Oscar 2018 – Indicados e Previsões

por Marcelo Seabra

Na noite de domingo, 04 de março, teremos a 90ª cerimônia do Oscar, o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS, no original). Ele acaba sendo mais badalado que outras premiações por trazer concorrentes mais divulgados e costuma ter como resultado catapultar carreiras de filmes e artistas, que ganham mais público e têm seus salários aumentados. E a forma de escolha dos vencedores, ainda que seja um concurso de popularidade, é menos tendenciosa que um Globo de Ouro, por exemplo.

Pelo segundo ano consecutivo, Jimmy Kimmel vai apresentar a festa, que acontece no Teatro Dolby, em Los Angeles. Os filmes com maior número de indicações são A Forma da Água (13), Dunkirk (8) e Três Anúncios Para um Crime (7). Algumas categorias são facilmente previsíveis, como as quatro de atuação, e outras ainda mantêm um certo suspense. Melhor Filme, por exemplo: seria A Forma da Água ou Três Anúncios?

Como faço todos os anos, listo abaixo os indicados, com link para aqueles que têm crítica completa no Pipoqueiro – basta clicar para ler. O número 1 em frente indica o meu palpite para o vencedor e o número 2 indica aquele que eu gostaria que ganhasse. Se os dois coincidirem, terá apenas um X.

Melhor Filme

Me Chame Pelo Seu Nome

O Destino de Uma Nação

2 Dunkirk

Corra!

Lady Bird – É Hora de Voar

Trama Fantasma

The Post – A Guerra Secreta

1 A Forma da Água

Três Anúncios Para um Crime

 

Melhor Direção

2 Dunkirk – Christopher Nolan

Corra! – Jordan Peele

Lady Bird – É Hora de Voar – Greta Gerwig

Trama Fantasma – Paul Thomas Anderson

1 A Forma da Água – Guillermo del Toro

 

Melhor Atriz

Sally Hawkins – A Forma da Água

X Frances McDormand – Três Anúncios Para um Crime

Margot Robbie – Eu, Tonya

Saoirse Ronan – Lady Bird – É Hora de Voar

Meryl Streep – The Post – A Guerra Secreta

 

Melhor Ator

Timotheé Chalamet – Me Chame Pelo Seu Nome

Daniel Day-Lewis – Trama Fantasma

Daniel Kaluuya – Corra!

X Gary Oldman – O Destino de Uma Nação

Denzel Washington – Roman J. Israel, Esq.

 

Melhor Atriz Coadjuvante

Mary J. Blige – Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

X Allison Janney – Eu, Tonya

Laurie Metcalf – Lady Bird – É Hora de Voar

Octavia Spencer – A Forma da Água

Lesley Manville – Trama Fantasma

 

Melhor Ator Coadjuvante

Willem Dafoe – Projeto Flórida

Woody Harrelson – Três Anúncios Para um Crime

Richard Jenkins – A Forma da Água

Christopher Plummer – Todo o Dinheiro do Mundo

X Sam Rockwell – Três Anúncios Para um Crime

 

Melhor Roteiro Original

Doentes de Amor

Corra!

Lady Bird – É Hora de Voar

A Forma da Água

X Três Anúncios Para um Crime

 

Melhor Roteiro Adaptado

Artista do Desastre

X Me Chame Pelo Seu Nome

Logan

A Grande Jogada

Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

 

Melhor Filme Estrangeiro

2 Uma Mulher Fantástica (Chile)

The Insult (Líbano)

Sem Amor (Rússia)

1 The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)

On Body and Soul (Hungria)

 

Melhor Canção Original

“Remember Me” – Viva – A Vida é uma Festa – Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez

1 “This is Me” – O Rei do Show – Benj Pasek e Justin Paul

“Mighty River” – Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi – Mary J. Blige, Raphael Saadiq e Taura Stinson

2 “Mystery of Love” – Me Chame Pelo Seu Nome – Sufjan Stevens

“Stand Up for Something” – Marshall – Diane Warren e Lonnie R. Lynn

 

Melhor Fotografia

X Blade Runner 2049 – Roger Deakins

O Destino de Uma Nação – Bruno Delbonnel

Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi – Rachel Morrison

Dunkirk – Hoyte van Hoytema

A Forma da Água – Dan Laustsen

 

