Velozes e Furiosos chega à oitava aventura

por Marcelo Seabra

Depois daquele começo tímido em 2001, quem diria que a franquia Velozes e Furiosos tomaria esse vulto e chegaria ao seu oitavo episódio (no original, The Fate of the Furious, 2017)? De uma aventura nas ruas com cara de Caçadores de Emoção, os longas se tornaram produções caríssimas que reúnem diversos nomes famosos e têm tramas que fariam inveja a James Bond. Com o desafio de superar a morte de um de seus protagonistas, Paul Walker, a série segue quebrando todas as leis, até a da gravidade.

Falando em quebrar leis, a franquia tem uma máxima desde que Dom Toretto (Vin Diesel) e Brian O’Conner (Walker) se aliaram: a família é sempre o mais importante. Um tanto de gente entrou nessa festa e logo eles se tornaram uma grande família, para não chamar de gangue. Depois da necessária saída de Brian do grupo, agora é Dom quem vai se bandear para o outro lado. O que destrói a única máxima que regia esse universo. É uma ideia muito bacana que, ao ser colocada em prática, facilmente desanda e leva o filme com ela.

A nova história do bando de Dom começa quando ele e Letty (Michelle Rodriguez) estão em lua de mel em Cuba, com todos os estereótipos do país que se tem direito: belas paisagens, uma espécie de rap caribenho com um batidão tocando, bigodudos com cara de mal em conversas suspeitas e trocentas mulheres em trajes mínimos, fazendo a introdução parecer mais um clipe de funk. Parece que o 3D foi projetado para que bundas pulem na cara do espectador. Uma corrida é rapidamente arranjada, já que qualquer problema da humanidade pode ser resolvido assim, e entramos no clima da franquia.

Na sequência, Dom conhece uma mulher misteriosa (vivida por Charlize Theron, de O Caçador e a Rainha do Gelo, 2016 – ao lado) que vai chantageá-lo para que a ajude. O detalhe é que o sujeito vai ter que se virar contra seus parceiros, o que ele faz sem titubear. A partir daí, temos a prova de que Dom é o membro do grupo com mais recursos, já que ele enfrenta todos sozinho, e a trama segue um caminho 100% previsível. O plano da tal Cipher é tão importante que nem ela parece saber exatamente qual é, se limitando a soltar algumas frases de efeito.

Sem Dom à vista, todos ganham espaço, mas quem rouba a cena são os fortões Dwayne “The Rock” Johnson e Jason Statham. E nem o carisma dos dois salva as cenas constrangedoras que somos obrigados a acompanhar, com diálogos mínimos e genéricos, como “Isso não está bom” ou algo assim. Cada personagem parece ter um núcleo, o que torna o todo uma série de filmes menores encaixados – o que facilitou a distância entre Johnson e Diesel, que teriam tido “desavenças filosóficas” durante as filmagens. A facilidade como vilões são aceitos nessa família também é assustadora. Tudo pode ser desculpado e os lados vão mudando. Não duvido que, num próximo filme, uma ameaça maior possa surgir e mais personagens mudem de lado.

As cenas de ação prendem tanto a atenção que dá vontade de olhar no celular se tem alguma novidade nas redes sociais. Acontece tanta destruição gratuita e orquestrada que parece que, a qualquer momento, o Superman vai aparecer. Da mesma forma que o plano de Cipher corre facilmente, por mais absurdo que seja, com hackers invadindo os sistemas de carros e tomando o controle, a família Toretto também vê suas jogadas dando certo. É como se tudo estivesse combinado desde o início, com o vencedor e o perdedor previamente definidos. Cada um cumpre seu papel, sendo o de Tyrese Gibson fazer todo tipo de piada sem graça. É impressionante como raros momentos de humor funcionam, e nenhum deles com Gibson, que só irrita com falas de um menino mimado de 12 anos, como descrito por um colega. E o agente do alto escalão de Kurt Russell, que agora tem um aprendiz (o inexpressivo Scott Eastwood, de Esquadrão Suicida, 2016 – ao lado ), continua sendo o salvador da pátria, que aparece nas horas oportunas com as saídas necessárias.

Com o mesmo Chris Morgan no roteiro, desde o terceiro filme, a novidade é o diretor, o irregular F. Gary Gray (que comandou Diesel em O Vingador, de 2003). Seus antecessores, Justin Lin e James Wan, demonstraram entender melhor a dinâmica de Velozes e Furiosos, abraçando os exageros sem perderem a essência da diversão. Gray tenta fazer um filme pé no chão, como seus trabalhos anteriores, e aí aparece um carro pulando um submarino. É como se Christopher Nolan fizesse um filme do Thor, sem saber exatamente onde ancorá-lo. O resultado seria bem burocrático, como é esse Velozes 8.

Elenco reunido pra foto de família

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Prison Break retorna à TV após sete anos

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers das quatro primeiras temporadas de Prison Break. Portanto, se você não assistiu à série, sugiro que pare a leitura por aqui. Também sugiro que nem assista a essa nova série, já que ela funciona como uma quinta temporada. Se não assistiu às anteriores, ficará completamente perdido. Esteja avisado.

