Homem-Aranha no Aranhaverso é pura diversão

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

O conceito de múltiplas dimensões (ou multiversos) é bastante explorado nas histórias em quadrinhos. Apesar de ser mais popularmente utilizado pela DC Comics, a Marvel também se aproveita do conceito de haver versões diferentes do mesmo personagem em dimensões diversas. E isto é explorado em Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spiderverse, 2018), produção da Sony em parceria com a Marvel Studios que levou para casa o Globo de Ouro de melhor animação neste ano e concorre ao Oscar.

Quando a animação começa, somos apresentados a uma versão um pouco diferente do herói aracnídeo que conhecemos. Apesar de ser Peter Parker, este é um Homem-Aranha mais bem-sucedido e popular do que aquele que nos acostumamos a ver, especialmente em sua trilogia original. Este Peter Parker (voz de Chris Pine) habita a mesma dimensão na qual vive Miles Morales (Shameik Moore), o protagonista da animação.

Miles é um adolescente quase típico. Mora no Brooklyn com os pais, o policial Jefferson (Brian Tyree Henry) e a enfermeira Rio (Luna Lauren Velez), e tem uma boa relação com o tio Aaron (Mahershala Ali). Ele é quase típico porque, a exemplo de boa parte dos Homens-Aranha da história da Marvel, Miles tem um Q.I. acima da média, o que faz com que acabe indo estudar em uma escola para adolescentes especiais. Isso, no entanto, não o faz deixar de ser um adolescente meio rebelde.

Miles gosta de grafitar paredes e colar adesivos em propriedade pública, o que não cai bem com seu pai. Seu tio, Aaron, não tem dessas restrições e, ao levar o moleque para um lugar secreto onde ele poderia grafitar à vontade, Miles é picado por uma Aranha geneticamente alterada, vinda de uma outra dimensão. Inicialmente, ele pensa que aquele é um aracnídeo comum e deixa pra lá.

Pouco depois, ele acaba se envolvendo inadvertidamente em uma briga envolvendo o Homem-Aranha, o Rei do Crime (Liev Schreiber) e o Duende Verde (Jorma Taccone). Wilson Fisk tem um projeto envolvendo explorar dimensões paralelas. O Homem-Aranha, claro, quer impedir o experimento, pois acredita que ele resultará na morte de praticamente todos os habitantes de Manhattan. No conflito que se segue, o Homem-Aranha morre e Miles, já ciente de seus poderes, promete seguir o legado do herói e impedir que Fisk complete seu experimento.

O que Miles não sabe é que Fisk conseguiu abrir um portal dimensional durante a luta com o Homem-Aranha. Cinco dimensões foram alcançadas e um ser de cada uma delas foi atraída para aquela dimensão. Entram em cena a Mulher-Aranha (ou Spider-Gwen, voz de Hailee Steinfeld), uma versão mais velha do Homem-Aranha (Jake Johnson), o Homem-Aranha Noir (voz de Nicolas Cage), Peni Parker (Kimiko Glenn), uma versão do Homem-Aranha robótica e o Porco-Aranha (John Mulaney). Juntos, eles têm duas missões: ensinar Miles Morales a se tornar um Homem-Aranha digno e arruinar os planos de Fisk, impedindo-o de causar um genocídio em sua própria dimensão.

Homem-Aranha no Aranhaverso é uma animação extremamente divertida. Ao contrário de muitos filmes de heróis atuais, onde as piadas são forçadas e às vezes mal encaixadas, aqui elas funcionam em praticamente todo o tempo. Apesar de Miles Morales ser o protagonista da película, os melhores momentos dela, tanto os cômicos quanto os heroicos são, de longe, estrelados pelo Peter Parker de Jake Johnson. Ele rouba a cena em praticamente todos os momentos em que aparece.

Outro destaque cômico vai para o Homem-Aranha Noir, que acaba sendo muito mais engraçado do que o Porco-Aranha. E aqui vale um esclarecimento: ao contrário do que vem se propagando na internet, o Porco-Aranha não se originou como uma homenagem ao longa-metragem dos Simpsons, onde Homer faz uma brincadeira com seu porco. Este personagem, que no original se chama Spider-Ham (ou Presunto-Aranha), foi apresentado ao mundo em 1983, vinte e quatro anos antes do mascote suíno de Homer.

