Marvel e Sony fazem o melhor Aranha em mais de uma década

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Rodeado de expectativas desde que foi anunciado, Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) é o primeiro longa-metragem do herói aracnídeo desde o acordo celebrado entre Sony (detentora dos direitos do herói no cinema) e o Marvel Studios, e chega aos cinemas hoje. Sem medo de errar, mesmo com uma aresta aqui e outra ali, esse é de longe o melhor filme estrelado pelo personagem desde Homem-Aranha 2, de 2004.

Um dos acertos do diretor Jon Watts e de sua grande equipe de roteiristas (oito no total) foi tratar Homem-Aranha: De Volta ao Lar não como um filme de origem e, sim, como uma apresentação de como Peter Parker (Tom Holland) se encaixa no Universo Cinematográfico Marvel após os eventos de Capitão América: Guerra Civil (2016). Até porque o personagem teve um reboot recentemente (O Espetacular Homem-Aranha, de 2012) e não seria necessário mostrar novamente a história de como Peter foi picado por uma aranha modificada geneticamente, adquiriu capacidades fantásticas e pagou o preço por não utilizá-las para o bem. Isso praticamente todo mundo que vai ao cinema assistir a essa nova empreitada do aracnídeo nos cinemas já sabe.

Quando o longa começa, vemos Peter frustrado. Apesar de ter tido uma boa participação ao lado de metade dos Vingadores em Guerra Civil, Tony Stark acha – e com razão – que ele ainda está muito verde para combater grandes criminosos. Assim sendo, ele coloca Happy Hogan (Jon Favreau de Chef, 2014) como uma espécie de babá, recebendo relatórios diários das atividades de Peter, que, muitas vezes, se revelam bastante mundanas. Peter quer fazer mais, mas tem que equilibrar sua vida heroica com a de um adolescente órfão de 15 anos, o que significa ir à escola e dar satisfações à sua tia May (Marisa Tomei, de O Amor É Estranho, 2015). Boa parte do longa, inclusive, se passa na escola ou em eventos relativos a ela. Vemos que Peter tem praticamente apenas um amigo, na figura de Ned (Jacob Batalon), e mal consegue disfarçar a paixão que nutre por Liz (Laura Harrier, de Os Últimos Cinco Anos, 2014). Michelle (Zendaya, de O Agente K.C.) e Flash (Tony Revolori, de A 5ª Onda, 2016) completam o grupo dos principais colegas de Peter na escola.

As coisas começam a se complicar quando o Homem-Aranha impede um assalto a banco e, aos poucos, descobre que as armas utilizadas pelos criminosos naquele ato contém tecnologia alienígena, fornecida por Adrian Toomes (Michael Keaton, de Spotlight: Segredos Revelados, 2015), um empresário que era o responsável por limpar a bagunça feita pelos heróis em suas brigas até que Tony Stark entrou no negócio e o tirou da jogada. Peter acha que deter Adrian é seu passe para entrar nos Vingadores e deixar de ser tratado como uma criança por Stark. Obviamente, as coisas não serão assim tão fáceis.

Uma das coisas que Homem-Aranha: De Volta ao Lar faz é estabelecer de maneira muito clara que, por mais engenhoso que Peter seja, ele ainda é um adolescente querendo brincar com adultos. Isso, somado ao ambiente escolar, traz um clima cômico salutar ao filme. Alguns críticos chegaram a comparar o filme às comédias de John Hughes (diretor de Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, entre outros) e isso tem razão de ser. Uma sequência em particular lembra muito uma história do Aranha intitulada The Commuter Cometh (ou Uma Aranha Suburbana), publicada aqui pela Editora Abril em O Homem-Aranha 82, de 1990 – clique aqui para essa história (em inglês), para aqueles que ficaram curiosos a respeito. Claro, esse é um filme de super-herói e as sequências de ação estão presentes, mas há um equilíbrio muito bom entre comédia, drama e a pancadaria esperada.

Há também alguns problemas e o principal deles está no fato do uniforme do Homem-Aranha ter um papel importante no filme, tanto metafórica quanto praticamente. O papel metafórico faz muito sentido e é vital para a construção do caráter de Peter. Já o papel prático ficou exagerado, na medida em que o uniforme do Homem-Aranha é quase uma versão em nylon da armadura do Homem de Ferro. Algumas sequências de ação também ficaram muito escuras e um pouco confusas, mas nada que comprometa o resultado.

