
Chegando esse mês na Netflix, Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man, ou simplesmente Knives Out 3) confirma o que já vinha ficando claro nas duas aventuras anteriores da franquia: quando o mistério é bem bolado, o cinema de gênero pode ser ao mesmo tempo engenhoso e divertido. Rian Johnson retorna com autoridade ao universo que criou, assinando um roteiro bem escrito que se equilibra com uma trama complexa e clara que exige que o espectador fique dedicado até o último minuto.
O mistério central — intricadamente costurado e pontuado por reviravoltas que raramente soam gratuitas — é um dos grandes méritos do filme. Johnson sabe que o público contemporâneo já não se satisfaz com artifícios óbvios; ele constrói uma teia onde cada personagem carrega motivos críveis, e onde a verdade, quando finalmente exposta, ressoa menos como golpe de mestre e mais como consequência lógica de pistas inteligentemente distribuídas. Não se trata apenas de surpreender, mas de fazer sentido.
Essa verossimilhança se reflete nos personagens. Cada figura que circula pelo enredo possui uma coerência interna que vai além do estereótipo do “suspeito de mistério policial”. Ao invés de servirem apenas como peças expositivas, eles respiram, com desejos, contradições e pequenas falhas que os tornam palpáveis. Essa humanização dos personagens enriquece a experiência, porque o suspense não se apoia apenas no quebra-cabeça, mas nas relações entre quem está envolvido.

E boas atuações completam esse quadro sólido, começando pelo mestre de cerimônias, o grande detetive Benoit Blanc, um Daniel Craig ainda mais à vontade no papel. Ele faz parecer que o personagem terá vida eterna, repetindo a dobradinha com Johnson sempre que convocado. Como de costume, os demais nomes são todos novos, com Josh O’Connor à frente, seguido de Josh Brolin, Glenn Close, Jeremy Renner, Mila Kunis, Andrew Scott e etc etc etc. Todos muito bem, com destaque para a segurança de O’Connor e Close, sempre roubando cenas.
A condução do diretor é outro elemento que distingue Knives Out 3. Johnson mantém um pulso firme sobre o ritmo, alternando momentos de investigação meticulosa com intervalos de respiro que jamais soam dispersivos. Ele nunca perde de vista que, em um filme de mistério, a montagem, a composição de cena e o controle do tempo são tão essenciais quanto as palavras no papel.
Knives Out 3 não reinventa a roda, e nem pretende. O que ele faz é lembrar que, com um bom roteiro, personagens críveis e uma direção atenta, o cinema popular ainda pode oferecer mais do que puro entretenimento: ele pode exercer um convite inteligente à participação ativa do espectador. É um filme que honra suas promessas e, acima de tudo, reafirma que o bom mistério continua sendo, quando bem feito, uma forma refinada de narrativa cinematográfica. Pena que não passou pelos cinemas.

O padre e o detetive são os personagens principais desse mistério


