Sete eleitores e seu político: feitos um para o outro

Há um tipo de eleitor ausente na história abaixo. É tão raro que nem me lembrei. É o que se interessa por política, age e vota corretamente. Não disse que era uma raridade?

Charge: (Google Images)

Eu sou uma pessoa pobre. Muito pobre. Quase miserável. Vivo na zona rural de uma pequena cidade do interior nordestino. Não entendo de política nem de nada. Só faço acordar, trabalhar, tentar sobreviver e dormir. Não sei nada do que se passa no país, tampouco o país sabe do que se passa por aqui. Quase não voto e quando voto é quem o coroné mandar. Eu merecia políticos melhores, mas não entendo nada e não sei como votar.

Eu sou pobre. Moro numa favela de uma grande cidade do sudeste. Acordo às três da madrugada, pego dois ônibus e um metrô. Chego ao meu trabalho e só paro para almoçar. Na volta o traslado é o mesmo. Ganho 1.5 salário mínimo e faço bico nos fins de semana. Com três crianças para alimentar não tenho outro jeito. Não me interesso por política e nem gosto de escutar. Também não saio de casa no domingo para votar. Não adianta nada. Prefiro ir para a igreja. Eu merecia políticos melhores, mas como nem voto não posso reclamar.

Eu sou jovem de classe média. Estudei em escola pública e estou cursando faculdade particular. Meus pais trabalham para eu ter mais oportunidades que eles. Durante o dia passo o tempo com amigos, academia, internet e essas coisas da moçada. Alguns amigos já trabalham, coitados. Não têm tempo para nada. Não sei por quê, pois ganham uma mixaria. Prefiro ficar de boa que ganhar merreca. Acho política um saco, mas gosto do PT. Pelo menos é um partido que tem trabalhadores. Votei uma vez só, mas votei em branco como protesto. Se todo mundo votar em branco ninguém se elege. Eu merecia políticos melhores, mas como não conheço nenhum votarei em branco outra vez.

Eu sou recém-formado e trabalho como estagiário no mercado financeiro. Meu sonho é me tornar dono de uma corretora de valores. Pretendo ter meu primeiro milhão antes dos 30 anos. Estudei em escola particular e fiz economia na Federal. Meu carro é velho, mas tão logo eu seja efetivado eu compro um novo. O problema é que gasto muito com boas roupas. No meu segmento isso conta muito. A aparência é tudo. Sapatos, então, nem se fala. Só importado. Leio um pouco sobre política e me considero de centro. Já votei no Lula e no Aécio. Normalmente voto nos candidatos que me indicam ou em parentes de amigos meus. Não gosto muito de pesquisar. Eu merecia políticos melhores, mas não sei se eles existem.

Eu sou um empresário de sucesso. Trabalho desdes os 17 anos e sempre dei um duro danado. Ninguém nunca me ajudou. Meus pais eram pobres e me virei sozinho. Para mim a vida é trabalho e família. Faço tudo pelos meus filhos. Quero que se formem e se mandem deste país de merda. Isso aqui não tem futuro. Detesto política e os políticos. São um bando de salafrários. Por isso eu sonego tudo que eu puder. Não vou ficar dando meu dinheiro para vagabundo roubar. Voto em candidatos conhecidos meus, pois nunca se sabe, né? Um dia posso precisar. Eu merecia políticos melhores, mas o brasileiro é retardado e ignorante. Eu sou minoria, então não adianta nada.

Eu sou servidora pública aposentada. Trabalhei 25 anos no senado como assessora parlamentar. Recebo salário integral e ainda conto com a pensão do meu marido que morreu. Era militar. Tenho duas filhas e sempre falo para fazerem concurso. O salário é bom, não há muito compromisso, não podem ser despedidas nunca. Mas elas não querem. Uma não gosta muito de estudar e diz que vai casar cedo com homem rico. A outra é militante feminista, o oposto. Só me lembro de política nas eleições e só voto em candidatos que não pensam em privatizar ou reformar a previdência. Tô defendendo o meu. Eu merecia políticos melhores, mas o que temos são estes aí mesmo.

Eu tenho 80 anos e sou um dos maiores empresários do Brasil. Todos os meus negócios são ligados aos governos. Há 50 anos venho construindo este país. Participei de todas as etapas políticas, de todas as crises. O político brasileiro é o pior do mundo. Raríssimas as exceções. E isso é ótimo para mim. Quase todos são subornáveis, mesquinhos e interesseiros. Os financio e torço para que cheguem ao poder. Uma vez ministros e até presidentes eu nado de braçada. Como eu há centenas. Somos nós que mandamos na economia da nação. Temos até Ministros do STF nas mãos, ou melhor nos bolsos. Eu não merecia políticos melhores. Estou muito satisfeito com estes que tenho.

Eu sou político desde os 22 anos. Meu avô e meu pai também foram. Sou muito rico. Tenho fazendas, jornais, rádios, etc. Um pouco eu herdei, mas fiz muito também. Aprendi com meus antepassados como se dar bem na política. Não sou corrupto, nunca roubei nada. Mas recebo muitas doações eleitorais de empresários interessados em empréstimos da Caixa, que precisam de isenção fiscal para seu negócio, ou mesmo aqueles apenas interessados em manter uma rede de bons contatos em Brasília. Como arrecado muito mais do que gasto nas campanhas, vou fazendo um caixinha. Além disso, não gasto nada para viver. Casa, comida, escola dos filhos, carro, motorista, passagens… Todos benefícios do cargo. Quando a coisa aperta um pouco, descolo uma nomeação para algum conselho de estatal e pronto. Uma reunião por mês, no máximo, e mais uns vinte ou trinta mil reais no bolso.

