Franquia Piratas do Caribe se arrasta para mais um

por Marcelo Seabra

Uma boa arrecadação nas bilheterias nunca prova nada, já que qualidade e dinheiro nem sempre se encontram. Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales, 2017) é um atestado disso, uma aventura insossa que ocupa atualmente o primeiro lugar nacional e que já leva mais de 365 milhões de dólares em caixa pelo mundo. Mesmo sendo cansativo e desnecessário, o longa garante a produção do próximo episódio.

Em sua quinta aventura, a franquia mostra claros sinais de cansaço. A grande atração, desde a primeira, é a caracterização de pirata de Johnny Depp, algo como um rockstar dos trópicos que não valia nada. Sempre tentando levar vantagem e passar os outros para trás, Jack Sparrow acaba tendo que confrontar os muitos inimigos que acumulou pela vida, e eles vão se enfileirando a cada filme. Agora, é a vez do Capitão Salazar, um espanhol malvado que navega pelos mares num navio fantasma, liderando uma equipe igualmente amaldiçoada.

Com Javier Bardem (o Silva de Operação Skyfall, 2012 – acima) no papel, Salazar desperta interesse, mantendo a tradição da série de sempre contar com bons atores como coadjuvantes (como Bill Nighy e Chow Yun-Fat). O que mais chama a atenção no filme é o interessante efeito nos cabelos do vilão, que se mexe como se estivesse dentro da água. O que é muito pouco para manter a graça por mais de duas horas. E Depp, depois de voltar tantas vezes a Sparrow, o interpreta como um bêbado infantilizado que lembra Mr. Magoo, aquele velhinho cego que se metia em confusões desavisadamente. Até o grande Geoffrey Rush, o Capitão Barbossa, está fora do tom, exagerado até!

Outras duas adições neste novo Piratas são Brenton Thwaites (de Deuses do Egito, 2016) e Kaya Scodelario (da franquia Maze Runner), uma dupla previsível que se une para encontrar um certo Tridente de Posseidon. O rapaz, Henry, é filho do nosso velho conhecido Will Turner (Orlando Bloom) e quer livrar o pai de uma maldição. E Carina, fugindo de uma condenação à morte por ser considerada bruxa, entra na missão de Henry por saber encontrar o tal tridente, que acabaria com os feitiços dos mares.

Os elementos mágicos da trama vão aparecendo à medida em que são necessários, o que transforma o filme em uma bagunça de conveniência. As regras são escritas enquanto a ação se desenrola, o que torna tudo uma mesmice. Fica difícil até achar posição na cadeira. Os noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg (de Expedição Kon Tiki, 2012) disseram se inspirar no primeiro filme, A Maldição do Pérola Negra (2003), e contaram com uma história de Terry Rossio, da equipe original. Mas ela foi descartada e o experiente Jeff Nathanson (de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, 2008), novato nesse universo, e o próprio Depp reescreveram tudo, e não conseguiram dar frescor ao material. Mesmo assim, Rønning, Sandberg e Nathanson já estão contratados para Piratas 6.

A carreira de Depp precisa de gás urgentemente

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DC finalmente acerta a mão com a Mulher-Maravilha

por Rodrigo “Piolho” Monteiro e Marcelo Seabra

Finalmente, depois de três fracassos consecutivos, a DC ganha um novo fôlego na construção de seu universo cinematográfico. Curiosamente, com aquela que historicamente é considerada a personagem mais fraca – em termos comerciais – da chamada Trindade da DC. Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017), que chega agora às telas brasileiras, é um filme que supera as expectativas e mostra que, apesar da resistência inicial de muitos, Gal Gadot é a melhor coisa surgida na WB desde que a produtora resolveu seguir os passos da Marvel e transferir seu universo dos quadrinhos para a tela grande.

Não era muito difícil fazer melhor que os filmes anteriores da DC. O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), Batman vs Superman (2016) e Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016) foram um desastre em termos de crítica – principalmente o terceiro. O boca a boca não teria ajudado em nada se já não se tratasse de personagens consagrados, em filmes recheados de celebridades. As bilheterias garantiram a continuidade do Universo DC nos cinemas, e hoje temos que comemorar essa sobrevida. E, além de toda a ação e efeitos visuais fantásticos, é a primeira vez que temos o amor e a esperança como presença forte, uma mudança muito feliz. Ao invés de um maníaco desiludido vestido de morcego ou de um alienígena com uma eterna sensação de não pertencimento, temos uma guerreira forte e otimista.

Há diversos acertos em Mulher-Maravilha e o primeiro deles está no fato de a essência da personagem ter sido respeitada – não seguindo a tendência sombria de Christopher Nolan. Como nos quadrinhos, a Diana do filme é a princesa da ilha de Themyscira (ou Temisciria, na tradução no cinema), filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen, de 3 Dias Para Matar, 2014), que a moldou do barro e rogou que o deus supremo Zeus a desse vida. Pedido concedido, a bela Diana foi criada na ilha, um pequeno arquipélago escondido do mundo graças à magia de Zeus, onde apenas mulheres habitam. Assim como na criação de William Moulton Marston, ela é curiosa, ética, apaixonante e destemida.

Vindo de uma longa raça de guerreiras, Diana desde criança queria se tornar uma e, apesar do incentivo de Antíope (a ótima Robin Wright, de House of Cards), seu desejo seria repetidamente refreado por sua mãe. Na adolescência da princesa, Hipólita finalmente deixa que a filha seja treinada para ser uma guerreira Amazona. Ela estaria pronta caso, um dia, elas precisassem enfrentar a ameaça de Ares, o Deus da Guerra e filho de Zeus que foi banido após se rebelar contra a humanidade.