Prison Break é uma série que, se não partiu de uma premissa original, pelo menos utilizou-a de maneira bem criativa. A história começa quando o marginal de quinta categoria Lincoln Burrows (Dominic Purcell, de Legends of Tomorow e The Flash) é preso, acusado do assassinato do irmão da vice-presidente dos Estados Unidos. Lincoln jura ser inocente, ainda que todas as evidências deem como certa sua culpa. A única pessoa que parece acreditar em Lincoln, apesar de não vê-lo há anos, é seu irmão, Michael Scofield (Wentworth Miller, das mesmas séries acima) um bem sucedido engenheiro estrutural que bola um plano que pode ser tão estúpido quanto genial: ele comete um crime com a gravidade exata para enviá-lo para a mesma penitenciária do irmão. Seu objetivo não poderia ser mais claro: escaparem e tentarem provar a inocência de Lincoln. Uma vez lá dentro, ele percebe que as coisas não serão tão fáceis.

Transmitida em 2004, a primeira temporada de Prison Break foi um tremendo sucesso. Os episódios eram muito bem escritos e, geralmente, terminavam com um gancho que fazia com que o espectador ficasse contando os dias para o próximo, especialmente devido aos planos formulados por Michael antes de sua prisão, que se mostravam bastante intrincados e complexos. E esse processo se repetiu até o 22º episódio, que culmina com a fuga dos irmãos e mais meia dúzia de detentos (aliados escolhidos e relutantemente aceitos).

A segunda temporada perdeu um pouco daquele sentido de urgência da primeira, ainda que a situação dos detentos fosse complicada, já que agora o desafio era manter-se em liberdade e, para Lincoln e Michael, desvendar a conspiração que colocou Burrows na cadeia antes que fossem mortos por seus perseguidores. As surpresas com relação à genialidade de Michael continuam a surpreender. Um dos atrativos dessa temporada é a adição de Alex Mahone (William Fichtner, de Crossing Lines) um agente federal que se prova um desafio à altura do gênio de Scofield e que acaba por se tornar um relutante aliado na temporada seguinte.

Aí, aconteceu um imprevisto: os roteiristas de Hollywood entraram em greve. Todas as séries sofreram um impacto negativo com isso, tendo suas temporadas cortadas pela metade ou menos. Prison Break teve 13 episódios nesse ano e mostra uma situação inversa ao primeiro ano, com Michael e alguns de seus aliados presos em uma penitenciária do Panamá, cabendo a Lincoln tentar libertar o irmão. Finalmente, no quarto ano, diversos personagens são recrutados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA para ajudar a desvendar uma conspiração envolvendo uma organização chamada simplesmente “A Companhia”. Ao fim da série – que acabou em um episódio duplo no estilo filme para TV – Michael morre, deixando para trás sua namorada grávida, Sara Tancredi (Sarah Wayne Callies, de The Walking Dead), e Lincoln.

Apesar de seus altos e baixos, Prison Break foi uma série de sucesso da Fox e arregimentou um bom número de fãs. Tanto, que seu criador, Paul Scheuring, depois de grande insistência dos agora produtores Miller e Purcell, resolveu retomar sua criação para uma nova temporada de nove episódios. Ela começa sete anos após o término da quarta, quando o assassino Theodore “T-Bag” Bagwell (Robert Knepper, de Jogos Vorazes: A Esperança – o Final, 2015) é libertado da prisão e recebe uma carta sem remetente. No seu interior, apenas uma frase enigmática e uma foto de Scofield. T-Bag fez parte do grupo de prisioneiros que fugiu com os irmãos na primeira temporada. Sem muita demora, ele consegue localizar Lincoln, que voltou à sua vida de crimes, e tenta convencê-lo de que Scofield está preso e precisa de sua ajuda. Relutante a princípio, Lincoln acaba levando essa informação a Sarah, que também tenta dissuadi-lo daquela busca já que, para ela, Michael está morto.

Lincoln, no entanto, acaba descobrindo uma pista na frase escrita na carta, que revela que seu irmão – ou alguém muito parecido com ele – se encontra em uma prisão para presos políticos e violentos no Iêmen, país em uma guerra civil. Para poder entrar no Iêmen sem maiores problemas, Lincoln procura por Benjamin “C-Note” Franklin (Rockmond Dunbar, de séries como The Mentalist e Sons of Anarchy – ao lado), outro ex-condenado. Ex-soldado, C-Note agora trabalha com uma organização muçulmana e, graças a isso, consegue fazer com que Lincoln entre na prisão onde Michael estaria preso. Lá, eles acabam encontrando algo que não esperavam. Contar mais do que isso estragaria as surpresas da temporada.

Ao que tudo indica, essa nova etapa de Prison Break seguirá o mesmo molde de sua primeira. Aparentemente, há toda uma conspiração acontecendo e o fato de Lincoln ter decidido procurar pelo irmão acionou a luz amarela que o torna alvo desse grupo misterioso, que pode ou não ter algo a ver com A Companhia. Todos os elementos que consagraram a série estão ali, inclusive os principais personagens – além dos já citados, Sucre (Amaury Nolasco, de Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer, 2013) também faz uma ponta e deve ter um papel relevante. Se a série justificará essa volta ou não, só saberemos no final.

A exemplo do que faz com The Walking Dead, a Fox tem transmitido Prison Break simultaneamente com os EUA, que ocorre todas as terças-feiras, às 23h. Vale a pena procurar pelas reprises, caso tenha perdido a estreia. Ou correr atrás da primeira temporada no Netflix, caso você se interesse pelo início da trama.