Melhor Figurino

A Bela e a Fera

O Destino de Uma Nação

X Trama Fantasma

A Forma da Água

Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha

 

Melhor Maquiagem e Cabelo

X O Destino de Uma Nação

Extraordinário

Victoria e Abdul – o Confidente da Rainha

 

Melhor Mixagem de Som

Em Ritmo de Fuga

Blade Runner 2049

X Dunkirk

A Forma da Água

Star Wars – Os Últimos Jedi

 

Melhor Edição de Som

Em Ritmo de Fuga

Blade Runner 2049

X Dunkirk

A Forma da Água

Star Wars – Os Últimos Jedi

 

Melhores Efeitos Visuais

X Blade Runner 2049

Guardiões da Galáxia Vol.2

Kong – A Ilha da Caveira

Star Wars – Os Últimos Jedi

Planeta dos Macacos – A Guerra

 

Melhor Design de Produção

A Bela e a Fera

X Blade Runner 2049

O Destino de Uma Nação

Dunkirk

A Forma da Água

 

Melhor Montagem

Em Ritmo de Fuga

X Dunkirk

Eu, Tonya

A Forma da Água

Três Anúncios Para um Crime

 

Melhor Trilha Sonora Original

Dunkirk – Hans Zimmer

2 Trama Fantasma – Jonny Greenwood

1 A Forma da Água – Alexandre Desplat

Star Wars – Os Últimos Jedi – John Williams

Três Anúncios Para um Crime – Carter Burwell

 

Melhor Curta-Metragem

X DeKalb Elementary

The Eleven O’Clock

My Nephew Emmett

The Silent Child

Watu Wote/All of Us

 

Melhor Curta em Animação

X Dear Basketball – Glen Keane e Kobe Bryant

Garden Party – Victor Caire e Gabriel Grapperon

Lou – Dave Mullins e Dana Murray

Negative Space – Max Porter e Ru Kuwahata

Revolting Rhymes – Jakob Schuh e Jan Lachauer

 

Melhor Animação

O Poderoso Chefinho

X Viva – A Vida é uma Festa

O Touro Ferdinando

Com Amor, Van Gogh

The Breadwinner

 

Melhor Documentário em Curta-Metragem

Edith+Eddie

Heaven is a Traffic Jam on the 405

X Heroin(e)

Kayayo: The Living Shopping Baskets

Knife Skills

Traffic Stop

 

Melhor Documentário em Longa-Metragem

Abacus: Small Enough to Jail

X Faces Places

Icarus

Last Men in Aleppo

Strong Island

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Listas, Notícia, Premiações | Com a tag , , , , | Deixe um comentário

Day-Lewis e PTA se reúnem para uma Trama Fantasma

por Marcelo Seabra

Um babaca egocêntrico, que se orgulha de seu egoísmo, entra num relacionamento abusivo com uma mulher que o admira demais para perceber a canoa furada em que entrou. Assim pode ser descrito o protagonista de Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017), novo filme de Paul Thomas Anderson que mais uma vez conta com Daniel Day-Lewis à frente do elenco. O ator, único vencedor de três Oscars em sua categoria, disse que esse seria seu último trabalho.

Os trabalhos de Anderson sempre chamam bastante atenção e criam expectativa. Esse acabou indo mais longe devido ao anúncio de Day-Lewis, hoje já aposentado. Ele vive Reynolds Woodcock, um costureiro famoso e requisitado nos anos 50 que recebe encomendas da alta roda e até da realeza. Solteirão convicto, ele aproveita a companhia de mulheres até perder o interesse e dispensá-las, passando logo para a próxima. Com a ajuda da irmã, Cyril (Lesley Manville, da série River), ele comanda um grupo de costureiras encarregadas de produzirem o que ele desenha.

Quando Alma (Vicky Krieps, de O Jovem Karl Marx, 2017) aparece na história, pensamos ser apenas mais uma a passar pela vida de Woodcock. Mas, devagar e com jeito, ela vai ganhando espaço e a afeição do sujeito, que nem por isso deixa de ser estúpido com todos à sua volta – inclusive ela. Aquela velha máxima de “gênios são difíceis” parece se aplicar aqui, e coitado de quem estiver por perto. As funcionárias varam a noite, se necessário, para entregar uma peça, e aguentam todo tipo de estrelismo.

