O surreal Cinema francês traz A Espuma dos Dias

por Marcelo Seabra

Espuma dos Dias posterEscritor que acumulava outras tantas ocupações, o intelectual francês Boris Vian viveu apenas 39 anos, mas criou uma produção extensa. Entre críticas, artigos, poemas e até músicas, ele deixou um livro que trazia a maior parte das características observadas em sua obra: amor não convencional, crítica social, universos surreais, jazz, objetos, títulos e palavras inventadas. A adaptação de A Espuma dos Dias (L’écume des Jours, 2013) acaba de chegar aos cinemas nacionais, nos circuitos ditos de arte, e certamente vai causar estranheza a quem não conhece o trabalho de Vian.

Além de vários videoclipes, documentários e curtas, Michel Gondry ficou famoso por dirigir Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), longa sensível marcado por uma invenção inusitada: um procedimento que permite a uma pessoa apagar outra de suas lembranças. Em A Espuma dos Dias, ele entra de cabeça num universo sem regras, de um realismo fantástico de encher os olhos. Com roteiro de Luc Bossi (de Fuga Pela Vida, 2011), Gondry dá asas à imaginação em cada quadro, cada canto dos apartamentos dos personagens, com figurinos, direção de arte e design de produção primorosos.

Espuma dos Dias

Um fator que deve ajudar a levar público aos cinemas é a presença da eterna Amélie Poulain Audrey Tautou. Ela vive Chloé, a jovem por quem Colin (Romain Duris, de A Datilógrafa, 2012) cai de amores. Ele passa os dias a inventar e testar suas invenções, e percebe ser o único solteiro de seu círculo de amigos, que inclui o versátil empregado Nicolas (Omar Sy, de Intocáveis, 2011 – acima, à direita), o casal politizado Chick (Gad Elmaleh, de O Ditador, 2012) e Alise (Aïssa Maïga, de Caché, 2005) e Isis (Charlotte Lebon), a namorada de Nicolas que o apresenta a Chloé. A música de Duke Ellington permeia as festas, com danças que demandam um movimento de pernas impossível de ser imitado, e o filósofo Jean Paul Sartre é frequentemente citado, sob a alcunha de Jean-Sol Partre.

Os dias vão passando e a tragédia se anuncia quando Chloé se descobre com uma doença raríssima: uma flor cresce em seu pulmão. Ela começa a precisar de cuidados médicos constantes e é nesse ponto que o longa começa a se arrastar. Até a metade, tudo corre muito bem, mas o tom muda radicalmente, abandonando o bom humor de então. Com 130 minutos de projeção, a experiência se torna um tanto cansativa até para o mais aguerrido cinéfilo. No escurinho do cinema, à noite, é um convite para o sono. A proposta surreal segue firme até o fim, difícil é não dormir.

E o diagnóstico é: flor!

E o diagnóstico é: flor!

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Novo de Terrence Malick chega aos cinemas

por Marcelo Seabra

To the Wonder

Conhecido por ser avesso a aparições e pelo espaço entre as obras que assina, Terrence Malick parece estar se desfazendo desse segundo item. Foram seis anos entre O Novo Mundo (The New World, 2005) e A Árvore da Vida (Tree of Life, 2011), mas apenas mais um para Amor Pleno (To the Wonder, 2012), novo trabalho do diretor que finalmente chega aos cinemas brasileiros. E já há outros três projetos listados para Malick. Os temas abordados tendem a permanecer os mesmos, com o ser humano e suas peculiaridades em estudo.

Terrence MalickOutra ideia, essa preconceituosa e burra, que geralmente aparece quando se fala de Malick (ao lado) é que ele é um gênio, tudo o que ele faz é fantástico e quem não gosta não entendeu. Como se não fosse possível entender e não apreciar. Amor Pleno, por exemplo,  parece não ter foco, tem narrações pretensiosas que praticamente substituem os diálogos e coloca seu protagonista em uma situação difícil de acompanhar. Não que sejam só problemas, mas o resultado na balança não favorece. A própria falta de diálogos deixa implícita a fé no público, que conseguiria entender tudo sem precisar de explicações, o que é bom. Mas muita coisa fica no ar, em aberto.

Ben Affleck vive o sujeito que parece ser o cerne do longa. Apesar de ser o principal, ele é o que menos se manifesta e a câmera parece fugir dele, reforçando a ideia de um conflito interno, de uma figura tímida e sem respostas claras quanto ao futuro. Com esta atuação minimalista, Affleck se dá bem, mas continua funcionando melhor como diretor (Argo está aí para provar isso). A personagem que alimenta a projeção e cativa o público é a estrangeira vivida por Olga Kurylenko (de Oblivion, 2013). Os dois se conhecem em Paris, começam um romance e acabam indo aos Estados Unidos, morando em uma casinha do interior em uma cidade calma e honesta, aos olhos da moça. Tratando-se de Malick, fica difícil falar em trama, as coisas apenas vão seguindo um rumo e acontecendo. Cabe ao espectador acompanhar a trajetória e interpretar os símbolos dispersados pelo diretor.

Ben Affleck Rachel McAdams

Outros dois destaques do elenco trazem mais interrogações que esclarecimentos. Rachel McAdams (de Meia-Noite em Paris, 2011 – acima) cruza a vida do tal cara pela segunda vez. Fica claro que eles já se conheciam e ela aparece novamente, complicando as emoções dele. E o padre de Javier Bardem (de 007 – Operação Skyfall, 2012) se questiona a respeito de sua fé, ficando totalmente a cargo do espectador definir a importância do personagem para os demais. As teorias possíveis são várias, como a metáfora da busca por Deus em comparação com a busca pelo amor, ambas para se ter um preenchimento para uma existência sem sentido. Ou simplesmente pode-se concluir que Malick não sabia o que fazer com o padre na sala de edição, e reduziu sua participação sem cortá-la totalmente por dó de dispensar um ótimo ator. Outros não tiveram a mesma sorte: Rachel Weisz, Jessica Chastain, Michael Sheen, Amanda Peet e Barry Pepper, todos limados.