Diana segue treinando para um conflito que parece improvável até que um outro tipo de guerra chega às margens da Ilha de Themyscira. Com o avião avariado, o Capitão Steve Trevor (Chris Pine, o Capitão Kirk da trilogia Star Trek – acima) rompe o campo de força místico que protege a ilha e cai em sua costa. Junto com ele, vem a guerra: barcos alemães cujos soldados vão matar sem hesitação todas aquelas que aparecerem pela frente. Steve é um espião e está tentando chegar a Londres com informações que podem mudar o rumo do conflito. Estamos perto de 1918 e a Primeira Guerra Mundial não parece dar sinais de chegar a um final tão cedo, principalmente se depender da vontade do General Erich Ludendorff (Danny Huston, de Hitchcoch, 2013) e da Dra. Isabel Maru (Elena Anaya, de A Pele Que Habito, 2011), uma química que está a ponto de desenvolver uma arma que pode garantir a vitória alemã.

Ao tomar consciência do que acontece lá fora, Diana resolve que é hora de deixar seu isolamento e partir para o mundo dos homens, com o intuito de encontrar aquele que, em sua visão ingênua das coisas, é o responsável pela guerra: Ares. Ela acredita que, matando Ares, a guerra acabaria e a paz reinaria no mundo. Apesar de suas crenças e de ter crescido em certo isolamento, Diana não é boba e logo vai entender como esse mundo funciona. E a reconstituição da época é excepcional, o que facilita para o público comprar a ideia.

Um dos grandes acertos de Mulher-Maravilha é justamente o fato de sua história ter conseguido misturar elementos místicos com outros bastante reais de maneira bem orgânica. É bem interessante ver como Diana reage à guerra de verdade, bem diferente daquela presente em seus sonhos juvenis. É interessante a reação da personagem quando ela sai de sua ilha paradisíaca para a feia Londres da guerra, um lugar frio, nublado e parcialmente destruído. Outro acerto foi a história se passar durante um conflito mundial, de forma que foi possível mostrar não apenas o lado guerreiro, mas também o heroico de Diana, da pessoa que se preocupa não só em vencer o inimigo, mas também em poupar os inocentes do sofrimento, algo muito presente na Mulher-Maravilha dos quadrinhos. Mais um ponto para Gadot, que já tinha convencido como Diana em Batman Vs Superman e se reafirma aqui, passando com segurança toda a ternura e fúria presentes na personalidade de Diana Prince.

Ponto também para a diretora Patty Jenkins (de Monster: Desejo Assassino, 2003) e para o roteirista Allan Heinberg (de séries como Grey’s Anatomy e Scandals), que trazem a bem-vinda visão de uma mulher e de um profissional acostumado a escrever sob um viés feminino. A história foi concebida por ele, Jason Fuchs (de Peter Pan, 2015) e Zack Snyder, um dos produtores do filme. Podemos ver a influência de Snyder aqui e ali, especialmente nas cenas de lutas, onde há um certo abuso no uso da câmera lenta. Fora isso, Jenkins parece ter tido bastante liberdade para trabalhar. Do contrário, o sol não apareceria tanto quanto aparece. Também podemos destacar o fato de Jenkins ter tido a oportunidade de lançar algumas mensagens de cunho feminista, reforçando a importância da mulher para qualquer universo. Longe de ser um manifesto, Mulher-Maravilha é um filme cuja única mensagem política é que a guerra é um inferno e o ser humano não é tão bom quanto deveria ser.

Mulher-Maravilha tem muitos paralelos com Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), não só pelo fato de ambas as histórias se passarem durante um conflito mundial. Isso, no entanto, não traz qualquer demérito ao filme. Muito pelo contrário, tendo em vista a importância do primeiro longa do Capitão para a construção do Universo Marvel no cinema. Ele crava o primeiro acerto da DC no cinema desde a trilogia de Batman de Nolan. O problema é que o próximo na lista é o longa da Liga da Justiça, mais um dirigido por Zack Snyder. O que faz as nossas esperanças afundarem um pouco.

Com alterações pontuais, o figurino dos quadrinhos foi mantido

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Netflix vai à guerra com duas produções

por Marcelo Seabra

Em meio à polêmica que surgiu no Festival de Cannes, sobre filmes não exibidos em um cinema concorrerem a prêmios (assista aqui à problematização com a Larissa Padron), a Netflix segue firme distribuindo e produzindo, e a qualidade não deixa nada a dever para produções de outros estúdios. Com intervalo de pouco mais de um mês, dois longas chegaram ao serviço dividindo o tema: episódios próximos de reais em guerras recentes.

Desde 21 de abril, o público pode conferir o novo trabalho de Fernando Coimbra, diretor do ótimo O Lobo Atrás da Porta (2013). Ao contrário desse outro projeto, Castelo de Areia (Sand Castle, 2017) não é algo pessoal, Coimbra entrou com a produção andando, substituindo um colega que saiu. O roteiro, de Chris Roessner, é baseado nas experiências do próprio roteirista como atirador no Iraque. Ele diz ter tido a ideia de escrever a respeito após assistir a Platoon (1986), longa passado na guerra do Vietnã protagonizado coincidentemente por um Chris (Charlie Sheen).