Além das piadas óbvias, Homem-Aranha no Aranhaverso tem algumas mais sutis, que poucos notarão. Os níveis de ação e de drama do longa também estão bastante equilibrados e a animação em si é muito bem feita, ainda que o 3D não seja tão necessário (como, aliás, acontece na maioria dos filmes atuais). Até mesmo a história do longa, se não tem nada de especial, é bem redondinha, cortesia de Phil Lord e Rodney Rothman. Mesmo aqueles que não conhecem Miles conseguem se importar com ele e com seus companheiros aracnídeos, cujas origens são apresentadas na tela, algumas mais longas, outras mais resumidamente, de forma a situar os espectadores que não estão familiarizados com estes personagens.

Homem-Aranha no Aranhaverso tem praticamente duas horas de duração, longo para uma animação. Mas é tão divertido e cheio de ação, que parece mais curto. Como não poderia deixar de ser, aqui também temos uma participação engraçada do falecido Stan Lee e uma cena pós e uma ao final dos créditos. Essa, inclusive, é uma das mais divertidas da história das cenas pós-créditos de todas as produções Marvel atuais, ainda que não tenha muita relevância para o longa nem estabeleça um gancho para uma possível continuação. Ao contrário da cena pós-créditos de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, no entanto, essa vale muito a pena esperar.

Finalmente, há uma reclamação a ser feita que é o fato de haver pouquíssimas sessões de Homem-Aranha no Aranhaverso legendadas. Já passou da hora das distribuidoras nacionais perceberem que animações não são apenas para crianças e que há toda uma geração de adultos, que preferem o áudio original, fãs delas.

Mais histórias no Aranhaverso estão a caminho

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Creed x Drago volta a ser a luta do ano

por Marcelo Seabra

Alguns momentos do Cinema da década de 80 são memoráveis e quem os presenciou sempre carregará um misto de nostalgia e esperança de vivenciar aquilo novamente. O reencontro de Johnny e Daniel San, mostrado em Cobra Kai, representou exatamente isso para os fãs de Karatê Kid. Agora, chegou a hora de ver Rocky Balboa e Ivan Drago mais uma vez num mesmo ringue. Calma, eles não lutam, ninguém sai machucado em Creed II (2018).

Depois do sucesso de Creed (2015), era claro que viria um novo episódio da franquia Rocky. A questão era: qual será a desculpa agora? Afinal, colocar Rocky para lutar não dá mais e a sensação do momento é Adonis Creed. O longa conseguiu usar um pouco do carisma de Sylvester Stallone para Michael B. Jordan em seu favor, renovando a série. “Se já temos um novo herói, precisamos de um novo vilão”, devem ter pensado os responsáveis.

Era o momento, então, de reapresentar um velho conhecido do público. Drago foi o segundo papel de Dolph Lundgren e garantiu a ele a vaga em Mestres do Universo (1987), como He-Man. Em 1985, Rocky IV (acima) traz o campeão da Filadélfia defendendo o cinturão contra o lutador da União Soviética que, durante uma luta, matou Apollo Creed (Carl Weathers). O longa termina com Rocky vencendo e vingando o amigo, com o soviético em desgraça.

Mais de trinta anos depois, Drago considera o filho (Florian “Big Nasty” Munteanu) pronto para trilhar o caminho que ele próprio havia feito: ir à América e desafiar o campeão atual. A mídia especializada fica louca com a reedição da histórica e trágica luta Creed X Drago. Seria o estilo ágil de Adonis páreo para a brutalidade de Viktor? E como será para Rocky e Ivan se reencontrarem? São perguntas que o longa responde bem.

Por outro lado, os estereótipos da obra de 1985 se repetem à risca. Os russos são maus, frios, jogam sujo. Viktor não deve falar uma só palavra pelos 130 minutos de exibição, ficando apenas na carinha de quem comeu e não gostou. Uma surpresa é a aparição de Brigitte Nielsen, ex de Drago, outra personagem muda. O roteiro tenta desenvolver seus dois protagonistas e releva todos os demais, que não são importantes o suficiente. Tessa Thompson, por exemplo, segue como “a namorada”, sem ter chance para voar. O desentendimento de Rocky com o filho nunca é explicado, apenas temos que aceitar.

