, 2010), atualizá-lo, mas a cara de passado permanece. Ao contrário das mais novas empreitadas de le Carré (como o atualíssimo O Homem Mais Procurado, 2014), este November Man continua naquele ranço de americanos contra soviéticos, parece estar em plena Guerra Fria até hoje. Não há o menor risco de Devereaux se ferir gravemente, e não nos importaríamos nada se isso acontecesse. É preciso reconhecer que, se a sessão do longa não se torna ainda mais aborrecida, isso deve-se ao charme e à autoconfiança de Brosnan, que mesmo sendo bem canastrão, tem muito carisma. Num clima de paródia, talvez a produção tivesse tido mais sucesso.

Olga Kurylenko é a mocinha da vez

Olga Kurylenko é a mocinha da vez

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Vida e obra de Tim Maia chegam às telas

por Marcelo Seabra

Tim Maia

A exemplo do que acontece fora há anos, era hora de mais artistas brasileiros ganharem cinebiografias. E poucos têm uma vida tão marcante quanto Tim Maia, grande cantor e compositor muito lembrado pelas brigas, atrasos e ausências em shows. Apesar das confusões em que se metia, todos que o cercavam reconheciam seu talento e podiam prever desde cedo que ele iria estourar para a fama. Depois do elogiado musical teatral, essa história chegou aos cinemas, dramatizando os ótimos casos presentes no livro do produtor musical e jornalista Nelson Motta, amigo de Tim.

Ao contrário do que vimos em longas como Johnny e June (Walk the Line, 2005) e Ray (2004), nos quais havia ótimas interpretações e um roteiro um tanto confuso, ou esburacado, este Tim Maia (2014) consegue cobrir bem a vida do biografado, além de contar com atores muito competentes no papel principal. Quando mais jovem, Tim é vivido por Robson Nunes (de 2 Coelhos, 2012), quando ele ainda era o Tião Marmita, o esforçado entregador das refeições que a mãe fazia. Nessa época, seu círculo de amigos incluía gente como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Carlos Imperial, o que seria fundamental para que ele entrasse no mundo artístico. George Sauma, o Roberto Carlos, é bem caricato, o que acaba tornando um personagem sério o alívio cômico de algumas cenas.

Tim Maia casal

Na fase adulta, já famoso, Tim é interpretado por Babu Santana (acima, com Alinne), ator experiente com diversas passagens pequenas pela TV e Cinema, como em Cidade de Deus (2002), Estômago (2007) e Os Penetras (2012). Buscando apresentar a sua versão para a celebridade, e não apenas uma cópia pálida, Santana consegue cativar o público mesmo em momentos mais antipáticos. Sem tomar lados, o roteiro se limita a narrar os fatos e apresentar Tim, com suas qualidades e defeitos. Antônia Pellegrino, de Bruna Surfistinha (2011) e da série Sexo e as Negas, teve a tarefa, ao lado do diretor, Mauro Lima, de adaptar Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia, de Motta, e o maior desafio parece ter sido escolher quais anedotas deveriam entrar. Entre as mais importantes e as mais engraçadas, histórias que acabaram virando mito podem ser vistas no filme. Lima, responsável por Meu Nome Não É Johnny (2008), conduz com segurança, pecando por contar com uma narração muito explicativa que não se justifica.

Ao personagem de Cauã Reymond (de Alemão, 2014), o cantor e instrumentista Fábio, nome artístico do paraguaio Juan Senon Rolón, coube a narração, o que lhe confere grande importância para a vida de Tim Maia. A bela Alinne Moraes (de Heleno, 2011), esposa de Lima, vive uma colega fictícia da turma da Tijuca que personifica várias mulheres que passaram pela vida de Tim. O fato de ela ser mostrada cada hora com um acompanhante, pulando atrás de um músico bem sucedido como uma groupie, não lhe traz muita simpatia, mas ela acaba passando por maus bocados ao lado do marido, como a devoção bitolada da fase Racional. Muitas outras figuras passam pela tela, mostrando que Tim colecionava amigos e desafetos na mesma medida.

Apesar de um pouco longo, com seus 140 minutos, o filme é bem interessante por não só clarear quem foi Tim Maia, com trechos saborosos para fãs e desavisados, mas também por mostrar o modo de vida de uma época e os coadjuvantes que também se tornariam famosos. Pelas interpretações de Nunes e Santana no papel-título, o ingresso já valeria a pena. As histórias de Nelson Motta ganham vida de forma vibrante, completando o show. Sebastião Rodrigues Maia, onde quer que esteja, deve estar bem satisfeito com o retrato exibido: um sujeito folgado, desbocado e genial.

A vida do "síndico" é bem apresentada no longa

A vida do “síndico” é bem apresentada no longa

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Nicolas Cage tem outro ataque de Fúria

por Marcelo Seabra

RageTokarevDizer que um filme é um dos piores da carreira de Nicolas Cage apenas o coloca em companhia de outros tantos. Quem fez O Resgate, O Pacto, Reféns e Fúria Sobre Rodas, para ficar em apenas alguns exemplos recentes, precisa suar muito para fazer algo pior. E Cage parece estar sempre tentando ir mais longe na mediocridade. Seu novo trabalho, Fúria (2014), tem dois títulos originais, Rage e Tokarev, e com qualquer um deles é ruim. Um teria sido mais condizente, referindo-se a uma arma importante para a trama, mas o outro é mais genérico e, aposta-se, mais comercial. Esse, claro, foi o escolhido para ser o nacional.

Mais uma vez, Cage faz o sujeito pacato que esconde uma ligação com a violência. Paul Maguire era um criminoso, como não cansam de reafirmar a todo momento, mas largou o crime para cuidar da filha, sua razão de viver. Quando a menina some, então, espera-se que ele vá mover o mundo para encontrá-la. Os amigos da garota não têm nenhuma pista e o pai precisa começar uma investigação do zero, batendo em informantes do submundo ou indo atrás dos poderosos. A polícia, enquanto isso, não faz nada, dando todas as oportunidades para Maguire fazer justiça com as próprias mãos. É nessa parte que dá saudade de Charles Bronson e seu Desejo de Matar.

Rage cast

Nada em Fúria é perto de memorável. O elenco traz dois veteranos em pontas para chamarem alguma atenção, mas Peter Stormare (de Anjos da Lei 2, 2014) não é bem um nome que atraia multidões, e Danny Glover (dos Máquina Mortífera) já teve seus dias de glória. O diretor, Paco Cabezas, é um espanhol estreando em inglês, e continua sem nada digno de nota no currículo. Os dois roteiristas, Jim Agnew e Sean Keller, assinaram um tal Giallo – Reféns do Medo (2009), o que mais merece destaque dentre os trabalhos listados.

Em defesa da produção, deve-se mencionar que há um ar setentista, que parece tentar dar uma impressão daqueles clássicos com Steve McQueen ou de William Friedkin. E não é das piores interpretações de Cage, que se contém e evita aqueles já famosos estouros e olhares psicóticos, apesar da indicação contrária do título. A mensagem contra violência e vingança, e como isso pode consumir e perseguir uma pessoa, é sempre adequada e interessante quando bem utilizada. Mas essas várias tentativas de fazer algo que preste passa longe do sucesso, e esse Tokarev merecia nada mais que as prateleiras de uma locadora.

Por mais contido, não poderia faltar uma careta

Mesmo contido, não poderia faltar uma boa careta

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