O elenco principal lançou a nova temporada na San Diego Comic Con

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Veteranos se unem para uma Despedida em Grande Estilo

por Marcelo Seabra

Parece estar em alta uma espécie de subgênero que reúne atores veteranos para um último ato. E deve ser obrigatório, nas especificações desse tipo de filme, contar com Morgan Freeman no elenco. Dessa vez, ele se une a Michael Caine e Alan Arkin para uma Despedida em Grande Estilo (Going in Style, 2017). Só os três já somam quatro Oscars e garantem a diversão, com piadas de um bom nível que entretêm sem ridicularizar ninguém. Mesmo que o andamento seja bem despropositado, com umas soluções muito fáceis.

Se as comédias com amigos são chamadas de “bromance”, essa poderia ser uma “broldmance”, já que são todos veteranos. Se levarmos em consideração os outros longas nessa linha, como Amigos Inseparáveis (Stand Up Guys, 2012) e Última Viagem a Vegas (Last Vegas, 2013), ou mesmo os dois R.E.D., esse acaba tendo um resultado superior. Refilmagem de uma obra homônima de 1979 (ao lado), ele parte do mesmo argumento, mas segue por direções diferentes. Enquanto o original era mais sobre a solidão e a vontade de chacoalhar as coisas na terceira idade, agora o foco é mais econômico, com problemas financeiros servindo de pontapé para o plano.

O roteiro de Theodore Melfi (indicado ao Oscar esse ano por Estrelas Além do Tempo, 2016) nos apresenta a Joe (Caine, de Kingsman, 2014), Willie (Freeman, de Ben-Hur, 2016) e Albert (Arkin, de Argo, 2012), amigos que aproveitam a aposentadoria vivendo sem luxo, mas comendo todos os dias um pedaço de torta. Até o dia em que a empresa onde trabalharam é extinta e suas pensões vão junto. Com um pequeno discurso sobre a maldade do sistema financeiro norte-americano, eles logo decidem assaltar um banco. A boa notícia é que, ao contrário do ótimo A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016), Despedida não se leva a sério. O tom de comédia não iria combinar nada.

Com larga experiência atuando em comédias, Zach Braff (da série Scrubs) assina aqui seu terceiro trabalho no Cinema como diretor. Ele é habilidoso em manter o clima leve, fazendo graça com as situações vividas pelos personagens. E, convenhamos, não deve ser nada difícil tirar boas performances desses monstros. No elenco, ainda temos as presenças ilustres de Christopher Lloyd (mais conhecido como o Doc. Brown de De Volta Para o Futuro) e Ann-Margret (de Ray Donovan), todos bem afiados. Matt Dillon (de Ladrões, 2010) continua num misto de canastrice e carisma como o agente encarregado do caso e John Ortiz (de Kong, 2017), que vive uma espécie de consultor de crimes, trabalha numa loja chamada apropriadamente Cameo (em português, algo como participação especial).

É bem verdade que os personagens parecem viver em outro mundo, sob uma lógica ligeiramente diferente da nossa. Por isso, não é difícil perceber um quê de fábula, o que acaba ajudando o espectador a comprar a ideia do assalto. E anda tão complicado encontrar um filme que proporcione algumas risadas que esse esforço é bem-vindo.

Braff e seus veteranos no lançamento do longa

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Poetisa ganha cinebio Além das Palavras

por Marcelo Seabra

À primeira vista, seria muito difícil levar ao Cinema a vida de uma pessoa marcada muito mais por palavras e sentimentos que por acontecimentos. E essa é a missão que o diretor e roteirista Terence Davies encara em Além das Palavras (A Quiet Passion, 2016), longa que acompanha a vida de Emily Dickinson, tida como uma das mais proeminentes poetisas da língua inglesa. Sua fama de reclusa procede, como pode-se ver na tela, e conseguimos entender melhor alguns traços de sua personalidade.

O britânico Davies vem de uma elogiada carreira de filmes sensíveis e densos, construídos através de diálogos bem lapidados (como A Essência da Paixão e Amor Profundo). A diferença, aqui, é que o texto de Dickinson permeia as falas, como se ela tivesse ideias para seus poemas em situações cotidianas. Ou se testasse essas ideias com a família antes de escrever. Como a vida dela não foi marcada por grandes eventos, qualquer coisa ganha proporções maiores. Um casamento, morte ou nascimento é causador de reflexões e atritos e pode inspirá-la. Por isso, o título original, “Uma Paixão Silenciosa”, seria bem mais apropriado.

No papel principal, temos Cynthia Nixon, muito lembrada como a Miranda de Sex and the City. A atriz faz um ótimo trabalho nos dois extremos: quando tem muito texto para se expressar e quando não tem nenhum, contando apenas com suas expressões e movimentos. Nixon encarna bem o modo taciturno e o humor crítico e até irônico de Dickinson. Os duelos falados entre ela e a irmã (Jennifer Ehle, de The Fundamentals of Caring, 2016), ou mesmo com a amiga (Catherine Bailey, de The Crown), são de grande presença de espírito. As três, em diferentes níveis, têm em comum a sagacidade, a rapidez de pensamento e um certo pessimismo. Os diálogos com a tia Elizabeth (Annette Badlan) são impagáveis!

