Democracia em Vertigem revisita nossa triste história recente

por Marcelo Seabra

O Brasil passou por tantos percalços políticos nos últimos tempos que era comum ver brincadeiras em redes sociais lamentando a árdua tarefa de professores de História, que teriam que explicar tudo isso para seus alunos. A diretora Petra Costa deu uma grande ajuda nesse sentido, recapitulando os fatos mais importantes e montando o quadro geral. Democracia em Vertigem (2019) é uma obra pessoal, sob o ponto de vista de Petra, e por isso não pode ser descrita como isenta. Mas é extremamente emocional e vai ecoar fundo em parte da população.

O documentário, já disponível na Netflix, começa durante o governo de Dilma Roussef, mostrando um Brasil próspero, herdado de Luís Inácio Lula da Silva. Algumas decisões questionáveis fazem a economia dar algumas derrapadas e a popularidade da primeira presidenta do país cai. É a oportunidade que a oposição precisava para buscar algum elemento e alegar irregularidades. Mas era preciso alguém para articular um golpe a prova de falhas. Um deputado aliado que vira a casaca é a figura ideal – quando Eduardo Cunha entra em cena.

Todos os momentos inacreditáveis que vivemos, com seus personagens e falas marcantes, estão lá. E o melhor: sem nenhuma deturpação canalha, como acontece na série “ficcional” O Mecanismo (2018). O que Temer, Aécio e Jucá disseram saiu de fato das bocas deles. A importância de Sérgio Moro para a atual situação política também fica muito clara, sendo o juiz parcial que os vazamentos do site The Intercept mais do que confirmaram, caso alguém ainda tivesse alguma dúvida. E, correndo por fora, aparece um coadjuvante que mais parece um alívio cômico, se o roteirista tivesse uma mente muito deturpada. Infelizmente, trata-se da realidade e o personagem viria a se eleger o presidente da nação.

É ao mesmo tempo estranho ver retratado nas telas um momento tão recente e público da nossa história, já que vemos muitos documentários tratando de fatos antigos ou distantes, e triste, com a nossa jovem democracia se esvaindo entre nossos dedos. Por se tratar de uma obra com alto teor político, muitos vão se desagradar. Mas em momento algum ela é tendenciosa: o que vemos nas telas são fatos. Inclusive, com críticas aos dois lados, direita e esquerda. As interpretações que vão de cada um. O material cedido por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula, enriquece bastante o longa, somando-se às filmagens de Petra.

Como contou em entrevista à revista Carta Capital, Petra buscava de seus entrevistados uma autocrítica, como ela mesma faz. Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus projetos geralmente são bem pessoais, como seu filme mais famoso, Elena (2012), em que Petra mergulha nas memórias da irmã que viu pela última vez aos sete anos. Em Democracia em Vertigem não foi diferente: a narração da própria diretora e roteirista entrega seus questionamentos e suas verdades, que caem por terra. Concordando-se ou não com ela, acompanhá-la durante esse processo é muito válido.

Petra Costa viu seu filme ser considerado um dos mais importantes de 2019 pelo New York Times

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações, Nacional, Personalidades | Com a tag , , , , , , , | 4 Comentários

Annabelle nos assombra pela terceira vez

por Marcelo Seabra

Como fez recentemente o Homem-Aranha, a boneca do capeta voltou para o lar. Mas só no título nacional, traduzido de forma equivocada. Annabelle Comes Home faz referência à casa dos Warrens, onde ela foi para seu descanso final. Mas ela obviamente dá um jeito de azucrinar novamente. Annabelle 3: De Volta Para Casa (2019) é cronologicamente a conclusão da trilogia, que foi e voltou no tempo nos episódios anteriores, e eles dividem basicamente os mesmos erros e acertos. Com um resultado bem interessante.

