Tornatore e Rush oferecem O Melhor Lance

por Marcelo Seabra

La Migliore Offerta

Mais lembrado por ter escrito e dirigido o belíssimo drama Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988), o italiano Giuseppe Tornatore agora assina O Melhor Lance (La Migliore Offerta, 2013), suspense moderado que fez alguns críticos desmedidos chegarem a mencionar o nome Hitchcock em suas análises. Fora a comparação absurda, a obra de fato consegue criar uma atmosfera de tensão interessante, e ainda tem um grande trunfo: contar com mais uma ótima atuação de Geoffrey Rush – conhecido pelo grande público como o Barbossa da milionária franquia Piratas do Caribe.

Com locações em cidades européias, a classe do longa é reforçada pela elegância do personagem de Rush, um importante leiloeiro que domina seu trabalho como nenhum outro, mas tem dificuldades na relações pessoais. Os que mais se aproximam da figura de amigo para Virgil Oldman são Billy (Donald Sutherland, de Jogos Vorazes), um trambiqueiro que o ajuda a arrematar quadros importantes por uma quantia bem inferior, e Robert (Jim Sturgess, de A Viagem, 2012), um jovem restaurador que faz pequenos trabalhos para ele. Não há uma mulher em sua vida e sua solidão chega a ponto de comemorar seu aniversário sozinho. Só seus quadros lhe fazem companhia.

Rush

Uma cliente, no entanto, se torna uma obsessão: a rica órfã Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks) contrata a firma de Oldman para fazer um inventário das muitas obras deixadas por seus pais. Instala-se um jogo de gato e rato entre eles, já que Claire se recusa a aparecer pessoalmente, só tratando por telefone. O mistério que cerca a jovem vai tirar o experiente leiloeiro de sua zona de conforto, e uma sensação de que há algo errado vai ficando mais forte. A sutileza da interpretação de Rush dá lugar a repentinos acessos de raiva que mostram os extremos do talento do ator, que sempre evita qualquer caricatura nessa cuidadosa composição. De longe, é o artista em cena que mais chama a atenção e mantém em si o olhar do espectador. O que, quando Sutherland aparece, não deixa de ser uma tarefa difícil.

Outro fator de O Melhor Lance a ser destacado é a composição dos cenários. A riqueza dos personagens não inclui exageros e é sempre ressaltada por objetos e figurinos finos, que denotam berço, por parte da garota, e requinte, por Oldman. Tornatore usa todos esses elementos para criar um bom clima de suspense, que vai crescendo até chegar ao final, que pretende ser surpreendente. A vantagem, para o cineasta, de deixar as coisas em aberto é que cada um interpreta como achar que deve, e quem não gostar é acusado de querer tudo redondinho, fechado. Mas excesso de pontas soltas pode levar a buracos, insatisfações e pulgas atrás da orelha. Não chega a estragar a experiência, que vinha sendo bem acima da média. Só segura o resultado pra baixo.

O diretor conduz seu protagonista

O diretor conduz seu protagonista

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Marvel arrisca e acerta com Guardiões da Galáxia

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Guardians

Com Capitão América 2 (Captain America: The Winter Soldier, 2014), a Marvel Studios saiu um pouco de sua zona de conforto – os filmes de super-heróis cheios de ação e aventura – para pintar seu universo com cores mais cinzentas e adentrar o mundo sombrio das tramas de espionagem. Visando continuar essa expansão, em outra direção, Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014) tinha a função de levar o Universo Marvel para o espaço sideral, pavimentando o que os fãs especulam como sendo o caminho para a trama que servirá de base para Os Vingadores 3. Por mais arriscado que isso fosse, devido à completa obscuridade dos personagens, é inegável que a Marvel Studios sabe exatamente o que faz e aonde quer chegar, já que o longa é muito divertido e cumpre seu papel secundário nesse universo com bastante louvor.

Como um bom filme de origem, a trama, escrita a oito mãos por James Gunn (de Super, 2010, que também assina a direção), pela estreante Nicole Perlman e pela dupla Dan Abnett e Andy Lanning, responsáveis pela repaginação dos Guardiões nos quadrinhos, começa em 1988 quando, depois de um evento traumático, o pequeno Peter Quill (Chris Pratt, da série Parks and Recreation) é abduzido por uma nave de Saqueadores, um grupo de criminosos espaciais. Vinte seis anos depois, encontramos Peter, agora um projeto de criminoso que se intitula Senhor das Estrelas, em um planeta distante cumprindo a missão de roubar um estranho orbe a ser vendido por uma quantia obscena de dinheiro. O orbe, no entanto, é mais do que aparenta ser e a coisa toda se complica quando Peter se defronta com uma equipe a serviço de Ronan, o Acusador (Lee Pace, de O Hobbit: A Desolação de Smaug, 2013), que também está à procura do objeto. Quill foge e, ao tentar comercializar o orbe sozinho, também atrai a ira do líder dos saqueadores, Yondu Udonta (Michael Rooker, da série The Walking Dead), que coloca sua cabeça a prêmio.