Uma personagem curiosa na trama é Cyril, a irmã que serve de gerente geral da Casa Woodcock. Ao mesmo tempo em que tem carta branca para dizer o que acha e puxar a orelha de Reynolds, ela tem total ciência de quem paga as contas e, por isso, não só faz vista grossa aos abusos do irmão como o acoberta. Ela chega ao cúmulo de ser a mensageira para as pretendentes descartadas. E é interessante perceber como várias mulheres se colocam nessa posição. Ele é um homem bonito, rico, talentoso e que goza de prestígio social, o que o tornaria um bom partido. Mas esconde uma personalidade desprezível.

Tecnicamente, como todo trabalho de PTA, Trama Fantasma é primoroso. Figurino, fotografia, o uso das cores e as atuações são todos impecáveis. Dizer que Day-Lewis está bem no papel é pleonasmo, como acontece com Meryl Streel. Suas colegas, Krieps e Manville, são ótimas, o que torna a experiência de acompanhar um sujeito tão asqueroso menos dolorosa. Outro ponto a se destacar é a trilha de Jonny Greenwood, marcante e equilibrada, na mesma classe do conjunto.

A obra de Anderson costuma entrar no grupo do “ame ou odeie”, e seus defensores são fervorosos. Para quem não gosta, ou não tem sua sensibilidade na mesma sintonia, resta admirar os pontos positivos e passar adiante. Não relevando, mas suportando o ritmo lento, a aparente falta de um propósito ou destino a alcançar e a torpeza dos personagens, todos aparentemente dispostos a trair, abandonar ou sacrificar o próximo.

PTA apresenta seu elenco principal

Publicado em Estréias, Filmes | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Pantera Negra chega fazendo história

por Marcelo Seabra

Uma coisa que poucas adaptações de quadrinhos de super-heróis conseguem é unir boa bilheteria e elogios da crítica. Costuma ser um ou o outro, sendo que os críticos dificilmente se empolgam. Pantera Negra (Black Panther, 2018) atingiu essa proeza, tendo batido a marca dos 700 milhões de dólares de arrecadação e atingindo quase 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. Pode-se dizer que o diretor Ryan Coogler está com a moral em Hollywood, e uma continuação é certa.

Depois dos elogiados Fruitvale Station (2013) e Creed (2015), Coogler recebeu da Marvel a incumbência de levar às telas um herói negro, oportunidade ótima para enfatizar a questão da raça, das origens e da diversidade. Não satisfeito em trabalhar na causa dos negros no Cinema, o diretor ainda valorizou a mulher, mostrando-as como fortes e decisivas na gestão de um país. Personagens como Blade e a Mulher-Maravilha já haviam levado esses pontos às telonas, mas nunca com tanto destaque. E nunca tão bem sucedidos.

T’Challa (Chadwick Boseman) nos foi apresentado em Capitão América: Guerra Civil (2016). Ao contrário dos demais, o sujeito não teve uma história de origem, já entrou no meio da batalha. Isso talvez tenha contribuído, o público pode ter ficado curioso, ou com vontade de mais. O roteiro, escrito por Coogler e Joe Robert Cole, evita voltar no tempo, mas não fica sem um flashback, resolvendo logo essa “dívida” e partindo para o futuro, para o desenvolvimento da história. E somos apresentados à fabulosa Wakanda, terra onde T’Challa é o rei, seguindo os passos de seu saudoso pai.

Com a bela fotografia de Rachel Morrison (também de Fruitvale Station), conhecemos todo o país e a razão de seu sucesso tecnológico: o metal vibranium, que permite aos cientistas locais um desenvolvimento inimaginável – e bem chutado. Uma coisa é ter um escudo do material, que permite segurar todo tipo de munição e pancada. Outra é ter um uniforme feito dele, altamente adaptável e compacto. E descobrimos vários outros usos para ele.