Dando a impressão de uma mão forte do produtor James Wan por trás, além de todos os três terem o mesmo roteirista, Gary Dauberman, esta terceira parte segue na mesma linha. Cria-se um ambiente de suspense bastante eficiente e, ao mesmo tempo em que se utilizam de alguns clichês do gênero, pervertem outros, o que resulta numa mistura no mínimo divertida. Se não acrescenta nada, tampouco joga a franquia na lama. O universo criado por Wan segue honrando a relíquia mais macabra dos Warrens, apresentada no primeiro Invocação do Mal (The Conjuring, 2013).

E, por falar no filme que começou toda essa história, aqui temos novamente o casal Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga). Já conhecidos como exorcistas e envolvidos com o oculto, eles atraem a admiração de alguns e o medo de outros. E a filha deles sofre com isso na escola, sofrendo bullying antes do termo bullying existir – ou não era tão popular quanto é hoje. Judy (Mckenna Grace, a versão mais jovem da Capitã Marvel e da Sabrina da série) é um tanto introvertida e tem em sua babá (Madison Iseman, do Jumanji de 2017) sua única amiga.

Quando os pais viajam em missão, Judy fica sozinha com Mary Ellen e parece que será uma noite bem calma. Mas entra em cena uma amiga curiosa da babá, Daniela (Katie Sarife, da série Youth & Consequences), que vai acordar alguns espíritos do mal. Usando Ed e Lorraine apenas como pontapé inicial, o longa foca nesse competente trio feminino. Mais uma vez, temos a ação acontecendo basicamente dentro de uma casa, e cada cômodo é bem explorado. A luz funciona quando é conveniente, e o público vive alguns momentos de tensão quando o museu do oculto dos Warrens ganha vida. Não falta humor, separando bem os momentos, o que leva a um equilíbrio certeiro.

Além de escrever, Dauberman faz sua estreia na direção e emprega bem os recursos que conhece da franquia. Acrescentando algumas ótimas músicas da época, como as das bandas Badfinger e Bread, ele aproveita para apresentar outras figuras sobrenaturais curiosas, deixando brechas para novos filmes. The Crooked Man já está em produção, e não duvido que o Barqueiro vá ganhar sua aventura solo, aumentando esse universo. Só não pode ser ruim como A Freira (The Nun, 2018) ou A Maldição da Chorona (The Curse of La Llorona, 2019).

Eis as quatro protagonistas

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sandler e Aniston se reúnem para um Mistério no Mediterrâneo

por Arthur Abu

Adam Sandler estrela mais um filme de Adam Sandler: Mistério no Mediterrâneo (Murder Mystery, 2019). Já já teremos essa categoria nas buscas da Netflix. Essa parceria que pode ter salvado a carreira de Sandler, pois antes de mudar suas estreias para o serviço de streaming, várias das produções do comediante afundaram nas bilheterias no Cinema. Afinal de contas, se for pra assistir às mesmas piadas e à mesma historinha batida, é melhor assistir no sofá de casa. Mas dessa vez, como se trata de um assassinato misterioso, talvez seja um pouco mais difícil prever o final sem assistir.

O filme conta a história do policial de Nova York Nick Spitz (Adam Sandler, de Os Meyerowitz, 2017), frustrado por falhar pela terceira vez no teste de detetive. Ele é casado com Audrey (Jennifer Aniston, de Dumplin’, 2018), uma cabelereira que tem como paixão seus livros de mistério, já que aparentemente o romantismo de seu casamento ficou pra trás. Após um jantar nada romântico de aniversário de casamento, confrontado por Audrey, Nick mente e diz que planejou uma viagem surpresa para a Europa, a lua de mel 15 anos atrasada do casal.