Guardians characters

Quill então passa a ser o alvo tanto de Gamorra (Zoe Saldana, de Além da Escuridão: Star Trek, 2013), uma subordinada de Ronan, quanto da dupla de caçadores de recompensas formada por Rocky, um guaxinim geneticamente modificado (voz de Bradley Cooper, de O Lado Bom da Vida, 2012) e Groot, um ser humanóide vegetal (voz de Vin Diesel, da franquia Velozes e Furiosos). Todos eles acabam se envolvendo em uma grande confusão no planeta Xandar e, ao serem presos, se confrontam com Drax, o Destruidor (Dave Bautista, de Riddick, 2013), um alienígena movido pelo desejo de vingança contra Ronan. Unidos por um objetivo em comum, os futuros Guardiões da Galáxia precisarão enfrentar seu maior desafio: salvar todo o universo da destruição planejada pelo Acusador.

Um dos trunfos de Guardiões da Galáxia é que em nenhum momento o filme se leva a sério. O que temos aqui é uma comédia de ação em que piadas são disparadas a todo minuto, que combina muito com o estilo “um bando de sujeitos disfuncionais que precisa se unir pra atingir um objetivo comum”. Apesar de apresentar diversos clichês encontrados em demais filmes do gênero, o roteiro acerta em cheio na maioria dos alvos, deixando a desejar apenas ao explorar muito pouco as motivações do Colecionador (personagem de Benicio Del Toro que aparece na primeira cena pós-créditos de Thor: O Mundo Sombrio, 2013). A direção de Gunn também funciona a contento, com o humor negro já visto em seus longas anteriores (que também contavam com participações de Rooker, Gregg Henry e Sean Gunn, seu irmão). Além dos principais, o elenco ainda conta com participações de peso, ainda que em papéis menores, como Glenn Close (da série Damages), John C. Reilly (de Detona Ralph, 2012) e Djimon Hounsou (de Como Treinar seu Dragão 2, 2014).

Com uma trilha sonora inspiradíssima e bem justificada, Guardiões da Galáxia cumpre bem todos os papéis para os quais foi planejado. É um filme divertido, expande o Universo Marvel nas telas, já que inaugura uma nova franquia, traz elementos de ligação com filmes anteriores e por vir da Marvel e, principalmente, se sustenta sozinho. Mesmo quem nunca viu nada da Marvel no cinema pode assisti-lo sem quaisquer problemas, assim como quem não conhecia os personagens.

Guardians action

Sobra humor, mas não falta ação no longa

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Rainn Wilson é o menos Super possível

por Marcelo Seabra

Super posterQuando foi anunciado que James Gunn seria o diretor de Os Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014), muita gente deve ter se surpreendido. Afinal, o que este cara teria na bagagem que o credenciaria para comandar um longa do universo Marvel? Depois da estreia com o nojento e engraçado Seres Rastejantes (Slither, 2006), Gunn partiu para sua primeira empreitada ligada a super-heróis e criou Super (2010), uma espirituosa mistura de gêneros estrelada por um sujeito comum que decide combater o crime. Parece ter sido o suficiente para garantir a vaga na adaptação dos quadrinhos.

Uma mistura de farsa e drama com grandes pitadas de violência explícita, Super é um filme estranho. Melhor dizendo, diferente, ou não convencional. Também escrita por Gunn, a história nos apresenta a Frank (Rainn Wilson, da série The Office), um cozinheiro de lanchonete tirado de seu comodismo quando a esposa (Liv Tyler, de O Incrível Hulk, 2008) o deixa. Psicologicamente abalado, Frank se inspira em um herói ridículo da TV e decide vestir uma fantasia – feita por ele próprio – e partir para a luta contra o crime. Mas não espere ver uma figura pomposa e imponente: Crimson Bolt é o extremo oposto.