Tendo aceitado isso, partimos para os demais costumes e tradições de Wakanda, que envolvem uma planta alucinógena que confere poderes a quem a consome – que podem ser retirados – e um desafio que permite a qualquer um tentar ser o rei. Um pecado do pai vai levar T’Challa a combater um vilão bem próximo. É aí que entra Michael B. Jordan (em sua terceira parceria com o diretor), uma figura tão interessante e carismática quanto Boseman. Mas esse empate de forças acaba sendo um ponto fraco do filme, já que cai na mesmice, tornando a dinâmica entre eles repetitiva e previsível.

Tirando um problema ou outro, Pantera Negra é uma aventura bem eficiente que desenvolve e aproveita bem seus personagens. As mulheres em Wakanda têm um papel bem importante, o que pode ser uma das causas do sucesso desse povo. Tanto na ciência quanto no exército, elas se sobressaem, não se sujeitando a ser coadjuvante de nenhum homem. A pretendente de T’Challa (Lupita Nyong’o, de Star Wars: Os Últimos Jedi, 2017) segue o caminho que escolheu, buscando ajudar os outros; a chefe da guarda real (Danai Gurira, de The Walking Dead) não é nada submissa ao marido (Daniel Kaluuya, de Corra!, 2017), o que não a impede de amá-lo; e a irmã do rei (Letitia Wright, de Black Mirror) lidera a divisão de tecnologia. Todas críveis, independentes.

O maior mérito do longa ainda é prover para milhões de crianças negras pelo mundo um modelo de integridade e força, como os meninos brancos têm no Super-Homem, Batman e tantos outros heróis. Todos, quando pequenos, tínhamos nossos sonhos e aspirações, e todos merecem ter uma figura na qual se mirar. T’Challa vai voltar em breve, novamente lutando ao lado de Capitão América, Homem de Ferro e companhia na Guerra Infinita. Mas, nessa primeira aventura solo, já fez história.

Jordan é um vilão forte e motivado

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , , , , | 5 Comentários

A vida de Tonya Harding chega aos cinemas

por Marcelo Seabra

Uma história real que chegou aos cinemas vai chocar muita gente. Não é bom adiantar o que houve, já que os fatos não são bem conhecidos – ao menos, não no Brasil e hoje. E a verdade é que há vários bons motivos para conferir Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), cinebiografia da patinadora Tonya Harding. O tom é de humor negro, mas há violência para valer, começando na própria casa da protagonista, onde ela passava o diabo com a mãe.

Tonya Maxene Harding, hoje Price, começou a treinar no gelo aos quatro anos, incentivada pela mãe, LaVona. O problema é que, se a garota fizesse algo errado, xingamentos seriam o mínimo. A mulher tacaria o que estivesse à mão, os castigos físicos eram frequentes. Tonya já disse em entrevistas que abusos de toda natureza eram a sua realidade. E as coisas não melhoraram quando ela se casou. Na esperança de se afastar da mãe, ela foi morar com Jeff Gillooly, e as agressões só mudaram de endereço.

Tendo até deixado a escola para se dedicar ao esporte, Tonya era reconhecida como uma boa atleta, mas dificilmente conseguia destaque nas competições. Talvez, o ranço dos juízes tivesse algo a ver com seus vestidos simples, jeito caipira ou a escolha de rocks sulistas como trilhas de suas apresentações. Finalmente, em 1989, ela conseguiu um título nacional e passou a ser vista como uma possível competidora em eventos de maior porte.

No filme, Tonya é vivida com muito empenho por Margot Robbie (a Arlequina do Esquadrão Suicida). A atriz mostra desenvoltura nos rinques de patinação, o que demonstra muita dedicação. E ela de fato atingiu um nível razoável, fazendo boa parte das cenas. E o trabalho detalhista de maquiagem ajuda bastante a compor a personagem. Mas Harding ficou famosa por inovar e por quebrar tabus, coisas que nem colegas experientes faziam. Por isso, houve o necessário trabalho de duas dublês e a mágica dos computadores resolveu os detalhes. No entanto, em alguns momentos, essa truncagem digital nos tira um pouco do filme, é gritante que algo está errado.