Com relação ao elenco, uma das críticas antes mesmo do filme ser lançado estava principalmente no tamanho da participação de Downey Jr. no longa e na preocupação de ele querer os holofotes para si. Apesar de ter bons minutos de tela, Downey não ofusca Holland em nenhum momento. Já os demais fazem seu papel com competência, com destaque para Michael Keaton. Uma das principais reclamações de todos com relação aos filmes da Marvel é que, no geral, seus vilões são bastante insípidos e unidimensionais. Eles querem coisas grandiosas como conquistar o mundo (Loki), destruir o mundo (Ultron), vingança (Zemo) ou remodelar o universo à sua imagem (Ego). O Abutre de Keaton tem motivações bem mais terrenas e isso faz com que o espectador consiga, em determinada medida, se identificar e mesmo criar uma certa empatia com ele. Novamente, ponto para todos os envolvidos.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar não é o melhor filme do Cabeça de Teia no cinema, título que pertence a Homem-Aranha 2 (2004). Mas é muito superior aos dois longas protagonizados por Andrew Garfield e, esperamos, fará com que essa parceria Sony/Marvel gere bons frutos. E, ainda que não fosse tão necessário, é bom avisar que De Volta ao Lar tem duas cenas após o encerramento da trama principal, uma logo depois dos créditos principais e outra no final. E essa segunda cena é uma das poucas que faz valer a espera por ela.

Depois de Batman e Birdman, Keaton é o Abutre

Publicado em Estréias, Filmes, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

O esperado Okja chega à Netflix

por Marcelo Seabra

Um subgênero que faz sucesso até hoje na sessão da tarde é o de filmes de animais de estimação. É muito comum encontrar na programação da TV um drama sobre um garoto e seu cachorro, ou sobre a menina que vai viver numa fazenda e se afeiçoa a seu cavalo. Fazendo uma releitura nessa linha, a Netflix lança esse mês sua nova produção original, Okja (2017), longa que causou certa polêmica no Festival de Cannes por disputar prêmios e não ter tido um lançamento nos cinemas.

Bong Joon Ho novamente demonstra preocupação com questões ambientais. Em O Hospedeiro (The Host, 2006), ele criou um monstro a partir de um rio poluído, e em Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), as pessoas foram obrigadas a viverem em um trem, já que o planeta não oferecia mais condições. Agora, o diretor e roteirista sul-coreano fez uma ponte entre seu país e os Estados Unidos para falar sobre manipulação genética e maus tratos a animais num tom que muda radicalmente do idílico para o violento, sempre com um quê de farsa.

Depois de ser recusado em vários estúdios pelo rumo que toma, o roteiro de Okja (co-escrito por Jon Ronson, de Frank, 2014) encontrou casa na Netflix, que parece permitir maior liberdade aos realizadores que patrocina – e Joon Ho vinha de uma experiência muito negativa nesse sentido com Expresso do Amanhã, que produtores tentaram cortar e modificar. Em entrevistas, ele disse que pretendia fazer um filme bonito, sem se aprofundar nos problemas que pontua. Talvez essa decisão seja o problema: não se aprofundar em nada, não definir um tom e apenas focar na manjada amizade entre uma garota e seu bicho de estimação. Saem cachorros e cavalos, entra uma porca gigante.

Apesar de ser uma porca, Okja mais parece um hipopótamo. Dócil e amável, ela vive com Mija (An Seo Hyun) e o avô (Byun Hee-bong) como parte do projeto de uma empresa americana. A empresária Lucy Mirando (Tilda Swinton, de Doutor Estranho, 2016, e de Expresso) anuncia ao mundo a descoberta de uma nova espécie de porcos, escondendo o óbvio: eles são geneticamente modificados. Produzindo mais carne e causando um impacto ambiental menor, esses porcos são a solução de Mirando para a fome mundial. A empresa envia vários porcos para diferentes regiões do globo e acompanha o desenvolvimento deles por dez anos.

Já sabemos de antemão que, ao final do projeto, a menina e a porca serão separadas e o conflito é que moverá o filme. Um grupo de defesa dos direitos dos animais – liderado por um Paul Dano (de The Beach Boys, 2014) quase apático – se envolve e o drama se torna uma ação desenfreada. A menina, antes ingênua e humilde, vira algo perto de uma ninja mutante, já que tem fator de cura. As traduções, feitas por personagens bilíngues para que os demais se entendam, magicamente deixam de ser necessárias, dando a entender que só serviam para informar o espectador. O avô, um velhinho inofensivo e carinhoso, vira um insensível que manda a neta arrumar um marido. Há ainda um apresentador vivido por Jake Gyllenhaal (de Vida, 2017) que não passa de uma caricatura de mau gosto e um motorista de caminhão clichê que não fala simplesmente porque não está afim. E não nos esqueçamos do executivo à Renan Calheiros (Giancarlo Esposito, de The Get Down – acima), aquele que consegue prever sucessos e insucessos e sempre sobrevive às mudanças.