Super casal

Não só o protagonista não tem poder algum como sua falta de jeito é incrível. Seu bordão, “Cale a boca, crime!”, é fantástico, combinando perfeitamente com o resto. E a hipotética excitação da vida de vigilante coloca uma atendente de loja de quadrinhos como ajudante de Frank. A garota (Ellen Page, de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, 2014) se intitula Boltie e consegue ser mais desmiolada que o parceiro. Completa o elenco principal Kevin Bacon (da série The Following), como o antagonista, o traficante por quem Sarah se apaixona, o que a leva a sair de casa. E não poderiam faltar os três mais habituais colaboradores do diretor: Gregg Henry, Michael Rooker e o irmão Sean Gunn, todos em papéis menores.

Com um orçamento claramente baixo, Gunn conta uma história interessante com um personagem carismático. Chegamos até a sentir pena de Frank, um perdedor nato que mais cedo ou mais tarde perderia a linda esposa, um baque muito difícil para ele superar. As limitações físicas e intelectuais dele tornam ainda mais fácil a identificação ou, ao menos, a torcida por seu sucesso. Com animações engraçadinhas no lugar de efeitos especiais, Gunn assina um trabalho tosco, que não se define entre um tom sério e um engraçado. Mesmo com toda essa estranheza, o resultado é um estudo sensível de um ser humano comum que resolve ser algo a mais, para contribuir. E o faz sendo um bom entretenimento.

Parece que não era assim tão legal...

Parece que não era assim tão legal…

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Humanos e macacos entram em confronto

por Roberto Ângelo

Dawn of the Planet of the Apes

Os eventos anunciados no final do filme Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011) ganham forma na sequência que chega aos cinemas nesta semana. Batizado de Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014) esse capítulo da franquia dos símios evoluídos tem um novo diretor, o competente Matt Reeves (responsável pelo interessante Cloverfield, de 2008), e um antagonista capaz de roubar parte do brilho do personagem Caesar (novamente interpretado por Andy Serkis).

Para os humanos, o cenário é desolador. Boa parte da civilização foi dizimada pela “epidemia símia”, deflagrada após o capítulo anterior. Enquanto isso, Caesar e seu grupo de macacos vivem em paz na floresta localizada nos arredores de São Francisco. Nas ruínas da cidade, um pequeno grupo de humanos, liderados por Dreyfus (Gary Oldman, da trilogia Batman), luta pela sobrevivência em meio ao cenário apocalíptico.

Dawn of the Planet of the Apes scene

O inevitável confronto entre humanos e macacos se dá quando o primeiro grupo, carente de eletricidade, precisa ir ao território dos símios para colocar em funcionamento uma usina, última esperança dos refugiados para garantir um pouco de conforto e segurança. Enquanto Caesar opta pela via diplomática, acreditando que a coexistência das espécies é possível, Koba (Toby Kebbell, de O Conselheiro do Crime, 2013), seu braço direito e uma espécie de líder militar dos macacos, desconfia dos reais propósitos dos homens.

Apesar de Caesar ainda cintilar como o grande protagonista dessa nova era da série, deve-se dizer que é o chimpanzé Koba quem mais chama a atenção. Ele pode ser classificado como um “vilão com razão”, já que as marcas que carrega no corpo, resultado dos inúmeros abusos que sofreu nas mãos dos humanos, justificam a sua postura cética e agressiva.

Competente ao elevar continuamente o clima de tensão e escalar a guerra que, inevitavelmente, explode no terceiro ato, o diretor constrói uma sequência que supera o original em muitos aspectos. Os efeitos digitais, aliados ao método de captura de movimentos, chegam a níveis inimagináveis, concebendo criaturas que em momento algum parecerem artificiais. Reeves ainda recheia o filme com easter eggs que fazem a alegria dos fãs de ficção científica como, por exemplo, a inclusão de um coro de vozes na cena de abertura que lembra muito a música de György Ligeti utilizada por Stanley Kubrick durante a sequência “O Amanhecer do Homem” (a famosa cena dos macacos) do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968). Ou, ainda, o detalhe singelo do desenho que serve de símbolo para a tribo de Caesar, que remete aos contornos da janelinha por onde ele observava o mundo no filme anterior.

Dawn of the Planet of the Apes scene 2

Seguindo a fórmula de O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980)  ao adotar um tom mais sombrio e concluindo a trama com um gancho para uma terceira aventura, Planeta dos Macacos: O Confronto agrada pelo espetáculo visual que apresenta e pela sua mensagem atualíssima sobre os obstáculos aparentemente intransponíveis que grupos com características diferentes enfrentam para coexistir em paz.