Se no gelo Robbie estava bem, é nas cenas mais intimistas que ela mostra porque tem sido indicada a tantos prêmios. Mesmo assim, a figura mais chamativa de Eu, Tonya, com certeza, é Allisson Janney (de A Garota no Trem, 2016), que sabe bem o limite entre o farsesco, ou até caricato, e o cruel real, que deve ser visto em tantos lares. Cheia de problemas psicológicos, LaVona desconta tudo na filha. Mas, ao mesmo tempo, ela trabalha muito para manter a pequena nas aulas de patinação, naquela dualidade que a vida constantemente provê.

Fechando o trio principal, temos Sebastian Stan (o Soldado Invernal da Marvel) como o marido, Gillooly, responsável por boa parte das desgraças que se abatem sobre a atleta. Ela, inclusive, afirma comicamente, em várias situações, que não é culpada pelas coisas que acontecem a si. De algumas, talvez não seja, e aí entra o sujeito. Uma das escolhas mais burras dele é envolver o amigo Shawn – um trabalho fantástico de Paul Walter Hauser (de Kingdom), que nos deixa pasmos com tamanha imbecilidade. Numa participação menor, Bobby Cannavale (de Vinyl) também merece crédito como um repórter que funciona como narrador.

Em seu projeto mais marcante, o diretor Craig Gillespie (da refilmagem de A Hora do Espanto) mostra que consegue fazer milagre com um orçamento restrito e que continua gostando de passar por um humor mais cínico, mas alternando com passagens dramáticas. Apesar de convencional, o roteiro de Steven Rogers (seria o próprio Capitão América?) consegue reunir os fatos mais importantes e situar o espectador, mesmo com alguns pulos temporais. Acostumado com um tom mais açucarado (como em P.S. Eu Te Amo, 2007), ele apresenta um outro lado, deixando o romantismo para lá.

O diretor e a atriz com a verdadeira Tonya

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Programa do Pipoqueiro #17 – Anos 80 Pt. IV

por Marcelo Seabra

A última edição especial Anos 80 do Programa do Pipoqueiro fecha a década com muita música boa, passando por Dirty Dancing, Os Garotos Perdidos, Roger Rabbit e muito mais! Clique no play abaixo e confira!

Publicado em Filmes, Homevideo, Indicações, Música, Programa do Pipoqueiro | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

De três anúncios sai um dos melhores filmes do ano

por Marcelo Seabra

Responsável pelos ótimos Na Mira do Chefe (In Bruges, 2008) e Sete Psicopatas e Um Shih Tzu (Seven Psychopats, 2012), além de ter levado um Oscar pelo curta Six Shooter (2004), Martin McDonagh se tornou um diretor e roteirista a se acompanhar. E seu novo trabalho foi mais longe em termos de público. Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017) vem chamando a atenção pela direção segura, roteiro criativo e atuações impecáveis de seu trio principal, e já passou da marca dos 100 milhões de dólares arrecadados.

Um dos escritores vivos mais aclamados na Irlanda, o inglês McDonagh se divide entre o Cinema e o teatro, mas diz preferir o primeiro. Seu novo longa se afasta de seu cenário habitual, a Irlanda, e nos leva ao interior dos Estados Unidos, onde uma mãe que teve a filha estuprada e morta cobra das autoridades algum avanço na investigação. A polícia local não tem nada, mesmo se esforçando. Mildred decide então colocar três anúncios seguidos numa estrada deserta cobrando o chefe de polícia, Bill Willoughby, e começa uma guerra.

Compreensivamente mau humorada, Mildred se mostra irredutível em suas investidas contra a polícia. E só ajuda ter uma intérprete do peso de Frances McDormand, que deve levar um merecido segundo Oscar como Melhor Atriz (depois um por Fargo, de 1996). Ela diz muito com o olhar e é mais durona que boa parte da cidade. Woody Harrelson (de Planeta dos Macacos: A Guerra, 2017) é o chefe Willoughby, um sujeito querido na cidade que é diretamente atacado pelos outdoors. É interessante ver como Harrelson vai facilmente do seu tipo mais freqüente, o psicótico, para o bonzinho e responsável, fazendo todos com muita competência.