Desde o início, entendemos que a família Dickinson tem posses e seus filhos experimentaram os melhores estudos, seguindo o caminho dos pais. Emily, então vivida por Emma Bell (de The Walking Dead), não se encaixa num colégio de freiras e acaba voltando para casa. Esse é um ponto que o filme não deixa claro: se ela, mais velha, se recusa a ir à igreja, como se sente tão tocada pela pregação do Reverendo Wadsworth (Eric Loren)? Lendo a biografia da poetisa, encontramos pontos de discordância, já que ela teria conhecido Wadsworth em uma viagem.

O elenco de Além das Palavras, que ainda conta com Keith Carradine (das séries Dexter e Madam Secretary) e Joanna Bacon como os pais e Duncan Duff como o irmão de Emily, é o grande trunfo do filme. Sempre com um figurino perfeito, Nixon transmite muita segurança e os demais seguem num patamar próximo, o que valoriza muito o texto de Davies. O cenário é, basicamente, a casa da família, o que parece ser uma restrição orçamentária, e isso pode tornar as coisas um pouco enfadonhas. Mas as palavras devem manter o público alerta até o final.

Davies e Nixon lançaram o longa no Festival San Sebastian

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Cage e Dafoe são Cães Selvagens e sem graça

por Marcelo Seabra

Depois de alguns filmes dos quais ninguém deve ter ouvido falar, o diretor e roteirista Paul Schrader, aos 70 anos, volta a ter um projeto chegando aos cinemas brasileiros. Mas isso não significa que Cães Selvagens (Dog Eat Dog, 2016) seja exatamente bom. É, no máximo, um filme estranho, com algumas sacadas geniais, mas sem nunca prender seu espectador ou criar tensão.

Famoso desde a década de 70, membro da turma conhecida como a “Nova Hollywood”, Schrader assinou vários roteiros interessantes, como Taxi Driver (1976) e Touro Indomável (Raging Bull, 1980), e logo partiu para a direção. Nessa função, lançou o famoso Gigolô Americano (American Gigolo, 1980) e, já nos anos noventa, Temporada de Caça (Affliction, 1997), provavelmente o último trabalho dele a causar algum barulho.

Para o que poderia ser uma volta por cima, o diretor chamou dois antigos conhecidos: Nicolas Cage (de Fúria, 2014) e Willem Dafoe (de O Homem Mais Procurado, 2014). Na história, conhecemos o trio, completo com Christopher Matthew Cook (de Under the Dome), que saiu da cadeia há pouco. Mais uma condenação significaria prisão perpétua, mas esse risco não vai mantê-los fora de problemas. Troy (Cage) tem um contato, El Greco (estreia como ator do próprio Schrader), que vai conseguir para eles um trabalho que promete pagar bem.

Cães Selvagens é baseado num livro de Edward Bunker, mais lembrado como o Mr. Blue de Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), e conta com roteiro de Matthew Wilder (de Your Name Here, 2008). O resultado é uma mistura de situações batidas, já vistas em outros longas, com outras beirando o surreal. A falação do personagem de Dafoe, Mad Dog, é um exemplo de momento em que o filme perde qualquer ligação com o público. A tentativa de desenvolver a personalidade do sujeito acaba criando mais antipatia por ele. E seria bem complicado ter alguma simpatia por um psicopata como aquele.

Certos enquadramentos de Schrader criam cenas visualmente interessantes, e o uso da cor é bem acertado. O vermelho cria uma metáfora infernal, enquanto uma mistura inusitada representa a viagem das drogas. A sequência em preto e branco é particularmente bonita. Mas uma certa apelação para o gore, que pontua mortes exageradas com humor, são totalmente descabidas, mostrando muita falta de noção dos realizadores. Somando isso às ações estúpidas de seus protagonistas e ao senso de injustiçados que eles têm de si mesmos, temos um resultado que fica no negativo. E seguimos na esperança da reabilitação de Schrader.

O diretor posa com o elenco entre as filmagens

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Quadrinhos japoneses ganham vida em A Vigilante do Amanhã

por Marcelo Seabra

Tido como cult por toda uma geração, era questão de tempo até que Ghost in the Shell chegasse ao Cinema. Lançados em 1989, os quadrinhos traziam diversos pensamentos sobre filosofia, avanços tecnológicos e identidade. A ideia do criador da série, Masamune Shirow, era de que, num futuro próximo, será fácil misturar humanos e máquinas. E qual seria o limite para essa mistura? Onde entram as questões éticas?

Estreando essa semana, o longa em live action ganhou no Brasil o título A Vigilante do Amanhã e tem Scarlett Johansson à frente do elenco. Não satisfeita em ser a Viúva Negra nos filmes do Universo Marvel, a atriz ainda quis ser a heroína dessa ficção-científica que abusa de suas curvas, mas sem qualquer traço de erotismo. No trailer, as pessoas já se indagam por que ela precisaria tirar a roupa para saltar de um prédio. A boa notícia é que, mesmo que a explicação não seja ótima, há uma explicação. Essa foi uma polêmica levantada, além do fato de a protagonista ser branca, quando a história é de um japonês, assim como suas criações. Como vemos na tela grande diversidade de nacionalidades, pode-se dizer que os limites de países não são mais claros, as corporações que dominam o mundo.