Todos os clichês de filmes de luta podem ser observados em Creed II – o final só falta trazer cebolas para a plateia, tamanho é o esforço para fazer todos chorarem. Várias situações dos filmes anteriores são recicladas, e o mesmo é observado na trilha sonora. Ludwig Göransson mais uma vez é o responsável, segurando-se para não abusar do tema clássico, soltando notas aqui e ali até que não aguenta e cede. Steven Caple Jr. assina seu segundo trabalho como diretor, buscando repetir os feitos de Ryan Coogler. Com o carisma de B. Jordan e de Stallone, seria difícil errar. Mas inovar seria pedir muito.

A época de Ivan passou, seu filho Viktor é o desafiante

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Vidro conclui a trilogia de Shyamalan

por Marcelo Seabra

Em 2000, M. Night Shyamalan se reuniu com Bruce Willis, seguindo o sucesso de O Sexto Sentido (1999), para Corpo Fechado (Unbreakable), uma fábula sombria inspirada no universo das histórias em quadrinhos. Em 2016, o diretor comandou Fragmentado (Split), e deu um jeito de conectar os dois longas, dando a entender que teríamos em breve a união desses dois mundos. E ela de fato chegou aos cinemas: Vidro (Glass, 2019) é a conclusão que todos esperávamos para essa improvável trilogia.

Se o primeiro filme focava em David Dunn, o inquebrável personagem de Willis, o segundo nos apresentou a Kevin Wendell Crumb, cujas 24 personalidades são vividas por James McAvoy. A ideia do diretor e roteirista era juntar os dois, agora dando destaque à mente brilhante por trás de tudo: Elijah Price, mais conhecido como Sr. Vidro (Samuel L. Jackson). Foi Price que, após matar muita gente em desastres calculados, descobriu que Dunn era resistente de maneira sobrenatural.

Cuidando de uma empresa de segurança com o filho (novamente Spencer Treat Clark), David Dunn tem o costume de sair para caminhadas, quando tem a oportunidade de esbarrar em desconhecidos e descobrir criminosos nas ruas. Além de superforte e resistente, ele tem essa espécie de sexto sentido. Seu objetivo é encontrar o psicopata conhecido como Horda (McAvoy), de preferência salvando as garotas sequestradas. Logo de cara, os dois são presos e levados para o hospício onde Price está há anos. E isso é tudo que pode ser dito sobre a trama de Vidro.

Para quem está se perguntando se vale a pena conferir Vidro, a resposta é bem simples: é uma ótima conclusão para a trilogia iniciada pelos dois outros. Ou seja: quem não gostou de Corpo Fechado e Fragmentado dificilmente ficará feliz agora. O roteiro é bem coerente com o que Shyamalan fez antes, e o nível de nerdice é ainda maior. Como no primeiro filme, as regras das histórias em quadrinhos são observadas, com as reviravoltas que já esperamos do diretor.

Além de nossos três velhos conhecidos, revemos também Anya Taylor-Joy (de Fragmentado), Charlayne Woodard e Spencer Treat Clark (ambos de Corpo Fechado), respectivamente a vítima de Crumb, a mãe de Price e o filho de Dunn. É importante apontar que temos uma novidade no elenco: Sarah Paulson (de The Post, 2017), sempre uma ótima atriz a se acompanhar. Ah, e não deixa de ser curioso ver o diretor repetir sua ponta de Corpo Fechado.

Os responsáveis pela trilha sonora (West Dylan Thordson) e pela fotografia (Mike Gioulakis) são os mesmos de Fragmentado, o que ajuda a manter uma unidade. Os editores (Luke Ciarrocchi e Blu Murray) claramente têm Shyamalan à frente, guiando o resultado. Como de costume, o corte final é longo, com seus 129 minutos, mas nunca é cansativo. A montagem ágil garante o interesse do espectador e divide bem o tempo de tela entre Willis e McAvoy, e há ainda o outro desafio: McAvoy vive personalidades diferentes e bem marcadas, e essa divisão é clara. E Sam Jackson, quando aparece, mostra serviço, provando o porquê de ter seu nome no título do filme.