A trajetória da franquia Planeta dos Macacos é mais tortuosa do que os galhos das árvores por onde essas criaturas adoram se locomover. O filme original foi lançado em 1968 e causou grande impacto. Baseado no livro homônimo escrito pelo francês Pierre Boulle, a trama mostrava as desventuras de um astronauta que cai em um planeta povoado por macacos evoluídos. Como era comum na época, tanto o livro quanto o filme faziam uma crítica social por meio da criação de um universo distópico.

Planet of the Apes

Sucesso de público e de crítica, o filme marcou época pela qualidade da maquiagem que transformou atores como Roddy McDowall e Kim Hunter em símios e pelo final surpreendente, com um dos primeiros twist endings do cinema que, para muitos, ainda é insuperável. Depois, vieram as inevitáveis sequências e uma série de televisão malfadada. Porém, no final dos anos de 1970, o gosto popular por macacos falando e montando cavalos parecia ter minguado, já que o público apreciador de ficção científica começava a se encantar pelas batalhas intergalácticas de Star Wars.

Em 2001, Tim Burton conduziu a primeira tentativa de reboot da série com uma refilmagem da obra original. Apesar dos efeitos de primeira e elenco afiado, o filme foi um desastre de crítica e público, deixando a impressão de que a saga dos macacos havia, definitivamente, caído do galho. Eis que, em 2011, foi lançado Planeta dos Macacos: A Origem. Começando do zero, o filme apostou na captura de movimentos para criar os chimpanzés inteligentes. Sua trama também inovou ao recuar no tempo e mostrar os eventos que permitiram que os símios tomassem conta do planeta. Entre os muitos acertos desse filme, destaca-se a contratação do ator Andy Serkis, que deu vida ao Gollum de O Senhor dos Anéis, para interpretar Caesar, o “Adão” dos símios.

A excelente recepção que a sequência Planeta dos Macacos: O Confronto está recebendo junto aos críticos e público parece indicar que, desta vez, a saga dos espertos chimpanzés terá uma presença duradoura no cinema.

Jason Clarke, Keri Russell e Gary Oldman formam o elenco principal deste Confronto

Jason Clarke, Keri Russell e Gary Oldman são os principais humanos do elenco deste Confronto

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Os três de West Memphis chegam aos cinemas

por Marcelo Seabra

Devil's Knot

Em 5 de maio de 1993, três garotinhos de West Memphis, Arkansas, sumiram. No dia seguinte, os corpos, com muitas marcas de violência, são encontrados e começa a busca por culpados. Um mês depois, a polícia e a comunidade têm certeza dos culpados: três adolescentes tidos como satanistas. As evidências são claras: eles se vestem de preto, se interessam por ocultismo e o pior: escutam heavy metal! Tamanha estupidez foi devidamente documentada na trilogia Paraíso Perdido (Paradise Lost, 1996 – 2011) e em West of Memphis (2012), todos recapitulando os fatos e apresentado depoimentos dos envolvidos.

Tendo os documentários abusado do acontecido, agora é a vez da ficção. Atom Egoyan, diretor de dramas como O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter, 1997) e Ararat (2002), encabeça o projeto, que adapta o livro da jornalista Mara Leveritt. Sem Evidências (Devil’s Knot, 2013) tenta levar a um público ainda maior a história dos “três de West Memphis”, e para isso conta com a ajuda dos oscarizados Reese Witherspoon (de Amor Bandido, 2012) e Colin Firth (de Um Golpe Perfeito, 2012). Como era de se esperar, o longa mostra versões estereotipadas de alguns personagens. Mas, por incrível que pareça, a imbecilidade e cegueira de muitos parece ter sido suavizada, já que os fatos indicam que a vida é muito mais chocante que a ficção. Ao menos nesse caso.

West Memphis Three movie

Com provas indicando o contrário e absolutamente nada de concreto contra os adolescentes, eles são levados a julgamento e um investigador particular se oferece para ajudar na defesa, junto dos advogados responsáveis. Nos Estados Unidos, o caso ganhou tamanha notoriedade que celebridades falaram a favor dos acusados. Talvez por isso, os críticos norte-americanos não viram graça no longa, que não traz nenhuma novidade para um público que já estava ciente de tudo o que é mostrado. Não há um novo ângulo, ou um detalhe obscuro, nada que já não tivesse sido noticiado. O roteiro, de Paul Harris Boardman e Scott Derrickson (mesma dupla de O Exorcismo de Emily Rose, 2005), não acrescenta, só enumera.