Na trama, conhecemos “Major” (Johansson), a líder de uma divisão especial de proteção do governo. Sua equipe luta contra terroristas tecnológicos e ameaças dessa natureza. De cara, descobrimos que há um vilão invadindo sistemas e matando pessoas e a missão da turma é encontrar e eliminar o sujeito. Major tem apenas o seu cérebro intacto, todo o resto de seu corpo foi construído e a manutenção é feita por seus criadores. Daí, vem a metáfora que explica o título original: ela seria apenas uma alma, ou fantasma, em uma concha.

O visual do longa é bem inovador, algo como a cidade de Blade Runner reimaginada por Joel Schumacher, aquele que tornou Gotham uma cidade colorida e espalhafatosa nos filmes do Batman. Há muita criatividade nos cenários e nos recursos tecnológicos, como estradas passando dentro de prédios e anúncios publicitários projetados nos céus. Eles permitem tomadas muito interessantes, envolvendo efeitos especiais de ponta. Para os humanos, a palavra-chave é aprimoramento: se hoje, muitos fazem cirurgias plásticas, imagine o que faremos quando for possível inserir ou trocar partes inteiras do corpo?

Em 1995, foi lançado um anime que também adapta a história da Major, e ele inclusive trouxe mais fama aos quadrinhos. Apesar de muito famosa e adorada, essa animação não serviu como base para o filme. Há, sim, alguns elementos dela, mas em contextos diversos. Um exemplo é a dupla de lixeiros, que tem papéis diferentes em cada obra. Meia hora de duração separa as duas, o que permite muito mais tempo para gastar em desenvolvimento e ação.

Nos quase dez anos em que o projeto ficou em produção, vários profissionais contribuíram com suas ideias. Como roteiristas, foram creditados na versão final Jamie Moss (de Os Reis da Rua, 2008), William Wheeler (de O Vigarista do Ano, 2006) e Ehren Kruger (dos três últimos Transformers), sob o comando do pouco expressivo Rupert Sanders (de Branca de Neve e o Caçador, 2012). Isso afasta o resultado de suas origens, o que dá a impressão de que o estúdio queria que o filme fosse além, mais completo e diferente o suficiente para agradar e surpreender quem já conhecia o material.

Essa busca pelo diferente parece ser o principal problema deste novo Ghost in the Shell. Não há suspense, não há mistério. Tudo é escancarado de início e torna-se apenas uma perseguição, com alguns fatores sendo alterados ao longo da projeção. A jornada de autodescobrimento da Major fica em segundo plano e tudo cai num lugar comum previsível. Fãs dos quadrinhos ou da animação de 95 temiam que sua obra querida ganhasse uma adaptação pavorosa para os cinemas. Não foi o caso, felizmente. Só não é memorável.

A cidade hitech e o corpo camuflável de Johansson

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A Cabana é mais autoajuda no Cinema

por Marcelo Seabra

A beleza de obras de autoajuda é não fazer discernimento algum de público. Não há preconceito contra cor, gênero, religião, orientação sexual, nada. Pode irritar a todos da mesma forma. É claro que tem quem consuma, ou os livros não venderiam tantos exemplares. Um deles é A Cabana, recordista de vendas que agora chega aos cinemas (The Shack, 2017). E que não fique dúvidas: recheado de lições de vida.

Publicado há exatos dez anos, o texto levantou polêmicas quanto à representação da Santíssima Trindade. Enquanto alguns consideravam heresia a forma de mostrar divindades, outros viram como uma ótima alegoria. O autor da primeira versão, William P. Young, começou o projeto apenas para seus filhos e, logo, os amigos apontaram o potencial comercial. Junto com dois pastores, Wayne Jacobsen e Brad Cummings, e um cineasta, Bobby Downes, ele deu o formato como o conhecemos. A publicação foi bancada por eles e a propaganda boca a boca trouxe o inesperado sucesso.

Era questão de tempo até que A Cabana chegasse ao Cinema. Muito foi dito sobre a “linguagem cinematográfica” do livro, o que poderia facilitar sua adaptação. No entanto, foram necessários três roteiristas – apenas um deles, John Fusco, é digno de nota (do segundo O Tigre e o Dragão, de 2016). O diretor, Stuart Hazeldine, fez sua estreia com o curta Christian (2004), o que já demonstra certa propensão ao tema. Este é o seu segundo longa e ele não aparenta ter nenhuma característica relevante, não há qualquer opção chamativa, brilhante. Pelo contrário: tudo é bem convencional. Ao menos, não é ruim como o nosso O Vendedor de Sonhos (2016).

Entre idas e vindas no tempo, conhecemos Mack Phillips (Sam Worthington, de Até o Último Homem, 2016), sua esposa (Radha Mitchell, de A Escuridão, 2016) e os três filhos, família mostrada como exemplo para a comunidade, daquelas que vai à missa toda semana. Sabemos que uma tragédia vai acontecer e Mack ficará extremamente abatido. Num fim de semana sozinho em casa, ele recebe um convite estranho: ir até a cabana onde a tragédia aconteceu para um suposto encontro com Papa, o nome que a esposa usava para falar de Deus. Ou seria o assassino que o esperaria lá?

