Pattinson ganha pontos por Bom Comportamento

por Marcelo Seabra

Um ritmo frenético marca o novo trabalho dos irmãos Safdie. Quem?, você pode estar se perguntando. O último filme da dupla, Amor, Drogas e Nova York (Heaven Knows What), é de 2014 e eles não têm nada muito famoso no Brasil. Mas, entre longas e curtas, Josh e Benny Safdie trazem uma longa bagagem. E nada melhor para ganhar notoriedade do que escalar Robert Pattinson. Bom Comportamento (Good Time, 2017) merece chamar mais atenção, tantas são suas qualidades.

Quem ainda vê Pattinson como o vampiro da novela Crepúsculo precisa rever seus conceitos urgentemente. O ator já mostrou ter amadurecido, o que é visível inclusive em suas escolhas. Com um currículo com Life (2015) e The Rover (2014), ele não precisa provar nada para ninguém. Aqui, ele vive Constantine Nikas, um criminoso de meia pataca que carrega em seus crimes o irmão deficiente mental (o próprio Benny Safdie). Quando uma fuga dá errado, Connie foge e Nick é preso.

Nessa pequena introdução, percebemos o quanto os irmãos são afeiçoados um pelo outro – mesmo que Connie use isso de forma negativa e moralmente errada. Ao mesmo tempo em que tenta levantar a autoestima do caçula, ele o usa como cúmplice. E isso funciona bem na lógica do roteiro, assinado por Josh Safdie e o parceiro habitual Ronald Bronstein. Os dois atores estão afiados. Enquanto Pattinson precisa segurar a câmera em si, sem medo de parecer feio ou antipático, Benny convence como autista (provavelmente, já que a condição não é explicada). E não faltam closes em ambos, no granulado dos 35 mm.

Assim como não sabemos exatamente o que se passa com Nick, não conhecemos o passado dos Nikas. Frequentemente, recebemos informações pontuais, mas nada fica muito claro. É uma decisão acertada do roteiro, ou eles poderiam ser vistos como coitadinhos, vítimas da sociedade ou do capitalismo. Nada disso acontece, a última coisa que sentimos por Connie é pena. Mas ele não deixa de ter um carisma, algo que faz com que torçamos por ele. Ou, ao menos, fiquemos curiosos sobre seu destino. A personagem de Jennifer Jason Leigh (de Os Oito Odiados, 2016), infantil e um tanto desequilibrada, mostra o tipo de gente com quem Connie tende a se misturar.

Outro ponto interessante é a participação de Barkhad Abdi, o amador que ganhou notoriedade graças a sua enorme competência em sua estreia, com Capitão Phillips (Captain Phillips, 2013). Visto recentemente em Blade Runner 2049, Abdi vive um segurança de um parque que mora em um local não muito luxuoso, mas tem um apartamento montado com muito bom gosto. Parece haver, aí, uma mensagem do tipo: trabalhe e corra atrás de suas coisas. Os Nikas sempre tentam dar jeitinhos e olha onde eles chegaram.

Durante a sessão de Bom Comportamento, algo que não pode ser ignorado é a trilha sonora. Bem adequada, ela casa bem com o tom do filme: a urgência e a crueza das ruas e os cortes rápidos. Não à toa, Daniel Lopatin foi sagrado Melhor Compositor em Cannes, onde o filme foi também indicado à Palma de Ouro. Os irmãos Safdie conseguiram fazer uma espécie de Depois de Horas (After Hours, 1985) do crime. Nada mais justificado que agradecer ao mestre Martin Scorsese nos créditos. E ele ainda produzirá o próximo trabalho da dupla.

Benny Safdie é o irmão que aparece em frente às câmeras

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mãe!: uma reflexão (sem spoilers)

por Marcelo Seabra

Se Darren Aronofsky fosse um chef de cozinha, ele teria feito um prato vistoso e extremamente saboroso. Mas, mesmo depois de comer, você não saberia dizer o que tem entre os ingredientes. E mesmo ele explicando a receita, você ainda discordaria, dizendo ter porco onde ele alega ter colocado frango. Ou algo assim. E ele chamaria o prato de mãe! (mother!, 2017). E teria gente pelo mundo considerando-o o pior prato já feito no mundo da gastronomia.