Mais do que Harrelson, quem bate de frente com McDormand é Sam Rockwell, merecedor de prêmios há tempos. Apesar de pegar uns projetos meia boca, ele já acertou muito (como em À Espera de Um Milagre, Confissões de uma Mente Perigosa ou Lunar), e aqui está em ótima forma. Dixon, um dos policiais da cidade, é pior do que muitos criminosos por aí, ao mesmo tempo em que tem uma mente quase infantil, dominado pela mãe. Ele é provavelmente o personagem mais interessante do longa. E o elenco ainda conta com uns reforços poderosos, como Peter Dinklage, Lucas Hedges, Caleb Landry Jones, Abbie Cornish, John Hawkes e Nick Searcy, que aparece em uma rápida crítica à hipocrisia de figuras religiosas.

Com um quadro detalhista típico de uma cidadezinha norte-americana, a Ebbing do título original, McDonagh usa seu humor ferino para, além de contar uma boa história, fazer alguns comentários acerca da sociedade. Ninguém é bom ou mau, todos são tridimensionais. Há pouco a fazer para se divertir e as chances de algo dar errado são grandes. Por isso, tudo com que podemos contar é o próximo.

Dois prováveis vencedores do Oscar 2018

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , | 1 Comentário

Lady Bird é a nova rebelde sem causa

por Marcelo Seabra

Um dos destaques da temporada do Oscar, Lady Bird: É Hora de Voar (2017) chega essa semana aos cinemas e traz uma dupla de peso. Grande motivo do falatório gerado em torno do filme, as duas atrizes principais de fato dão um show. E são elas que tornam a obra superior a tantas outras histórias de amadurecimento que chegam aos cinemas e à TV todos os anos.

Indicada pela Academia pela direção e roteiro original, Greta Gerwig fez aqui sua estréia no comando de um longa. Tudo é muito correto, bem encaixado, mas nada que se destaque tanto para merecer tamanho barulho. A questão da diversidade entre indicados foi levantada e é muito importante. Mas diretoras como Patty Jenkins (de Mulher-Maravilha) e Kathryn Bigelow (de Detroit em Rebelião) talvez merecessem bem mais o reconhecimento, tendo conseguido reunir sucesso de público e de crítica.

A Lady Bird do título é uma adolescente que tem consciência de que pode não ser tão inteligente ou simpática quanto outras por aí. Ou mesmo especialmente bonita, ou ter qualquer outra característica que a destaque. Mas, mesmo assim, ela quer seu lugar ao sol, buscando a todo custo sair de sua cidadezinha e ir estudar em um grande centro cultural. Saoirse Ronan (de Brooklyn, 2015) é sempre muito eficiente e recebe aqui sua terceira merecida indicação ao Oscar.

Fazendo uma dobradinha com Ronan, Laurie Metcalf (de The Big Bang Theory) vive a mãe de Christine e, juntas, elas representam os conflitos de gerações que tantas famílias presenciam todos os dias. Sacramento, na Califórnia, era para ser uma cidade grande, é a capital do estado, mas parece que nada acontece lá (como vimos em O Estado das Coisas). Mãe e filha vão a lojas, cuidam de suas vidas (no trabalho e na escola) e brigam muito, e a vida segue sem maiores ocorrências.

O nome Lady Bird, que Christine escolhe para si e pelo qual exige ser tratada, é um dos sinais de rebeldia de grife que a garota exibe, como muitos jovens que não têm exatamente do que reclamar, mas reclamam assim mesmo. O pai (Tracy Letts, de The Post, 2017) passa por dificuldades profissionais, mas é sempre uma boa fonte de conselhos. Garotos cruzam o caminho dela (boas atuações de Lucas Hedges e Thimotée Chalamet), amigas vêm e vão, tudo bem convencional.

Diálogos interessantes e personagens tridimensionais não faltam em Lady Bird (o subtítulo pavoroso a gente abandona). E isso é mais do que muito filme tem a oferecer. Mas não passa disso. O que nos deixa sem entender tamanho hype.

Chalamet é um dos atores a aparecerem em vários filmes da temporada

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário

Programa do Pipoqueiro #16 – Anos 80 Pt. III

por Marcelo Seabra

A terceira parte do especial anos 80 do Programa do Pipoqueiro traz canções de filmes de 1985 e 1986, indo do MacGyver até o Ferris Bueller, passando por muita coisa boa. Clique no play abaixo e confira.

