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O que é o Surto na DFT?

Recentemente, compartilhei com vocês que, em meio ao luto pela perda do meu pai e aos cuidados com meu filho, enfrentei oito dias de um “surto” do meu marido. Prometi voltar ao tema pela sua complexidade e pela importância de falarmos sobre essas questões. Pois bem, a última semana me provou que a DFT não espera o luto passar para apresentar suas garras: o surto retornou e, com ele, a exaustão que desafia qualquer manual de resiliência.

Quando falo em “surto”, a pergunta que mais ouço é: “Mas ele fica agressivo?”.

A resposta é um incômodo “depende”. Se eu não o afrontar e seguir o rito da obsessão que o conduz, não. Mas o problema é que a obsessão da vez quase sempre caminha para um desfecho catastrófico. E eu sou o freio de mão de um carro descendo a ladeira sem freios. Se eu puxo, o atrito gera faísca.

A Ideia Fixa: Quando o Estranho Vale mais que a Família

No caso do meu marido, o surto se manifesta como um comportamento obsessivo. Ele coloca uma ideia na cabeça e nada — nem mesmo se Deus descesse à Terra — o faria mudar de ideia ou ceder. Desta vez, o gatilho foi o mesmo do fim de janeiro: vender um relógio antigo para pagar um advogado que chegou até ele pelas redes sociais.

Como mencionei antes, a preservação da fala (ainda que empobrecida) torna quase impossível retirar o celular dele sem um conflito de proporções épicas. Mas o acesso ao mundo digital o torna uma presa fácil. O tal advogado, que ele nunca viu, o convenceu de que reaveria valores perdidos em um golpe de estelionato de 2023. Para isso, ele precisava de dinheiro para as custas processuais. E a “solução” sugerida pelo profissional foi o penhor da Caixa Econômica Federal.

Passei meu horário de almoço tentando provar o óbvio. Fomos à agência, onde ele descobriu que o relógio sequer estava na lista de itens penhoráveis. Ele saiu furioso e eu, aliviada. Ainda que eu tenha sacrificado meu intervalo e ficado sem comer, é melhor tentar encontrar uma forma de solucionar a crise do que fazer ouvidos de mercador. Do contrário, ele daria seu próprio jeito, o que nunca é a melhor opção. Já ocorreu de ele confabular uma história para pedir dinheiro emprestado e conseguir; eu fiquei com o ônus depois. A lógica da DFT não se curva aos fatos; ela cria novas camadas de realidade.

Como o tal advogado sabia do relógio? Meu marido trata qualquer desconhecido como amigo de longa data. Abre a vida, diz até onde mora. Ele deixa as redes sociais abertas, e a falta de filtro e de cálculo de riscos é uma das piores mazelas da variante comportamental.

Confabulações e o Improvisado Martelo da Insensatez

Já que o penhor não deu certo, passamos para a obsessão seguinte: o “certificado de compra” do relógio. Ele cismou que o documento estava dentro de um cofre digital, vazio há muitos anos, cuja bateria descarregou e a chave de segurança eu sequer me lembro de algum dia ter visto. Na quinta-feira, meu dia de trabalho se tornou um home office forçado e meio a um cenário de filme de terror.

Enquanto eu tentava produzir, ele passou o dia martelando o cofre com uma chave de fenda e um grifo, que encontrou em uma caixa de ferramentas que eu mantinha longe de seu alcance. Uma barulheira ensurdecedora e um comportamento insano. Ele não almoçou. Ficou sem camisa, suando, em um transe de força física que a doença faz brotar do além nos momentos de obsessão. O ápice foi me pedir um martelo de bater carne para “ajudar” na abertura. Assustadoramente, ele tinha convicção absoluta de que estava quase conseguindo.