Essa metáfora representa bem o que tem acontecido com o público ao sair de uma sessão de mãe!, E o filme fica na sua cabeça por bastante tempo. Quando você pensa ter entendido uma parte, outra não faz sentido e você volta ao início. O diretor, em entrevistas, contou o que o levou a escrever esse roteiro e o que ele tinha em mente, quais as referências. Não necessariamente você vai concordar, bolando outra possível explicação. E essa é uma das máximas da arte: ela te permite interpretar, independente do que o autor planejou. O que Carlos Drummond de Andrade tinha em mente quando escreveu determinado poema não importa quando tenho suas palavras e a minha capacidade de leitura.

O elenco do filme está muito adequado e cumpre bem sua função. Jennifer Lawrence (Oscar por O Lado Bom da Vida, 2012) é a jovem esposa de um poeta (Javier Bardem, Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez, 2007) que se esforça para deixar tudo facilitado para o marido, que passa por um bloqueio criativo e se isola para tentar escrever. A chegada de um senhor desconhecido (Ed Harris, de Westworld, indicado a quatro Oscars) traz um pouco de ar fresco, com suas histórias. Mas a esposa não entende de onde ele veio ou quem ele é. E a situação só piora quando aparece a folgada da mulher dele (Michelle Pfeiffer, de O Mago das Mentiras e indicada a três Oscars). Como pode-se perceber, são todos atores prestigiados na indústria, com carreiras bem estabelecidas.

Se Aronofsky escolheu a dedo seus atores, isso fica mais óbvio com Lawrence. Namorados do lado de cá da tela, o diretor parece fixado na atriz. A câmera custa a deixá-la de lado, mesmo que por alguns segundos. Ela é a atração principal do filme e ele parece confiar muito na beleza dela, que deve hipnotizar também o público. Num primeiro olhar, ela e Bardem podem formar um casal um pouco estranho, mas isso é rapidamente assimilado, já que era mesmo para ser assim, com uma diferença de idade grande. O que acontece, inclusive, na realidade.

Outros autores, como um David Lynch, fazem questão de entregar obras fechadas, que mal permitem alguma interpretação. E não faltam defensores para dizer que a arte não precisa de lógica ou explicação. Talvez, seja essa a razão de tantas pessoas terem reclamado de mãe!: a falta de uma saída clara. Mas Aronofsky não complica tanto. Ele apenas não facilita. Se houver elementos comprobatórios em cena, a teoria do espectador é válida. E várias já apareceram. O que é certo é que trata-se de uma alegoria, tudo representa outra coisa. E, se você não conseguir uma explicação para o pó amarelo, não se preocupe. Não se prenda aos detalhes.

O outro casal, formado por Harris e Pfeiffer

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Entre Irmãs é o épico de Pernambuco

por Marcelo Seabra

Emília e Luzia são irmãs, e alimentam expectativas de vida completamente diferentes. Em uma cidadezinha do poeirento interior pernambucano, uma sonha em ir para a capital, enquanto a outra só teme esse dia, quando as duas serão separadas. Usando esse drama, o diretor Breno Silveira mostra um amplo panorama do Brasil, da história a comportamentos. Entre Irmãs (2017), que chega aos cinemas essa semana, é um épico que mostra que muitos problemas do passado continuam atuais.

Ainda lembrado por Dois Filhos de Francisco (2005), Silveira parece sempre interessado em personagens genuinamente brasileiros, como o famoso cantor Luís Gonzaga (de Gonzaga: De Pai para Filho, 2012) ou o anônimo motorista de caminhão de À Beira do Caminho (2012). Agora, é a vez de duas meninas nordestinas, competentes e bem educadas costureiras que nos revelam algumas contradições e preconceitos do país. Dos tais homens de bem. Nos papéis principais, Marjorie Estiano (de O Tempo e o Vento, 2013) e Nanda Costa (de Gonzaga) são mulheres fortes, que carregam bem o roteiro de Patrícia Andrade, habitual colaboradora do diretor.