Não há qualquer tentativa de suspense, por mais que a sinopse dê a entender. A estadia na cabana se torna uma jornada de autoconhecimento morna e lá conhecemos os personagens de Octavia Spencer (de Estrelas Além do Tempo, 2016), do israelense Avraham Aviv Alush e da japonesa Sumire (acima). A diversidade étnica e de gênero é uma preocupação clara da produção, que ainda traz em seu elenco o astro da música country Tim McGraw, a brasileira Alice Braga e o veterano de origem indígena Graham Greene. Ter Deus interpretado por uma mulher, e negra, deve fazer muitos fundamentalistas virarem a cara.

Cheio de boas intenções, este A Cabana certamente irá levar um bocado de gente às lágrimas, praticamente apelando e cortando cebolas na sala. É muito triste, sim, ver um pai perder a filha e cair em depressão. Mas também é bem chato ver um filme que não consegue engatar, fica dando voltas e, de repente, tudo é magicamente resolvido. Pena que, na vida, as soluções não venham tão facilmente.

A típica família americana

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Punho de Ferro é o último Defensor a chegar na Netflix

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Punho de Ferro (Iron Fist), nova série da parceria Marvel/Netflix, chegou ao serviço de streaming na última sexta-feira, 17 de março. Ao contrário de suas predecessoras (Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage), a série foi tão detonada pela crítica que teve acesso aos seus seis primeiros episódios, que começarei essa resenha de uma maneira diferente. Primeiro analisaremos as principais críticas feitas à série – sem spoilers – para depois analisá-la. Abaixo, comentarei as críticas mais esdrúxulas vistas até agora, deixando as que fazem sentido para serem abordadas de maneira mais profunda nos parágrafos a seguir.

1 – “Punho de Ferro é ruim porque o protagonista é um branco bilionário”. Isso é uma das críticas recorrentes e é uma das que menos faz sentido, já que os filmes estrelados por Batman e Homem de Ferro também são protagonizados por “um branco bilionário” e isso nunca foi motivo de crítica para suas produções cinematográficas. Um crítico chegou a dizer que o ator Finn Jones (de Game of Thrones) seria “extremamente caucasiano”, o que me deixou pensando sobre o que isso deveria significar;

2 – “Punho de Ferro é ruim porque tem pouca diversidade”. Outra besteira. Apesar de haver uma predominância de caucasianos no elenco, dentre os personagens principais há chineses, latinos e negros. Isso já traz mais diversidade a Punho de Ferro do que vimos tanto em Luke Cage quanto em Demolidor;

3 – “Punho de Ferro é ruim porque mostra um branco mestre do Kung Fu, quando o protagonista deveria ser um oriental”. Um reflexo do clima de politicamente correto atual, essa crítica é absurda. Primeiro que dizer isso é desconhecer tanto o material original – ou seja, os quadrinhos do personagem – quanto a essência da série. Segundo, quer coisa mais clichê do que um mestre do kung fu oriental? Fazer essa troca de protagonista não seria apenas uma forma de alimentar o estereótipo de que orientais são escalados apenas para esse tipo de personagem? A Marvel já tem um personagem oriental mestre do Kung Fu chamado – adivinha? – Shang Chi, o Mestre do Kung Fu, cuja série está sendo boatada para um futuro próximo na Netflix;

4 – Finalmente, ““Punho de Ferro é ruim porque faz apropriação cultural”. Com relação a essa, só tenho uma coisa a dizer: vão arrumar um hobby.

Desabafo feito, vamos ao que interessa. Quando começou seu universo Marvel no cinema, a Marvel Studios tinha um plano bem claro: primeiro, lançou filmes solo de seus principais personagens (Homem de Ferro, Hulk, Capitão América e Thor, com aparições da Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Nick Fury e Phil Coulson). Com eles bem apresentados ao público, reuniu-os em um longa (Os Vingadores, 2012). Como em plano que dá certo não se mexe (viu, Warner?), a Netflix seguiu o mesmo caminho. Primeiro, lançou Demolidor (cuja segunda temporada teve a participação do Justiceiro), seguida de Jessica Jones, Luke Cage e esse Punho de Ferro, tudo isso para preparar o terreno para a série dos Defensores, que chega à Netflix no segundo semestre.

Punho de Ferro começa quando Danny Rand (Jones) retorna a Nova Iorque depois de quinze anos. Danny é herdeiro de Wendell Rand (David Furr, de 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi) que, junto com Harold Meachum (David Wenham, de Lion: Uma Jornada para Casa), construiu as Empresas Rand, um complexo multi-bilionário que atua em áreas diversas. No momento em que Danny retorna, Harold havia falecido há 12 anos, deixando o comando da empresa nas mãos de seus filhos (abaixo), Ward (Tom Pelphrey, de Banshee) e Joy (Jessica Stroup, de The Following).

Inicialmente, tudo o que Danny quer é recuperar seu lugar na empresa da qual detém 51% das ações. O problema é que não há qualquer prova de que aquele jovem de 25 anos – que, para o mundo, morrera 15 anos antes, quando o avião no qual viajava com os pais caiu no Himalaia – seria mesmo o herdeiro dos Rand. Aí começa o primeiro desafio de Danny: provar sua identidade. Não só isso: quando o avião dos pais caiu, Danny foi resgatado por monges e levado para K’un-Lun, uma cidade que se localiza em outro plano dimensional, cuja passagem para nossa realidade só se abre a cada 15 anos. Durante o período em que lá ficou, Danny foi submetido a um treinamento físico e espiritual extremo e, depois de diversos testes, se tornou o Punho de Ferro, capaz de concentrar uma grande quantidade de energia (seu chi) em seu punho direito, dando-lhe a consistência do metal que lhe empresta o nome, dentre outras capacidades.