Swinton, que rouba a cena até quando é mencionada, é de longe a melhor coisa de Okja – mesmo lembrando a Cruela Cruel. Apesar de ela começar muito bem, demonstrando acreditar realmente nas loucuras que faz, sua empresa é pintada como maligna, onde até a recepcionista é tinhosa. Trazendo um ar moderno a esta fábula, o diretor usa e abusa de redes sociais e selfies, o que não deixa de ser outra crítica à sociedade rasa de hoje. Mas, no meio do caminho, fazem uma piadinha com fezes, mais uma vez mostrando que o filme não define para onde vai, e nem como.

Swinton é sempre a melhor coisa em cena

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Embate de culturas marca A Garota Ocidental

por Marcelo Seabra

Para seu terceiro filme, o belga Stephan Streker se inspirou em um fato ocorrido na Bélgica, em 2007, sempre mantendo seu interesse nos personagens e na cultura deles. O resultado, A Garota Ocidental – Entre o Coração e a Tradição (Noces, 2016), chega aos cinemas essa semana e oferece uma visão de dentro de uma família paquistanesa que segue suas tradições mesmo sem estar em seu país. É preciso deixar de lado qualquer percepção etnocentrista para entender como aquelas pessoas vivem.

Diretor e roteirista, Streker tem um ponto de vista interessante. Ele parece conseguir mostrar as emoções e os pensamentos de seus personagens acompanhando-os em tomadas longas e, muitas vezes, silenciosas. Nesse filme, ele nos apresenta a Zahira (Lina El Arabi – ao lado) uma garota que chega aos 18 anos e precisa enfrentar um dilema. Como seus pais e sua irmã mais velha, ela precisa se casar com alguém que não conhece, o que é corriqueiro no Paquistão.

Morando na Bélgica, em contato com ocidentais na escola, nas ruas, em todo lugar, Zahira não manteve a forma de pensar de seus compatriotas. Tanto que ela já tem seus romances com garotos locais, algo que os pais não podem nem sonhar. Tudo é escondido, já que as meninas muçulmanas devem ficar em casa, recatadas. Boates e bares só são permitidos aos rapazes. Pela internet, Zahira precisa conhecer seus três pretendentes e escolher um, que ela só conhecerá próximo ao casamento.

Nas mãos de alguém menos habilidoso, o material se tornaria um dramalhão arrastado e cartunesco. Mas não é o caso, já que Streker sabe lidar com esse conflito como alguém com conhecimento de causa. Seria muito fácil demonizar os pais e colocar a garota como vítima do destino. Ele opta por uma protagonista forte, decidida, vista em casa como rebelde. E nem por isso menos amorosa, tanto com os pais quanto com os irmãos. A estreante Lina El Arabi carrega o filme com tranquilidade de fazer inveja a muito veterano.

Babak Karimi (de O Apartamento, 2016) e Nina Kulkarni (de O Exótico Hotel Marigold, 2011) vivem os pais de Zahira com muita competência, se alternando entre o amor pela filha e a dependência da religião. A honra familiar é mostrada como ela é de fato: uma hipocrisia entre várias pessoas com problemas particulares que mostram total felicidade e perfeição para os demais. Pode ser percebida aí uma crítica às redes sociais, que se igualam à religião ao sustentarem esse tipo de ilusão.

Um outro grande destaque de A Garota Ocidental é o francês Sébastien Houbani (de Geronimo, 2014 – acima), que lembra muito um jovem Al Pacino. Amir está dividido entre o amor à irmã e a obediência à família, e o ator mostra esse turbilhão pelo olhar. Confidente de Zahira, ele entende os anseios dela, mas vê a tradição como algo maior. Ele não quer os pais mal falados na comunidade. Todos da família Kazim são críveis e têm laços fortes entre eles, o que torna o desenrolar da história pungente. E marca mais um acerto da Cineart Filmes, que distribui o longa no Brasil.

Streker demonstra muita sensibilidade na condução

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

Ao Cair da Noite mantém alta a tensão

por Marcelo Seabra

Alguma coisa aconteceu, não sabemos o que é. Uma família se refugiou numa casa numa floresta, não sabemos onde fica. O que sabemos é que, o que quer que esteja acontecendo, é mortal. E não será fácil sobreviver. Se a premissa não é das mais originais, a condução e o resultado são e garantem a satisfação do público. Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017) é uma ótima surpresa num gênero que passa longe do gol com tanta frequência que cria certa desconfiança.