De um lado, temos um líder de cangaceiros bem romantizado, um cavalheiro (vivido por Júlio Machado, de Não Pare na Pista, 2014). Injustiçado pela vida, ele foi forçado pelo destino a pegar em armas. Um pouco forçado, sim, mas ainda é um núcleo interessante, que ajuda a desmistificar essas figuras. Do outro lado, temos a alta classe recifense representada por um rico patriarca (Cláudio Jaborandy, de Gonzaga) e sua esposa (Rita Assemany, de Abril Despedaçado, 2001). O Dr. Duarte acredita piamente na frenologia, pseudociência que foi desacreditada no século XIX. Ele era uma referência de cultura e autoridade para seus pares, mesmo com esse pensamento extremamente atrasado. E Dona Dulce só se preocupava com o que os outros iriam falar, vivendo de aparências e convenções.

Baseado no livro A Costureira e o Cangaceiro, da pernambucana radicada nos Estados Unidos Frances de Pontes Peebles, o filme tem uma cara de romance definitivo de uma região, bem como é O Tempo e o Vento para o Rio Grande do Sul. Mas suas questões são bem atuais, não ficando apenas na formação de um povo. Um exemplo claro desse frescor é a sugestão de uma cura gay, algo que parecia relegado ao início do século passado, e é encontrado nos jornais de hoje. Luzia e Emília são dois exemplos que podemos chamar de mulheres empoderadas, que fazem seus próprios destinos, procurando um par para somar, e não para protegê-las ou dominá-las.

A sessão de Entre Irmãs é longa, com suas duas horas e quarenta minutos. Mas não chega a cansar. Silveira costura bem belas imagens, tanto no campo quanto na cidade, uma trilha sonora discreta e um bom elenco – além dos citados, vemos em cena Letícia Colin (do novo Saltimbancos Trapalhões, 2017), Fábio Lago (de Operações Especiais, 2015), Rômulo Estrela (de Depois de Tudo, 2015) e Ângelo Antônio, o tal Francisco que tinha dois filhos. É sempre bom ver uma obra feita com capricho que dá os holofotes a mulheres tridimensionais. Ainda mais quando, até hoje, o corretor do Word não reconhece a palavra “empoderada”.

Elenco e equipe se reuniram em SP para coletiva

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Programa do Pipoqueiro #03 – The Commitments

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro chega à terceira edição trazendo a trilha sonora de The Commitments – Loucos Pela Fama, longa de 1991, e suas influências, passando por alguns dos grandes nomes da soul music de todos os tempos. Clique no play abaixo e viaje conosco!

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Villeneuve nos apresenta a outro Blade Runner

por Marcelo Seabra

É muito corajoso por parte de um diretor aceitar a tarefa árdua de comandar a sequência de um cult movie de 35 anos atrás. Como Denis Villeneuve não é qualquer um, a expectativa por algo de qualidade era grande, e só cresceu a cada novo material divulgado. A feliz conclusão, após uma sessão de Blade Runner 2049 (2017), é que o diretor deu conta do recado com folga. Não é o caso de dizer qual dos dois é melhor e, sim, de apontar as muitas qualidades dessa continuação.

Ridley Scott criou um universo bem particular no primeiro filme, nos idos de 1982. Usando elementos do genial escritor Philip K. Dick, ele deu vida a um agente que caçava replicantes, os avançados robôs que se misturavam entre os humanos. Mas o ano foi de E.T. – O Extraterrestre e o longa de Scott ficou para trás nas bilheterias. Só foi descoberto com o andar das décadas e o advento da fita VHS e, posteriormente, do DVD. Nem ter a presença do astro Harrison Ford, conhecido como Han Solo e Indiana Jones, ajudou de imediato.

O novo filme está indo para o mesmo caminho: toneladas de críticas positivas e pouca arrecadação nos Estados Unidos. O lado bom é que ele está indo na mesma direção também em outros pontos: na qualidade técnica, no suspense e na riqueza de situações e discussões levantadas, como toda boa ficção-científica deve fazer. Ele faz justiça ao original recriando aquele cenário, desenvolvendo-o para o que ele seria trinta anos depois, de 2019 a 2049, e trazendo de volta atores indispensáveis. Que alegria ver Edward James Olmos de novo! Outro retorno que deve ter contribuído muito para essa fidelidade é o do roteirista Hampton Fancher, responsável pela história e pelo roteiro (com Michael Green, de Logan, 2017).