Emmanuel Lubezki já é um freqüente colaborador do diretor (em Árvore da Vida e O Novo Mundo, além dos próximos) e as cenas que ele capta são de uma beleza que dificilmente sai da cabeça. Ele consegue transformar cenários comuns e mundanos em fotos marcantes, mostrando que as emoções dos personagens são fundamentais para definir seu ponto de vista quanto ao ambiente, a poesia do local varia de acordo com o humor deles. A trilha de Hanan Townshend varia do clichê ao grandioso, ele é bem sucedido na maior parte. Com tão poucas falas, uma trilha ruim ficaria muito evidente, e o compositor se sai bem. São estes dois pontos altos de Amor Pleno, longa que deve seguir dividindo opiniões, da mesma forma que fez quando lançado no Festival de Veneza em 2012, ocasião em que ouviu-se muitas vaias.

Belas imagens não faltam

Belos quadros não faltam

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Wolverine ganha o filme solo que merece

por Marcelo Seabra

The Wolverine Wallpaper

O Wolverine. Ele é tão famoso que bastava usar o nome, e pronto. A distribuidora preferiu chamá-lo de Wolverine – Imortal (The Wolverine, 2013), trazendo um certo sensacionalismo dispensável e execrado pelos fãs. Depois do abominável Origens (X-Men Origins: Wolverine, 2009), o mais nervoso X-Man bem que merecia uma produção que o tratasse bem. Felizmente, é o que faz este novo longa, que respeita o personagem e, ao mesmo tempo, não se preocupa tanto com a mitologia, focando no básico. Temos um sujeito isolado, se escondendo do mundo e em constante sofrimento. Esse é o Logan que conhecemos.

Na pele do mutante pela sexta vez, a primeira em 3D (convertido e desnecessário), Hugh Jackman novamente faz um ótimo trabalho. Com uma dieta sugerida por Dwayne “The Rock” Johnson e muito exercício físico, ele teve seis meses para se preparar e está realmente gigantesco. Isso não passa despercebido, ele aparece sem camisa frequentemente, para delírio das garotas que farão a boa ação de acompanhar seus namorados. Mesmo tendo passado por vários visuais nos quadrinhos, Logan fica a maior parte do tempo de camiseta e calça, bem civil, a não ser quando requisitado em lutas. Aparecendo mais magro e debilitado em Os Miseráveis (Les Misérables, 2012), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, o ator parece nunca ter abandonado Wolverine, de tão à vontade que se sente em cena. E continua com cara de Clint Eastwood, o que casa muito bem com a situação de cavaleiro solitário.

The Wolverine

Dando sequência ao terceiro filme da franquia X-Men, O Último Confronto (The Last Stand, 2006), a nova aventura coloca Logan vivendo como andarilho nos cantos do mundo, quando é encontrado por uma japonesa que pretende levá-lo ao Japão a pedido de seu chefe, promovendo o reencontro de velhos amigos. Meio a contragosto, Logan aceita e acaba entrando numa grande disputa familiar por dinheiro e poder. No meio, aparece uma proposta tentadora: abrir mão do fator de cura e envelhecer como um humano normal, e eventualmente morrer. É bem comum ver vampiros filosofando a este respeito em ficções um pouco mais profundas, e a questão também toca Logan.

Famoso pelo roteiro premiado de Os Suspeitos (The Usual Suspects, 1996) e já tendo trabalhado na franquia mutante sem ganhar crédito, Christopher McQuarrie foi contratado para escrever The Wolverine. Quando o projeto trocou de diretor, com a saída de Darren Aronofsky, Mark Bomback (de Incontrolável, 2010) e Scott Frank (de Marley & Eu, 2008) foram trazidos para reescrever, mas a fonte seguiu sendo a saga japonesa de 1982 criada por Chris Claremont e Frank Miller. Detratores costumam lembrar de James Mangold pelo fraco Encontro Explosivo (Knight & Day, 2010), mas o diretor também responde por Os Indomáveis (3:10 to Yuma, 2007), Johnny & June (Walk the Line, 2005) e Identidade (Identity, 2003), três bons exemplos de um artista versátil que consegue se sair bem em gêneros tão diferentes. E não podemos esquecer Kate & Leopold (2001), primeira parceria de Mangold com Jackman.

As escolhas mais acertadas em The Wolverine foram esquecer que Origens existe, não partindo dele, e tentar dar um clima mais sombrio e pé no chão. Mesmo que, no terceiro ato, a inspiração vinda dos quadrinhos se torne mais clara. Digamos que as coisas começam com uma grande influência da moda Christopher Nolan e terminem mais próximas à festa de exageros de Os Vingadores (The Avengers, 2012). A ambientação em um Japão mais cru e violento, com máfia e tudo, lembra produções como Chuva Negra (Black Rain, 1989) e O Justiceiro (The Punisher, 1989), também uma adaptação de um anti-herói dos quadrinhos cujo azar foi ter Dolph Lundgren no papel.

Praticamente um ronin, um samurai sem mestre

Praticamente um ronin, um samurai sem mestre

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O Concurso é outra decepção nacional

por Marcelo Seabra

O Concurso

Sempre que uma comédia brasileira chega aos cinemas, torço para que tenha ao menos um aspecto interessante. Tem quem ache que crítico gosta de falar mal, como se alguém gostasse de perder tempo vendo filme ruim. Infelizmente, não foi com a estreia de O Concurso (2013) que a expectativa por um humor nacional bem feito foi saciada. Pelo contrário: clichês, estereótipos e a total falta de graça marcam a produção. Até o cartaz do longa entrega muita coisa, o público já entra na sessão sabendo exatamente o que vai acontecer.