Castelo de Areia não é um filme de grandes emoções, ou sobre um episódio especialmente relevante. É mais sobre o dia a dia dos soldados, sobre a banalidade da guerra e a falta de sentido em norte-americanos irem em massa para outro país visando salvar a população deles mesmos. Até que ponto essa invasão é justificável? Essa é uma questão que o mundo todo se fez. E os locais ressaltando o tempo todo que queriam que os americanos fossem embora, deixando-os resolverem seus próprios conflitos.

O protagonista criado por Roessner, que funciona como um alter-ego, é Matt Ocre (Nicholas Hoult, o Fera dos X-Men – acima), um jovem que se alista no exército para juntar dinheiro para a faculdade e é recrutado para o Iraque. Ele até tenta se safar, mas não consegue e logo se vê naquele calor escaldante, tendo que lidar com ataques terroristas e com a população, gente de bem que passa por apertos devido à situação de guerra. São poucos os que se metem em tiroteios e bombardeios, mas todos pagam por isso. Em meio a uma ação, o exército ainda faz o favor de interromper o fornecimento de água da cidade, o que obriga os soldados a trabalharem duro para restabelecê-lo.

Com um bom elenco (destaque para Logan Marshall-Green e Henry Cavill) e uma ótima fotografia (de Ben Richardson, de A Culpa É das Estrelas, 2014), Coimbra constrói um filme de pouca tensão, mas de um desenvolvimento de personagens bem adequado. As mudanças pelas quais Ocre passa são muito interessantes e parecem retratar bem a realidade – até onde podemos imaginar. É algo como Short Cuts (1993) ou mesmo Paterson (2016): o que importa não é a explosão ou o efeito especial, mas o que se passa naquela cabeça e as relações entre os personagens.

Outro a chegar na Netflix, este em 26 de maio, é War Machine (2017) – e não é da Marvel, não confundir com o colega do Homem de Ferro. Com roteiro e direção de David Michôd (de Reino Animal, 2010), o longa nasceu de um premiado artigo da revista Rolling Stone, de 2010, que acabou virando um livro dois anos depois. Ambos são de autoria do jornalista Michael Hastings, que teve a oportunidade de acompanhar a equipe do General Stanley A. McChrystal durante uma viagem pela Europa enquanto ele era comandante das forças militares no Afeganistão. Michôd achou melhor abandonar o nome real do general para evitar possíveis problemas legais, além de dar liberdade para criar ou alterar situações.

No papel principal, Brad Pitt (de Aliados, 2016) é o General Glen McMahon, um sujeito muito otimista e, ao mesmo tempo, bem limitado intelectualmente. A sua visão simplista de mundo, do tipo “se quisermos, vamos conseguir”, faz com que ele assuma uma missão impossível e seja alvo de críticas e piadas. Ele foi o sujeito encarregado pela administração Obama para “resolver” a situação no Afeganistão, país ocupado pelos americanos há oito anos que não demonstrava sinais de melhora.

Desde o início, a narração de Sean Cullen (a versão fictícia de Hastings, vivida por Scoot McNairy, de Batman vs Superman, 2016) deixa claro a forma de agir das autoridades políticas: ao esbarrar em uma situação impossível de ser resolvida, eles demitem o responsável e colocam outra pessoa no lugar. McMahon, recebendo a bomba no colo, reúne seus homens de confiança e ruma ao olho do furacão. Qualquer soldado raso é capaz de ver o problema que os Estados Unidos criaram, mas o general segue confiante de que vai entregar uma vitória e receber, como agradecimento, desfiles nas ruas de seu país.

Tecnicamente impecável, a produção derrapa por não definir um tom. No início do projeto, seria um drama sério, mas acabou virando algo como uma paródia, ou fábula. E Pitt assume uma forma de falar e de mexer a boca que uma pessoa normal só faria se estivesse imitando e ridicularizando alguém. Algo bem diferente, por exemplo, que o amigo dele, George Clooney, faz em Os Homens Que Encaravam Cabras (2009): uma interpretação séria em uma farsa divertida na qual todos parecem se levar a sério.

Pitt já se mostrou hábil em criar figuras patéticas, como em Bastardos Inglórios (2009) e Queime Depois de Ler (2008), e teve muito sucesso com elas. Mas, aqui, esse tipo não se encaixa, e fica um tanto estranho ter esse sujeito responsável por tanto. Isso, além de não ser crível. Apesar desse erro de cálculo de Pitt, os demais nomes do elenco estão muito seguros em seus papéis – principalmente Anthony Michael Hall (de Foxcatcher, 2014), que faz um general explosivo ainda menos brilhante que McMahon. Há outros nomes bem interessantes, como Ben Kingsley, Alan Ruck, Griffin Dunne, Topher Grace, Will Poulter e Emory Cohen, além de duas pontas ótimas.

Em meio a algumas bobagens simpáticas (como Mindhorn, 2016) e outras que são só bobagens (Adam Sandler…), a Netflix tem trazido e produzido obras de grande valor, o que aumenta a discussão que ficou acalorada em Cannes. Alguns têm chamado a atenção para o fato de que filmes sem um apelo claro, como uma celebridade no elenco, acabam soterrados por diversos outros, o que complicaria as chances deles de serem apreciados por um público maior. As perguntas são muitas, mas o que é inegável é que a Netflix tem colocado cada vez mais produções dentro das casas, o que resolve o problema de muita gente de acesso aos cinemas. E na língua que você escolher.