Elijah Price é o astro da vez

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Glenn Close brilha como A Esposa

por Marcelo Seabra

Em meio a tantas discussões sobre a óbvia necessidade de valorização do papel da mulher na sociedade, chega aos cinemas um longa que enfia o dedo na ferida. A Esposa (The Wife, 2017) mostra uma situação que, com variáveis, pode acontecer em várias famílias: a da mulher que faz tudo pelo marido e filhos e acaba ficando sempre à sombra deles. E, de quebra, presenciamos atuações fantásticas.

Com várias indicações a prêmios e um Globo de Ouro na bagagem, Glenn Close (a Nova Prime de Guardiões da Galáxia, 2014) tem roubado todos os holofotes para si. Com uma carreira sólida, iniciada no começo da década de 80, a veterana tem recebido merecidos aplausos por uma atuação contida, mas que deixa transparecer algo logo abaixo da superfície. Não cabe entrar em detalhes aqui, mas fica claro desde o início que há muito mais em Joan Castleman do que ela deixa aparecer.

Não tão aplaudido, mas igualmente competente, é Jonathan Pryce (o High Sparrow de Game of Thrones). De vilão de James Bond a Papa Francisco, é um ator de muitos recursos cuja qualidade se encaixa muito bem com a de Close. E o casal ainda tem uma versão mais jovem, vista em flashbacks, vivida pelos ótimos Annie Starke e Harry Lloyd. Starke é filha de Close, o que a torna uma escolha óbvia para o papel. Lloyd (também de GoT) e ela formam um casal explosivo, e as duas histórias são contadas em paralelo até se encontrarem.

Do elenco, ainda é preciso exaltar a presença de Christian Slater (de Ninfomaníaca, 2013), que anda sumido da tela grande, fazendo pequenas participações. Seu crescimento como ator é claro, precisando apenas do papel certo para aparecer mais. Quem destoa é Max Irons (de A Dama Dourada, 2015), que fica sempre com cara de coitado, andando pelos cantos. Não deixa de ser apropriado para o filho mimado do casal, mas passa da conta no quesito irritar o espectador.

A Esposa nos apresenta aos Castleman, casal formado por um escritor famoso e sua devotada esposa, enquanto eles aguardam a confirmação de uma grande notícia: Joe é o mais novo Nobel de literatura. Eles são convidados à entrega do prêmio e vão a Estocolmo, onde a maior parte da ação se passa. A paisagem fria e chuvosa da cidade se alterna com os cenários internos luxuosos, do quarto do hotel ao teatro onde o Rei sueco agracia os vencedores.

Com uma trilha que se mantém a postos, invadindo a cena e sumindo rapidamente, acompanhamos diálogos afiados e ressentimentos vindo à tona. Close e Pryce enriquecem o roteiro de Jane Anderson (de Olive Kitteridge, 2014), que é baseado no livro de Meg Wolitzer. Nada mais acertado, para uma trama como esta, que ter duas vozes femininas por trás, cabendo ao diretor Björn Runge amarrar tudo. Com tantos talentos envolvidos, deve até ter sido fácil.

A versão mais jovem do casal também é ótima

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Cobra Kai é nostalgia da melhor qualidade

por Marcelo Seabra

A lembrança não é muito nítida. Afinal, eu era bem pequeno. O que sei é que fui ao cinema com meu pai e irmãos ver Karatê Kid – possivelmente o segundo, que estreou no Brasil em 1986. Isso me deixa com quatro anos de idade na época, o que provavelmente significa que não devo ter entendido muita coisa. Mas, ainda assim, as imagens me causaram tamanha impressão que saí pela rua, ao final, dando chutes e socos no ar.

A franquia de Daniel San ainda durou bastante tempo, com três sequências – a última sem ele, de 1994. Em 2010, foi a hora de recomeçar a história, colocando Jaden Smith e Jackie Chan nos papéis que haviam sido de Ralph Macchio e Pat Morita. O básico da história todo mundo sabe: um garoto que sofre bullying na nova escola conhece um vizinho mestre no caratê e vira aluno. Enquanto apanha dos “mauzinhos”, aprende conceitos sobre defesa pessoal e equilíbrio, lições para a vida (abaixo).