Para que um filme nacional atraia espectadores, é necessário ao menos um nome em ascensão, e este parece ser o de Fábio Porchat, comediante visto em uma penca de séries cômicas de canais globais e em filmes como Vai que Dá Certo (2013) e Totalmente Inocentes (2012). E é logo ele quem parece ter o pior papel: o de gaúcho enrustido filho de um machão linha dura (Jackson Antunes). Como bom carioca que é, Porchat deve fazer os gaúchos de verdade sentirem vergonha alheia – e ele só de vez em quando resolve lembrar do sotaque acentuado do Rio Grande do Sul. O “arco” dramático do personagem é de deixar qualquer um constrangido.

O Concurso cena

Os outros três candidatos ao concurso do título, além do gaúcho, são: o paulista do interior que é extremamente tímido (Rodrigo Pandolfo, de Minha Mãe É uma Peça: O Filme, 2013); o carioca malandro (Danton Mello, de Vai que Dá Certo); e o cearense ligado a orixás, mandingas e trabalhos espirituais (Anderson De Rizzi, atualmente na novelas das nove). O que pode ser dito de bom é que todos estão igualmente ruins, nenhum se destaca em mediocridade. Mello, irmão financeiramente mais viável de Selton, é um mineiro tentando ter a ginga do trambiqueiro praiano. Além de naturalmente lembrar o irmão com aquele jeito manso e cansativo de falar, ele ainda repete uma fala de Meu Nome Não É Johnny (2008), só para deixar claro o parentesco. Pandolfo, coitado, faz o que o roteiro manda, por mais sem nexo que seja, e é o que mais se expõe. De Rizzi poderia bem ser o novo Bernie de Um Morto Muito Louco (1989), ele parece um cadáver ambulante com prótese nos dentes.

Os quatro vivem várias situações que se atropelam e nenhuma delas tem algo remotamente engraçado, e o roteiro parece não se preocupar com isso – nem com ter nexo. O diretor Pedro Vasconcelos faz sua estreia no Cinema e emprega a experiência que ganhou em programas de televisão e novelas, o que fica claro pela falta de criatividade das cenas e dos recursos empregados. Ah, e ele, ou alguém da equipe, achou uma boa ideia ter Sabrina Sato como atriz, o que certamente não deveria ser repetido. Nem para ser só bonita ela serve. E, caso alguém esteja preocupado, não há baixarias com sexo, o filme realmente não consegue despertar nenhuma emoção. Duro é ter praticamente certeza de que, como várias outras ditas comédias recentes, isso deve arrecadar bastante e garantir uma sequência. Quais estereótipos teremos dessa vez? O mineirinho come quieto? O baiano preguiçoso? Só esperaria que tivesse alguma graça.

Elenco e diretor apresentam a bomba

Elenco e diretor apresentam a bomba

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Passado de Michael Fassbender tem coisa boa

por Marcelo Seabra

Eden LakeOs tais slasher movies, filmes sobre matanças desenfreadas que não precisam exatamente seguir uma história, já atingiram o auge e estão sumindo, como toda moda sem propósito. Um deles, no entanto, passou batido no Brasil e merecia um pouco mais de atenção. Sem Saída (Eden Lake, 2008), lançado na Inglaterra em setembro de 2008, chegou aqui tímido, nas locadoras, e tem alguns diferenciais importantes.

O longa começa a ser descoberto principalmente por ser um dos primeiros trabalhos de maior relevância do hoje astro Michael Fassbender, o Magneto de X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). E 2008 foi também o ano de Hunger, primeiro cartão de visitas do ator. Além dele, trata-se da estreia do diretor e roteirista James Watkins no comando de um longa. Seu A Mulher de Preto (The Woman in Black, 2012), também disponível nas locadoras, recebeu algumas boas críticas. A ascensão costuma dar novo fôlego a trabalhos anteriores, e é o que acontece com Sem Saída.

Logo de cara, somos apresentados a um simpático casal, Steve (Fassbender) e Jenny (Kelly Reilly, a esposa do “caro” Dr. Watson da franquia de Sherlock). No fim de um dia de trabalho, eles se preparam para passar o fim de semana à beira de um lago que está em vias de deixar de existir. A região será inundada e parece ser a última oportunidade de Steve para apresentar o lago a Jenny. Perto, percebemos que a população do vilarejo não é muito receptiva, cada um cuidando de sua vida e ponto. Já no lago, conhecemos um grupo de jovens baderneiros que se sentem muito à vontade no lugar.

Eden Lake couple

Incomodado, Steve vai tirar satisfação com os moleques e é desrespeitado. Fica claro que boa coisa não vai sair dali e o casal começa a ter diversos problemas. Quando Steve concorda que é melhor ir embora e deixar para lá, é tarde demais. Até aí, notamos semelhanças temáticas com filmes como os cults Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972) e Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971) e com o péssimo Doce Vingança (I Spit on Your Grave, 2010). Todos abordam as diferenças entre a população de uma cidadezinha, tida como mais rude e perigosa, e protagonistas urbanos, que têm que aprender a se virar em ambiente hostil.

Dois elementos fundamentais marcam Sem Saída. A violência vista parece bem real e é funcional, serve bem à história – ao contrário do que geralmente acontece em slashers, quando um punhado de linhas é escrito apenas para justificar a carnificina sem sentido. O outro ponto importante é o fato de, a partir de certo momento, conhecermos um pouco melhor aqueles “caipiras” juvenis e suas origens.