Para quem não conhece os fatos a fundo, Sem Evidências pode ser informativo e interessante. Como boa parte da filmografia de Egoyan, é também frio e distante, mantém o espectador à parte. Ele passa longe da atmosfera envolvente de um, por exemplo, Zodíaco (Zodiac, 2007), ficando apenas como um filme correto, que prima pelos detalhes e pela reconstituição que apresenta. O elenco, que ainda traz Elias Koteas, Dane DeHaan, Alessandro Nivola, Amy Ryan, Stephen Moyer, Bruce Greenwood, Mireille Enos e Kevin Durand, é apropriado, sem nenhum nome a ser destacado. Moyer, que é inglês, repete o sotaque aprendido para a série True Blood, e este é só um exemplo da falta de diferencial do longa.

Assistindo a obras como Mississipi em Chamas (Mississippi Burning, 1988) ou O Massacre de Rosewood (Rosewood, 1997), nos revoltamos contra as injustiças e secretamente torcemos por uma revanche ao final. A diferença entre Sem Evidências e estas outras obras é que, ao contrário dos demais, ele é ambientado na década de 90, e não nos longínquos anos 60, ou antes, e mostra que não temos evoluído tanto quanto gostamos de acreditar. Se ouvir heavy metal é evidência para prender alguém por assassinato, estamos andando para trás.

Imagens de 1993 mostram os suspeitos fichados

Imagens de 1993 mostram os suspeitos fichados

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Grande Hotel Budapeste traz o melhor de Anderson

por Marcelo Seabra

Grand Budapest

Atualmente no quarto lugar entre as maiores bilheterias no Brasil, O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014) tem enchido as poucas salas que ocupa e surpreende os exibidores. Sem muito barulho, o filme chegou tímido aos nossos cinemas e tem se mantido forte, sustentado por uma ótima publicidade boca a boca. Claro que ajuda ter um elenco extremamente competente, entre outros muitos méritos reunidos pelo diretor Wes Anderson.

Partindo de textos do escritor Stevan Zweig, Anderson escreveu o roteiro e optou por repetir algumas parcerias. Do elenco do último trabalho, Moonrise Kingdom (2012), ele convocou por exemplo Bill Murray, Tilda Swinton, Edward Norton, Jason Schwartzman e Bob Balaban, além do também recorrente amigo Owen Wilson. O caldo é engrossado com Ralph Fiennes como protagonista, que parece se divertir com esse intervalo entre trabalhos mais sisudos e pesados. E estão lá Adrien Brody, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, F. Murray Abraham, Mathieu Amalric, Jude Law e Harvey Keitel, entre outros. O jovem Tony Revolori tem um papel de destaque e frequentemente rouba a cena, não deixando nada a desejar em relação aos colegas veteranos.

Grand Budapest

Narrada por um escritor, a trama nos apresenta a Monsieur Gustave H (Fiennes), um famoso gerente de um igualmente notório hotel. Entre as várias aventuras vividas por ele, acompanhamos o episódio em que Gustave é acusado de um assassinato e conta com seu fiel funcionário Zero (Revolori) para provar sua inocência. Inúmeros personagens se envolvem de alguma forma, com maior ou menor importância, e temos a oportunidade de reconhecer vários rostos conhecidos. Esse joguinho quase se torna uma distração, mas o ritmo de comédia de situações não dá muito tempo para o público divagar, ou perderá alguma coisa.

Os diálogos ágeis e engraçados característicos de Anderson se espalham por toda a sessão, assim como os enquadramentos inusitados e milimetricamente calculados. Não faltam personagens no centro da tela, como já esperamos num filme do diretor. A fotografia, além de mostrar paisagens fantásticas, delimita bem a época, já que a história vai e volta no tempo. A trilha, sem músicas pop, fica novamente com Alexandre Desplat, que usa instrumentos exóticos para casar com as imagens.

O clima de fábula de O Grande Hotel Budapeste torna as coisas um tanto fantasiosas, dificultando um envolvimento maior por parte do público. E a trama, bem intrincada, deixa tudo bem confuso em certos momentos. Ao final, felizmente, as pontas se encaixam e a experiência foi das mais satisfatórias. É discutível se trata-se do melhor filme de Anderson, mas certamente é o que reúne o maior número de características do cineasta, tornando a obra um belo cartão de visitas para ele.