Este é o General Stanley McChrystal, que se tornou Glen McMahon

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Comeback marca a despedida de Nelson Xavier

por Marcelo Seabra

Um bar tipicamente brasileiro. Algumas pessoas jogando sinuca, outras sentadas, bebendo. Um clássico do cancioneiro brega no auto-falante. Ao fundo, um homem idoso, de semblante pacífico e cansado, parece dormir. Lá fora, uma rua poeirenta e pouco movimento. Cenário perfeito para um faroeste tupiniquim, que chega às telonas essa semana e atende por Comeback (2016).

O gênero é pouco explorado pelo nosso Cinema e foi o escolhido pelo diretor e roteirista Érico Rassi para marcar sua estreia em longas. E, infelizmente, a obra será lembrada por outra razão: é a despedida de Nelson Xavier, grande ator que travava uma luta contra um câncer. Muito querido por sua atuação como outro Xavier, o Chico (como em As Mães de Chico Xavier, 2011), entre vários outros papéis, Nelson traz as características necessárias para Amador: embora pacato, é capaz de uma explosão.

Em Anápolis, interior de Goiás (e terra de Rassi), Amador é um matador aposentado que vive de entregar máquinas de jogos eletrônicos em bares. Seu empregador, Tio (Gê Martu – abaixo), é o gângster poderoso da região e controla o crime, que já teve índices altíssimos. Amador, que já vive de nostalgia, recebe a visita do neto de seu amigo Davi e o jovem acaba fazendo-o voltar ainda mais aos velhos tempos. Ele quer aprender o ofício com o veterano.

Enquanto roda com seu aprendiz, Amador percebe que ninguém o respeita mais. A memória de seus feitos sangrentos não causa mais espanto nos habitantes. A chacina que causou mal é citada na mídia e o restaurante que foi o palco já é bem frequentado novamente. A relação com o novato faz com que o veterano ensaie um “comeback”, uma volta, na gíria local. Isso significaria novas mortes e, quem sabe, mais glória para ele.

Num clima de fábula sombria, o diretor e roteirista trata de questões importantes, como solidão, velhice e reconhecimento, mas de uma forma bem inusitada. É preciso ressaltar: o protagonista é um assassino de aluguel aposentado, responsável por diversos assassinatos devidamente documentados num álbum de recortes. Como se não bastasse o clima insólito do filme, há diálogos que conseguem ser tensos e engraçados ao mesmo tempo, mostrando o que à primeira vista pode ser falta de compreensão, mas se mostra prática na arte de levar vantagem.

Davi (Everaldo Pontes – ao lado), como Nelson, luta contra um câncer e não pode nem pensar em fumar. Mas quem liga para recomendações médicas tendo chegado tão longe? Seria melhor viver mais tempo sendo privado do que gosta ou reduzir seus momentos respirando para aproveitá-los com satisfação? E a tarefa do amigo é apoiar o jejum de nicotina ou fornecer cigarros? Outra questão que aparece no longa, que pode fazer o público refletir.

As músicas ouvidas em Comeback são interessantes por casarem bem com o cenário. A trilha sonora original, também muito adequada, é dos irmãos Gustavo e Guilherme Garbato (de O Silêncio do Céu, 2016), sócios na Casa da Sogra Soluções Sonoras. A fotografia, de André Carvalheira (de O Último Drive-in, 2015), aproveita bem as ruas da periferia da cidade e mostra a vida daquelas pessoas com realidade. Se elas de fato falam o termo “comeback”, ou se ele foi usado no título apenas para homenagear um gênero cinematográfico genuinamente norte-americano, não sabemos. Mas, se o filme peca, é por ser mais curto do que gostaríamos.

Xavier é o trunfo do filme

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Plano Real chega ao Cinema

por Marcelo Seabra

Quem tem menos de 25 anos não viveu o período da implantação do Plano Real e muitos outros não devem se lembrar do que houve. Chega essa semana aos cinemas Real – O Plano Por Trás da História (2017), longa que revisita esse momento da história brasileira. Com um tom que quer parecer descolado, ele mostra como estava a conjuntura política e econômica da época e acompanha o desenrolar dos fatos. Mas seu objeto de estudo é mais o economista Gustavo Franco que qualquer outra coisa. E a pretensão do projeto de ser mais do que é fica patente.

Logo no início, há uma conversa entre Franco (vivido por Emílio Orciollo Netto, de E Aí…Comeu?, 2012) e um colega de Harvard (Klebber Toledo) que deixa claro para qual lado pendem as ideias de cada um. Ele é acusado de neoliberal e desumano, enquanto o amigo é taxado de algo hoje conhecido como “esquerda caviar”. Por isso mesmo, essa conversa está mais atual do que nunca, já que as pessoas desfazem amizades e se afastam da família por não aturarem “coxinhas” ou “mortadelas”. Orciollo Netto, desde o início, mostra que vai depender de alguns maneirismos repetitivos para compor o personagem, como ajeitar os óculos e colocar dois dedos na bochecha.

Alguns nomes muito falados nos jornais da época, como Pedro Malan, Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Winston Fritsch, ganham novas caras. Clóvis Carvalho, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, tomou a frente das reuniões e era o gestor da equipe. FHC, tido como pai do Plano Real, só mostrava as caras para pedir resultados e ouvir as conclusões. Se o Real teve um pai, o filme insiste que se trata de Gustavo Franco. Em entrevistas, Itamar atribuiu o sucesso do plano aos vários ministros da Fazenda que teve, mas só vemos Fernando Henrique e Rubens Ricupero (Ricardo Kosovski), que entrou na vaga quando FHC saiu para se candidatar à presidência.