Fala-se muito em Bullying e os motivos e causas têm sido discutidos em diversos espaços e veículos. Watkins mostra estar por dentro das polêmicas atuais e aproveita para dar um pouco mais de conteúdo a sua obra. Trazer bons atores só ajuda, e ele ainda deixa claro o seu talento para convocar aspirantes a grandes nomes, caso de Fassbender e Reilly. Em A Mulher de Preto, ele conta com uma figura já estabelecida, Daniel Radcliffe, e seu desafio é desassociá-lo de seu personagem mais famoso, Harry Potter. Watkins parece encarar bem as tarefas que assume.

Fassbender vai tirar satisfação com os jovens

Fassbender vai tirar satisfação com os jovens

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O Cavaleiro Solitário revisita o Velho Oeste

por Marcelo Seabra

The Lone Ranger

Quando um filme vai mal nas bilheterias no exterior, já chega por aqui com má fama. Como se o simples fato de ter levado (relativamente) poucos americanos aos cinemas atestasse a ruindade da obra. No ano passado, o grande fracasso sob esse ponto de vista financeiro foi John Carter, que deu um belo prejuízo à Disney, a mesma que agora amarga a fraca estreia de O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, 2013), longa baseado em um personagem antigo, que hoje não tem apelo algum junto ao público, e que ainda é confundido com o Zorro, para piorar. Para ser justo, é preciso esclarecer que não se trata de um filme ruim: é uma aventura mediana que pode encontrar seu público. Apenas não conseguirá empatar seu orçamento megalomaníaco, na casa de US$ 250 milhões.

O personagem surgiu no rádio, em 1933, e logo ganhou livros e até um programa de televisão. Ele supostamente foi inspirado no policial federal Bass Reeves, que cuidava de territórios indígenas no final do século XIX. Com o tempo, ele foi ganhando características marcantes até chegar ao que temos hoje: um justiceiro mascarado chamado John Reid que combate o crime no velho oeste montado em um belo cavalo branco, chamado Silver, acompanhado pelo fiel amigo Tonto. O marcante tema musical é parte da ópera Guilherme Tell, de  Gioachino Rossini. Curiosamente, os mesmos George Trendle e Fran Striker, criadores do Cavaleiro, são também responsáveis por Britt Reid, ou o Besouro Verde, e estabeleceram que Dan Reid Jr., sobrinho de John Reid, seria o pai de Britt.

The Lone Ranger duo

Para o renascimento do personagem no Cinema, o superprodutor Jerry Bruckheimer chamou seu parceiro Gore Verbinski, com quem trabalhou na bem sucedida série Piratas do Caribe, e vieram também os mesmos roteiristas, Ted Elliot e Terry Rossio, com a adição de Justin Haythe (de O Acordo, 2013). A ideia, claro, era repetir a arrecadação milionária das crônicas do pirata Jack Sparrow, e nada melhor do que chamar o próprio para estrelar. Johnny Depp, então, entrou a bordo para viver Tonto, quase roubando os holofotes do protagonista, que ficou a cargo de Armie Hammer, mais lembrado como os gêmeos de A Rede Social (The Social Network, 2010) ou como o escudeiro de Hoover em J. Edgar (2011). Fica a dúvida: se o cavaleiro tem sempre o índio ao lado, como ele pode ser solitário?

O John Reid de Hammer é um advogado pacifista  que volta à sua cidadezinha natal, no meio da poeira do Texas de 1869, e se vê no olho do furacão. Os policiais federais (chamados de Rangers) se preparavam para escoltar o perigoso Butch Cavendish (William Fichtner, de O Cavaleiro das Trevas, 2008) e o índio Tonto (Depp) à forca. Dan Reid (James Badge Dale, de Homem de Ferro 3, 2013), irmão de John, é um deles e o recruta para a missão. Paralelamente, acompanhamos a construção de ferrovia, projeto encabeçado pelo poderoso Cole (Tom Wilkinson, de Missão Impossível 4, 2011), e conhecemos Rebecca The Lone Ranger RWReid (Ruth Wilson, de Anna Karenina, 2012), a esposa de Dan. As circunstâncias fazem com que John se associe a Tonto, e ele passa a usar uma máscara para esconder sua identidade e fazer justiça. O elenco é reforçado por Helena Bonham Carter (de Os Miseráveis, 2012), como a prostituta-mor, e Barry Pepper (de Bravura Indômita, 2010), que vive o capitão da cavalaria. Quando Wilson, a típica mocinha em perigo, está em cena, é impossível não encarar aqueles lábios ridículos (ao lado).

Como, o tempo todo, o Tonto velhinho está contando a história a um garoto em 1933, tudo pode ser invenção. E interromper frequentemente o desenrolar da ação para voltar nesses dois se torna algo bem irritante. O roteiro trata John Reid como um sujeito mais bobo do que deveria, e ele é sempre alvo das piadas de Tonto. A dupla é responsável por várias sequências engraçadas, algumas delas além da medida por caracterizar Reid como um paspalho. A maior parte da ação também é com eles, claro, e é aí que está o maior exagero. Apesar da ausência de invenções ou superpoderes, a obra lembra o clima de As Loucas Aventuras de James West (Wild Wild West, 1999) e Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (AL: Vampire Hunter, 2012), e não dá para evitar a comparação com os dois longas de Zorro com Antonio Banderas, situados em um universo parecido. Os dois personagens inclusive costumam ser confundidos.

Apesar das falhas, da longa duração e do roteiro extremamente convencional e formulaico, O Cavaleiro Solitário não deixa de ser um passatempo divertido, com uma bela trilha de Hans Zimmer e boas atuações. Fica a sensação de que os envolvidos se consideravam em um jogo ganho, atraindo espectadores com a presença de Depp e gastando horrores com cenas espetaculares de explosões e perseguições. Faltou alma, um desenvolvimento minimamente razoável para os personagens – principalmente Reid – e um pouquinho de coragem para fugir de esquemas pré-concebidos. Verbinski visitou o velho oeste com um resultado melhor na animação Rango (2011), onde ele partia de homenagens ao gênero para criar uma história criativa e cativante. E dificilmente poderemos esperar uma abordagem melhor numa continuação, já que um prejuízo esperado de US$ 150 milhões enterra de vez essa hipótese.