Numa onda de saudosismo que invadiu Cinema e televisão (Stranger Things que o diga!), viu-se a oportunidade de reviver a saga dos personagens criados pelo roteirista Robert Mark Kamen, que andava mais preocupado com suas novas franquias: Carga Explosiva e Busca Implacável. Daniel LaRusso e Johnny Lawrence (Macchio e William Zabka) voltariam a se encontrar, o que não devia acontecer com frequência, mesmo com eles morando em regiões próximas.

Há alguns anos, a finada série How I Met Your Mother cantou a pedra. Barney Stinson, personagem de Neil Patrick Harris, dizia que o verdadeiro Karatê Kid do título era Johnny, vivido por Zabka, o grande herói do longa. Algo assim acabou se tornando verdade em Cobra Kai, nova atração distribuída pelo YouTube Premium dividida em 10 capítulos curtos, mas muito divertidos. Daniel termina o filme de 84 consagrado campeão e a vida é gentil com ele, que se torna um empresário do ramo automobilístico.

Johnny, no entanto, torna-se uma nota de pé de página, um fracassado que pula de serviço em serviço e invariavelmente acorda de ressaca. Mais do que depressa, ele se torna nosso novo herói, enquanto Daniel não vira exatamente um vilão. E essa dualidade mantém-se por toda a jornada: ninguém é só bom ou só ruim. São dois seres humanos, com suas falhas e qualidades, tentando acertar. Criada a oportunidade, Cobra Kai se torna um novo dojo de caratê e Johnny, um sensei.

O humor da série é de uma leveza que você se pega com um sorriso no rosto por todo o episódio, além de ocasionais gargalhadas. Os acenos aos filmes da década de 80 são constantes, fazendo referência e reverência a determinados momentos. Quem se lembra de Daniel lavando os vidros do carro com movimentos circulares, por exemplo, vai se deliciar com pequenas homenagens. A essência dos personagens é respeitada e mesmo quem não conhece o cânone vai se afeiçoar a eles.

Algumas situações são esperadas, como um óbvio torneio e seus desdobramentos, mas outras quebram totalmente a expectativa do público. Participações especiais, como a de Randee Heller (a mãe de Daniel), são a cereja do bolo. Ver Macchio e Zabka, ambos com mais de cinquenta, reviver os papéis que os tornaram famosos em seus vinte e poucos anos é uma experiência fantástica. Se a nostalgia atual acabou nos trazendo algumas atrocidades, como remakes e sequências desnecessários de filmes e séries (até McGyver ganhou nova roupagem!), também nos presenteou com a ótima Cobra Kai. Uma nova geração de garotos e garotas poderá sair dando piruetas no ar.

Os cinquentões Macchio e Zabka voltam a se enfrentar

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Paul Schrader leva seus personagens ao Coração da Escuridão

por Marcelo Seabra

Tendo crescido em uma igreja protestante reformada, o roteirista e diretor Paul Schrader sabe exatamente do que está falando em No Coração da Escuridão (2017), título que recebeu no Brasil First Reformed, seu trabalho mais recente. Temos aqui um conto de fé abalada com toques metafóricos e muita dor, de causas variadas. E Ethan Hawke mais uma vez prova que segura tranquilamente um filme nas costas, dizendo muito com o olhar.

Os diálogos de Schrader são cirúrgicos. Nada está ali gratuitamente, por acaso. Ao contrário de alguns de seus roteiros anteriores, como Taxi Driver (1976), este não segue num crescendo de desesperança. Temos momentos alternados, mais leves e mais densos, carregados de silêncios e ações que dizem mais que palavras. A fotografia, que valoriza construções sóbrias e paisagens geladas e sem cor, reforça a falta de perspectiva dos personagens.