Após finalmente provar quem é, Danny precisa encontrar seu lugar nesse novo mundo e, enquanto tenta fazê-lo, acaba descobrindo que a organização criminosa O Tentáculo (vista nas duas temporadas de Demolidor) está infiltrada na Rand. Um dos propósitos da existência do Punho de Ferro é proteger K’un-Lun justamente do Tentáculo. Danny passa a concentrar a maioria de seus esforços na destruição dessa organização. Para isso, contará não só com a ajuda dos Meachum, como também de Colleen Wing (Jessica Henwick, de Star Wars: O Despertar da Força) e Claire Temple (Rosario Dawson), personagem que esteve presente em todas as séries anteriores da Marvel/Netflix e é um dos elos entre todas elas. Completam o elenco principal Ramon Rodriguez (de Transformers: A Vingança dos Derrotados) e Wai Ching Ho (reprisando o papel de Madame Gao, presente em Demolidor).

Um dos principais problemas de Punho de Ferro é recorrente nas séries da Netflix estreladas por personagens da Marvel: seu desenvolvimento lento. Demora uma eternidade para que a história realmente engrene e as coisas comecem a acontecer. Quando isso acontece – e nisso lá se vão os seis episódios liberados para a imprensa avaliar antes da série ser totalmente disponibilizada para o público em geral – a trama se torna mais interessante, ainda que haja alguns furos de roteiro meio grandes e soluções relativamente preguiçosas. Outra crítica se dá a respeito do desenvolvimento da série, já que muitos esperavam que ela tivesse um nível de ação maior, dado o fato do protagonista ser um mestre do kung fu. O número de lutas nos primeiros episódios é pequeno e as lutas não parecem muito bem coreografadas e filmadas. Esse problema passa a ser minimizado à medida em que a série progride. Aliás, a “falação” é necessária para dar alguma profundidade a personagens que, inicialmente, parecem bastante vazios (e alguns deles continuam assim durante quase toda a série).

Já sobre as lutas serem pouco vistosas, amigos que praticam kung fu e assistiram à série têm a mesma opinião: kung fu é para ser eficiente, não cheio das firulas que vemos em filmes japoneses. E nem tão brutal como o que vimos em Demolidor. De qualquer forma, as sequências de lutas melhoram com o tempo, assim como o protagonista, que parece ir se tornando um lutador melhor à medida em que precisa enfrentar mais adversários.

Com relação ao desempenho dos atores, não há muito a criticar. Todos desempenham seu papel corretamente, ainda que Finn Jones pareça pouco crível em alguns momentos. Finalmente, a trama de Punho de Ferro parece mais bem amarrada do que a de Luke Cage, na qual os roteiristas parecem ter ficado sem ideias no meio da temporada e precisaram criar um novo antagonista para o herói.

Punho de Ferro não é nem de longe a melhor série desenvolvida pela parceria Marvel/Netflix, mas também não é essa bomba que a crítica em geral tenta passar. Falta um pouco de desenvolvimento e ritmo – além do misticismo tão característico da história do personagem – mas, de resto, a série atende ao propósito de apresentar o último Defensor e situá-lo no universo estabelecido pela Marvel dentro da Netflix. Isso, além de deixar cada vez mais claro que a reunião dos Defensores tem tudo a ver com a destruição do Tentáculo. Mas isso só saberemos com certeza quando a série do quinteto (além de Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Demolidor, o grupo também terá a participação do Justiceiro) sair no próximo semestre.

Eis os Defensores da Marvel na Netflix

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Shyamalan mostra personalidade com Fragmentado

por Marcelo Seabra

A carreira de M. Night Shyamalan certamente teve altos e baixos. Fragmentado (Split, 2016), que chega ao Brasil essa semana, é mais uma tentativa de voltar à boa forma e mostrar que ele pode escrever e dirigir um filme sem estragar tudo. Porque, baseando-se nos últimos projetos dele, essa é a conclusão natural.

O cerne do roteiro, dessa vez, é o transtorno dissociativo de identidade, antes chamado de transtorno de múltiplas personalidades. Normalmente, ele é atribuído a um trauma severo e repetitivo na infância, seja sexual, físico ou emocional. Em uma dessas situações se encaixa Kevin (James McAvoy, a versão jovem do Professor Xavier dos X-Men). Em tratamento com a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley, de Fim dos Tempos, 2008), o sujeito apresenta 23 personalidades distintas já mapeadas, e elas se revezam.

Como se dá a troca entre as personalidades, ou quem fica “à luz”, como é dito, não fica claro. A questão é que a cada momento alguma delas é a dominante, e elas variam tanto quanto uma plateia de um espetáculo. Há uma criança, um acadêmico, uma mulher má, outra mais jovem, um estilista etc. Um dos mais frequentes é um homem forte, cheio de manias, que dá início à história sequestrando três garotas.