Tonto leva um papo com Silver

Tonto leva um papo com Silver

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Judd Apatow fala da vida aos 40

por Marcelo Seabra

This is 40

Em 2007, o produtor, roteirista e diretor Judd Apatow criou Ligeiramente Grávidos (Knocked Up), comédia sobre um casal nada a ver, de uma noite apenas, que descobre que, depois de nove meses, haverá uma conseqüência para este encontro furtivo. Um casal coadjuvante, a irmã e o cunhado da grávida, ganham uma participação maior e, em 2012, Apatow resolveu trazê-los às telas novamente. Bem-vindo aos 40 (This Is 40) revela como anda a vida de Pete e Debbie ao chegar nessa temida idade, mantendo o mesmo tipo de humor que Apatow emprega em tudo o que faz.

Repetindo os papéis, Paul Rudd (de As Vantagens de Ser Invisível, 2012) é acompanhado por Leslie Mann (de Eu Queria Ter a Sua Vida, 2011), que é esposa de Apatow e leva as filhas junto, Maude e Iris. Ou seja: esta é uma família real, com Rudd como o alter-ego de Apatow, o que já deixa claro trazer experiências autobiográficas do marido e pai. Muitas das situações podem ser vistas como engraçadas por quem não está envolvido, o que vai garantir algumas risadas do espectador. Mas, como de costume, a maior parte desses problemas se estende ao ponto de não ser mais engraçada, chegando bem próximo do que acontece na vida das pessoas. O bom humor dá lugar ao ressentimento, à raiva, a dúvidas.

This Is 40

Pete é dono de uma gravadora que anda focando em artistas mais velhos que já não têm mais atenção da mídia. O que significa dar murro em ponta de faca, algo nada bom para os negócios. O cara é o seu ídolo, mas não necessariamente vai atrair público e lucro. Pete resiste a abrir a situação para Debbie, e ela tem seus próprios problemas: a loja que ela administra está sendo roubada e uma das funcionárias é a provável ladra. Em casa, nada é mais fácil: uma filha enfrenta a chegada conturbada da menstruação e o crescente interesse por meninos, enquanto a mais nova se sente deixada de lado.

As figuras que cercam os protagonistas são um caso a parte. Há diversos atores, entre veteranos e outros mais novos, que roubam os momentos em que estão em cena, começando pelos “pais” Albert Brooks (de Drive, 2011) e John Lithgow (de Os Candidatos, 2012). Um é o extremo do outro, mas têm em comum os desafios conjugais com esposas mais jovens e filhos pequenos. Tatum O’Neal, Lena Dunham, Chris O’Dowd, Megan Fox, Jason Segel e Robert Smigel são alguns dos nomes vistos, além dos cantores Ryan Adams, Billie Joe Armstrong e Graham Parker. A aborrecida Melissa McCarthy, do deplorável Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011), ganha uma ponta interessante.

Apatow já está em seu quarto longa como diretor (tem também O Virgem de 40 Anos, de 2005, e Ta Rindo do Quê?, de 2009) e mantém sempre o mesmo tipo de abordagem. Ele procura mostrar personagens críveis, com problemas que podemos enfrentar no dia a dia, mas acaba exagerando os contextos e prolongando situações até chegarem a ser irritantes. O resultado é bastante irregular e até cansativo. Piadas com a finada série Friends (da qual Rudd participou) e com a condição de Midas da TV de J.J. Abrams não são o suficiente para segurar a peteca no ar. E durar mais de 130 minutos não ajuda.

O diretor leva a família à estreia

O diretor leva a família à estreia

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Sobra estilo aos Stokers

por Marcelo Seabra

Criar uma atmosfera de suspense não é das tarefas mais simples, e muitos longas são prejudicados exatamente pela falta de uma. Outros podem sofrer pela falta de conteúdo, primando apenas pela atmosfera. É a vitória da forma sobre a essência, e é disso que sofre Segredos de Sangue (Stoker, 2013), obra que marca a estreia do coreano Park Chan-wook em Hollywood. Muitos creditam a falta de audácia do filme às amarras que certamente os produtores impuseram ao diretor, que se mostrou mais corajoso e coerente em sua famosa trilogia da Vingança.

Claramente inspirado por Hitchcock e seu A Sombra de uma Dúvida (The Shadow of a Doubt, 1943), Wentworth Miller (mais conhecido como o Michael de  Prison Break) escreveu a história de uma família bem incomum. Com frequência, algumas pistas são jogadas e levantamos certas suspeitas sobre aqueles personagens, mas as expectativas morrem na praia. O título original, Stoker, é o sobrenome da família, e uma referência óbvia ao autor de Drácula, Bram Stoker. Não se trata de vampiros, como Miller reforçou em entrevistas, mas de uma metáfora para a pessoa que alimenta o fogo em uma fornalha, o “stoker”, em inglês.

Assim como em A Sombra de uma Dúvida, temos uma garota na transição para o mundo adulto (Mia Wasikowska, de Os Infratores, 2012) e a chegada de um tio Charlie extremamente suspeito (Matthew Goode, de Direito de Amar, 2009). Charlie resolve voltar e passar um tempo com a cunhada (Nicole Kidman, de Reféns, 2011) e a sobrinha pela ocasião da morte do irmão, Richard (Dermot Mulroney, de A Perseguição, 2011). As coisas começam aí, e passamos a conhecer um pouco melhor aquelas pessoas, quando também começam a surgir suspeitas.