No voo, eles conhecem Charles Cavendish (Luke Evans, de Velozes e Furiosos 8, 2017), um rico aristocrata a caminho de uma festa de família em um luxuoso iate que os convida a se juntarem a ele e sua excêntrica família. No iate, eles conhecem os outros convidados: a atriz Grace (Gemma Arterton, de João e Maria, 2013), Tobias (David Walliams, da série Walliams & Friend), o piloto de corrida Juan Carlos (Luis Geraldo Mendez, de Club de Cuervos), o Maharajah (Adeel Akhtar, de Victoria e Abdul, 2017), o coronel Ulenga (John Kani, de Pantera Negra, 2018), seu guarda costas Sergei (Ólafur Darri Ólafsson, de Animais Fantásticos 2, 2018) e a ex-namorada de Charles, Suzi (Shioli Kutsuna, de Deadpool 2, 2018), que agora está noiva do bilionário Malcolm Quince  (Terence Stamp, de O Lar das Crianças Peculiares, 2016).

Na noite da festa, após um discurso onde expressa todo seu desprezo pelos membros de sua família, se referindo a todos como sanguessugas interessados apenas em seu dinheiro, Malcolm anuncia que sua herança não será dividia e que sua única herdeira será sua jovem noiva. Momentos antes de assinar o testamento, as luzes se apagam e o idoso bilionário é encontrado segundos depois no chão com um punhal cravado no peito.  A morte de Malcolm é apenas o início desse mistério que torna suspeitos Nick e Audrey, os únicos estrangeiros sem ligação alguma com a vítima e sua herança.

O carisma de Sandler e Aniston, que chamou atenção no sucesso de bilheteria Esposa de Mentirinha (Just Go with It, 2011), parece ter dado certo novamente. Mistério no Mediterrâneo se tornou a estreia mais assistida da Netflix. Os protagonistas mantêm uma dinâmica que dá certo, não são mais jovens se conhecendo e criando um romance como nos vários filmes que já estrelaram ao longo das décadas de 90 e 2000. Entra agora a química e experiência de ambos para criar humor em situações mais cotidianas ou mais extravagantes, como uma perseguição em uma Ferrari ao som de Shoot to Thrill, do AC/DC.

Este é mais um de filme de Adam Sandler estrelado por Adam Sandler, com o mesmo personagem imaturo de sempre, contando as mesmas mentiras para não se meter em confusão com sua amada. Erros de continuação grotescos e um roteiro bem preguiçoso, que cria situações muito convenientes para a história seguir em frente. Sandler, que também é produtor do longa, parece não ter chamado nenhum de seus amigos de sempre para papéis coadjuvantes ou figuração, e esse é o real mistério aqui.

A orgulhosa equipe lançou o longa este mês

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

MIB Internacional traz novas possibilidades

por Marcelo Seabra

Do primeiro filme para o segundo, o intervalo foi de cinco anos. Do segundo para o terceiro, dez. Agora, tirou-se uma média: sete anos depois, temos o quarto episódio da franquia MIB: Homens de Preto – Internacional (Men in Black: International, 2019). Expandindo o universo que já conhecemos, tomou-se a acertada decisão de partirem para outros personagens, deixando os agentes J e K de lado e abrindo as portas para inclusive outras filiais da agência.

No longa de 1997, tudo era novidade e as bilheterias foram generosas, com uma arrecadação que passou de meio bilhão de dólares. O segundo ficou um pouco abaixo, tendo custado bem mais. E a fórmula se mostrou desgastada, com o alien da semana tentando destruir o mundo e os agentes tendo de impedir. O mau humor de K (Tommy Lee Jones) era balanceado com as piadinhas de J (Will Smith), mas tudo tem um limite. No terceiro, o roteiro nos levou ao passado, com duas versões de K, e sentimos aquela corrente de ar fresco. Mas o caminho para onde ir em seguida era incerto.

Felizmente, outra boa decisão foi tomada: seguir com personagens novos. Afinal, a agência MIB conta com tantos profissionais quanto o alfabeto permitir. E eles não se restringem aos Estados Unidos: nessa nova sequência, conhecemos o escritório de Londres. Molly é uma garotinha que tem contato com uma criatura de outro mundo e, após ver os pais terem a memória apagada, fica obcecada. Quando adulta, vivida por Tessa Thompson (a esposa de Adonis Creed), ela sonha se juntar aos homens de preto que apagam os rastros de vida alienígena.