Segundo divulgou o site UOL, o produtor Ricardo Fadel Rihan afirmou se tratar de um filme apartidário. No entanto, sua fonte, o livro 3.000 Dias no Bunker – Um Plano na Cabeça e um País na Mão, é de Guilherme Fiúza (mesmo de Meu Nome Não É Johnny, também adaptado), articulista notório por seus ataques à esquerda. O elenco, que inclui atores conhecidos na telinha, tem posições partidárias diferentes, o que reforça a fala de Rihan. No filme, é possível perceber momentos em que se evita defender um lado, o discurso fica em cima do muro. Franco, por exemplo, é mostrado como arrogante e egocêntrico. Mas sua genialidade parece desculpar seus excessos, e aí sim a obra começa a pender para um lado.

Se percebemos o deputado Serra (Arthur Kohl) como uma figura não muito interessada em resolver o problema do Brasil, focado apenas nas eleições, FHC já aparece como um senhor bonzinho que visa o bem de todos. Não é o interesse aqui entrar em possíveis maracutaias da era FHC – o Ministro das Comunicações Serjão Motta, por exemplo, passa rapidamente na tela, e ele estaria envolvido em fraudes nas vendas de teles e na chamada “compra da reeleição”. Mas todos ficam muito corretos na tela, o que demonstra claramente uma simpatia com a direita. Itamar é um galinho de briga ligeiramente burro, fácil de ser zombado. E Franco, que ridiculariza o Partido dos Trabalhadores e seus adeptos, parece falar pelos realizadores.

Desde o trailer de Real, as referências a Quentin Tarantino já eram óbvias. Não satisfeito, o diretor Rodrigo Bittencourt, que diz em entrevistas querer valorizar o Cinema nacional, ainda cita o colega ao nomear faixas de sua autoria para a trilha sonora, buscando com todas as forças emular o estilo do norte-americano. Há ainda uma chamada Nirvana-style (ou algo assim), trazendo um pouco do grunge que tocava no rádio na época. Tudo isso para, a exemplo de A Grande Aposta (The Big Short, 2016), tornar palatável para o público um assunto pesado. O que é engraçado se pensarmos que, sempre que busca mostrar seus personagens pensando e tentando chegar a uma saída, eles são vistos escrevendo fórmulas matemáticas ininteligíveis.

Essa é apenas uma das cenas que querem ser grandiosas

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Dexter é pérola disponível na Netflix

por Marcelo Seabra

“Esta noite é a noite”. Assim começa uma das melhores séries que a TV já produziu. Exibida no canal Showtime e disponível na íntegra na Netflix, Dexter (2006-2013) durou oito temporadas e nos apresentou a um personagem fascinante: um serial killer carismático que canalizava sua necessidade de matar para a escória de Miami. Por incrível que pareça, um sujeito perturbado como esse consegue uma identificação com o público, que se vê torcendo para que ele não seja pego.

O segredo da simpatia de Dexter Morgan é a sua eterna inadequação. Por mais que aprenda a simular as emoções humanas, que não tem, ele está sempre deslocado, sem saber exatamente como reagir quando o assunto é relação interpessoal. Se é complicado concordar com as ações dele, fica fácil se ver na forma como ele se sente – guardadas as devidas proporções. Além de saber que o que faz é errado, Dexter não consegue ter empatia, amor ou qualquer coisa que ultrapasse o coleguismo. Ele vê a equipe do trabalho como competente, mas não se abalará nada caso alguém morra ou se fira. As cenas em que seu pai o ensina a sorrir para fotos chegam a ser comoventes, representado todos os jovens que se sentem inadequados.

Criado pelo escritor Jeff Lindsay, o anti-herói teve oito livros lançados, e o primeiro serviu como base para a série. A partir da segunda temporada, os caminhos foram diferentes, o que é ainda mais atrativo para os fãs. Ler os livros e assistir à série são duas experiências distintas, uma não entrega a outra. É fato que ambas perdem força com o passar dos anos, mas têm começos brilhantes que valem a jornada. Lindsay ainda lançou uma revista em quadrinhos com Dexter, pela Marvel Comics. Foram dois arcos limitados, em 2013 e 2014.

Dexter (Michael C. Hall) é um técnico da polícia que examina respingos de sangue em cenas de crimes, ajudando a elucidar os casos. E ele tem uma vantagem sobre os demais: sua cabeça funciona como a dos assassinos que investiga, facilitando a ele chegar em respostas. A essa espécie de sexto sentido, ele dá o nome de “passageiro sombrio”, que é quase um ser que habita dentro dele, levando-o a matar, ajudando-o a limpar seus próprios crimes e a resolver outros.

A série, criada por James Manos Jr. (de Os Sopranos), já começa mostrando Dexter como um assassino frio e calculista como dificilmente houve outro. Depois, descobrimos se tratar de um trabalhador responsável, que busca ao máximo ter uma boa relação com a irmã, com a namorada e com os enteados. Em momento algum há uma glamourização da psicopatia, mas uma humanização do personagem. Adotado, ele foi criado por um casal amoroso, e seu pai logo viu que havia algo diferente nele.