Stoker scene

Depois de levantar algumas possibilidades, o roteiro simplesmente vai avançando sem esclarecer muita coisa, chegando a um final descabido. O clima de suspense é muito interessante, usando uma mansão cheia de sombras e conversas proibidas, mas a ambivalência sugerida não chega a lugar algum. Por que Charlie é mostrado como um ímã sexual, que atrai até as colegiais? Temos mesmo que acreditar que Goode é assim tão irresistível? E o passatempo favorito de pai e filha, tinha uma razão ou era só uma opção do pai? E a ligação entre sobrinha e tio, o que tinha de tão especial?

Há momentos em que é certo que alguém mostrará os dentes caninos protuberantes. Em outros, era questão de segundos até que Dexter, o psicopata mais legal da TV, aparecesse. O final deixa uma sensação de promessas não cumpridas, e de desperdício: Wasikowska e Kidman estão muito bem como mãe e filha, elas têm uma ótima sintonia. Pena que suas ações parecem fugir de uma lógica, apenas cumprindo tabela. Chan-wook se sai melhor quando tem mais liberdade criativa, quando o roteiro é dele e quando trabalha com seus compatriotas.

Elenco e diretor apresentam o longa em Londres

Elenco e diretor apresentam o longa em Londres

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Minions roubam Meu Malvado Favorito 2

por Marcelo Seabra

Despicable Me 2

Em 2010, foi lançada uma animação que arrecadou mais de 500 milhões de dólares pelo mundo. Isso já seria o suficiente para justificar uma sequência para Meu Malvado Favorito, e ela chega agora aos cinemas do Brasil. Para ser protagonizado por um vilão, o filme teria que ser equilibrado por algo mais ameno, ou não atingiria as crianças. Por isso, além de três crianças órfãs, ele conta também com os Minions, criaturinhas engraçadinhas que, mais do que nunca, dominam o show – e são usadas descaradamente para tal.

No início de Meu Malvado Favorito 2 (Despicable Me 2, 2013), Gru já não é mais um vilão. Ele é um pacato pai de três meninas que pretende produzir geléias e gelatinas para vender, e mantém apenas um pouco de seu mau humor. Sua rotina tranqüila é abalada pela chegada de Lucy Wilde, funcionária de uma agência anti-vilões que o recruta (à força) para ajudá-los. Um frasco contendo uma fórmula perigosa foi roubado, eles não têm nem ideia de quem seria o culpado e Gru, com sua mente naturalmente maligna, poderia encontrar o responsável. Gru e Lucy terão que trabalhar juntos, seguindo a pequena pista que têm, para impedir que algo muito ruim aconteça.

Despicable Me 2 Toys

No elenco de dubladores, alguns dos nomes do primeiro filme se repetem, começando por Steve Carell (de Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo, 2012), o protagonista. O sotaque estranho, que é até motivo de piada, continua afiado, mas dificilmente teremos a oportunidade de conferir nos cinemas nacionais. Se um filme de zumbis como Guerra Mundial Z (World War Z, 2013) tem maioria de cópias em exibição dubladas, imagine um desenho! Kristen Wiig (de Missão Madrinha de Casamento, 2011), a maldosa sra. Hatie do primeiro, volta em outro papel, como a agente Wilde. Ken Jeong (de Se Beber Não Case) também trocou de papel, passando do apresentador de programa para o dono da loja de perucas. Russell Brand (de Rock of Ages, 2012) volta como Dr. Nefário, o cientista louco que não quer deixar de ser mau. A principal nova aquisição é Benjamin Bratt (de O Acordo, 2013), que vive o dono do restaurante mexicano Eduardo, papel que foi discutido com Javier Bardem e que chegou a ter Al Pacino contratado, mas desistiu por diferenças criativas. Steve Coogan (de Ruby Sparks, 2012), outra novidade, faz o chefe da liga anti-vilões. No elenco nacional, Leandro Hassum é Gru, Maria Clara Gueiros faz Lucy e Sidney Magal é Eduardo.

É engraçado quando dizem que determinado filme é para a família: pode esperar que seja voltado para crianças. Se é para a família, deveria ter algo que atraísse os pais, como na franquia Shrek, que mistura criaturas bonitinhas a um humor subversivo, agradando a todos. Essa nova aventura de Gru, como a anterior, não tem inovações, não foge de velhas fórmulas do Cinema e não traz reflexões relevantes, como os três Toy Story. Para compensar as faltas, sobram Minions, aqueles bichinhos que falam uma língua própria e ajudam Gru a realizar maldades, a limpar a casa, cozinhar e o que mais ele precisar. Eles chamam a atenção, protagonizam apresentações musicais e têm até um uso maior nesta continuação, se envolvendo mais na ação. Não é a toa que já há um longa prometido para 2014 estrelado por eles, sem as distrações destes dois primeiros.

Eis os astros do longa!

Eis os verdadeiros astros do longa!

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Duas análises do novo Homem de Aço

por O Pipoqueiro

Man of Steel

Uma estreia dessa grandeza, que criou tanta expectativa (leia aqui), merece não uma crítica, mas duas. Confira abaixo as duas visões, que não diferem tanto, e se assemelham também evitando spoilers. Pode ler sem medo de estragar nada.

Superman ainda não consegue alçar um voo digno nos cinemas

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Man of Steel scene

Como vocês puderam conferir num artigo anterior, a expectativa pelo novo filme do Super-Homem (ou Superman, como queiram), O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) era altíssima por aqui. Ao subirem os créditos ao final da película, ficou patente que essa expectativa fora exagerada e o filme fica muito abaixo do que era esperado, especialmente se levarmos em conta os nomes de seus realizadores: este novo reboot foi escrito por David S. Goyer e produzido por Chris Nolan – respectivamente escritor/roteirista e diretor da aclamada trilogia Batman – e dirigido por Zack Snyder, um nome que se tornou bastante renomado entre os fãs de quadrinhos graças ao seu trabalho em 300 (2006) e Watchmen (2009). A química, dessa vez, não deu liga.