O destino se cumpre, digamos assim, e Molly se torna a Agente em Experiência M. Para se provar capaz, ela vai para a filial Londres, sob a tutela do Grande T (Liam Neeson, de As Viúvas, 2018), e acaba trabalhando com a estrela local: o galã H (Chris Hemsworth, vulgo Thor). Juntos, M e H encontram uma missão sob medida para eles e acompanhamos uma aventura 100% nova. O que, é claro, traz ainda mais fôlego para a franquia. Muitas referências a outros filmes, como uma ótima e óbvia piada visual usando um martelo, vão deixar cinéfilos animadinhos. Reencontrando-se pós Universo Marvel, Valquíria e Thor mostram mais uma vez uma boa química. Emma Thompson volta ao papel de chefe do escritório americano e temos o acréscimo de Kumail Nanjiani (a voz do pequeno Pawny), Rebecca Ferguson e Rafe Spall.

O comportamento destrambelhado do melhor agente local não condiz com sua fama, isso chega a irritar. E a necessidade de mostrar Hemsworth sem camisa não é compreensível, a não ser que os envolvidos achem que isso é o suficiente para atrair o público feminino. Tirando uma ou outra derrapada, F. Gary Gray (de Velozes e Furiosos 8, 2017) faz um bom trabalho, ao mesmo tempo mantendo o clima dos filmes de Barry Sonnenfeld – até com a mesma fonte nos letreiros – e trazendo novidades, como a valorização do papel da mulher. A discussão do porquê eles serem “homens” de preto não poderia faltar.

Pawny é uma das novidades desse MIB

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Programa do Pipoqueiro #41 – Quase Quadrinhos

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro traz diversos filmes que parecem ser adaptações de histórias em quadrinhos, mas não são! Além dos comentários e indicações, temos várias músicas saídas das trilhas dessas obras! Aperte o play abaixo e divirta-se!

Publicado em Adaptação, Filmes, Homevideo, Indicações, Listas, Música, Programa do Pipoqueiro, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário

HBO recria Chernobyl com perfeição

por Marcelo Seabra

Arrogância e burrice, isoladas, costumam causar muitas desgraças à humanidade. Quando se juntam, então, são infalíveis. Chernobyl (2019) é uma nova produção da HBO que prova essa máxima com excelência. Com uma reconstituição de época impressionante e um orçamento capaz de recriar uma explosão terrível de forma crível, a série de cinco episódios narra os acontecimentos que levaram à maior catástrofe nuclear da nossa história. Milhares de pessoas morreram devido ao acidente e ainda hoje há quilômetros na Europa onde se é proibido ir, devido ao nível de radiação.

Em 26 de abril de 1986, o reator 4 da Usina V. I. Lenin, em Chernobyl, explodiu durante um teste de segurança e isso teve uma série de consequências. Diversos gases e partículas radiativas foram jogados no ar. Todos que estavam próximos foram contaminados, não só em Chernobyl, mas também na vizinha Pripyat e onde mais o vento levou. A região, hoje ao norte da Ucrânia, virou uma “zona de exclusão”, abocanhando partes do território da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia.

Então símbolo do avanço soviético, a Usina de Chernobyl era a menina dos olhos do governo. Qualquer manobra bem executada lá era praticamente sinal de sucesso profissional, além de ser um orgulho para o Partido Comunista. Essa necessidade de aparecer pode ter levado os chefes da usina (acima) a meterem os pés pelas mãos. Mostrados na série como os grandes vilões, cada um compõe um tipo raso: o diretor Viktor Bryukhanov (Con O’Neill) era o burocrata otimista, o engenheiro-chefe Nikolai Fomin (Adrian Rawlins) foi cegado pela ambição e o engenheiro-chefe adjunto Anatoly Dyatlov (Paul Ritter) deixou sua autoconfiança virar arrogância, que o tornou incapaz de reconhecer seu erro.