Todos os anos, temos observado alguns destaques isolados entre filmes de terror, aqueles que fazem com que conservemos a nossa fé nesse filão. Depois de The Babadook (2014), Corrente do Mal (It Follows, 2014) e A Bruxa (The Witch, 2015), parecia que o destaque seguinte seria o pouco criativo Corra (Get Out, 2016), sucesso absoluto de bilheteria e crítica que faz uma grande mistura de referências e não atinge uma identidade própria. Mas eis que o diretor e roteirista Trey Edward Shults, seguindo seu elogiado Krisha (2015), emenda outro grato petardo.

Quem tem um animal de estimação e já o viu fitando a escuridão compenetradamente sabe o pânico que isso pode causar. E é exatamente essa sensação que o cartaz do filme traz. Não sabemos o que ele está vendo, mas é melhor que fique longe. E essa tensão permanece por toda a sessão, com a opressão dos quartos sendo tão explorada pela fotografia quanto a vastidão da mata. Não importa onde você estiver, o perigo está próximo, esperando apenas uma derrapada. E é por isso que a família toma muito cuidado com qualquer movimento, sempre de luvas e máscaras.

Com poucos minutos de projeção, percebemos que esse não será um terror habitual. A dedicação aos personagens é algo que não se vê sempre. Não conhecemos bem o histórico deles, mas logo entendemos as relações e o carinho entre eles. O pai, a mãe e o filho vivem em uma rotina bem controlada, a melhor forma de evitar problemas. Todos imaginam o que pode vir a acontecer, mas é melhor se concentrar nas pequenas coisas do dia a dia do que pensar no pior. As interpretações seguras de Joel Edgerton (de O Presente, 2015), Carmen Ejogo (de Alien: Covenant, 2017) e Kevin Harrison Jr. (de O Nascimento de Uma Nação, 2016) se encaixam perfeitamente, dando muita vida a seus personagens.

Em pouco menos de uma hora e meia, Shults constrói uma atmosfera que poucos diretores conseguem e deixa uma impressão forte e duradoura. De forma enxuta e direta, ele segue uma das mais antigas recomendações quando o assunto é o Cinema de terror: menos é mais. Quanto menos o público vê, mais aterrorizado fica. Com a ajuda de uma trilha sonora comedida e pontual, melhor ainda. Não surpreenderia que o universo de Ao Cair da Noite desse origem a uma série interminável de filmes para a televisão. Afinal, ele deixa esse gosto por mais.

Todo cuidado é pouco

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , | 1 Comentário

Tudo e Todas as Coisas é mais um romance adolescente

por Marcelo Seabra

À primeira vista, Tudo e Todas as Coisas (Everything, Everything, 2017) parece ser um romance adolescente corriqueiro. E ele até começa assim, conquistando pela riqueza dos recursos que utiliza para contar a história. Mas, à medida em que as coisas caminham, ele deixa de ser plausível e suas inconsistências vão aparecendo. Ao final, temos a prova de que apenas o carisma dos atores não segura um filme com tantos buracos.

Na trama, conhecemos uma garota que comemora seus 18 anos tendo vivido sempre dentro de uma casa esterilizada, sob os cuidados da mãe e de uma enfermeira. Ela sofre de uma doença imunológica rara e nunca sai ou tem contato físico com outra pessoa. “Mas a mãe a abraça e beija”, você pode apontar. “Por que a mãe e a enfermeira podem entrar, e mais ninguém?”, é uma pergunta que pode surgir. Na verdade, a parte do “mais ninguém” é imprecisa: a filha da enfermeira também pode. Teriam todas passado por exames? Ou recebido vacinas? Vai saber.

A vida da menina sai da mesmice de escrever resenhas literárias (cheias de spoilers) e de fazer um curso à distância de arquitetura (com direito a maquetes) quando vê o novo vizinho. Alguém poderia se levantar contra a ideia de que é preciso um homem para mudar a vida de uma mulher. Para evitar controvérsias, digamos que o catalisador da mudança foi o amor, mesmo que à primeira vista. Mas eis que surge a dúvida: “O material para as maquetes é esterilizado? A cola não causa reações?”. A mãe recusa um bolo de política da boa vizinhança exatamente por causa da segurança da filha, mas todo o resto pode entrar. E há um novo conceito de cartão de crédito: basta pedir um pela internet e fazer compras, os boletos nunca vão chegar.

Como dá para perceber, as inconsistências são várias e vão se multiplicando, cada vez mais rápido. Ao chegar ao final, o público deve se perguntar como foi possível chegar tão longe. “Será que ninguém viu a bagunça?” Se o roteiro fosse uma estrada, a suspensão do carro já teria quebrado há tempos. Cortesia do roteirista de filmes melosos como A Incrível História de Adaline (2015) e O Melhor de Mim (2014), J. Mills Goodloe. Mas sejamos justos: o livro que deu origem ao filme, de Nicola Yoon, não deve ser grandes coisas. Consegue ser bem pior que A Culpa É das Estrelas (The Fault in Our Stars, 2014), obra bem similar em tema, forma e até no ator principal.