Uma das maiores críticas a Superman: O Retorno (Superman Returns), de 2006, foi o fato de o filme ter muito pouca ação. O Homem de Aço parece tentar compensar isso e se torna uma produção que, honestamente, lembra mais uma mistura de um filme de Michael Bay com um filme catástrofe de Roland Emmerich, tamanhos os níveis de ação e destruição que ele proporciona. A história em si, que deveria ser o principal atrativo de qualquer filme, muitas vezes fica em segundo plano.

Como todo reboot, o longa traz uma história de origem. Ele se inicia em Krypton, um planeta que está à beira da destruição devido ao fato de sua população, ainda que altamente evoluída, tenha praticamente exaurido seus recursos naturais. Pior: ao tentarem obter minerais retirando-os do próprio núcleo do planeta, acabam tornando esse mesmo núcleo instável. Apesar da destruição iminente, o cientista Jor-El (Russel Crowe, de Os Miseráveis, 2012) propõe uma forma de salvar pelo menos parte do legado de Krypton, mas sua iniciativa nem sequer chega a ser considerada. Ao mesmo tempo em que ele a apresenta, uma tentativa de golpe de Estado está sendo levada a cabo pelo General Zod (Michael Shannon, de Boardwalk Empire – abaixo). Jor-El consegue enganar temporariamente as forças do general e garantir a sobrevivência de Krypton ao inserir o codéx – matriz genética da qual todo kryptoniano é gerado, já que Krypton abolira a reprodução natural de seus cidadãos – nas células de seu filho Kal, o primeiro bebê kryptoniano gerado por concepção natural em milênios. Depois de muita briga – com Jor-El mostrando seus conhecimentos de artes marciais – a história segue mais ou menos como tradicionalmente se conhece: Kal-El é colocado em uma nave espacial e enviado para ser criado na Terra; Jor-El é morto; Zod e seus comparsas são presos e condenados a uma prisão na chamada “Zona Fantasma”; e Krypton explode.

Krypton

Trinta e três anos se passam e vemos um homem desconhecido (Henry Cavill, de Imortais, 2011), barbado, realizando feitos impossíveis para um ser humano normal ao mesmo tempo em que segue uma vida nômade para impedir que as pessoas descubram seu segredo e coloquem seus entes queridos em perigo. Através de flashbacks, descobrimos que seu nome é Clark Kent e que ele fora encontrado e criado por um casal de agricultores, Jonathan e Martha Kent (Kevin Costner, de Hatfields & McCoys, e Diane Lane, de Secretariat, de 2010), que lhe ensinaram não só a controlar, mas, dentro do possível, esconder suas extraordinárias habilidades.

A coisa toda começa a degringolar para Clark quando ele está prestando serviços para o exército norte-americano em uma missão no norte do Canadá que examina uma espécie de veículo enterrado sob toneladas de gelo. A chegada da repórter Lois Lane (Amy Adams, de Curvas da Vida, 2012) ao mesmo local faz com que a história comece a andar mais rapidamente. Paralelamente a isso, o planeta é visitado por uma nave alienígena, tripulada por Zod e seus comparsas – que conseguiram escapar da Zona Fantasma quando da explosão de Krypton –, que passaram os últimos 33 anos em busca do “último filho de Krypton”. Dizer mais do que isso – e muito já foi dito – estragaria a experiência do filme pro leitor que ainda não assistiu à película.

O Homem de Aço tem seus méritos, mas, infelizmente, a maior parte deles se resume à parte técnica. Os efeitos especiais são praticamente perfeitos e Zack Snyder sabe como trabalhar com eles. Todo o elenco tem atuações que não comprometem – ainda que não se destaquem – e há até uma química decente entre Cavill e Adams. O roteiro, que chega a reciclar até mesmo situações vistas no primeiro Homem-Aranha (Spider-Man, 2002), no entanto, não funciona. Mesmo aqueles que não são fãs dos quadrinhos do personagem notarão que ele está bastante descaracterizado e isso causa incômodo. O fato é que, quando os produtores chamaram Christopher Nolan e Goyer para o projeto, eles queriam que a dupla conseguisse inserir aquele aspecto de “mundo real” no filme da mesma forma que fizeram na trilogia do Homem-Morcego. Infelizmente, o Superman não é o Batman e essa abordagem mais realista e até mesmo sombria, pelo menos nessa primeira tentativa, não deu certo. Apesar da boa bilheteria no exterior e da garantia de uma continuação, O Homem de Aço mostra que, na briga nas telas do cinema entre DC e Marvel, a Warner Brothers (dona da DC) ainda tem muito a aprender com a sua concorrente.

Man of Steel Wallpaper

Homem de Aço destrói até sua própria mitologia

por Marcelo Seabra

Finalmente, já estão disponíveis as primeiras pré-estreias do aguardado O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), longa que retoma a carreira cinematográfica do Super-Homem – que está na geladeira desde o fracasso de Superman – O Retorno (Superman Returns, 2006). O herói ganhou um tratamento similar ao que deu muito certo com Batman, tentando lhe dar um aspecto mais real, pé no chão. Na prática, vemos que isso é mais fácil de fazer com um milionário que teve os pais assassinados que com um alienígena indestrutível que vive na Terra desde bebê. Os realizadores tiveram carta branca para mudarem o que acharam necessário nas origens conhecidas do personagem, o que deve desagradar muitos fãs.