Sem se preocupar em agradar a ninguém, e conseguindo exatamente por isso, o roteiro nos apresenta a K (Ryan Gosling, de La La Land, 2016), um agente da polícia de Los Angeles responsável pela captura de replicantes ilegais fugitivos. Em algum momento, como podemos prever e o trailer entrega, o caminho dele vai se cruzar com o de Rick Deckard (Ford), e a justificativa para tê-lo de volta é bem válida. Há outros personagens interessantes nesse meio,  merecem menção Robin Wright (de Mulher-Maravilha, 2017), Ana de Armas (de Cães de Guerra, 2016), Dave Bautista (o Drax de Guardiões da Galáxia) e Sylvia Hoeks (de O Melhor Lance, 2013), que surpreende pelas habilidades de luta. E há uma participação de Jared Leto (de Esquadrão Suicida, 2016), que parece mal escalado. Nada que atrapalhe, mas um ator mais velho teria funcionado melhor.

Logo no início, vemos um exemplo de preconceito racial de um humano para com um replicante, e percebemos que o filme será rico em questionamentos. O que é ser humano? É a constituição física que manda? Ou o fato de nascer do ventre de uma mãe? Quem cria o replicante tem direito sobre a existência dele? É certo usá-los como escravos e em diversos trabalhos recusados por humanos? Será possível se relacionar romanticamente com um holograma (algo como Ela, 2013)? E, assim como o personagem de Samuel L. Jackson em Django Livre (Django Unchained, 2012), temos a figura do traidor do próprio povo, aquele que ajuda o opressor a subjugar seus pares.

Além das discussões filosóficas, Blade Runner 2049 traz ótimos resultados técnicos. A fotografia, que respeita o filme original, leva o conceito mais longe e nos deixa com uma grande dúvida: como o excepcional Roger Deakins, com surpreendentes 13 indicações ao Oscar, nunca levou a estatueta? Talvez seja agora. Os recursos IMAX, com um desenho de som meticuloso e um 3D que funciona, chegam a incomodar, a tirar o público do conforto da cadeira para participar da ação. Os efeitos em Joi são fantásticos! E a trilha, assinada por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que trabalharam juntos em Batman vs Superman (2016), consegue a proeza de remeter ao trabalho icônico de Vangelis sem repeti-lo. Chegamos a esperar o surgimento daquelas notas conhecidas, mas os compositores sabiamente resistem a retomá-las.

A campanha de marketing do filme evitou spoilers a todo custo, recebendo dos produtores restrições sobre o que podia aparecer em peças publicitárias. Dos 163 minutos de duração, apenas os iniciais poderiam ser revelados, o que faz total sentido para qualquer obra. E Villeneuve apresenta uma série de três curtas (facilmente encontrados no YouTube) que narram eventos intermediários entre os dois filmes, o que ajuda na promoção. Os curtas acrescentam para quem assisti-los, mas não fazem falta. Apenas ilustram fatos mencionados, como o grande blackout de 2022. Com A Chegada (Arrival, 2016), o canadense já se garantia como um dos mais instigantes diretores em atividade. A barra de expectativa acaba de subir.

Os atores com Villeneuve e Scott, agora apenas produtor

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Jogo Perigoso é mais Stephen King em 2017

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Pode-se dizer que esse é o ano de Stephen King nas telas, tanto grande quanto pequena. Nada menos do que cinco adaptações de histórias do “mestre do terror” chegam às telas grande e pequena esse ano. O Nevoeiro virou uma série de TV que teve suas qualidades superadas por seus defeitos e não terá uma segunda temporada. A Torre Negra e It – A Coisa, foram adaptadas para o cinema com resultados bem distintos: enquanto a primeira foi recebida de maneira bem fria por público e crítica, com bons motivos, a segunda talvez seja um dos filmes mais impressionantes do ano até o momento.

