Ari Aster estuda a política de uma cidadezinha

Depois de transformar o luto em maldição familiar (Hereditário, 2018) e a culpa coletiva em ritual pagão (Midsommar, 2019), Ari Aster decide enfrentar um outro fantasma: a divisão política que se acentuou pelo mundo em tempos mais recentes. Eddington (2025), sua obra mais recente, é uma parábola sombria sobre uma nação que já não distingue fato, crença e delírio. Aster troca os gritos e as seitas por uma aflição silenciosa, quase burocrática, e parece mais interessado em mapear o esfacelamento do tecido social do que em provocar sustos. O resultado é inquietante, ainda que desigual, um retrato que fascina pelo desconforto que causa.

A cidade fictícia que dá título ao filme, perdida no deserto do Novo México, funciona como uma espécie de laboratório moral. Lá, o prefeito moderninho vivido por Pedro Pascal (de Amores Materialistas, 2025) tenta gerir uma gigantesca crise sanitária como se fosse uma planilha, enquanto o xerife de Joaquin Phoenix (de Beau Tem Medo, 2023, também de Aster) encarna a revolta dos que recusam a ciência e se alimentam de boatos. No Brasil, seria algo como um embate entre a direita e a extrema direita. Os dois lados parecem impotentes frente a catástrofe, até que o xerife decide acordar e concorrer contra o prefeito, que pretende se reeleger.

Aster mantém sua assinatura visual intacta. A fotografia de Darius Khondji (de Bardo, 2022) capta uma beleza mórbida nas paisagens áridas, com luzes que lembram tanto o crepúsculo dos westerns quanto o brilho metálico de um data center — símbolo de um país que terceiriza tudo que for possível. Cada plano é meticulosamente pensado, cada silêncio, calculado. A tensão cresce aos poucos, até que explode em violência explícita – a necessidade de se chegar a esse ponto pode ser discutida. O problema é que o artifício, tão controlado em seus trabalhos anteriores, agora se revela mecânico. O horror (por assim dizer) surge mais como efeito de estilo do que como consequência dramática.

A ambição de misturar gêneros — faroeste, sátira política, drama de pandemia — produz bons momentos e diálogos, mas também longos trechos em que o filme se perde em suas próprias metáforas. Quando acerta, Eddington parece um espelho trincado da América contemporânea, podendo aí representar várias outras nações. As subtramas, no entanto, se arrastam, os diálogos perdem ritmo, e o filme, com suas duas horas e meia, parece perdido quanto ao rumo a tomar. Além da discussão central, o roteiro dá um jeito de acomodar uma subtrama que não deixa de ser relacionada, mas acaba tirando o foco. Emma Stone e Austin Butler mereciam mais espaço.

Politicamente, Eddington é um reflexo da atualidade. Aster, num primeiro momento, não toma nenhum dos lados, condenando ambos. Se isso é lucidez ou covardia, caberá a cada espectador decidir. O fato é que, em pouco tempo, as coisas tomam um rumo extremo e revelam melhor o caráter de seus personagens. Ainda assim, é difícil escapar da sensação de que o filme prefere o espanto à análise, a constatação à reflexão. No plano técnico, tudo funciona: a trilha discreta, o desenho de som preciso, os espaços abertos transformados em claustrofobia. Eddington provoca, mas não transcende; diagnostica, mas não ilumina. Parece empacado.

Fica a impressão de que o diretor quis fazer o grande épico político de sua geração e acabou oferecendo um estudo de caso sobre a própria confusão de sua era. Ainda assim, é um esforço digno, como foi o caso de Beau Tem Medo. Aster continua sendo um cineasta capaz de transformar ansiedade coletiva em forma cinematográfica. E, mesmo quando se perde, o que ele nos entrega é uma obra perturbadora, sobre um país em que a verdade morreu, já que cada um pode definir a verdade que lhe convém.

O diretor levou seu elenco a Cannes para o lançamento

Sobre Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.
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