Como é um herói mais do que conhecido, há alguns elementos que rodeiam o Super-Homem que já são esperados em um filme. Romance é um deles, e humor passou a ser após as palhaçadas feitas com a cinessérie das décadas passadas. Talvez, a falta destes dois elementos tenha feito alguns se desanimarem um pouco com a nova aventura. De fato, o clima sisudo da produção dificilmente se quebra, um pouco de humor não faria mal. Do romance, sinceramente, não dá para sentir falta. Ele aparece, mas bem dosado, numa medida aceitável, que não vira o centro das atenções. Uma coisa irritante é a necessidade de sempre se voltar à origem, que já foi mais do que explicada, e os envolvidos ainda acabam se vendo na obrigação de acrescentarem algo novo, para justificar recontar tudo. O mesmo se observou no recente O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012), que se enrolou ao inventar em cima do que todos já sabiam. Bastava uma introdução bem feita situando o público, como acontece em Superman II (1980).

Clark

O básico é o que todos já sabiam: um menino cresce na fazenda dos Kent, cidadãos do interior dos EUA que parecem ser modelos de integridade e cidadania. Em meio a flashbacks, conhecemos a história de seu planeta-natal, Krypton, que explodiu em decorrência da exploração desmedida de seus recursos naturais. Jor-El, um cientista kryptoniano, envia seu filho numa nave prevendo que ele seria um deus na Terra, já que as características do planeta fariam o pequeno ser muito poderoso. O garoto cresce tendo que lidar com suas diferenças: desde cedo, ele se descobre muito mais forte que os outros, além de talentos como uma audição sobre-humana, entre outros que vão aflorando com o tempo. Já crescido, Clark decide sair pelo mundo ajudando pessoas, aceitando trabalhos diversos e conhecendo melhor os humanos. Seu pai adotivo havia alertado-o para o risco de se mostrar, dizendo que o planeta não estaria pronto para tantas descobertas, como não estarmos a sós no universo. Por isso, ele se mantém anônimo.

No espaço, nesse momento, Zod, um general dissidente de Krypton que estava preso com seus asseclas na Zona Fantasma, consegue rastrear o filho de seu antigo aliado, Jor-El. Um encontro se dará na Terra e é aí que as coisas começam a ficar aborrecidas. Enquanto o filme cuida de desenvolver seus personagens, tudo corre bem, mesmo com as tais alterações na origem clássica. Mas, quando começa a ação desenfreada e genérica que mais lembra as destruições de Roland Emmerich, o filme fica bem chato. Não vale a pena entrar em mais detalhes, mas alguns fatos estranhos que aparecem a partir daí não fazem muito sentido e fica a sensação que o foco foi concentrado numa parte da trama, deixando a outra para se resolver em dois minutos, no finalzinho. E descaracteriza-se ainda mais o Super-Homem, que teoricamente nunca causaria tantos prejuízos no centro de Metrópolis.

MAN OF STEEL

No campo dos atores, não há altos e baixos, fica tudo em campo seguro. Para o papel principal, corrigindo um dos erros de O Retorno, que contava com um ator totalmente inexpressivo, foi chamado Henry Cavill (mais aqui), lembrado como o Charles Brandon da série The Tudors – seus últimos trabalhos no Cinema não merecem ser citados. Ele tem uma atuação discreta e adequada, e mostra músculos compatíveis com o título de Homem de Aço. O longa exige menos de Cavill, que não precisa buscar a versatilidade de um Christopher Reeve, por exemplo. Por falar em Reeve, há uma cena, um close, que aproxima bastante os dois atores. A nova Lois, a cargo de Amy Adams (de O Mestre, 2012 – abaixo), é infinitas vezes melhor que a anterior e cumpre bem sua missão.

Temos duas encarnações distintas de Robin Hood como pais de Kal-El/Clark: Kevin Costner (o Príncipe dos Ladrões de 1991) é Jonathan Kent e Russell Crowe (o Hood de 2010) é Jor-El, e ambos têm papéis fundamentais na jornada do filho. Diane Lane (de Killshot, 2008) e Ayelet Zurer (de Ponto de Vista, 2008) vivem as mães, a terráquea e a kryptoniana. O General Zod, que na cabeça de todos ainda é o megalomaníaco de Terence Stamp, de Superman II, ficou com Michael Shannon (de O Abrigo, 2011), e é de longe a figura mais marcante do filme. A competência de Shannon supera a escorregada da maquiagem (ou falta de) e permite a Zod ter um arco melhor construído. Laurence Fishburne (da série Hannibal) fecha o elenco principal como Perry White, o editor do Planeta Diário.

O grande responsável pelo renascimento de Batman, Christopher Nolan, foi contratado pela Warner como produtor e consultor criativo, e escreveu o roteiro ao lado de seu parceiro David Goyer, também da trilogia. Essa era a garantia do tom sombrio buscado pelos executivos. Para a direção, depois de aclamado por duas adaptações de quadrinhos, Zack Snyder assumiu. Com 300 (2006) e Watchmen (2009) no currículo, ele era mais do que capacitado, e de fato a parte técnica é impecável. Os efeitos visuais são ótimos, as caracterizações são perfeitas. Mas, nos dois trabalhos anteriores de Snyder, nos preocupamos com a integridade física dos personagens, nos envolvemos, o que não acontece aqui. Ele poderia ter se preocupado menos com mudanças e mais com a alma do filme, a dualidade Superman/Clark Kent.

Há escolhas corajosas, mas a longa duração do trecho “destruição” enfraquece o resultado, além dos afobados minutos finais. E, para quem esperava algo à altura de John Williams, só resta se contentar com a trilha sem graça de Hans Zimmer. Uma sequência, já certa, poderá ir muito mais longe, podendo pular a batida origem do herói e desenvolver uma história bacana. Quem sabe, teremos pela primeira vez um bom uso para o grande Lex Luthor no Cinema?

Homens de aço da TV e do Cinema

Homens de aço da TV e do Cinema: Reeve, Dean Cain, Tom Welling, Routh e Cavill

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