As duas adaptações restantes de obras de King ficaram a cargo da Netflix. 1922, baseada em um conto da coletânea Escuridão Total Sem Estrelas será disponibilizado no serviço de streaming no dia 22 de outubro. Já Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017) chegou à Netflix no último dia 29 de setembro e alcança resultados mistos. Funciona muito bem como adaptação, mas nem tanto como filme.

Os fãs de Stephen King, especialmente aqueles que leram Jogo Perigoso, sabiam que seria uma adaptação complicada. Quando a história começa, Gerald Burlingame (Bruce Greenwood, de Kingsman: O Círculo Dourado, 2017) e sua esposa Jessie (Carla Gugino, de Terremoto, 2015) estão enfrentando uma crise conjugal. Gerald, um advogado famoso e bem-sucedido, decide que um fim de semana em um chalé isolado na companhia da esposa e mais ninguém poderia ajudar a melhorar a relação do casal.

Lá, Gerald resolve que algemar as mãos da esposa na cabeceira da cama poderia gerar um jogo sexual excitante. Jessie embarca no jogo, mas na medida em que ele se torna mais agressivo, ela recua. No confronto verbal que se segue, Gerald acaba sofrendo um infarto fulminante. Ele morre deixando a esposa algemada à cama sem possibilidade de sair. As chaves das algemas se encontram em uma mesa fora de seu alcance, assim como o único celular disponível, eliminando suas chances de conseguir alguma ajuda. A partir daí, Jessie precisa enfrentar seus demônios, presentes e passados, e confrontar um trauma de infância enquanto tenta sair. Do contrário, acabará morrendo de desidratação em poucos dias.

A maior parte de Jogo Perigoso se passa no quarto do chalé, onde Jessie se encontra presa com o cadáver do marido, e na mente dela. Ao longo do filme, a consciência de Jessie vai e volta e ela alucina bastante, por motivos que só podem ser explicados devido ao estresse ocasionado pela situação desesperadora. Nessas alucinações, ela trava diálogos duros com partes de sua consciência que se manifestam tanto como ela mesma quanto como seu marido Gerald, que se revela um fantasma mesquinho e, em alguns momentos, chato. Nessas conversas, o espectador descobre mais sobre a personalidade e o passado de Jessie. Em alguns momentos, o expectador partilha das dificuldades de Jessie em determinar o que é real e o que é produto de sua imaginação.

Jogo Perigoso se apoia bastante nas habilidades dramáticas de Carla Gugino para contracenar não apenas com os demais atores do filme – entre eles ainda estão Henry Thomas (de Ouija: A Origem do Mal, 2016), Carel Struyken (de séries como Twin Peaks e Lista Negra) e Chiara Aurelia (Agente Carter) – mas também consigo mesma. E ela consegue passar bem a ideia da mulher que se encontra em uma situação desesperadora e que fará tudo para sair dela. Bruce Greenwood também desempenha bem o papel de marido odioso, ainda que algumas das falas que lhe foram atribuídas no roteiro soem extremamente exageradas. Isso, no entanto, é apenas um detalhe.

O fato é que o diretor Mike Flanagan e o co-roteirista Jeff Howard (ambos de Ouija) conseguiram tirar o melhor da história de King em sua transposição para as telas. Jogo Perigoso, livro de 1992, não é um dos melhores trabalhos do escritor americano e isso se reflete na telinha. É um esforço decente e um filme que tem seus bons momentos, mas, no fim das contas, é apenas isso: um esforço decente. Faz jus à história de King e atrairá a atenção daqueles familiarizados com o livro. Sendo analisado apenas como um filme de suspense/terror, não é lá essas coisas, ainda que consiga causar tensão e alguma náusea.

Em menos de 20 dias, King terá outro de seus trabalhos na Netflix: 1922

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Chocante é comédia que funciona

por Marcelo Seabra

Pode parecer exagero, ou até perseguição. Mas colocar os termos “comédia” e “Globo Filmes” numa mesma frase costuma resultar em traumas grandes, daqueles que te fazem querer “desver”, como se isso fosse possível. Por isso, a surpresa positiva com Chocante (2017) é bem surpreendente, quase inacreditável. Os envolvidos parecem ter se agarrado a uma lembrança boa de suas carreiras – todos eles as têm – e mantido isso em mente, contornando histrionices e mantendo os pés no chão.