Publicado em Filmes, Homevideo, Indicações, Música, Nacional, Programa do Pipoqueiro, Séries | Com a tag , , , , , , | 4 Comentários

The Post é aula de jornalismo com o Professor Spielberg

por Marcelo Seabra

O lado ruim de assistir a um filme depois de muita gente lá fora já ter tido a mesma chance é o fato dele chegar cercado de falatório, seja positivo ou não. The Post: A Guerra Secreta (2017), de uma forma geral, tem uma cotação ótima nos sites especializados, mas recebeu uma boa dose de críticas negativas nos Estados Unidos e a maioria tem a ver com a ênfase dada aos funcionários do jornal Washington Post, que são mostrados como os protagonistas da história. Trata-se de um ponto de vista, e um bem válido, o que não desmerece em nada o resultado.

Em junho de 1971, o jornal The New York Times começou uma série de publicações revelando documentos confidenciais do governo americano que haviam sido vazados. Um ex-colaborador do alto escalão, sentindo que seus superiores estavam enganando o país, decide revelar os segredos por trás da Guerra do Vietnã, conflito que matou muitos norte-americanos e só não foi encerrado antes por covardia e incompetência dos encarregados. Nenhum presidente queria ter ligada ao seu nome uma derrota de grandes proporções, como seria o caso.

Impedido pela justiça de dar continuidade à história sob a alegação de colocar os soldados e a segurança nacional em risco, o jornal não teve outra opção a não ser parar. Isso deu ao rival Washington Post a oportunidade de correr atrás do prejuízo e dar suas próprias notícias. O risco de atraírem para si o mesmo tipo de problema jurídico era grande, mas a liberdade de imprensa deveria ser protegida a qualquer custo.

Em meio a essa importante narração histórica, temos dois grandes méritos tratados de forma magistral por Steven Spielberg (de Ponte dos Espiões, 2015) e seus roteiristas, Liz Hannah e Josh Singer (premiado pelo também “jornalístico” Spotlight, de 2015). A produção de um jornal impresso nos anos 70 é esmiuçada, da reunião de pauta à impressão no parque gráfico, passando pela consulta legal que se faz necessária. Afinal, dependendo da natureza do assunto, os advogados têm que entrar em cena.

A outra questão que acompanhamos é a forma com a mulher profissional é mostrada. A personagem de Meryl Streep (de Florence Foster Jenkins, 2016) é um grande exemplo para garotas que sonham em sair da sombra do pai ou do marido, o que ela fez meio que por necessidade e acabou se encontrando. Katherine Graham era a dona do Post e seu papel na manutenção e consolidação do jornal foi fundamental. “Ela tem tudo a perder”, observa brilhantemente a personagem de Sarah Paulson (de Feud). Em um papel pequeno, Paulson mostra a que veio em uma fala apenas, com a competência de sempre. E Meryl, bem… É Meryl, sempre genial, mas nada acima de outros papéis recentes.

O elenco de The Post é algo que só um diretor do porte de Spielberg consegue reunir. Todos estão muito bem, e o destaque é Tom Hanks (de Inferno, 2016). Ben Bradlee, o mais famoso editor do Post, foi mostrado antes em outros filmes, já que também ocupava o cargo na cobertura do caso Watergate. Hanks mostra um sujeito ético e ávido por boas notícias, que quer trazer reconhecimento para seu jornal, mas com uma pontinha também de vaidade, quer o mérito de ser o cabeça de furos jornalísticos marcantes. Hanks ocupa o papel principal e sabe exatamente o que fazer. Além dos já citados, ele é cercado por gente como Bruce Greenwood (que já até viveu Kennedy), Tracy Letts, Matthew Rhys, Carrie Coon, Bradley Whitford e especialmente Bob Odenkirk (o próprio Better Call Saul), que aproveita sua chance para brilhar.