Vivendo Maddy, Amandla Stenberg mostra que cresceu bastante desde os tempos de Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012). Apesar de parecer que se embolou em alguns diálogos, ela segura bem a peteca, e a química funciona com Nick Robinson (de Jurassic World, 2015), o que é fundamental para aguentar a sessão – mesmo o filme tendo apenas uma hora e meia de duração. Anika Noni Rose (de Bates Motel), como a mãe de Maddy, faz milagres para tornar a personagem menos antipática, e muito é exigido dela mais adiante.

As situações que se desenrolam a partir do meio e principalmente no final não serão discutidas para evitar spoilers (o que Maddy não faz em seus textos). Basta dizer que é bem sem pé nem cabeça e as reações esperadas não aparecem. A diretora Stella Meghie emprega bastante criatividade, esperando que isso sirva para costurar os retalhos. Recursos como o astronauta e as conversas dramatizadas são interessantes, mas um pingo em um oceano de conveniências e absurdos.

A missão de Rose é das mais indigestas

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Colossal brinca com o Cinema de monstros

por Marcelo Seabra

Gloria é uma jovem escritora que pode estar desempregada por beber demais ou pode estar bebendo demais por estar desempregada. A bagunça que ela faz de sua vida acaba afastando o namorado e ela se vê sem dinheiro e onde morar, não tendo outra opção a não ser voltar para a casa vazia onde cresceu. Lá, reencontra um amigo de infância, vai trabalhar no bar dele, e ainda se interessa por um local. Por essa premissa, Colossal (2016) pareceria mais um filme independente bonitinho, mas é aí que aparece um monstro gigante.

Com um conceito estapafúrdio, que mais parece uma ideia errada de um programa de comédia, o diretor e roteirista Nacho Vigalondo (do elogiado Crimes Temporais, 2007) criou seu próprio Godzilla – comparação que já deu até processo na justiça. E o mais surpreendente: o projeto deu certo e foi bem recebido nos dois festivais por onde passou, Toronto e Sundance. Traz à mente outros vários filmes, como O Nevoeiro (2007), Poder Sem Limites (2012) e Hora de Voltar (2004), mas consegue ter personalidade.

No papel principal, Anne Hathaway (de Interestelar, 2014) torna crível a situação de Gloria, com uma expressão perdida e um cabelo armado, despida de vaidade. É interessante reparar nos tiques da personagem, como pegar o cabelo pelo meio, o que denota uma composição detalhada. Como sua inesperada dupla, temos Jason Sudeikis (dos dois Quero Matar Meu Chefe), figura habitual em comédias bobas, mas que volta e meia prova ser capaz de mais. Juntos, eles convencem como amigos de longa data, e essa química vai permitir que o roteiro avance.

Vigalongo consegue conduzir as coisas de modo que, sem o público perceber uma ruptura, o filme parece mudar de gênero. O roteiro não pira tanto quanto poderia, ou prometia, mas dá umas voltas loucas que prendem a atenção do público. Uma criatura enorme começa a atacar Seul, a capital da Coreia do Sul, e Gloria fica devastada, mesmo a catástrofe estando do outro lado do mundo. Ela logo descobre uma ligação com o monstro e começa a entender o que está acontecendo.

A satisfação com a conclusão de Colossal vai do entendimento de cada um quanto às regras daquele universo. Uma vez criada, a regra deve ser seguida, o que permite ao espectador comprar a ideia. Ter personagens que lembram seres humanos reais, com qualidades e falhas, ajuda muito. Além dos principais, há o namorado, vivido por Dan Stevens (de Legion), e dois amigos, na pele de Tim Blake Nelson (de Quarteto Fantástico, 2015) e de Austin Stowell (de Ponte dos Espiões, 2015). Com todas essas peças bem encaixadas, nem percebemos quase duas horas passarem.

Vigalondo lançou o filme em Toronto com seu elenco

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , | 2 Comentários

Novo Baywatch morre na praia

por Marcelo Seabra

Várias séries de décadas passadas já ganharam vida nova no Cinema. Muitas, com premissas interessantes que poderiam ser modernizadas ou ganhar nova roupagem, caso de Anjos da Lei e O Agente da UNCLE. Mas o que dizer de Baywatch, ou SOS Malibu, no Brasil? Que a motivação é dinheiro, todos sabemos, mas será que realmente parecia uma boa ideia? Quem quiser tirar sua própria conclusão poderá conferir o longa a partir dessa semana, quando o novo Baywatch (2017) estreia.