Baseado num argumento de Pedro Neschling, que atua no longa, o roteiro de Chocante nos leva de volta ao início dos anos 90, quando o Programa do Gugu revelava os artistas que o Brasil aprendia a amar de um dia para o outro e que sumiam com essa mesma facilidade. Boy bands pipocavam pelo mundo, inclusive no Brasil: bastava ser apresentável e passar por um teste para formar uma banda dessas. Carisma vencia talento, que invariavelmente faltava aos rapazes.

A carreira desses grupos durava pouco, baseada em um sucesso apenas, daqueles que grudavam na cabeça. As roupas eram espalhafatosas, as coreografias pareciam criadas por uma garotinha de dez anos. É nesse contexto que conhecemos Chocante, a boy band que durou meteóricos oito meses, teve um gostinho da fama e desapareceu dos holofotes. Vinte anos depois, eles se reencontram pela ocasião da morte de um deles. E um retorno começa a parecer uma boa ideia.

Ter Bruno Mazzeo na produção, roteiro e atuando deve ser garantia de financiamento pela Globo Filmes. Ainda mais reunindo Lúcio Mauro Filho, Marcus Majella e Bruno Garcia no elenco. Juntos, esses quatro eram Chocante, além do falecido. A nostalgia que eles passam no dia a dia de vidas sem graça é a principal atração do longa. Sem piadas de baixo calão ou qualquer outra apelação, eles conseguem tirar humor de situações críveis, que facilmente ficariam deprimentes. Todos têm empregos distantes de glamour e tudo o que eles querem é trazer de volta alguma cor a suas rotinas.

O contraste entre os quatro “veteranos” e Rod (Neschling), o novato, é também um ponto alto. Viciado em redes sociais e egresso de um reality show de sobrevivência, Rod é o retrato de uma subcelebridade que tenta a qualquer custo prolongar seus 15 minutos de fama, mesmo que não tenha nada a acrescentar à vida de seus fãs (ou seguidores). Frases feitas e discursos vazios se multiplicam, causando estranhamento até entre seus colegas. A caracterização da época, a personalidade de cada – com pochete e tudo – e as participações especiais (vocês viram o Paulo Gustavo?) são bons diferenciais.

Para provar que a suspeita de ruindade antes da sessão era cabível, cito apenas três exemplos (dentre vários possíveis): esse, esse e esse. Isso, para ficar apenas em longas originais, sem entrar nas intermináveis sequências caça-níqueis. E originais no sentido de não serem escancaradamente baseadas em outras obras, já que eles roubam elementos com frequência. Chocante, por sua vez, faz lembrar algumas produções gringas, como Ainda Muito Loucos (de 1998, com seus anti-heróis cansados e endividados) e Ou Tudo, Ou Nada (1997, com as dificuldades das coreografias e as dancinhas fora de contexto). Mesmo assim, consegue ter vida própria e nos proporciona uma sessão agradável.

Esta é a versão jovem da banda

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Programa do Pipoqueiro #02 – Séries de TV

por Marcelo Seabra

Está no ar a segunda edição do Programa do Pipoqueiro! Aqui, a proposta é passar por algumas boas séries de TV e tocar suas marcantes músicas-tema. Clique no play abaixo e divirta-se!

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Kingsman 2 exagera e erra a mão

por Marcelo Seabra

Depois do sucesso do primeiro filme, em 2014, uma sequência de Kingsman já era certa. E um problema era claro: como voltar a esse universo e não contar com a figura fundamental de Colin Firth? Pois Matthew Vaughn resolveu a empreitada e Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle, 2017) chega aos cinemas essa semana. A má notícia é que a nova produção eleva à décima potência o que já estava no limite na anterior, começando pela duração.

Vaughn parece ter se divertido muito fazendo o primeiro e topou retornar para a continuação, assim como sua parceira roteirista, Jane Goldman. No elenco, todos que precisaram voltar aceitaram o convite. Só quem não voltou foi o frescor, já que a história deixou de ser novidade. Para tentar compensar essa baixa, a dupla pegou as situações e jogou nas alturas, perdendo timing, exaurindo o humor e extinguindo a paciência do público.