Harry Morgan (James Remar – abaixo), um competente policial da delegacia de homicídios de Miami, percebeu que seu filho tinha prazer em matar animais, e era questão de tempo até que isso crescesse, chegando a pessoas. Para proteger o filho, ele criou um código e o embutiu na cabeça do menino: Dexter teria que buscar provas da culpa de suas vítimas antes de matá-las. Assim, era como se ele estivesse ajudando a polícia, fazendo justiça com as próprias mãos.

É interessante reparar como a série (e os livros) lança informações e, de tempos em tempos, as revisita, clareando o que não havia sido exposto em sua totalidade. Não há pressa em apresentar os diversos coadjuvantes, a maioria muito rica e igualmente interessante. Isso aguça a curiosidade e faz com que nos importemos com eles, além de aumentar a carga de tensão, já que o perigo nos episódios é real e todos podem se ferir em algum momento. As quatro primeiras temporadas são especialmente emocionantes, quando a série atinge seu ápice.

Para um ator, o papel de Dexter parece ser perfeito. Ele permite várias possibilidades, indo do mau ao bonzinho, do charmoso ao ameaçador. E coube a Michael C. Hall defendê-lo, o que ele faz magistralmente. Egresso do teatro, com início fazendo Shakespeare e passagens pela Broadway, ele já havia conquistado certa fama na série Six Feet Under (ou A Sete Palmos), pela qual foi até premiado. Como o simpático assassino, levou mais alguns prêmios e indicações, tendo voltado ao teatro no final da série, além de fazer filmes, participações esporádicas em episódios e dublagens em animações.

Em 2007, após um divórcio, C. Hall começou a namorar sua colega Jennifer Carpenter (acima), que vive a irmã de Dexter, a desbocada policial Debra. Os dois acabaram se casando em 2008, mas ficaram juntos apenas dois anos, permanecendo amigos. A atriz continuou na série normalmente, como todo o elenco. Nesses oito anos, nenhum papel precisou ser reescalado. Pelo contrário: houve várias participações especiais de atores convidados. O mais interessante, sem dúvida, foi John Lithgow, que apareceu na quarta temporada e ainda levou um Globo de Ouro e um Emmy como coadjuvante.

A música em Dexter é outra característica que chama a atenção. Como Miami tem forte influência cubana, e há muitos diálogos em espanhol (com personagens como Angel Batista e Maria LaGuerta), podemos ouvir várias canções famosas nessa língua, como Conoci La Paz e Perfidia. A trilha original, instrumental, parece trazer o mesmo humor do roteiro, com um quê de ironia que casa muito bem com as cenas. A apresentação, que não aparece no primeiro episódio, se torna indispensável, mostrando o psicopata nas mais corriqueiras ações – com o peso da trilha de Daniel Licht.

A unidade presente em todas as temporadas dá a impressão de um planejamento extenso por trás de Dexter. Mesmo que a atração chegue ao final com menos fôlego e tramas mais rasteiras, não há qualquer desrespeito com o público, que segue torcendo por seu maluco favorito. Há gente muito pior no mundo, é o que Dexter parece se dizer, justificando seu comportamento. Um exemplo é o Assassino do Caminhão de Gelo, o grande mistério da primeira temporada. E o episódio inicial termina com uma proposta irrecusável, para o protagonista e para o espectador: “Vamos brincar?”.

Lithgow foi provavelmente a maior participação na série

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Rei Arthur ganha mais uma versão no Cinema

por Marcelo Seabra

É impressionante o número de obras que recontam as lendas de Arthur Pendragon e seus cavaleiros. E, até por isso, cada nova tentativa toma uma outra liberdade buscando fazer algo novo, inédito. Nessa linha de aberrações, chega aos cinemas Rei Arthur: A Lenda da Espada (King Arthur: Legend of the Sword, 2017), que poderia se chamar Arthur Origens, ou A História Não Contada de Arthur. Ou seja: várias novidades numa história que já é conhecida, deturpando-a até que não consigamos mais reconhecer o protagonista.

Com os relatos de Sir Thomas Malory, do século XV, é possível saber quem realmente foi Arthur e o que ele fez. Mas a história mais conhecida envolve elementos sobrenaturais, como um mago que ajudava a turma e uma espada que só respondia ao dono. Dessa versão, surgiu Excalibur (1981), um novo clássico tido como definitivo quando o assunto é Arthur. Um elenco e equipe ingleses contando a saga do maior rei que a Inglaterra já teve.

Parece que Guy Ritchie e seu parceiro habitual, o produtor e roteirista Lionel Wigram, não ficaram satisfeitos com Excalibur e partiram para uma nova tomada da história. E a ideia é a mesma por trás do Sherlock Holmes da dupla: tornar o personagem mais humano, aproximando-o do povo, e reforçando o aspecto físico, para que não faltem lutas. E os mesmos maneirismos de filmagem: cortes rápidos, câmera bem próxima da ação, dramatização do planejamento da ação e um humor descolado. É impossível não pensar em Holmes durante a sessão, ou mesmo nos longas anteriores de Ritchie, como Rock’n’Rolla (2008).

No papel principal, Charlie Hunnan mais uma vez mostra que é carismático (como em Círculo de Fogo, 2013, ou em Sons of Anarchy), e segura bem a responsabilidade de viver Arthur. Mas o roteiro inventa tanta moda que fica difícil acompanhar a trama com seriedade. Não conhecer os fatos em torno de Arthur e a carreira de Ritchie pode ajudar, já que ao menos o que é mostrado soa inédito e consegue ser divertido. Mas não deixa de ser algo muito inspirado em O Senhor dos Anéis, Game of Thrones e similares, o que o torna genérico e mais pobre.