Como o protagonista, Hawke (de Uma Noite de Crime, 2013) traz um peso contínuo nos ombros, o sofrimento de ter perdido um filho e ter visto seu casamento desmoronar. Sua segunda chance, ou castigo, dependendo do ponto de vista, é assumir a liderança de uma igreja protestante numa cidadezinha americana. Como reverendo, ele conduz os cultos diários para meia dúzia de devotos, leva os curiosos a conhecerem a estrutura de 250 anos e ainda tenta vender uns souvenirs na lojinha de presentes.

Em meio a essa rotina monótona, com dias que invariavelmente terminam numa garrafa de whisky, o reverendo Toller conhece um casal jovem, que espera o primeiro filho. Mary (Amanda Seyfried, de Anon, 2018) anda triste com o pessimismo do marido (Philip Ettinger, da série O Nevoeiro), um ativista do meio ambiente que não vê futuro para o planeta e, por isso, acha errado gerar outra vida. A relação de Toller com os dois o fará pensar sobre pontos antes ignorados. E não falta uma crítica ao capitalismo desenfreado, que destrói nossa natureza buscando lucro.

Os trabalhos mais recentes do diretor foram solenemente ignorados. The Canyons (também chamado de Vale do Pecado, de 2013) nem teve um lançamento apropriado por aqui, causando zero barulho – o longa traz Lindsay Lohan e James Deen em cenas de sexo que deveriam ser tórridas, mas ficam apenas em monótonas. Com First Reformed, Schrader restaura um resto da fé que ainda tínhamos nele, mostrando que ainda sabe escrever diálogos como poucos. E ele achou em Hawke um grande intérprete para as questões que levanta. O final pode desapontar alguns, mas não deixará ninguém impassível.

O Reverendo se junta a alguns dos personagens marcantes de Schrader.

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Programa do Pipoqueiro #38 – The Wonders

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro traz a trilha sonora de The Wonders – O Sonho Não Acabou e explica porque o filme é a melhor cinebiografia de todas – além de alguns comentários sobre os Globos de Ouro! Aperte o play abaixo e divirta-se!

Curiosidades sobre o filme:

– Mike Viola (o verdadeiro vocalista) e Adam Schlesinger (o compositor da música) fazem uma versão de That Thing You Do! – clique aqui para assistir!

– Três dos atores membros originais da banda se reencontram em 2018 e tocam That Thing You Do! – clique aqui para assistir!

– The Making of That Thing You Do! (em inglês)  – clique aqui para assistir!

– Comentários dos críticos Gene Siskel & Roger Ebert sobre o filme – clique aqui para assistir!

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Pacote de repescagem 2018

por Marcelo Seabra

Dos filmes que chegaram ao país em 2018, cabe aqui comentar alguns que me passaram batido no lançamento. Confira o pacotão da repescagem 2018.

Marjorie Prime (2017): drama de ficção-científica discreto, sensível, que levanta questões de vida e morte. A adaptação da peça de Jordan Harrison nos apresenta a um conceito interessante: uma empresa fornece serviços de holograma para que pessoas aceitem melhor a partida de entes queridos. É como se o falecido ainda estivesse ali, e a idosa Marjorie (Lois Smith) continua em contato com o marido, Walter, mas em uma versão mais jovem dele (vivido por Jon Hamm). O recurso permite esmiuçar as relações familiares, trabalhar traumas passados e ainda dá oportunidade para ótimas interpretações de Geena Davis e Tim Robbins, além de Smith e Hamm.

Bird Box (2018): muito comentada produção da Netflix, traz um conceito quase original de terror que consegue sim criar uma boa atmosfera de tensão, mas não se desenvolve totalmente e leva a um final imprevisível de tão bobo. Duas boas atuações são garantidas, de Sandra Bullock e Trevante Rhodes, além de ótimas participações de Sarah Paulson e John Malkovich. O autor do livro adaptado, Josh Malerman, bebeu em várias fontes e teve certa dificuldade para amarrar, o que fica ainda pior ao ser transposto para as telas, virando uma mistura de Um Lugar Silencioso e Fim dos Tempos.

Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here, 2017): longa pesado, enxuto e violento de Lynne Ramsay – que já havia nos dado Precisamos Falar Sobre Kevin, entre outros. Joaquin Phoenix está ótimo na pele de um veterano de guerra caladão e aparentemente traumatizado que pega trabalhos como mercenário. O conhecemos quando ele é incumbido de resgatar a filha de um político importante e as consequências dessa missão vão chacoalhar o sujeito. Você nunca vai olhar para um martelo da mesma forma novamente.