Devidamente formado nas artes de lutas e cavalheirismo, Eggsy (Taron Egerton) assumiu o nome de Galahad e ainda lamenta a perda de seu mentor, Harry, o Galahad anterior (Firth). Vivendo uma vida tranquila com a namorada, a Princesa Tilde (Hanna Alström), ele tem sua realidade perturbada após um encontro com o desafeto Charlie (Edward Holcroft), que disputou a vaga na Kingsman com ele.

Devido às novas circunstâncias, Eggsy se une a Merlin (Mark Strong) para descobrirem o que é e o que pretende o Círculo Dourado, uma organização criminosa que estaria ligada à desgraça da agência inglesa. A líder dos bandidos, Poppy (Julianne Moore, do último Jogos Vorazes), vive numa vila secreta, no meio de uma floresta, com uma ambientação de uma lanchonete dos anos 50. Para se sentir mais em casa, ela sequestrou ninguém menos que Elton John, que vez ou outra faz apresentações particulares.

Sem entrar muito em detalhes, em algum momento os ingleses se encontrarão com os “primos” americanos, a agência Statesman. A forma como um grupo descobre o outro é apenas uma das muitas situações apressadas ou não explicadas do roteiro. Com os Statesmen, os ingleses Vaughn e Goldman vislumbram uma oportunidade para brincar com os clichês norte-americanos da mesma forma como fizeram com seus conterrâneos. A diferença é o conhecimento de causa, que falta aos roteiristas quando se atravessa o Atlântico. Sem saber exatamente do que zombar, acaba-se caindo em lugares-comuns vazios e sem graça.

O papel das mulheres na trama, que já causava certo desconforto no primeiro filme, piorou. Além de vítimas em perigo, elas servem para serem usadas (Clara) ou deixadas para escanteio (Ginger Ale, uma Halle Berry apagada). Poppy Delevingne (sim, esse nome existe! – acima), que vive Clara, tem a única função de ser um colírio para o público masculino, mas exibe uma magreza que não pode ser saudável. Só Julianne Moore se salva, fazendo uma vilã exagerada inspirada, segundo ela, no Lex Luthor de Gene Hackman. Piadas de cunho sexual não faltam, colocando até Elton John no meio. A participação do cantor, inclusive, começa engraçada e vai nos enervando até que começamos a desejar o pior para ele.

Os Statesmen respondem pelos outros novos nomes no elenco. O chefe deles é ninguém menos que Jeff Bridges (que disputou o Oscar com Firth duas vezes, levando por Coração Louco, 2009), visto de cara limpa pela primeira vez em anos. Channing Tatum é praticamente o Magic Mike devidamente treinado, forçando ao máximo a figura do sulista viciado em armas, bebida e tabaco. Não ao máximo: essa função fica com o chileno Pedro Pascal (de Narcos), que, com seu bigode à Burt Reynolds, acaba sendo o mais americano de todos. O laço com laser de seu personagem é responsável por algumas das cenas mais exageradas.

A sátira política que o filme parece querer fazer é um tiro no pé gigantesco. No primeiro filme, vemos cabeças explodindo e uma delas é a de um presidente americano negro, claramente Barack Obama. Ou seja: não há problema em brincar com a realidade, mesmo que fique parecendo racismo ou posicionamento político. Se é assim, por que não sacanear Donald Trump? Os realizadores preferem usar um presidente fictício – o terceiro da carreira de Bruce Greenwood (ao lado), de A Lenda do Tesouro Perdido 2 (2007) e Treze Dias Que Abalaram o Mundo (2000). E, quando achamos que há uma piada sendo feita com o direitão canal Fox, personificado por Emily Watson (de A Teoria de Tudo, 2014), ela acaba mostrando sua real natureza, e lembramos que o filme é bancado pela própria Fox.

Com inacreditáveis duas horas e vinte minutos de duração, 80 minutos a menos que a montagem preliminar, Kingsman 2 se estende demais em vários momentos. “Menos é mais” é uma máxima aplicável aqui, Vaughn deveria ter isso em mente. Depois de uma invejável fila de cinco ótimos filmes, desde a estreia, com Nem Tudo É o Que Parece (Layer Cake, 2004), o diretor derrapou. Torçamos para ele ter consciência disso, já que uma terceira aventura já está confirmada.