Com um orçamento perto dos US$ 70 milhões, o filme acaba de chegar aos 80 milhões, reunindo bilheterias americanos e internacionais, o que é considerado um desempenho bem abaixo do esperado. O volume de trailers e vídeos promocionais mostram que os executivos estão correndo atrás do prejuízo, o que permite ao público ver o filme praticamente todo antes da estreia. Até o final é mostrado em partes, basta juntá-las, e não sobra muito para a telona. Alguém queria ver Zac Efron vestido de mulher? Basta entrar no YouTube.

Como na série, o longa acompanha o chefe de um grupo de salva-vidas, Mitch Buchannon (Dwayne Johnson, de Velozes e Furiosos 8, 2017), enquanto ele toca a equipe e garante a segurança na praia Emerald Bay, Flórida. É impressionante como acontecem coisas lá, e os banhistas parecem todos desastrados. Mas evitar afogamentos não é o principal para Mitch: sempre que pode, ele se mete a policial e investiga situações. Uma nova droga tem aparecido com frequência na praia, o que leva o sujeito a querer saber mais.

Ao mesmo tempo em que acredita que a empresária Victoria Leeds (a estrela indiana Priyanka Chopra, de Quantico) tem algo de suspeito, Mitch precisa treinar novos recrutas, entre eles o convencido e burro Matt Brody (Efron, de Os Caça-Noivas, 2016), um medalhista de natação em desgraça. É bacana como Efron aceita fazer graça com sua aparência e sua fama, ele responde por muitos dos momentos engraçados. Há, inclusive, uma referência a um de seus papéis mais famosos. O humor do filme, na maioria das cenas, funciona, o que permite ao público dar boas risadas. E há uma parcela bem apelativa, relacionada a sexo e partes do corpo, que chega a constranger.

O grande problema de Baywatch é quando ele resolve partir para seu fiapo de trama, o que teoricamente deveria acontecer num tom mais sério. Isso não chega a acontecer e é muito estranho ver os personagens fazerem piada em momentos potencialmente perigosos, o que não permite que o filme engrene. O roteiro, com créditos para inacreditáveis seis roteiristas, é dos mais furados e tem aqueles momentos em que o capanga do vilão fica esperando, com a arma apontada, que o mocinho escape. Não tem outra explicação! Há cenas que parecem ser a versão Velozes e Furiosos de jet ski e barco, pegando o que há de pior dessa outra franquia.

Como a série original foi produzida entre 1989 e 1999, havia aquelas características da década de 90 que hoje são consideradas bregas, como penteados, roupas e maneirismos ao filmar. Como o filme brinca com isso, não falta a famigerada câmera lenta, o que é motivo de piada, pulos heroicos de lanchas em movimento e closes nos corpos sarados na praia, principalmente nos das meninas. Acompanhadas de perto pelo cinegrafista, não é apenas o cabelo delas que balança, ressaltando todos os seus atributos físicos. E não faltam atrizes lindas, como Ilfenesh Hadera (de Master of None – à esquerda), a modelo Kelly Rohrbach (centro) e Alexandra Daddario (de Terremoto, 2015 – à direita). O alívio cômico, como se o longa precisasse de um, é Jon Bass (de Loving, 2016), contratado exclusivamente para passar vergonha.

Já que há tantos clipes de Baywatch disponíveis na internet, alguém poderia ter a ótima ideia de cortar apenas os momentos que funcionam e juntá-los. De quase duas horas, o filme cairia para uns 15 minutos, mais ou menos. Esse novo trabalho não fica nada bom para o currículo do diretor Seth Gordon (de Uma Ladra Sem Limites, 2015). Mas, como não há muita coisa lá que se salve (talvez Quero Matar Meu Chefe, 2011), será apenas mais um tropeço. As participações especiais, que deveriam ajudar, só causam constrangimento. A certeza que fica é de que o longa, ruim desse jeito, ainda é melhor que a série.

A equipe original era capitaneada por David Hasselhoff e Pamela Anderson

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

A Múmia inaugura um mundo de deuses e monstros

por Marcelo Seabra

Entrando na onda dos universos compartilhados, da qual as aventuras baseadas em quadrinhos já se aproveitam, a Universal Pictures resolveu relançar seus monstros clássicos e uni-los, de alguma forma. Para dar o pontapé inicial, chega A Múmia (The Mummy, 2017). Devido à importância dessa primeira investida, que busca estabelecer um rumo e tem que fazer muito barulho nas bilheterias, o estúdio não deixou barato: escalou Tom Cruise e Russell Crowe.