O elenco é tão numeroso que aqui Anderson reúne uma parte

O elenco é tão numeroso que aqui Anderson reúne os principais

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Crossbones leva John Malkovich à TV

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

CrossbonesGlenn Close (Damages), Dustin Hoffman, (Luck), Kevin Spacey (House of Cards) e Kevin Bacon (The Following) são alguns nomes consagrados do cinema norte-americano que, nos últimos anos, têm acompanhado uma tendência crescente e topado trocar a tela grande pela pequena, talvez graças uma crise de criatividade pela qual Hollywood parece passar. O último a embarcar nessa é John Malkovich (de Red 2, 2013) que topou protagonizar Crossbones, nova série da rede americana NBC, que teve sua estréia na terra do Tio Sam no dia 01 de junho.

Adaptada por Neil Cross (da excelente Luther) a partir de The Republic of Pirates, de Colin Woodard, Crossbones conta a história de Tom Lowe (Richard Coyle, de Príncipe da Pérsia, 2010 – abaixo), um agente secreto do Império Britânico. Ele embarca no HMS Petrel com a missão de proteger o “Cronômetro de Longitude”, um aparelho inventado por um cientista britânico que promete dar sempre a localização exata de um navio no oceano, de forma a evitar quaisquer tipos de ataques. Especialmente aqueles dos famosos piratas, cuja principal fonte de renda era a pilhagem de navios mercantis, principalmente aqueles vindos dos domínios ingleses.

Crossbones Coyle

Quando o HMS Petrel é justamente atacado por esses mesmos piratas que deveria evitar, revela-se que a missão de Tom era um pouco mais complicada. Ele não só deveria proteger o aparelho e evitar que ele caísse em mãos erradas a todo custo (nem que para isso fosse necessário destruí-lo), como também encontrar e assassinar o mais notório pirata da história: Edward Teach, mais conhecido como Barba Negra (Malkovich). Lowe acaba capturado pelo pirata e tenta completar sua missão, mas as coisas se complicam de uma forma inesperada (ou nem tanto, dependendo do quão fã desse tipo de aventura você é) e Tom acaba formando uma aliança forçada com seu alvo, enquanto tenta desvendar e impedir uma ameaça ainda maior ao Império.

Com uma ambientação e recriação de época bem competentes – ainda que não dê pra deixar de compará-la a Black Sails, série de pirataria do canal Starz (o mesmo de Spartacus) cuja temporada terminou recentemente – Crossbones tem um bom potencial, especialmente graças à presença sempre competente de Malkovich no elenco. Seu personagem é um pirata dado a excentricidades que, nas mãos de outro ator, poderia ser interpretado de maneira bastante caricata, o que não acontece aqui. Malkovich sabe dosar exatamente sua interpretação, tornando seu Barba Negra humano e ameaçador no tom certo, dando uma boa tridimensionalidade ao personagem. Coyle não fica muito atrás, trazendo um peso interessante para um personagem que se encontra dividido entre o que julga o melhor a fazer e seu senso de dever para com seu rei.

Seguindo a nova tendência da TV americana, a primeira temporada de Crossbones tem apenas 10 episódios. A estreia no Brasil está marcada para 6 de agosto, às 21h, no canal a cabo Space.

A riqueza dos cenários é um mérito da série

A riqueza dos cenários é um mérito da série

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Transformers chegam à quarta aventura!

por Marcelo Seabra

Transformers Optimus

Tudo o que aprendemos a detestar no trabalho de Michael Bay está em Transformers: A Era da Extinção (Transformers: Age of Extinction, 2014). Excesso de câmeras lentas para tentar aumentar um suspense inexistente; incontáveis closes buscando denotar heroísmo; destruição desenfreada que leva o espectador para qualquer outro lugar que não a ação; personagens humanos insossos para provar que o filme não é sobre robôs; trama indecifrável, de tanto que a complicam; cortes rápidos e imagem trêmula que dificultam ainda mais o entendimento; duração inexplicavelmente exagerada. E não podemos nos esquecer da bandeira americana ao vento. Resumindo: Michael Bay continua sendo Michael Bay.

Já em seu quarto longa (!), a franquia dos robôs da Hasbro não dá sinais de conclusão. Pelo contrário: não é exatamente um reboot, porque a trilogia inicial é respeitada na cronologia. Mas toma-se outro caminho, com novos personagens humanos se envolvendo na guerra entre veículos alienígenas. E está aí o provável único mérito dessa aventura: nos livrar de Shia LaBeouf. O novo protagonista é, no mínimo, mais carismático. Mark Wahlberg, que trabalhou com Bay recentemente em Sem Dor, Sem Ganho (Pain & Gain, 2013), assume a responsabilidade, ou a tarefa ingrata, de correr em meio a destroços metálicos para tentar salvar sua vida e de sua filha.