Ali, a “máquina quebrada” trabalhava a pleno vapor. Essa é a figura de linguagem que o neurologista que o acompanha usou para me explicar que o cérebro — a máquina — não raciocinava mais diante do que era óbvio para o restante do mundo em outra situação de risco com ele, que enfrentei em 2024. Não havia diálogo; havia apenas o ruído do metal contra o metal e o meu desespero em tentar manter a sanidade enquanto via o pai do meu filho transformado em alguém que não reconheço há muito tempo.

Qualquer Objeto Pode Virar Uma Arma

No fim da tarde, fui ao posto de saúde buscar a insulina dele e encontrei um socorro inesperado. Mostrei os vídeos ao médico que o acompanha pelo SUS, que ficou estarrecido. O alerta foi direto: “Você precisa tirar ferramentas, facas e objetos de risco do alcance dele”. Já tinha feito isso há anos, na pré-internação psiquiátrica, e meu filho recordou: “Mãe, ele arremessou até uma melancia e uma tostadeira pesada em você num surto naquela época”. O médico garantiu que agendaria uma nova consulta domiciliar o mais breve possível com a presença da psiquiatra para ajustes de medicação.

Retornei para casa com a reação do especialista na mente, enquanto me dei conta que neutralizo minhas próprias reações e percepções para sobreviver ao caos na DFT. Na demência frontotemporal, o surto não é apenas teimosia; é uma perda total de filtro e de senso de perigo. Conseguir tirar o cofre de casa e levá-lo a um chaveiro ao final do dia foi uma operação de salvação. O profissional, comovido, abriu a peça e confirmou o que eu já sabia: o certificado não estava lá. O cofre virou sucata, mas serviu de prova visual para que ele parasse — por ora.

O Juízo Crítico que não Existe Mais

Recebi conselhos de amigas: “Deixe ele vender o relógio e resolva o problema”. Quem não vive a DFT não entende que o relógio é apenas um símbolo. Se eu permito hoje, o próximo passo é a bicicleta ou a televisão, pois a própria dignidade já se foi há muito tempo. Não é normal uma esposa precisar esconder a bolsa quando chega em casa, mas eu faço isso desde que o comportamento escalou. Ele não tem mais juízo crítico para gerir um centavo.

É como um dependente químico sem a droga. No surto de janeiro, que durou oito dias, ele revirava gavetas como um bandido invade uma casa. Jogava tudo pelos ares, berrando e danificando pertences que eu guardava com carinho. E eu vou abrindo mão de mim, de quem um dia eu fui, para sobreviver ao caos da DFT.

O Direito de Quem Fica é o Moedor de Carne Humana

Na sexta-feira, acordei com o silêncio. Tinha a certeza de que não ouviria a martelação insandecida, mas meu emocional estava destruído. Na atual lei de interdição, faz-se de tudo para preservar o paciente com incapacidade, sob a premissa de que o convívio familiar é o melhor. Mas quem protege o cuidador?

Ele não reconhece mais o impacto de suas atitudes, enquanto eu perco a conta de quantos dias demoro para me restabelecer após cada episódio destes. A sensação é a de ter sido passada por um moedor de carne humana; o corpo inteiro dói como se tivesse tomado uma surra física. Convido quem julga questões de Vara de Família de dentro de gabinetes gelados a passar apenas algumas horas aqui em dias de surto.

Tentativa, Erro e a Sobrevivência

O saldo é uma revisão urgente da medicação para tentar deixá-lo mais contido. É um jogo de tentativa e erro em um cenário sem cura, tratamento ou medicação especifica.

Viver com a DFT é abraçar o imprevisível. É entender que a sensatez do passado foi sequestrada por uma biologia impiedosa. E para nós, na linha de frente, resta o papel ingrato de ser o freio de mão, sabendo que, a cada puxada, é um cavalo de pau. Um tranco que não conseguimos medir as consequências, mas cujos impactos sentimos na pele.

E você, que cuida de alguém com demência, já enfrentou essa barreira entre a teimosia e o surto? Como protege o patrimônio e a integridade física sem perder a sua própria saúde mental? Vamos conversar nos comentários.

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