A revista People reuniu o elenco de cara limpa

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Tom Cruise é um traficante Feito na América

por Marcelo Seabra

Adler Berriman Seal, o Barry, teve o jogo de cintura necessário para conseguir trabalhar para a CIA e para o Cartel de Medellín ao mesmo tempo. Na ida, cumpria missão para um, e aproveitava a volta para resolver o outro lado. Assim, otimizava seus custos e ainda ganhava um trocadinho extra. Esse dinheiro chegou a um montante tal que ele não conseguia mais esconder em sua propriedade, e precisava enterrar no quintal. Essa é uma história tão absurda que só podia ser real. E Tom Cruise resolveu levá-la ao Cinema.

Doug Liman lançou recentemente Na Mira do Atirador (The Wall, 2017), mas não parece se cansar. Feito na América (American Made, 2017) é mais um fruto da feliz parceria do diretor com Cruise, que já nos havia dado No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow, 2014). O estilo de Liman é bem interessante para dar ritmo ao longa, com uma montagem ágil e um bem-vindo humor nas horas certas. Essa é uma das razões de Feito na América ser tão divertido. Há indicações de que os fatos narrados não são exatamente como aconteceram, o que invalidaria a obra como fonte histórica. Ainda bem que ela não se propõe a isso.

Quando conhecemos Seal, ele é um piloto de avião de uma companhia aérea que demonstra estar entediado com a rotina. Sua salvação chega na pele de Monty Schafer (Domhnall Gleeson, de O Regresso, 2015 – acima), um misterioso agente da CIA que lhe faz uma proposta: tirar fotos aéreas de negociações escusas e, assim, servir ao país. Logo, Seal percebe que o patriotismo não necessariamente traz dinheiro e uma outra oportunidade aparece: ajudar o bando do futuro lorde da droga Pablo Escobar (Mauricio Mejía). E essa, sim, traz muito dinheiro. Imagine ganhar dois mil dólares por quilo de pasta base de cocaína traficada levando 300 quilos por viagem…

Esse era o tipo de problema que Barry Seal (ao lado, o verdadeiro, que está mais para James Belushi) nunca imaginaria ter: falta de espaço para guardar o dinheiro. Ou precisar de várias empresas de fachada para lavar toda essa grana. A vida dele segue parecendo uma aventura de sessão da tarde, quase como uma variação do Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013). Mas sabemos que quem se envolve com esse tipo de gente vai acabar encontrando situações mais graves. Para complicar as coisas, surge um irmão da esposa que não tem absolutamente nada na cabeça, um papel muito bem defendido por Caleb Landry Jones (de Corra!, 2017).

O roteiro, assinado pelo pouco experiente Gary Spinelli, é surpreendentemente bem amarrado. Claro que fatos da vida de Seal foram suprimidos, como as duas primeiras esposas e os dois primeiros filhos. Mas, como produto de entretenimento, funciona que é uma beleza. A filha mais velha chegou a entrar na justiça, para que a produção fosse parada. Podemos deduzir que não deu o resultado esperado por ela. A fotografia do nosso César Charlone (de Cidade de Deus, 2002) nos apresenta a paisagens belíssimas e nos situa bem geograficamente, e o filme ainda conta com o privilégio de uma inspirada trilha de Christophe Beck (de Homem-Formiga, 2015).

Feito na América escancara alguns problemas inerentes aos Estados Unidos, país notório por meter o dedo nos conflitos dos outros. E, invariavelmente, essa intrusão causa mais problemas do que ajuda, além de gerar aberrações como Barry Seal. Esta é uma ótima chance para levantar questões, mas é também um grande veículo para Cruise gastar seu enorme carisma e mostrar que ainda é um astro do primeiro escalão. E não deixa de ser um aquecimento, já que ele voltará em breve a pilotar aviões na continuação de Top Gun (1986).

Lá se vão 30 anos desde que Tom Cruise pilotou aviões

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