A personagem Múmia é um pouco genérica, cada filme traz uma explicação por trás. Por isso, ela já foi Imhotep (na pele e ataduras de Boris Karloff e Lon Chaney Jr., além do mais recente Arnold Vosloo), Kharis (Christopher Lee) ou apenas “a múmia”, sem nome próprio. São setenta aparições listadas, entre filmes, séries e animações, e boa parte delas é paródia, como as versões de Scooby-Doo e Frango Robô. Dessa vez, ela é a Princesa Ahmanet, vivida por Sofia Boutella (famosa por Kingsman e Star Trek: Sem Fronteiras).

Quando a história começa, nos vemos no meio de atos de terroristas iraquianos contra monumentos milenares, algo que até na ficção corta o coração, de tão sério. Mas a produção não pretende se aprofundar no assunto, apenas se apropria dele para dar um contexto ao anti-herói Nick Morton (Cruise), um militar que aproveita as horas vagas para roubar itens históricos valiosos para futura venda no mercado negro. Ao lado da arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis, de Rei Arthur, 2017), ele encontra a tumba de uma múmia egípcia que vai se mostrar um grande perigo para a humanidade. E será também uma ótima oportunidade para copiar vários filmes, a cada minuto vem um à mente – principalmente Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London, 1981), algo que fica descarado.

Pelas linhas acima, dá para perceber que mulheres, nessa trama, só têm dois papéis: vilãs malignas ou mocinhas em perigo. O peso recai todo sobre os mocinhos: o sargento de moral duvidosa que, lá no fundo, parece ser boa gente; e o chefe de Halsey, o Dr. Henry Jekyll (Crowe, de Dois Caras Legais, 2016), do qual se pretende fazer algum suspense, mas lhe dão o nome de um dos mais famosos personagens da literatura mundial. Como O Médico e o Monstro já caiu em domínio público, foi possível juntá-lo ao caldo – que, tendo em vista o catálogo da Universal, já é grosso. Ele deve transitar pelos diversos filmes, como uma espécie de Nick Fury, em referência ao Universo Marvel. E, por falar em Marvel, não espere em A Múmia por uma cena pós-créditos.

Os exageros, entre tiroteios, explosões e demais cataclismas, estão presentes o tempo todo. Quem espera por sustos ou clima de terror vai se desapontar. Não faltam cenas de Cruise correndo, como não poderia deixar de ser, e por vezes esperamos que ele revele ser o agente Ethan Hunt (de Missão: Impossível), ou mesmo Jack Reacher. Não à toa, um dos roteiristas aqui é Christopher McQuarrie, que dirigiu Cruise nas duas franquias, além de ter escrito outros dois filmes do astro. Alex Kurtzman, o terceiro diretor a aceitar a tarefa, tem uma carreira longa como roteirista e produtor, mas apenas um crédito anterior como diretor, e parece ser apenas uma escolha pro forma, alguém para assinar, já que produziria o longa de qualquer jeito.

Na expectativa de fundar o Dark Universe, a Universal dispensou aquele Drácula da História Nunca Contada (de 2014), que não teve uma aceitação muito boa, e colocou as fichas nesse A Múmia. Mas não se espante caso Luke Evans venha a frequentar a nova franquia, o que é totalmente possível. No futuro próximo, teremos um filme solo do Dr. Jekyll, o Homem Invisível (Johnny Depp) e o monstro de Frankenstein (Javier Barden), já escalados, além de outro Drácula, outro Van Helsing, O Monstro da Lagoa Negra, O Fantasma da Ópera, O Corcunda de Notre-Dame e a Noiva de Frankenstein. E a Universal ainda pode enfrentar uma briga judicial com a D.C., que pretendia usar o título para sua Liga da Justiça Sombria.

Três deles já conhecemos em A Múmia

Publicado em Estréias, Filmes | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

Neve Negra reúne Darín e Sbaraglia

por Marcelo Seabra

Mais um longa argentino a conquistar grande público e chegar ao Brasil é Neve Negra (Nieve Negra, 2017). O suspense reúne alguns dos maiores nomes de hoje do Cinema do país: Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia, além de uma participação do veterano Federico Luppi. Num clima sombrio de isolamento, cercado por árvores e neve, conhecemos uma família marcada por segredos em vias de começar uma disputa por herança.

Sbaraglia (que fez, com Luppi, o ótimo No Fim do Túnel, 2016) vive Marcos, um de quatro irmãos que iam sempre caçar, tradição da qual o pai fazia questão. Uma tragédia os afasta e, anos depois, após a morte do pai, Marcos volta à região para reencontrar o irmão mais velho, Salvador (Darín, de Relatos Selvagens, 2014). Eles precisam decidir o que fazer com a casa e o chalé que herdaram, e a conversa não será fácil. Marcos e Salvador ficaram mais de vinte anos sem se verem e muita coisa virá à tona. Luppi (abaixo) vive o advogado e amigo da família, que tenta mediar a situação.