Eu até que merecia eleitores melhores, que me cobrassem mais, que acompanhassem meu mandato, que tirassem de mim o que tenho de bom para dar. Mas como os [eleitores] que tenho são esses tipos aí de cima…

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14 thoughts to “Sete eleitores e seu político: feitos um para o outro”

  1. Há um outro eleitor ausente aí [mas muito presente (*) nos comentários aqui, e que invariavelmente expele suas agressões à lógica e à pessoa e até à relativa ausência de cabelo do articulista hehehe]: o PERFEITO IDIOTA-ÚTIL, o crente, aquele que tem no político o seu ídolo, seu santo imaculado, seu pai/mãe, seu salvador, seu guia, seu amor eterno, seu “lulinha-paz-e-amor”…
    Este é o otário perfeito, pois o(s) político(s) de sua adoração pode(m) fazer o que for (matar, roubar, arruinar um país/estado/município,…) que ele manterá a sua louvação, o seu incondicional amor eterno, até que a morte os separe.
    (*) Felizmente não são tantos assim como pode aparentar, pois se utilizam de vários nomes/codinomes para suas defecações mentais

  2. Robes Mendes, por acaso você começou um curso na una, mas largou porquê acho muito difícil conciliar?????

    To te achando parecido com o careca.

    1. Comecei e conclui numa universidade federal, onde se estuda de graça, às custas de tantos otários que defendem o ensino gratuito para todo mundo, inclusive para os filhinhos de papais ricos.
      Tenho bastante cabelos e muitos neurônios para perceber que essa fixação, esse fetiche de vcs com a careca do Ricardo deve ter alguma coisa meio freudiana aí, alguma patologia. Ou será apenas fruto dessa avassaladora ignorância comum aos perfeitos idiotas-úteis a que me referi no meu comentário?
      Agora, pelo jeito que escreve, eu não preciso ser um Sherlock Holmes para perceber que vc não terminou o curso de alfabetização.

  3. Felizmente hoje, graças ao avanço da tecnologia, fica muito difícil ao político contestar uma prova cuja veracidade pode ser comprovada através de áudio e vídeo, o que impede de muitos contestarem afirmando de que não sabiam de nada.
    Infelizmente, alguns correligionários não aceitam quando seus líderes vão para a cadeia, mas fazer o quê???

  4. Tenho 39 anos, sou pardo. Venho de família pobre, estudei com financiamento estudantil. Sou professor da Rede Estadual (amo o que faço) e meu baixo salário está atrasado. Não terei aposentadoria integral pois ingressei no serviço público após 2003; não defendo reforma da previdência sem que antes ocorra uma auditoria rigorosa e imparcial da mesma. Luto para dar o mínimo conforto necessário para minha família e pago todos os meus impostos, mesmo não acreditando que serão revertidos para a melhoria da qualidade de vida da população pobre. E definitivamente: não acredito em eleições, pois são um jogo de cartas marcadas. Saudações atleticanas.

    1. Fernando, muitíssimo obrigado por seu comentário! Da mesma forma que você abriu seu coração, te abro o meu: por favor, jamais lembre-se da sua cor de pele. Isso não tem qualquer importância. Ao menos para os que merecem sua atenção e respeito.

      De resto, infelizmente não tenho como contra-argumentar. O Brasil nos prova todos os dias que você está certo. Inclusive sobre eleições! Ocorre, meu caro, que não há outro caminho senão o voto. O bom voto!

      Respire fundo, crie ânimo e procure um bom candidato. Ou melhor, bons candidatos. Te juro que existem! É o que você pode fazer, além de tudo o que já faz, por sua família.

      Abração!!!

      1. Tenho muitos desacordos com o que você escreve mas não deixo de ler seus textos. Assim se faz a democracia. E creio que você, dentro do que acredita, é uma pessoa honesta e íntegra. Quando aprendermos a conviver com o contraditório, a dialogar de forma pacífica, metade dos nossos problemas estarão resolvidos. Abraço p ti tb!

          1. “E definitivamente: não acredito em eleições, pois são um jogo de cartas marcadas.”
            Trabalhei com computadores e eletrônica(áudio/vídeo) por mais de 40 anos desde os tempos do Z8080 e linguagem de máquina e mesmo que tivesse um bom candidato, também não acredito na credibilidade das urnas que, assim como qualquer ‘coisa’ em computação, podem ser facilmente alteradas ou programadas para gerarem resultados específicos.
            Existe até um programa simulador de urna para PCs disponível na internet que demonstra como os resultados podem ser alterados, é a cópia fiel da programação das urnas!
            Fernando Cesar, parabéns por ter RAÇA que não tem a menor relação com a cor de sua pele.

  5. O povo é vítima da contracultura nos moldes preconizados por Antonio Gramsci.
    O projeto de poder da esquerda imbeciliza as massas, com uma reengenharia comportamental escravizante, que neutraliza a inteligência das pessoas.
    Hoje, inclusive as pessoas de nível superior, são analfabetas funcionais em sua grande maioria.

  6. Mais um quesito para feitos um pro outro.
    “Dilma defende Pimentel:
    Os ‘cutucanos’ de Minas estão tentando fazer com o governo de Fernando Pimentel o mesmo que fizeram contra o meu governo”

    Quem estoca vento espalha tempestade e continua trans – tornado!

  7. Muito bom ver a imparcialidade vindo de formadores e opiniões. Parabéns pela riqueza do texto; parabéns por não se vender como muitos e parabéns pela coragem em desmascarar uma alcateia de lobos ferozes.

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