Transformers Age of Extinction cast

Com um prólogo besta na pré-história, a trama logo parte da Chicago que sobreviveu após a destruição dos filmes anteriores – “trauma” que lembra Os Vingadores (The Avengers, 2012). Os Transformers foram banidos, até mesmo os bonzinhos autobots. Eles passaram a viver na clandestinidade. Sob o disfarce de um caminhão velho e estragado, o grande líder Optimus Prime acaba se revelando para salvar a vida do inventor falido que o comprou (Wahlberg) e da filha adolescente dele (Nicola Peltz, da série Bates Motel). Também na fuga interminável estão o amigo de Cade, Lucas (T.J. Miller, de Rock of Ages, 2012), e o namorado de Tessa, o piloto Shane (Jack Reynor, de De Repente Pai, 2013), profissão que vem bem a calhar, já que ele assume sempre o volante.

TransformersNo rol de vilões, há exemplos de várias espécies. No time de humanos, há o burocrata frio vivido por Kelsey Grammer (o eterno Fraser da TV), responsável por um plano inacreditável e com carta branca da presidência; o capanga chefe de Titus Welliver (de Terra Prometida, 2012); e o empresário bilionário Joshua Joyce. Interpretado por Stanley Tucci (o apresentador de Jogos Vorazes, acima, com Bay e Grammer), ele é um dos poucos que se salvam na chatice generalizada que é o roteiro de Ehren Kruger (também responsável pelas duas bombas anteriores baseadas nos brinquedos). Há um caçador alien com um quê de Predador, Lockdown, cuja história não fica nem perto de explicada. E não poderiam faltar os nossos decepticons de sempre, que servem ao mal por algum motivo. Agora, cientistas conseguem criar seres similares aos Transformers, e aparentemente melhorados, o que promete colocar mais lenha na fogueira.

A presença forte de Wahlberg não é o suficiente para compensar todos os demais problemas desse “Transfourmers”. Começando por seus coadjuvantes, Peltz e Reynor, que deveriam pegar fogo juntos, mas não convencem como casal. No elenco, o que acaba chamando mais a atenção é a voz de John Goodman (de Caçadores de Obras Primas, 2014), inconfundível, como o durão Hound. Entra ano e sai ano, Bay continua com seus maneirismos irritantes, os mesmos que começou a mostrar ao dirigir clipes no início dos anos 90 – alguém se lembra de Do It to Me, do Lionel Ritchie? Para quem é fã da franquia, este “mais do mesmo” deve agradar. E a vida da franquia deve ser longa, visto que está em primeiro nas bilheterias yankees.

O astro e o diretor já conversam sobre um quinto filme

O astro e o diretor já conversam sobre um quinto filme

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Johnny Depp transcende a paciência do espectador

por Marcelo Seabra

Transcendence

Aparentemente incapaz de viver um sujeito normal, Johnny Depp segue escolhendo papéis estranhos em projetos duvidosos. Os últimos bons trabalhos do ator datam de 2011, como dublador (em Rango), e 2009, em carne e osso (Inimigos Públicos). Agora, ele protagoniza uma ficção-científica que traz várias ideias interessantes, sem no entanto conseguir focar em qualquer uma delas. Transcendence – A Revolução (2014) já chegou ao Brasil com má fama, depois de atrasos na estreia e críticas negativas lá fora.

Com uma longa carreira como diretor de fotografia, tendo inclusive um Oscar (por A Origem, 2010), Wally Pfister decidiu estrear como cineasta e o roteiro escolhido é do também estreante Jack Paglen. Questões como a importância da tecnologia, o avanço da inteligência artificial, o cuidado com o meio ambiente e até a natureza do amor são tratadas no longa. Pode parecer megalomania, e é. Tentando abraçar o mundo, Paglen não desenvolve nenhuma das questões e fica até difícil saber qual é a postura dele frente a estes tópicos. Não se trata de uma obra aberta, ou instigante, mas de uma confusão enorme que deixa pontas soltas não para fazer o público pensar, mas por incompetência pura.