Springsteen on Broadway (2018): o premiado Bruce Springsteen nos leva a uma retrospectiva de sua carreira, passando por versões acústicas de suas músicas mais famosas enquanto conta histórias de sua vida e até da concepção das canções. Suas reflexões são sinceras e interessantes e nos dão uma amostra de como funciona seu processo criativo, com ideias pulando da relação com o pai e até com a sua cidade natal. Ele, inclusive, esclarece que não teve todas as experiências sobre as quais escreve, como trabalhar em fábricas, mas não é nada difícil de imaginar para quem tem um histórico como o dele. O show, filmado em um teatro na Broadway para menos de mil pessoas, é bem intimista, e o diretor Thom Zimny faz boas opções de cortes e enquadramentos, que nos levam praticamente para dentro do espetáculo.

Podres de Ricos (Crazy Rich Asians, 2018): comédia leve de costumes contrasta os estilos de vida nos Estados Unidos e de Singapura quando um casal viaja de um país para o outro para um casamento. Rachel (Constance Wu) descobre, ao chegar, que seu namorado (Henry Golding) é o solteiro mais cobiçado da região, herdeiro de uma das famílias mais ricas e tradicionais de lá. E, exatamente por isso, não vai ser fácil lidar com a sogra (Michelle Yeoh). Festas milionárias, em ilhas paradisíacas, onde só se chega de helicóptero, são comuns nesse meio, e é dessas situações que surge a graça do filme, além da boa química entre os protagonistas e uma trilha sonora descolada.

O público chegou pertinho de Springsteen

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O melhor e o pior do Cinema em 2018

por Marcelo Seabra

O ano de 2018 teve pouca coisa memorável no Cinema. Muitos filmes da lista de melhores só chegaram aqui esse ano, mas foram lançados no ano passado. E evitei as bombas claras, aqueles filmes que você nem precisa ver para saber que são ruins. Por isso, a lista de piores é pequena – ainda bem! Confira abaixo os dois grupos e clique no título para conferir a crítica completa (quando tiver).

Melhores de 2018

Três Anúncios para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

The Post: A Guerra Secreta

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name)

Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi

A Forma da Água (The Shape of Water)

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Nasce uma Estrela (A Star Is Born)

Viva – A Vida É uma Festa (Coco)

Hereditário (Hereditary)

The Ballad of Buster Scruggs

Um Lugar Silencioso (A Quiet Place)

Piores de 2018

Vende-se Esta Casa (The Open House)

The Titan

Rampage: Destruição Total

Arranha-Céu: Coragem Sem Limite (Skyscraper)

A Casa do Medo (Ghostland)

Dívida Perigosa (The Outsider)

Senhoras e senhores, temos um vencedor!

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Surpresas e decepções de 2018

por Marcelo Seabra

Por mais que tentemos não criar expectativas sobre novos filmes, basta um trailer, ou uma campanha de marketing mais insistente, para surgir aquela ansiedade. Se o filme é bom, todos ficam satisfeitos e o problema está resolvido. Mas, se o filme não é bom, é aquela decepção – caso de A Freira, aguardado ansiosamente por fãs de terror! Não necessariamente o pior do ano, mas um golpe nos espectadores.

Outros projetos parecem ser desenvolvidos na surdina, sem elementos que chamem muito a atenção. Ou, às vezes, são baseados em material não muito querido, do qual se espera pouco. E eles chegam arrebentando, crescendo na propaganda boca a boca e viram inesperados sucessos na temporada.

Abaixo, como é tradição no Pipoqueiro desde 2013, seguem as cinco maiores surpresas e decepções de 2018, em ordem de lançamento e com uma rápida explicação do porquê de estarem na lista. Para a crítica completa, clique no título.

Surpresas de 2018

Mudbound – Drama pesado, sobre as relações entre duas famílias no sul racista dos Estados Unidos, tem um elenco afiado, uma ótima trilha sonora e uma fotografia excepcional. Dee Rees, que costurou todas essas qualidades, merecia maior reconhecimento, assim como o filme, que não foi tão comentado quanto deveria.