Pouco se sabe, historicamente, sobre Vortigern, o vilão vivido por Jude Law (também de Sherlock). Mas nada bate com o que vemos na tela, propositalmente exagerado para criar um antagonista à altura. Law tenta trazer um toque shakespeariano, mas cai nas mesmas armadilhas que pegam Hunnan. O restante do elenco, que inclui Djimon Hounsou, Eric Bana, Aidan Gillen, Annabelle Wallis e a espanhola Astrid Bergès-Frisbey, também não foge à regra do roteiro simplista.

Com O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E., 2015), Ritchie conseguiu fazer algo diferente de seu habitual. Se não deixou uma marca, um estilo, ao menos não estragou o resultado. Esse Rei Arthur é muito Sherlock Holmes para ter vida própria, e não tem identidade. É apenas uma fábula sobre um futuro rei que precisa cavar seu caminho em meio a desafios previsíveis e formulaicos.

A Maga (Bergès-Frisbey) ajuda os personagens, e nem sinal de Merlin

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O sucesso Corra chega ao Brasil

por Marcelo Seabra

Depois de receber críticas extremamente favoráveis nos Estados Unidos, Corra (Get Out, 2017) finalmente chega ao Brasil. É a primeira incursão do comediante Jordan Peele na direção de um longa, e ele atacou logo no terror, com um roteiro dele próprio. Os quase 200 milhões de dólares de arrecadação até o momento dizem que a empreitada deu certo. Só não revelam que se trata de uma bobagem sem pé nem cabeça que bebe descaradamente em várias fontes.

Em diversas entrevistas que vem dando, devido ao sucesso da obra, Peele revela alguns livros e filmes que serviram de inspiração. Mas, mesmo que ele omitisse essas homenagens, seria claro percebê-las. Muito inspirado pelo escritor Ira Levin, de O Bebê de Rosemary e principalmente As Esposas de Stepford, ele ainda traz ecos de Halloween (1978), com aquelas casas e ruas de subúrbio escondendo algo terrível. Tudo isso com uma pitada de Adivinhe Quem Vem Para Jantar (Guess Who’s Coming to Dinner, 1967), no qual o sujeito vai conhecer a família da namorada e eles, brancos, não sabem que ele é negro.

Na trama, Chris (Daniel Kaluuya, de Black Mirror) atingiu a marca dos quatro meses de namoro com Rose (Allison Williams, de Girls) e concorda em passar o fim de semana na casa dos pais dela, numa cidadezinha tranquila próxima. O fato de ser negro o deixa apreensivo, já que os tradicionais Armitage não foram informados desse detalhe, mas a moça tem certeza de que isso não será problema. Ele sabe que alguma piadinha pode surgir, e está bem com isso. Chegando lá, eles ainda descobrem que é a data da festa que reúne toda a família.

O clima de desconfiança e temor é bem construído por Peele. Mas a reações e as atitudes de certos personagens são exageradas e beiram o ridículo. E não falta aquela gafe de determinado objeto ser descuidadamente deixado à vista, para que o protagonista veja e fique ainda mais com a pulga atrás da orelha. O grande mistério é revelado de maneira bem didática, passando longe de qualquer suspense, e muito fica não dito. O roteiro parece jogar a responsabilidade da compreensão para o espectador, que tira a conclusão que quiser e, aí sim, poderá comprar a ideia.

Discussões relacionadas a racismo – e a outros tipos de preconceito – são sempre importantes, e é nisso que Peele parece focado. Mas usar um assunto sério como pano de fundo não fará automaticamente com que as pessoas se interessem pelo filme. Ou fará, visto o enorme valor arrecadado e as críticas positivas que Corra vem recebendo. O bom elenco, ainda reforçado por Catherine Keener (de À Procura do Amor, 2013), Bradley Whitford (de CBGB, 2013), Caleb Landry Jones (de Rainha & País, 2014) e Stephen Root (de Selma, 2014), não segura o absurdo do todo, e não contorna seus buracos. E é impressionante que Peele não tenha sido acusado de plágio.

Whitford e Keener são os Armitage

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O Dia do Atentado traz mais heroísmo real

por Marcelo Seabra

Pela terceira vez, o diretor Peter Berg se uniu a Mark Wahlberg para contarem no Cinema algo ocorrido do lado de cá da tela. O Dia do Atentado (Patriots Day, 2016) recria as circunstâncias em torno do ataque terrorista na maratona de Boston de 2013. Com a dose certa de tensão e algumas derrapadas no ufanismo, o longa situa e informa bem o espectador, enfileirando os fatos com um elenco afinado. Apesar da baixa arrecadação nas bilheterias norte-americanas, não têm faltado boas críticas.

Assim como em O Grande Heroi (Lone Survivor, 2013) e em Horizonte Profundo (Deepwater Horizon, 2016), Wahlberg é o protagonista, o homem comum colocado em uma situação extrema que exige atos heroicos. Dessa vez, ele é um sargento encarregado de completar o patrulhamento da tradicional maratona de Boston, evento que todos os anos reúne profissionais e amadores para uma grande volta pela cidade. Tommy Saunders fez alguma coisa errada, como agredir uma autoridade, e está de castigo, passando raiva em situações como esta.