Transcendence couple

Depp vive um cientista do tipo bobão genial que trabalha com inteligência artificial. Ele sofre um atentado de um grupo terrorista anti-tecnologia e é contaminado, contando os dias para sua morte. A igualmente brilhante esposa (Rebecca Hall, de Homem de Ferro 3, 2013) resolve testar nele um projeto que estava em fase de acabamento que permitiria fazer um upload da mente do marido para um computador. Seria uma forma de tentar mantê-lo vivo. Mas, se desse certo, a manobra realmente manteria o Dr. Caster vivo? Ou seria apenas uma máquina parecida com ele? E, uma vez no computador e conectado à Internet, quais seriam as possibilidades de expansão e alcance para Caster? A premissa é muito promissora, mas a execução não está à altura. Vários pontos são levantados, e pula-se de um para o outro muito rapidamente. Acaba ganhando destaque a trama dos curados por Caster, já que ela traz mais ação. E mesmo ela fica sem um desenvolvimento apropriado.

O elenco todo parece estar dopado, começando por Depp. Ele já viveu sujeitos frios ou emocionalmente distantes antes. Dessa vez, é apenas insosso, mais como um espectador. Nem parece que é dele o papel principal. Rebecca Hall é a mais disposta, a única que parece estar se importando. Morgan Freeman (de Última Viagem a Vegas, 2013) e Paul Bettany (de Margin Call, 2011) mostram as caras sem fazerem muito esforço. Menos ainda fazem Cillian Murphy, que quase repete seu papel de O Preço do Amanhã (In Time, 2011), e Kate Mara (de A Fuga, 2012), com a tarefa mais ingrata de todas: a de servir ao roteiro da forma que for necessário. Seu papel é, de longe, o mais estapafúrdio.

Parceiro habitual do diretor Christopher Nolan, Pfister deveria se ater ao ofício da fotografia, que domina bem, e deixar o amigo comandar. Inclusive, a fotografia é um mérito de Transcendence, que oferece ao público belas imagens, assinadas por Jess Hall (de 30 Minutos ou Menos, 2011). Com tanta gente boa envolvida, era de esperar muito mais que apenas pores do sol e campos bonitos. Não dar sono seria um bom começo.

Coube a Kate Mara o pior papel do filme (acima, com Paul Bettany)

Coube a Kate Mara o pior papel do filme (acima, com Paul Bettany)

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Dois Jakes Gyllenhaals se encontram

por Marcelo Seabra

Enemy posterUm é o pacato professor universitário que leva uma vida simples com a namorada. O outro é o ator de terceira que vive com a esposa uma vida um pouco luxuosa demais, que parece estar fora de suas possibilidades. Em uma coincidência, um toma conhecimento do outro e bate um choque: os dois são idênticos. Este é o ponto de partida para O Homem Duplicado (Enemy, 2014), novo trabalho do elogiado diretor Denis Villeneuve, responsável pelo recente Os Suspeitos (Prisoners, 2013). Novamente, ele conta com Jake Gyllenhaal no papel principal.

Inspirado por um conto de José Saramago, o roteiro de Javier Gullón é bem amarrado e instigante. Contar mais do que as linhas acima seria entregar mais do que o recomendado. Não estranhe se, em determinado momento, você estiver bem perdido quanto ao que está acontecendo. As peças devem acabar se encaixando, e isso não deve necessariamente acontecer da mesma forma para todos. E, como deve acontecer com os bons filmes, ele sobrevive a uma nova sessão, sem em momento algum escorregar para dar pista falsas ao espectador, coisa que os piores fazem.

Sarah GadonEm papel duplo, Gyllenhaal demonstra muita segurança. Principalmente por viver dois sujeitos bem diferentes, o que deixa mais claro o talento do ator. As duas colegas de elenco também não ficam atrás. Como a esposa do pretenso artista, Sarah Gadon (de Cosmópolis, 2012 – ao lado) consegue demonstrar, em pouco tempo, vários sentimentos, enquanto Mélanie Laurent (de Truque de Mestre, 2013) parece tão perdida quanto o mais desavisado membro da plateia, por não entender as ações do namorado professor. Há ainda uma curta participação de Isabella Rossellini (vista recentemente na série The Black List), que no entanto é bem esclarecedora.

Mais uma vez, como em Os Suspeitos, Villeneuve consegue criar uma atmosfera de suspense, de tensão crescente, com uma trama aparentemente simples. Mas esta simplicidade está apenas na aparência, já que é tudo muito bem engendrado. E o bom uso dos ambientes ajuda muito, com luzes, sombras e uma sensação de confinamento proporcionada pelos espaços apertados. Até quando há mais espaço, o personagem se restringe a uma área menor, representando o que passa dentro dele. E, ao contrário do trabalho anterior do diretor, trata-se de uma obra curta. Sem gorduras, vai direto ao assunto. E não se preocupa em mastigar tudo, deixando o público pensar a respeito.

Enemy

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