Pantera Negra – Unindo ótima bilheteria e elogios da crítica, um personagem de quinta classe do Universo Marvel conseguiu superar os colegas mais famosos e ainda levantar a bola da luta por diversidade no Cinema, com elenco predominantemente negro e muitas mulheres fortes. Já era esperado que Pantera Negra tivesse sucesso, mas o resultado superou expectativas.

Hereditário – Uma família nos é apresentada, nos afeiçoamos a eles e logo coisas estranhas começam a acontecer. Um dos destaques do ano, o longa tem um ótimo elenco e uma história que não se importa em chutar convenções e enlouquecer, montando na hora as regras daquele universo e evitando sustos gratuitos, com um clima de terror que poucos conseguiram atingir.

Buscando… – Mostrando o que pode vir de ruim das interações pela internet, Buscando… materializa os medos de um pai quando uma garota desaparece. Totalmente montado através de telas, seja de notebook ou celular, a edição é ágil e os recursos tecnológicos não distraem, mas ajudam na construção da obra.

Operação Overlord – Com um realismo muito interessante, simulando até a tensão dos soldados antes de um salto de um avião, o longa rapidamente monta o quadro que teremos entrar no mundo do terror e das supostas experiências que os nazistas faziam com prisioneiros. Com um pé na realidade e outro na loucura, Overlord diverte e assusta, com personagens carismáticos e igualmente importantes para a trama.

Decepções de 2018

Projeto Flórida – Uma crítica social interessante e importante se perde em um longa cansativo e sem propósito. Crianças de muito talento vivem uns pestinhas mal criados que passam seu tempo causando problemas para os adultos, levando a um final impactante, para quem insistiu e perseverou até chegar a ele.

Aniquilação – Um filme de Alex Garland, seguindo o lindo Ex-Machina (2014), com Natalie Portman, baseado num best-seller de ficção-científica, não precisou fazer esforço para criar expectativa no público. Se as coisas começam promissoras, criando uma ótima atmosfera de tensão, logo caem num lugar-comum de terror sem lógica, dando a impressão de que a pretensão de Garland o tirou dos trilhos.

Oito Mulheres e Um Segredo – Um elenco feminino inimaginável não consegue melhorar um roteiro medíocre, cheio de clichês e piadas fracas, além de referências cansativas à trilogia de Danny Ocean – como se isso apenas pudesse salvar o longa. A necessidade de ser cool soa forçada, o que torna uma opção bem mais interessante buscar os originais, seja com Clooney ou com Sinatra.

A Outra Mulher – Uma comédia com cara de teatro com três dos grandes nomes do Cinema francês, um deles também na direção, deveria ter dado um resultado bem superior. O roteiro se perde em devaneios longos e de tom equivocado, tornando uma sessão de 80 minutos algo próximo de tortura. Se os personagens fossem menos babacas, talvez a história ficasse mais digerível.

A Freira – Derivada de um universo interessante e bem estabelecido, a freira poderia ter sido um personagem bem mais assustador. Mas a necessidade de buscar clichês e sustos fáceis foi maior e o produtor James Wan não conseguiu manter o padrão – que já havia variado, mas não tanto quanto aqui. A total falta de tensão ou apreensão garante o fracasso do projeto.

Menção (des)honrosa:

Bohemian Rhapsody – por um lado, o longa é ótimo ao passar por vários episódios marcantes da história de uma das melhores bandas de todos os tempos. Interpretações, figurino e trilha sonora são alguns dos elementos que ganham o público de cara, mostrando que o jogo estava ganho de início.

Por outro lado, a bagunça cronológica desnecessária tira do filme o público que tem uma mínima noção da história do Queen. Vários momentos são forjados e o resultado é uma bagunça, soa forçado e apelativo – talvez devido à mão forte dos produtores Brian May e Roger Taylor, que contaram a história como quiseram, e não como aconteceu.

Resultado: entre pontos positivos e negativos, a produção é ruim e divertida ao mesmo tempo, uma surpresa e uma decepção.

Ótima interpretação, bagunça de filme

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