Para choque de todos os presentes, uma bomba explode perto da linha de chegada e fere uma pancada de pessoas, entre atletas e espectadores. Pouco depois, outra bomba é acionada. Entre o medo de outra explosão e a tristeza pelos atingidos, a polícia precisa agir rápido para identificar e prender os responsáveis, e o FBI logo se junta à caçada. O mais interessante é o fato do filme apresentar vários personagens e, gradualmente, indicar qual será o papel deles nesse quadro geral.

Como de costume, Wahlberg atua com uma postura firme, mas não sem demonstrar sentimento frente aos fatos, sendo o sujeito que a situação demanda. Michelle Monaghan (de Deixa Rolar, 2014) não tem muito o que fazer como a esposa de Tommy, assim como Melissa Benoist (a Supergirl), deixando claro que este é um filme de meninos. E o elenco masculino é estrelado, com John Goodman, Kevin Bacon, J.K. Simmons e Jimmy O. Yang. Alguns dos envolvidos na tragédia, retratados no filme, fazem pontas. Ao final, podemos conhecê-los melhor.

Como o ataque ocorreu em 2013, muitos vão se lembrar das circunstâncias, e o filme vai juntando as peças, além de mostrar o que não foi muito noticiado. Ao contrário de um United 93 (2006), que exigiu do diretor e roteirista Paul Greengrass criatividade para preencher os momentos desconhecidos, O Dia do Atentado é todo calcado nos que realmente ocorreu, deixando pouco espaço para suposições. É interessante entender melhor tanto o que se passa na cabeça dos terroristas fanáticos, exceções dentro de um povo numeroso, quanto a pressão que cai sobre os agentes que investigam, que vem de políticos, da mídia e da sociedade.

O ator e comediante Jimmy O. Yang conheceu o verdadeiro Dun Meng (dir.)

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Alien: Covenant traz deuses e monstros

por Roberto Ângelo

Em AI: Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg, acompanhamos a jornada melancólica do robozinho David, interpretado pelo então garoto Haley Joel Osment, que, assim como Pinóquio, busca se tornar “real” para conquistar o amor de sua mãe humana. Agora, imagine uma versão adulta e psicótica de David que, ao invés de buscar o reconhecimento de sua “humanidade” pela via do amor, decide vingar-se dos seus criadores construindo o mais perfeito organismo assassino que o universo já viu. Aí está um resumo da história que Ridley Scott começou a contar com Prometheus (2012) e que ganha sequência em Alien: Covenant (2017).

Quando o diretor britânico decidiu regressar ao universo de Alien (1979), filme que o consagrou, o público reagiu de maneira ambígua. Uma parcela aplaudiu a decisão de mesclar questões existenciais ao “filme de monstro” que, em essência, Alien e suas sequências sempre foram. Contudo, outra parte do público, mais ruidosa, sentiu falta do xenoformo triturador de incautos exploradores espaciais. No filme que chega aos cinemas esta semana, Scott tenta agradar a todos dando continuidade aos temas de Prometheus, mas inserindo generosas doses de horror servidas pelo grotesco monstrengo criado pelo artista plástico suíço H.R. Giger.

Depois da malfadada missão do filme anterior, vimos a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e o androide David (Michael Fassbender) entrando na nave dos Engenheiros e zarpando rumo ao planeta de origem daqueles que, supostamente, criaram a humanidade. Em Alien: Covenant, começamos embarcados em outra nave, que também dá nome ao filme, e que carrega dois mil colonos adormecidos cuja missão é povoar um planeta distante. No meio da jornada, um sinal estranho os desvia da rota original e a tripulação decide investigar a fonte do chamado. Eles encontram um planeta belíssimo que, obviamente, não é bem o paraíso que aparenta ser.

O elenco, bem variado, é uniforme e cumpre bem a tarefa. Mas, do início ao fim, é Fassbender (abaixo) quem comanda o filme. Seu desempenho interpretando o problemático David e, também, uma versão mais serena do autômato, Walter, é brilhante. Ele consegue criar personalidades distintas e muito interessantes para ambos. As cenas que envolvem os dois são as mais legais e as que possuem os diálogos mais ricos e intrigantes. Você deve estar se perguntando: “e o Alien?”. Quando ele aparece, as questões existenciais e filosóficas são postas de lado e a única preocupação dos nossos heróis é fugir o mais rápido possível.

Scott não cumpre inteiramente a promessa de responder aos questionamentos levantados por Prometheus. Resta ao espectador interpretar por conta própria as metáforas e simbolismos visuais que pipocam ao longo da história. Se no filme anterior o nome da nave parecia fazer uma alusão ao titã Prometeu, que roubou o fogo da deusa Héstia e o deu à humanidade, desta vez podemos questionar se Covenant não seria uma referência à Arca da Aliança (Ark of the Covenant, em inglês) que, segundo a Bíblia, guardava as tábuas dos Dez Mandamentos e era usada como veículo de comunicação entre Deus e seu povo… Mistério…

Com um final que deixa claro que a história ainda não acabou, resta saber como Scott irá conectar a narrativa desses filmes ao clássico de 1979, que apresentou ao mundo a heroica Tenente Ripley (Sigourney Weaver) e, também, o inesquecível monstro que atormenta a vida daqueles que se aventuram por mundos desconhecidos.

O xenomorfo de H.R. Giger continua assustador

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