O foco que Spielberg escolhe é a equipe do Post, mas o Times não passa batido. A importância dos dois jornais no caso dos documentos do Pentágono é deixada clara, incluindo aí a amizade entre Graham e Abe Rosenthal (Michael Stuhlbarg, de Me Chame Pelo Meu Nome, 2017), que não deixam seus papéis aparentemente antagonistas atrapalharem sua amizade. Essa também é outra questão levantada com muito tato pelo roteiro: como o fazer jornalístico é afetado quando há amizade entre partes conflitantes – no caso, Graham e Robert McNamara (Greenwood).

The Post traz luz a um episódio importante e interessante da história dos Estados Unidos e sua exibição em cursos de jornalismo já é essencial, como o recente Spotlight e o novo clássico Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, 1976), que deu um Oscar a Jason Robards pelo papel coadjuvante de Ben Bradlee. O meio do filme pode ser um pouco cansativo, e as constantes trapalhadas mostradas, como deixar volumes caírem e atravessar a rua sem olhar, irritam um pouco. Mas isso se perde no todo, que é mais um ponto marcado na brilhante carreira de Spielberg.

Foto de 1971 com os verdadeiros Graham e Bradlee.

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário

Del Toro define A Forma da Água

por Marcelo Seabra

O Cinema já contou milhões de histórias de amor, e é preciso paciência para pular as mais óbvias e repetitivas. Mas eis que chega Guillermo del Toro, um senhor contador de histórias que já nos presentou com algumas pérolas, e mexe em todo esse esquema fazendo A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). Se o filme passa longe de algo, é de clichês. Pelo contrário, pode até causar bastante estranhamento pela natureza do relacionamento que ele nos apresenta.

Com histórias belas e sensíveis no currículo, como A Espinha do Diabo (El Espinazo del Diablo, 2001) e O Labirinto do Fauno (Pan’s Labyrinth, 2006), o diretor e roteirista nos apresenta agora a Elisa (Sally Hawkins, de Paddington, 2014), uma moça humilde que passa seus dias limpando as instalações de um órgão militar de pesquisas. Muda, Elisa passa o turno todo ouvindo as histórias e lamentações da colega, Zelda (Octavia Spencer, de A Cabana, 2017), tendo também a companhia do amigo Giles (Richard Jenkins, de Kong, 2017) em casa.

A rotina tranquila é tumultuada com a chegada de uma nova cobaia para estudos, uma espécie de humanoide anfíbio descoberto nos mares da América do Sul. Sua fisiologia diferenciada poderia proporcionar ao homem a tão sonhada ida ao espaço, fazendo os americanos tomarem a dianteira do programa espacial. Por precisar normalmente de recursos e gestos para se comunicar, Elisa acaba se aproximando da criatura, e eles criam um laço forte.

É claro que nem tudo são flores e Michael Shannon (de Animais Noturnos, 2016 – abaixo) chega para estragar a festa, ou ao menos dificultar. Ele é o militar encarregado da segurança do lugar e deve entregar resultados, traduzidos em avanços nos estudos sobre o sistema respiratório do anfíbio. O chefe da equipe de pesquisas é vivido por Michael Stuhlbarg, que só nessa temporada de premiações aparece ainda em The Post (2017) e Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017). E Doug Jones, mais conhecido como Fauno ou mesmo Abe Sapien (de Hellboy), marca presença novamente como um ser fantástico.

Todo o elenco está muito bem, o que reafirma o talento de del Toro para escolher e conduzir atores. A ambientação dos anos 60 é fantástica, com uma trilha sonora bem apropriada, que inclui clássicos de Benny Goodman à nossa Carmem Miranda. A fotografia vai de ótima a espetacular, merecendo o adjetivo poética por várias vezes. Mas, mesmo com elementos isolados que funcionam muito bem, o resultado final não justifica todo o barulho que vem se fazendo em torno da produção. É um filme muito bom, sim, mas não o melhor da temporada, muito menos o destaque na carreira de del Toro.

Um Oscar de Melhor Filme para A Forma da Água, ou mesmo para o diretor, seria um jeito de compensar um artista que merece esse tipo de reconhecimento já há algum tempo. Mas pode não ser justo com nomes como Christopher Nolan, no ano em que ele entregou o impecável Dunkirk. De qualquer forma, é um projeto de muitas qualidades. Independente de premiações ou hype, vale muito a conferida.

O elástico Doug Jones mais uma vez impressiona

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário