Making a Murderer e o instigante caso de Steven Avery

por Kael Ladislau

O que era antes um caso mal esclarecido no estado do Wisconsin, nos EUA, ganhou fama global graças à Netflix. Making a Murderer é uma série documental que conta a história da família Avery, mais precisamente de Steven e, posteriormente e paralelamente, de seu sobrinho, Brendan Dassey. Como se trata de um caso real e ainda em curso, talvez sejam necessários pequenos spoilers da série nesse texto.

A plataforma de streaming disponibilizou duas temporadas da série documental. A primeira foi lançada no final de 2015 e a segunda, em outubro de 2018. Elas narram os julgamentos de Steven – um de 1985 e outro de 2005 – acusado uma hora de agressão sexual e outra de estupro seguido por assassinato.

O caso poderia ser mais um dentre tantos que – infelizmente – acontecem mundo afora. Mas a ação contra Avery tem inúmeras irregularidades judiciais que fazem seus advogados acreditarem num complô. Nem mesmo a confissão de uma pessoa para o caso de 1985 faz com que a justiça volte atrás. Apenas em 2003, num exame de DNA, é determinada a inocência de Avery, e se seguiu um processo de Steven contra o Estado, que durante todo o caso, ignorou deliberadamente algumas provas fundamentais a favor do réu. Isso renderia a Avery uma multa milionária.

Mas aí vem uma nova acusação em 2005. Dessa vez, do assassinato de Tereza Halbach e com a uma confissão, que gera dúvidas, do sobrinho Brendan (acima), então com 16 anos e com um suposto QI baixo. Tanto tio quanto sobrinho vão em cana em pena perpétua.

Dado o teor enigmático do processo, a acusação injusta no passado e o complexo sistema judicial norte-americano, a série da Netflix navega detalhando cada nuance das ações, desde as mais antigas às mais recentes, e mostra algumas relações entre elas. Paralelamente, a acusação contra Brendan ganha seu próprio fôlego e rumos distintos, mesmo que ambas seja relacionadas pelo caso e pelas particularidades do processo. A série não deixa de focar a família Avery, sobretudo Dolores, mãe de Steven. O cotidiano dela, de seu marido Allan e dos demais filhos no ferro-velho dos Avery é bem abordado, mostrando como os casos afetaram nos negócios familiares.

Making a Murderer fez com que o mundo descobrisse o caso Avery e que uma legião pró Steven e Brendan surgisse ao redor do globo. O que pode ser reflexo da falta de equilíbrio da série, que mostra bem o trabalho da defesa, mas pouco aborda a acusação. Outro resultado da série é a aparição de personagens na segunda temporada que acabam se relacionando de alguma maneira com os envolvidos no processo. E, claro, a relativa fama que os advogados adquirem.

O fato é que os casos são intrigantes. A primeira temporada é cheia de reviravoltas que fazem você querer devorar todos os 10 capítulos de uma vez. A segunda, por ser um período de abordagem menor que na primeira, mostra a lentidão do processo, o que afeta também o ritmo do documentário. Ainda assim, vale a pena conhecer a história de um dos mais enigmáticos casos de assassinato dos EUA.

Os advogados do caso viraram celebridades

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Conheça duas novas comédias da Netflix

por Marcelo Seabra

A Última Gargalhada

Dois senhores entrados em anos se reencontram após décadas sem contato. Um era um agente de artistas que conseguia shows nas melhores casas do país. O outro era um comediante promissor que abandonou a carreira de repente para fazer algo mais “sério”, e virou dentista. Viúvos, vivendo num asilo, eles não se darão por vencidos facilmente, e embarcam numa nova turnê.

Essa é a trama de A Última Gargalhada (The Last Laugh, 2019), produção original Netflix que reúne Chevy Chase e Richard Dreyfuss em mais um desses filmes de veteranos saudosos, como Última Viagem a Vegas (Last Vegas, 2013) e Despedida em Grande Estilo (Going in Style, 2017). Dessa vez, são só dois, e o filme se segura totalmente nas costas deles. Chase, visto recentemente no reboot de Férias Frustradas (Vacation, 2015), continua com um carisma enorme, enquanto Dreyfuss (de RED: Aposentados e Perigosos, 2010) demonstra maior domínio como ator.

Com cara de produção para a TV, com um orçamento mais apertado e uma filmagem bem convencional, o longa serve mesmo para que possamos ver o talento de seus protagonistas. Enquanto Dreyfuss é mais clássico, ou que estamos acostumados a ver, Chase tem um ar estranho, como quem perdeu o timing da piada e a faz ficar melhor. As situações que eles vivem não são nada mirabolantes e ainda somos presenteados com uma participação de Andie McDowell (de Magic Mike XXL, 2015).

Dumplin’

Aproveitando-se da beleza da ex-Friends Jennifer Aniston, quase aos 50 e tão maravilhosa quanto aos 20, Dumplin’ (2018) propõe discussões comuns à adolescência, com o agravante da protagonista ser gordinha e filha de uma miss local. Os questionamentos normais da idade são elevados ao cubo, já que a garota não se sente à altura da mãe. Ou do bonitão com quem trabalha (Luke Benward – abaixo).

Danielle Macdonald, vista recentemente no comentado Bird Box (2018), vive Willowdean, uma colegial criada pela tia que é fã número um de Dolly Parton. Quando a tia morre, ela perde seu suporte e é obrigada a contar mais com a mãe, que apesar de ser bem-intencionada, é distante. As muitas atividades que ela acumula na comunidade não lhe deixam muito tempo para a própria filha.

Buscando desafiar o senso comum, que só premia meninas bonitinhas padrão, Willowdean se inscreve no concurso gerenciado pela mãe. A partir daí, o roteiro da produtora Kristin Hahn (baseado no livro de Julie Murphy) dá um tiro no pé, tornando a protagonista uma jovem birrenta que não sabe o que quer. O público se afeiçoa a qualquer outro personagem, menos a ela. A personagem de Aniston é simpática, tentando acertar, e a melhor amiga (Odeya Rush, de Lady Bird, 2017) de Willowdean a atura apesar de suas chatices.

Buscando passar uma mensagem de aceitação da diversidade, a diretora Anne Fletcher (de Belas e Perseguidas, 2015) mais uma vez demonstra também comprometimento com a causa feminista, o que é muito sadio. Mas faltou um texto mais original, ou que fosse mais longe. Depois de quase duas horas, as amizades e laços familiares são exaltados, todo mundo fica feliz e ninguém mais se lembra de ter assistido a Dumplin’.

Os veteranos de A Última Gargalhada valem a sessão

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Oscar 2019 – Indicados e Previsões

por Marcelo Seabra

Está chegando o momento de conhecermos os vencedores da 91ª edição do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS, no original), o popular Oscar. Diz a lenda que uma bibliotecária da Academia, Margaret Herrick, disse que a estatueta lembrava seu tio Oscar. Em 1934, um importante colunista de Hollywood usou o nome para se referir ao prêmio e pegou! Em 1939, a própria Academia oficializou o apelido.

Todos os envolvidos na indústria cinematográfica costumam ter suas carreiras valorizadas ao levarem um careca desses para casa. Os filmes ganham público, mesmo os que já haviam saído de cartaz costumam voltar. Por isso, a festa de entrega é um grande evento, televisionado para mais de 225 países. Nos Estados Unidos, é exibido pelo canal ABC, que também retransmite online pelo aplicativo ou no site abc.com.

Depois de muita fofoca e polêmica, definiu-se que não haveria apresentador como sempre acontece – nos últimos dois anos, a função coube a Jimmy Kimmel. Segundo a Academia, nomes que passarão pelo palco incluem Daniel Craig, Chris Evans, Tina Fey, Whoopi Goldberg, Amy Poehler, Maya Rudolph, Tessa Thompson, Constance Wu, Javier Bardem, Angela Bassett, Chadwick Boseman, Danai Gurira, Michael B. Jordan, Michael Keaton, Paul Rudd e Michelle Yeoh. Entre as atrações musicais, temos Jennifer Hudson, Gillian Welch e David Rawlings, Bradley Cooper e Lady Gaga, Bette Midler e ainda uma apresentação de Queen + Adam Lambert (acima).

Esse ano, Roma e A Favorita lideram nas indicações, cada um com 10, e são seguidos por Nasce uma Estrela e Vice, com oito. Como tenho feito há anos, listo abaixo todos os indicados, com link para aqueles que têm crítica completa no Pipoqueiro – basta clicar para ler. O número 1 em frente indica o meu palpite para o vencedor e o número 2 indica aquele que eu gostaria que ganhasse. Se os dois coincidirem, terá apenas um X.

Melhor Filme

Bohemian Rhapsody

A Favorita

Green Book – O Guia

2 Infiltrado na Klan

Nasce uma Estrela

Pantera Negra

1 Roma

Vice

 

Melhor Direção

1 Alfonso Cuarón (Roma)

2 Spike Lee (Infiltrado na Klan)

Yorgos Lanthimos (A Favorita)

Pawel Pawlikowski (Guerra Fria)

Adam McKay (Vice)

 

Melhor Ator

Bradley Cooper (Nasce uma Estrela)

X Rami Malek (Bohemian Rhapsody)

Christian Bale (Vice)

Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)

Viggo Mortensen (Green Book – O Guia)

 

Melhor Atriz

Olivia Colman (A Favorita)

Lady Gaga (Nasce uma Estrela)

X Glenn Close (A Esposa)

Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)

Yalitza Aparicio (Roma)

 

Melhor Ator Coadjuvante

Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)

1 Mahershala Ali (Green Book – O Guia)

2 Adam Driver (Infiltrado na Klan)

2 Sam Elliott (Nasce uma Estrela)

Sam Rockwell (Vice)

 

Melhor Atriz Coadjuvante

X Regina King (Se a Rua Beale Falasse)

Marina de Tavira (Roma)

Amy Adams (Vice)

Emma Stone (A Favorita)

Rachel Weisz (A Favorita)

 

Melhor Roteiro Original

Green Book – O Guia

Roma

No Coração da Escuridão

X A Favorita

Vice

 

Melhor Roteiro Adaptado

X Infiltrado na Klan

The Ballad of Buster Scruggs

Se a Rua Beale Falasse

Nasce uma Estrela

Poderia Me Perdoar?

 

Melhor Animação

X Homem-Aranha no Aranhaverso

Os Incríveis 2

WiFi Ralph

Ilha de Cachorros

Mirai

 

Melhor Filme Estrangeiro

X Roma (México)

Guerra Fria (Polônia)

Assunto de Família (Japão)

Cafarnaum (Líbano)

Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)

 

Melhor Documentário

RBG

Minding the Gap

Hale County this Morning, the Evening

Of Fathers and Sons

X Free Solo

 

Melhor Direção de Arte

O Retorno de Mary Poppins

A Favorita

O Primeiro Homem

Roma

X Pantera Negra

 

Melhor Fotografia

X Roma

Nasce uma Estrela

A Favorita

Guerra Fria

Nunca Deixe de Lembrar

 

Melhor Figurino

2 A Favorita

The Ballad of Buster Scruggs

Duas Rainhas

O Retorno de Mary Poppins

1 Pantera Negra

 

Melhor Maquiagem

X Vice

Border

Duas Rainhas

 

Melhor Montagem

A Favorita

Infiltrado na Klan

Bohemian Rhapsody

Green Book – O Guia

X Vice

 

Melhor Trilha Sonora

1 Se a Rua Beale Falasse

Ilha de Cachorros

Pantera Negra

O Retorno de Mary Poppins

2 Infiltrado na Klan

 

Melhor Canção Original

X Shallow (Nasce uma Estrela)

All the Stars (Pantera Negra)

I’ll Fight (RBG)

The Place Where Lost Things Go (O Retorno de Mary Poppins)

When a Cowboy Trades His Spurs for Wings (The Ballad of Buster Scruggs)

 

Melhores Efeitos Visuais

1 Vingadores: Guerra Infinita

Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível

2 Jogador nº 1

O Primeiro Homem

Han Solo: Uma História Star Wars

 

Melhor Edição de Som

X O Primeiro Homem

Pantera Negra

Roma

Um Lugar Silencioso

Bohemian Rhapsody

 

Melhor Mixagem de Som

X O Primeiro Homem

Roma

Nasce uma Estrela

Bohemian Rhapsody

Pantera Negra

 

Melhor Curta-Metragem

X Marguerite

Fauve

Mother

Skin

Detainment

 

Melhor Curta-Metragem – Animação

X Bao

Animal Behavior

Late Afternoon

Weekends

One Small Step

 

Melhor Curta-Metragem – Documentário

End Game

Lifeboat

A Night at the Garden

X Period. End of Sentence

Black Sheep

Cuarón deve se sagrar o melhor mais uma vez

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A Mula e a eficiência de Clint Eastwood

por Kael Ladislau

Não é preciso dizer muito sobre Clint Eastwood. Seus 88 anos, sendo quase 60 dedicados ao Cinema, falam por si só. Talvez por isso, o mais novo longa do eterno “cowboy sem nome” dos faroestes de Sérgio Leone não revele nada muito novo. O que não significa que A Mula (The Mule, 2018) seja piegas ou ruim.

Não há nada de muito diferente que já foi visto nos filmes eastwoodianos. Temos um veterano de guerra com problemas familiares que encontra o jeito mais difícil possível para se reaproximar da família. Dessa vez, Clint (de Curvas da Vida, 2012) é Earl Stone, um outrora respeitado criador de lírios. Sua vida se resumia ao trabalho, tanto que sua família ficava para escanteio em momentos importantes, sobretudo os de sua filha Iris (Alison Eastwood, sim, também filha na vida real).

O passar dos anos fizeram Earl ser uma persona non grata entre os Stone, ressalvando-se apenas a relação com sua neta Ginny (Taissa Farmiga, de A Freira, 2018 – acima). Junta-se a isso o fato de Earl ir à falência em seu comércio de lírios graças à internet, modernidade que o personagem rechaça sempre. Esse é o contexto que faz Eastwood receber uma proposta para ser um transportador de cocaína de um cartel mexicano, dada a sua experiência nas estradas estadunidenses e sua perícia no volante – ele nunca recebeu uma multa!

Além de entregar uma boa história, ainda que nada formidável, como Menina de Ouro (2004) ou Os Imperdoáveis (1992), o diretor Clint ainda atua ao lado de um bom elenco. Além das já citadas Alison e Taissa, temos Bradley Cooper (de Nasce Uma Estrela, 2018) como o policial Colin Bates, e seu parceiro mexicano Treviño é o onipresente Michael Peña (de Homem-Formiga e a Vespa, 2018). O grupo ainda conta com Dianne Wiest (de Tiros na Broadway, 1994 – abaixo), Andy Garcia (de Tempestade, 2017) e Laurence Fishburne (também de Homem-Formiga e a Vespa). O roteiro e o elenco já garantem a ida ao cinema.

Temos ainda as belas tomadas que um roadie movie no centro-oeste americano permite. Clint ainda mostra que não perdeu a mão na direção, quando mostra, por exemplo, o pulo temporal que o filme tem mostrando o florido jardim de Earl em uma época e, na sequência, a devastada plantação de anos mais tarde, já dando a entender a derrota do personagem.

É possível identificar no protagonista o próprio Eastwood: um sujeito meio ranzinza, mas com bom humor. O fato de ele ter dificuldades com a internet e viver à base de um humor “politicamente incorreto” mostra o quão o personagem/ator é ultrapassado em certas questões. E isso não é uma percepção pessoal. O próprio Eastwood deixa claro isso em momentos quando, por exemplo, Bates diz a Earl: “Você já viveu tanto que não tem mais filtro de nada”. O veterano retruca: “Acho que nunca tive”.

A Mula é um bom filme e percebemos todas as marcas do diretor lá. Mais do que isso, é eficiente. Eastwood assegura uma história interessante, com atuações seguras. Não chega a surpreender, mas o diretor entrega um produto que você facilmente identifica como dele e sai satisfeito do cinema. Até tocado, por talvez ser a última atuação dessa lenda viva que é Clint Eastwood.

Eastwood e a verdadeira “mula”, Leo Sharp

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Descubra Sam Cooke na Netflix

por Marcelo Seabra

Em determinado momento da sua vida, você ouviu uma canção de Sam Cooke em algum lugar: filme, rádio… E não faz ideia de quem ele foi. Lendo sobre a biografia, não dá para ter ideia de um terço da importância dele para a música e para o movimento negro nos Estados Unidos. E é bem difícil de entender como se deu seu assassinato. As Duas Mortes de Sam Cooke (The Two Killings of Sam Cooke, 2019) traz todos os fatos disponíveis, e é interessante até pra quem não faz ideia de quem ele foi.

Parte da série Remastered, criação de Jeff e Michael Zimbalist que se propõe a trazer luz para casos mal explicados envolvendo mortes de famosos, o episódio se debruça sobre Cooke, um cantor e compositor excepcional, admirado por muitas celebridades, como Elvis e James Brown, que morreu no auge de sua carreira. Empreendedor e defensor dos direitos dos negros, ele se tornou uma voz importante que muitos julgavam incomodar os poderosos.

Para que consigamos ter a visão geral, a obra começa lá atrás, fundamentando quem foi Sam Cooke e trazendo depoimentos de gente do quilate de Dionne Warwick, Quincy Jones e Smokey Robinson. No início da década de 60, o cantor era amigo de ninguém menos que Muhammad Ali, Malcolm X e do jogador de futebol americano Jim Brown. O quarteto formado por um artista, um ativista e dois atletas chamou a atenção até do FBI, que os vigiava.

Uma tragédia marcou Cooke, que se afundou em seu trabalho e acabou encontrando seu fim. E o pior: tudo o que ele construiu desmoronou também – daí o título As Duas Mortes de Sam Cooke. E, como um bom documentário faz, a obra traz em pouco mais de uma hora vários comentários sobre a época, mostrando muito mais que apenas uma vida perdida. O que já seria muito, tendo em vista que estamos falando de Sam Cooke. E é bom para redescobrir clássicos como Cupid, A Change Is Gonna Come, Bring It on Home to Me e Chain Gang.

Dois dos amigos de Cooke: Malcolm X e Muhammad Ali

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Alita traz a essência de James Cameron

por Marcelo Seabra

Tendo dirigido duas adaptações dos quadrinhos adultos Sin City (2005 e 2014), Robert Rodriguez partiu para o famoso mangá de Yukito Kishiro. Mas Alita: Anjo de Combate (Alita: Battle Angel, 2018) parece mais uma obra não do diretor, mas do produtor e roteirista, ninguém menos que James Cameron. Como é costume dele, temos efeitos especiais fantásticos que acabam disfarçando uma certa falta de conteúdo. Algo como vimos principalmente (mas não só) em Avatar (2009).

Cameron tem trabalhado quase que exclusivamente com o desenvolvimento de equipamentos e técnicas que permitam a criação de novos mundos. A grandiosa viagem do Titanic em 1997, recordista de prêmios, é responsabilidade dele, assim como os seres azuis de Avatar e os exterminadores do futuro da interminável franquia. Dessa vez, ele e a parceira roteirista Laeta Kalogridis nos levam a alguns séculos no futuro de um mundo devastado por uma guerra conhecida como A Queda.

O longa começa com um médico especialista em robótica (Christoph Waltz, de Spectre, 2015) encontrando, num lixão de uma cidade pobre, uma ciborgue sem os membros. Depois de montá-la, ele passa a tratá-la como uma protegida e a leva para conhecer a cidade. A partir daí, a garota (Rosa Salazar, de Bird Box, 2018) vai se envolver em diversas situações que incluem várias peças importantes da sociedade deles, do gângster local (Mahershala Ali, de Green Book, 2018) ao líder da cidade flutuante, onde todos queriam viver.

Visualmente, Alita é arrebatador. O mundo futurista é criativo, com criaturas interessantes e uma geografia que lembra uma favela real, mas com toques bem particulares. A profundidade da terceira dimensão é bem aproveitada em alguns momentos, potencializando a ação. A grandiosidade do IMAX também casa muito bem com a obra, e apresenta uma riqueza de detalhes do design de produção. A trilha de Junkie XL, cujo trabalho recente conta com as aventuras Mentes Sombrias e Máquinas Mortais, pontua corretamente os momentos extremos, com mais ação ou maior drama.

Apesar de todos os seus talentos e recursos, Alita é uma adolescente, e enfrenta dilemas próprios da idade – mesmo que potencializados por robôs assassinos e mercenários violentos. O caso romântico soa forçado, além de Keenan Johnson (das séries Nashville e The Fosters) não ser exatamente um grande intérprete. Mesmo com o rosto deformado por CGI, Salazar tem o carisma necessário para fazer com o público se solidarize com sua jornada, mas ela é a metade do casal que funciona.

Apesar de criativo, o filme não traz nada muito original. Começando no conto de Frankenstein, passando por Blade Runner (1982), Distrito 9 (2009) e até no mais recente Jogador N. 1 (2018), tudo ali já foi visto. Alguns nomes no elenco de apoio são curiosos, reconhecidos por papéis anteriores, e ficamos procurando quem são, debaixo de tantos efeitos digitais – temos, por exemplo, Jeff Fahey, Ed Skrein, Jackie Earle Haley, Derek Mears, Rick Yune e Casper Van Dien. Dentre os mais famosos, Waltz, Ali e Jennifer Connelly, ninguém faz nada de memorável. Alita fica no mesmo patamar de trocentas adaptações voltadas para jovens adultos, que têm sido um grande filão para produtores ambiciosos.

Battle Angel Alita (Gunnm) no traço de Yukito Kishiro

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Christian Bale é um Vice poderoso

por Marcelo Seabra

Uma das figuras mais controversas da política norte-americana ganhou uma cinebiografia badalada. E o mais interessante: ele e os demais retratados estão vivos. O que nos leva a crer que os produtores de Vice (2018) têm bons advogados, ou não têm juízo algum. Sem poupar ninguém, o filme traça um quadro bem negativo do republicano que ficou conhecido como o vice-presidente mais poderoso do mundo. O resultado é recordista de indicações nas principais premiações da temporada.

Quando mais jovem, o recém-casado Dick Cheney era apenas um fanfarrão que bebia, arrumava confusão com a polícia e se contentava com um emprego meia-boca. Sua esposa, Lynne, lhe dá um ultimato para que mude de vida e ele consegue uma vaga como assessor no congresso. Aí, começa a carreira na política de Cheney, que viria a ser o vice de George W. Bush entre 2001 e 2009 e seria o principal responsável pela caça aos terroristas empreendida pelos americanos. De jogador ignóbil, ele passou a dar as cartas. Ele inclusive foi um grande propagador de fake news, o que já existia bem antes de Donald Trump e Bolsonaro.

O roteirista e diretor Adam McKay emprega novamente alguns dos recursos de seu premiado A Grande Aposta (The Big Short, 2015) e ainda se mostra um contador de histórias habilidoso. A montagem ágil e engraçadinha, com vários suportes visuais, como letreiros, metáforas e ironias, movimenta o que poderia ser um filme chato, devido ao tema tratado. A narração de Jesse Plemons (de A Noite do Jogo, 2018) ajuda a explicar algumas passagens, reduzindo a vontade do espectador de parar e voltar trechos para assistir novamente.

Grande parte do sucesso de Vice se deve a seus intérpretes. No papel principal, Christian Bale (o Batman de Christopher Nolan) some numa maquiagem bem-feita e nos 18 quilos que engordou, dando vida a Cheney por todos os anos que o roteiro o acompanha. O jeito quieto, que esconde uma personalidade maquiavélica e inescrupulosa, é muito bem incorporado pelo ator, que o faz parecer estar sempre guardando suas opiniões e analisando as situações. Fica clara a ponte que Cheney faz entre empresas petrolíferas e o governo, colocando interesses financeiros acima do Estado.

Todo o elenco de apoio é ótimo, principalmente os três principais: Amy Adams (de A Chegada, 2016) vive a esposa de Cheney, Lynne; Steve Carell (de A Grande Aposta) é Donald Rumsfeld, uma espécie de mentor para Cheney; e Sam Rockwell (de Três Anúncios para Um Crime, 2017 – acima) faz um George W. Bush perfeito, evitando cair na caricatura, mas evidenciando o ridículo que o sujeito era/é. Inclusive, todos se encaixam nessa característica, dando profundidade a seus personagens.

Ao esmiuçar as jogadas políticas, McKay não se furta de apontar dedos, o que pode levar o público a considerá-lo um liberal. Há uma cena no meio dos créditos que já adianta esse possível comentário, e é bem espirituosa, além de trazer a crítica para os dias de hoje – e não é válida apenas nos EUA. O diretor divide os políticos em basicamente três grupos: os que causam o mal (como Cheney), os que veem e não concordam (como o Colin Powell de Tyler Perry) e os que não têm ideia do que está acontecendo (W. Bush). E procura fundamentar tudo com fatos, para não ficar apenas no campo das suposições. Dessa forma, o Cinema ianque faz com que o espectador estrangeiro conheça melhor a história dos EUA que a de seu próprio país.

É claro que muito ficou escondido até hoje. Cheney foi habilidoso ao evitar as armadilhas que pegaram seus antecessores, como Nixon, tomando bastante cuidado com registros de conversas, digitais ou em áudio. McKay precisou juntar o que se sabe com uma dose de criatividade para preencher as lacunas deixadas. O resultado é crível o suficiente para o tomarmos por verdadeiro. E casa bem com um vice-presidente que entrou no cargo com boa aceitação pela população e o deixou em desgraça, o que ele aceitou bem por acreditar que era o sujeito que fazia o que tinha que ser feito.

De psicopata americano a vice, Bale mudou muito – por fora

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Trio feminino reforça A Favorita

por Marcelo Seabra

Conhecido por fazer filmes tidos como estranhos, o grego Yorgos Lanthimos ataca novamente, e desta vez com uma obra mais acessível. Apesar de manter algumas de suas características muito próprias, A Favorita (The Favourite, 2018) é mais convencional, contando uma história próxima de nossa realidade. Muito próxima, aliás, por tratar da natureza do ser humano, que por seu senso de sobrevivência é capaz de muita coisa.

Para ficar nos dois exemplos mais recentes, o diretor nos entregou O Lagosta (The Lobster, 2015), sobre um sujeito que deve encontrar seu par ou vai virar um animal, e O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer, 2017), sobre uma maldição que recai sobre uma família. Ambos, estrelados por Colin Farrell. Agora, Lanthimos deu folga ao ator e convocou um ótimo trio feminino. À frente, Olivia Colman, estrela da quarta temporada de The Crown, dá um show como a Rainha Anne, uma soberana cheia de vontades e facilmente manipulável.

Quase tão boas quanto Colman estão Rachel Weisz e Emma Stone. Weisz (também de O Lagosta, como Colman) vive a Lady Sarah, Duquesa de Marlborough, uma amiga da rainha que se aproveita dessa proximidade para tomar várias decisões estratégicas por ela. Anne está sempre doente, ou ao menos fazendo manha, um prato cheio para a personalidade forte de Sarah se impor. No meio da relação das duas entra Abigail (Stone, de La La Land, 2016), uma serviçal de origem nobre que precisa recomeçar de baixo e mais do que depressa procura cair nas graças da rainha.

O embate entre Sarah e Abigail é certo e a nós, meros espectadores, cabe apenas pegar a pipoca e assistir. O duelo, de ações e diálogos, é bem afiado e prazeroso de se acompanhar. Entre os nomes principais do elenco há ainda que se destacar o de Nicholas Hoult (o jovem Fera dos X-Men), que vive um personagem que escancara os métodos nada ortodoxos que a nobreza usava para descobrir o que queria e tirar vantagem. Nada diferente do que congressos e senados fazem hoje.

A recriação do século XVIII é fantástica, com cenários e figurinos fiéis nos mínimos detalhes. A fotografia de Robbie Ryan (de Os Meyerowitz, 2017) explora bem os arredores do palácio, com tomadas amplas e outras, criativas, como a que coloca o público num olho mágico xeretando as intrigas palacianas. A montagem enxuta de Yorgos Mavropsaridis (parceiro habitual de Lanthimos) evita qualquer possibilidade de cansaço. A equipe de som escolheu a dedo algumas faixas eruditas, com Bach, Schubert e Vivaldi, entre outros, que ressaltam os climas criados pela trama.

Com a crescente valorização da mulher na indústria cinematográfica, Lanthimos considera positiva o que considera “sua pequena contribuição”, trazendo três personagens femininas fortes. O também celebrado roteiro, escrito por Deborah Davis e revisado por Tony McNamara, cria várias situações partindo do que se sabe da época, nunca se pretendendo ser uma aula de História. Na verdade, é uma aula de intriga, inveja e traição, e a atualidade desses temas é assustadora!

O diretor e suas estrelas posam para o Hollywood Reporter

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Documentário apresenta o psicopata Ted Bundy

por Marcelo Seabra

Em 1972, em muitos dos Estados Unidos da América, era comum deixar portas destrancadas, carros abertos, andar pelas ruas no escuro… Era uma vida tranquila. Cenário propício para alguém mal-intencionado. Por mais que pudessem já ter existido, serial killers dificilmente tinham sido noticiados, observados, nomeados. É então que garotas num padrão muito parecido começam a desaparecer. Anos depois, o mundo conheceu o nome Ted Bundy.

Chegou recentemente à Netflix a série documental Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes (2019), aproximadamente quatro horas de uma montagem muito bem-feita de depoimentos e gravações de época destrinchando a vida de um dos piores assassinos, sequestradores, estupradores e necrófilos do país. Dividida em quatro episódios, a obra reconta os passos dele e, de quebra, dá um panorama de como era a vida, em vários aspectos, nos anos 70. O roteiro é baseado no livro dos jornalistas Stephen G. Michaud e Hugh Aynesworth, ambos produtores da série.

Bundy entrou para a história como um sujeito genial, carismático e extremamente perigoso. Se a série comete um grande pecado é ajudar a eternizar esse mito. Se dois desses adjetivos podiam sim ser atribuídos a ele, genial não poderia estar mais longe. Como fica claro ao final da exibição, ele cometeu diversos erros, deixou trocentas pistas e por várias vezes se encrencou por ser narcisista ao extremo. Seu rastro apenas não foi seguido a tempo de evitar alguns de seus crimes pela falta de comunicação entre as polícias estaduais, algo impensável com a tecnologia de hoje.

Na realidade, Bundy era um indivíduo frustrado que esperava ser alguém muito importante algum dia, até quem sabe o presidente de sua nação. Nunca chegou a lugar nenhum, não conseguindo nem mesmo se formar advogado. Possivelmente em 1972, começou sua carreira como psicopata, e só em 1974 foram perceber um modus operandi e ligar os pontos. Mas ele ainda agiu livremente por um bom tempo, entrando e saindo de casas e abordando jovens em locais públicos, como becos e parques ambientais.

Descrito como alguém bonito e bem articulado, ele se aproximava facilmente e era bem recebido em grupos. Quando trabalhou em uma campanha política e ao buscar apoio na religião, foi bem recebido. A discussão de hoje a respeito de privilégios de homens brancos explica muita coisa. Ninguém suspeitava de Bundy, e negaram veementemente quando as primeiras acusações começaram a aparecer. As namoradas que teve se diziam bem tratadas. Todas as aparências conspiravam a favor. “Ele podia ser arrogante, mas não violento”, diziam.

Enquanto acompanhamos os desdobramentos da queda de Bundy, descobrimos como era feito o trabalho jornalístico na época, com vários recortes de jornais e matérias da televisão. Além disso, o trabalho policial pré-internet, mal mal com um aparelho de fax, tornava tudo mais difícil. Bundy conseguiu esconder sua identidade quando foi preso, em uma ocasião, e assim ficou por dias. Os garotos de hoje devem rir ao ouvir algo assim, totalmente fora da realidade deles. Basta tirar uma foto com o celular e enviar. Mas em idos da década de 70…

Com muitos documentários no currículo, a maioria de cunho investigativo, Joe Berlinger (diretor da elogiada trilogia Paradise Lost) assina este The Ted Bundy Tapes. A incursão dele no mundo da ficção nos deu a sequência de Bruxa de Blair: O Livro das Sombras (2000). Apesar de ter pontos interessantes, o longa foi execrado por crítica e público (confira no Rotten Tomatoes), o que deve ter feito Berlinger preferir ficar em terreno seguro, a não-ficção. Apenas 19 anos depois, ele volta a atacar nessa área com Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, recontando a história de Bundy com Zac Efron no papel. Vamos ver em qual ele se sai melhor.

A dúvida sobre a inocência de Bundy pairou por muito tempo

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Green Book conta simpática história real

por Marcelo Seabra

Um dos destaques da temporada de premiações, Green Book: O Guia (2018) já está em cartaz no país. Com cinco indicações ao Oscar e quatro ao BAFTA, além de já ter na sacola três Globos de Ouro e prêmios dos sindicatos, entre outros, o longa traz uma história no formato que agrada a todo mundo: uma amizade improvável que se forma tendo o racismo como pano de fundo. Isso, sustentado por duas grandes atuações.

O ano é 1962 e o leão de chácara Tony “Lip” Vallelonga (Viggo Mortensen, da trilogia O Senhor dos Anéis) precisa arrumar outra ocupação, já que o clube onde trabalha passará por uma reforma de dois meses. Cheio de contatos, ele fica sabendo que um doutor está precisando de motorista pelo mesmo período e vai à entrevista. Lá, ele descobre que o cliente, na verdade, é o Dr. Donald Shirley (Mahershala Ali, Oscar por Moonlight, 2016), um famoso pianista negro que pretende excursionar pelo sul dos Estados Unidos.

Nessa época, e nessa região, um negro ficar para cima e para baixo era pedir por problemas, dada a carga racista que os cidadãos levavam. Hotéis e restaurantes eram divididos entre aqueles que aceitavam pessoas de cor (como as placas indicavam) e os que negavam atendimento. Por isso, além de seguir o itinerário feito pela gravadora, Tony Lip precisava se ater ao Green Book, um guia que indicava os estabelecimentos permitidos a negros – livro escrito por um certo Victor Hugo Green, daí o nome.

Filmes retratando amizades formadas aos trancos não faltam, das mais estranhas (como em Inimigo Meu, de 1985) às complicadas por questões de raça (como em Conduzindo Miss Daisy, 1989, ou o mais recente Histórias Cruzadas, 2011). E filmes que abordam a estupidez e a inconsistência do racismo também abundam: esse ano, mesmo, temos Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman), que trata o assunto de forma bem mais incisiva. “Se os temas abordados por Green Book não são inéditos ou inovadores, por que tanta atenção?”, você deve estar se perguntando.

A resposta se resume a dois nomes: Mortensen e Ali. A qualidade do trabalho e a química desenvolvida entre eles é o grande diferencial do projeto. Mortensen não é exatamente o ator mais óbvio para viver um tipo ítalo-americano, como seria um De Niro ou um Pacino, mas resolve bem a questão com sotaque e maneirismos bem calculados. Ali consegue fugir um pouco de seus recursos habituais (como aquela risada forte), tornando seu personagem uma figura metódica e misteriosa. Comparando com os verdadeiros (abaixo), nenhum dos dois atores seria a melhor opção fisicamente, e a escolha arriscada se mostra acertada.

A direção leve de Peter Farrelly (de filmes mais bobinhos, como os dois Debi & Lóide) evita momentos de maior tensão, fazendo com que a jornada flua tranquilamente pelas estradas americanas, fora uma ou outra situação facilmente resolvida. Entre os três roteiristas, está Nick Vallelonga (além de Farrelly e Brian Currie), filho de Tony Lip, que diz ter montado a história de acordo com que o pai contou e com suas lembranças. A família de Shirley contesta algumas passagens e até fatos mais relevantes, como a amizade entre os dois. Para eles, o pianista nunca se afeiçoou a um empregado, sempre tratando-os com distanciamento. Empasses como esses são comuns em filmes “baseados em fatos”.

Outra polêmica levantada por alguns críticos de fora diz respeito à importância dos biografados. Se o genial Shirley é muito mais interessante que o falastrão Tony Lip (daí o apelido, algo como Tony Lábia), por que não focar o projeto no pianista? O fato de o projeto ter o filho de Vallelonga envolvido já responde a pergunta. E é frequente termos “uma escada”, um anônimo ou alguém tido como menos importante para que possamos nos identificar e que facilite a ponte ao outro personagem, o figurão.

Às vezes, acontece de filmes não muito bons ganharem atenção não merecida, e já tivemos até ganhadores de Oscar de Melhor Filme de qualidade duvidosa. Não é o caso de Green Book, que é sim uma boa obra. Mas não era para tanto. Montagem e roteiro, por exemplo, não têm nada de extraordinário, nada que justifique tanto confete. Trata-se de uma história agradável, para se divertir por duas horas, com bons intérpretes. O que já é muito, mas não passa disso.

Farrelly comanda sua dupla nos sets de Green Book

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