Depois de dividir a direção de O Sinal (La Senal, 2007) com o amigo Darín, Martin Hodara assume seu primeiro longa sozinho. Com roteiro assinado por ele e Leonel D’Agostino (de Caída del Cielo, 2016), Hodara demonstra ter um bom domínio de câmera e sabe conduzir a tensão crescente. As reações dos personagens são compreensíveis e, à medida em que a ação se desenrola, entendemos melhor o que se passa. Laura (Laia Costa, de Palmeiras na Neve, 2015), a esposa de Marcos, ganha mais destaque e completa um trio bem interessante de se acompanhar.

Ambientado na Patagônia argentina (mas filmado nos Pireneus, no Principado de Andorra), Neve Negra faz um ótimo uso do cenário. A fotografia de Arnau Valls Colomer (de Tarde para la Ira, 2016) consegue tornar um terreno aberto claustrofóbico, dando a impressão de que os personagens estão cercados pela vegetação e não poderão sair. Marcos, com sua vivência na Espanha, parece não se adaptar novamente ao chalé, enquanto Salvador está exatamente onde deveria, num local que combina com a personalidade dele.

O elenco prestigiou o lançamento do filme

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário

Franquia Piratas do Caribe se arrasta para mais um

por Marcelo Seabra

Uma boa arrecadação nas bilheterias nunca prova nada, já que qualidade e dinheiro nem sempre se encontram. Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales, 2017) é um atestado disso, uma aventura insossa que ocupa atualmente o primeiro lugar nacional e que já leva mais de 365 milhões de dólares em caixa pelo mundo. Mesmo sendo cansativo e desnecessário, o longa garante a produção do próximo episódio.

Em sua quinta aventura, a franquia mostra claros sinais de cansaço. A grande atração, desde a primeira, é a caracterização de pirata de Johnny Depp, algo como um rockstar dos trópicos que não valia nada. Sempre tentando levar vantagem e passar os outros para trás, Jack Sparrow acaba tendo que confrontar os muitos inimigos que acumulou pela vida, e eles vão se enfileirando a cada filme. Agora, é a vez do Capitão Salazar, um espanhol malvado que navega pelos mares num navio fantasma, liderando uma equipe igualmente amaldiçoada.

Com Javier Bardem (o Silva de Operação Skyfall, 2012 – acima) no papel, Salazar desperta interesse, mantendo a tradição da série de sempre contar com bons atores como coadjuvantes (como Bill Nighy e Chow Yun-Fat). O que mais chama a atenção no filme é o interessante efeito nos cabelos do vilão, que se mexe como se estivesse dentro da água. O que é muito pouco para manter a graça por mais de duas horas. E Depp, depois de voltar tantas vezes a Sparrow, o interpreta como um bêbado infantilizado que lembra Mr. Magoo, aquele velhinho cego que se metia em confusões desavisadamente. Até o grande Geoffrey Rush, o Capitão Barbossa, está fora do tom, exagerado até!

Outras duas adições neste novo Piratas são Brenton Thwaites (de Deuses do Egito, 2016) e Kaya Scodelario (da franquia Maze Runner), uma dupla previsível que se une para encontrar um certo Tridente de Posseidon. O rapaz, Henry, é filho do nosso velho conhecido Will Turner (Orlando Bloom) e quer livrar o pai de uma maldição. E Carina, fugindo de uma condenação à morte por ser considerada bruxa, entra na missão de Henry por saber encontrar o tal tridente, que acabaria com os feitiços dos mares.

Os elementos mágicos da trama vão aparecendo à medida em que são necessários, o que transforma o filme em uma bagunça de conveniência. As regras são escritas enquanto a ação se desenrola, o que torna tudo uma mesmice. Fica difícil até achar posição na cadeira. Os noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg (de Expedição Kon Tiki, 2012) disseram se inspirar no primeiro filme, A Maldição do Pérola Negra (2003), e contaram com uma história de Terry Rossio, da equipe original. Mas ela foi descartada e o experiente Jeff Nathanson (de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, 2008), novato nesse universo, e o próprio Depp reescreveram tudo, e não conseguiram dar frescor ao material. Mesmo assim, Rønning, Sandberg e Nathanson já estão contratados para Piratas 6.

A carreira de Depp precisa de gás urgentemente

Publicado em Estréias, Filmes | Com a tag , , , , , , , | 2 Comentários