Para cada um desses personagens, McAvoy cria trejeitos específicos, envolvendo o andar, a postura, a expressão, o vocabulário, o vestuário. É um trabalho meticuloso, que geralmente denuncia logo quem está “à luz”. É fácil saber qual dos 23 está falando. Ele troca de roupa e de cara rapidamente e nos deixa exaustos, pensando na complicação que seria ter 23 pessoas morando dentro de si.

Com os fracassos que veio acumulando, Shyamalan passou a trabalhar com orçamentos mais enxutos, ficando aqui na casa dos nove milhões. Os cenários de Fragmentado são bem simples, concentrando a força do roteiro em seu elenco. Além de McAvoy, outra potência é Anya Taylor-Joy, a descoberta do grande destaque de 2015, A Bruxa (The Witch). A garota é bastante expressiva e parece guardar muita experiência, tornando o duelo entre os dois algo bonito de se ver.

Após ganhar notoriedade com o ótimo O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), o diretor assinou aquele que deve ser seu melhor filme: Corpo Fechado, o triste título nacional para Unbreakable (2000, que poderia ter sido Inquebrável). Em 2006, após outros dois acertos (Sinais e A Vila), Shyamalan perdeu a mão totalmente com o descabido A Dama na Água (Lady in the Water, 2006) e, daí, foi só descendo o barranco.

A Visita (The Visit, 2015), trabalho mais recente do cineasta, tem seus exageros e bobagens, mas não chega a ser ruim, indicando que algo de bom pudesse vir adiante. Esse algo é Fragmentado, que não deixa de ter suas loucuras “shyamalanianas”, mas segue uma linha coerente e as máximas de seu próprio universo. Para histórias marcadas pelo absurdo, é importante seguir as regras estipuladas. Com os mais de 250 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, fica fácil prever que vem mais Shyamalan por aí. Resta saber o que esperar.

O diretor não deixou de fazer a sua tradicional ponta

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A turma de Trainspotting volta para a sequência

por Marcelo Seabra

Vinte anos depois, reencontramos Rent-boy, Sick Boy, Spud e Begbie. Todos perto dos 50, mas não exatamente respeitáveis. Trainspotting 2 (2017) nos leva de volta àquele universo com todos os elementos que fizeram o sucesso do primeiro filme, costurados por uma novidade: a nostalgia. O filme é válido para todos os públicos, mas quem tem idade suficiente para ter visto o original na época em que foi lançado vai ter ainda mais simpatia por ele.

Novamente baseado em um livro de Irvine Welsh, com roteiro de John Hodges e direção de Danny Boyle, T2 traz Mark Renton (Ewan McGregor) de volta a Edimburgo duas décadas após ele roubar seus amigos e fugir. Sick Boy (Jonny Lee Miller), que agora atende por Simon, vive de pequenos golpes numa estranha relação com a jovem namorada (a búlgara Anjela Nedyalkova); Spud (Ewen Bremner) continua na vida arriscada de viciado, pegando pequenos trabalhos para poder comprar drogas; e Frank “Franco” Begbie (Robert Carlyle) ainda amarga alguns anos na cadeia. Ao chegar na cidade, Renton procura sua família e seus antigos amigos, e descobrimos que caminhos a vida dele tomou. Até Kelly McDonald, que teve sua estreia no Cinema em 96, como a colegial Diane, aparece para dar um alô.

Como Trainspotting tomou uma aura de cult, sempre se falou em uma possível continuação. Aumentando o barulho, Welsh lançou Pornô em 2002. O livro foi utilizado para esse novo roteiro, apesar de não ser uma adaptação fiel. Mas havia outro problema: depois de três parcerias, Boyle convidou outro ator (no caso, Leonardo Di Caprio) para seu novo projeto (A Praia, 2000) e McGregor se sentiu traído, ou algo assim. Foi preciso uma década e meia para que eles se reaproximassem (ao lado) e fizessem a alegria dos fãs, que aguardavam por uma nova aventura dessa turma.

A nostalgia está presente em T2 em várias esferas. Os personagens se lembram daqueles dias nos anos 90 com muito carinho – o que nos proporciona muitos flashbacks. Ver o presente entrelaçado com o passado já reforça bem essa sensação. Ter os atores com menos cabelo e mais rugas, provavelmente sem se verem há muito tempo, também nos leva nessa direção. E até o público deve se pegar pensando nesses últimos vinte anos, no que aconteceu, no que fizeram de suas vidas. O momento do lançamento de Trainspotting foi muito acertado, capturando o espírito de uma época. E qual seria o espírito de agora? O que a sequência deveria mostrar, ou suscitar em seu público?

Apesar de ter assumido alguns projetos mais convencionais nos últimos anos, Danny Boyle mostra que continua afiado na arte de entregar um filme divertido, com uma linguagem moderna, montagem ágil, trilha sonora bem adequada e até elementos visuais que ajudam a contar a história. Lust for Life, música de Iggy Pop e David Bowie, continua tendo um papel importante. Música principal do primeiro filme, ela acaba funcionando como um tema e é utilizada aqui de forma muito inteligente, mais uma vez remetendo à ideia de nostalgia, representando os bons tempos que se foram. Se Boyle mantiver esse padrão de qualidade, estes bons tempos estarão sempre por aí.

O longa original fez um sucesso inesperado em 1996

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