Apesar de reforçar certos estereótipos, como essa visão sobre os responsáveis e a onipresença da garrafa de vodka, a série segue um caminho quase irretocável. Temos três personagens principais que, sozinhos, são boa parte dos méritos da obra. Jared Harris (o Rei George IV de The Crown) reina com um papel digno de prêmios: ele é Valery Legasov, o cientista chamado pela junta governamental para acompanhar os trabalhos pós-explosão e dar solução ao caso. Na verdade, ele seria o nome técnico usado para acalmar os ânimos pelo mundo, já que o governo da União Soviética não queria virar vidraça para a opinião pública – especialmente, para os Estados Unidos.

Outro que está em um grande momento é Stellan Skarsgård (o Professor Selvig dos Vingadores). Com um arco rico, que talvez seja o melhor da série, o burocrata Boris Shcherbina era um político inexpressivo e o governo o indica para colocar panos quentes no acidente da usina. Era para ser uma missão simples e o arrogante Shcherbina já chega dando ordens, tratando todos como empregados. Sua relação com Legasov e os fatos que se revelam fazem com que ele repense sua postura. E fecha o trio principal Ulana Khomyuk, vivida por Emily Watson (de Kingsman 2, 2017), a única personagem fictícia dentre os mais importantes. Ela representa os vários cientistas que colaboraram com Legasov no período. Watson, como sempre, passa grande segurança, como se tivesse nascido para o papel.

Correndo por fora, mas tão relevante quanto os colegas, está Jessie Buckley (de Taboo). Como Lyudmilla Ignatenko, ela representa os civis atingidos, sem informações sobre seus amigos e parentes. O marido dela (Adam Nagaitis, de O Passageiro, 2018) era um bombeiro destacado para ajudar no incêndio da usina. Contaminado, ele é levado a um hospital e ela corre atrás, ignorando normas de segurança. Os Ignatenko são apenas dois num universo de vários impactados. Não é possível chegar a um número final devido não só ao fato de ser impossível definir quem foi atingido, em todo aquele lado da Europa, mas também porque o governo soviético não queria que essa informação fosse revelada.

Abarcando os vários personagens sociais envolvidos, Chernobyl pinta um quadro completo sobre o acontecido. Alguns diálogos são expositivos, situando o público, mas nada que incomode. E muito foi falado sobre o que seria fato e o que seria liberdade dramática. A BBC chegou a fazer uma matéria detalhando essas diferenças entre realidade e ficção. A verdade é que não há nada mais terrível que a realidade, ficção nenhuma chega perto do que o homem é capaz de causar quando sua ambição passa da conta. Os muitos trabalhadores desfigurados, consumidos pela radiação por dentro e por fora, que o digam.

O vento contaminou mais de 1600 km ao redor

Publicado em Estréias, Indicações, Séries | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Olhos Que Condenam é indignação certa

por Marcelo Seabra

Produção original Netflix, Olhos Que Condenam (When They See Us, 2019) conta, em quatro episódios de mais ou menos uma hora, a história dos Cinco do Central Park (acima). Assim ficaram conhecidos os cinco garotos que foram presos e acusados do estupro e espancamento de uma corredora no Central Park em 1989. A moça ficou em coma por 12 dias e teve sequelas sérias, como dificuldade de andar e amnésia do dia fatídico. A polícia correu para esclarecer o caso e a forma como isso foi feito é abordada na obra.

Famosa pela resolução do caso e condenação dos acusados, a Promotora Linda Fairstein (abaixo) seguiu uma longa carreira que acabou terminando ao se tornar uma premiada escritora de suspenses policiais. Hoje, é vista como a principal causadora da injustiça que manteve os cinco presos, já que foi a pessoa que os transformou de possíveis testemunhas do crime em criminosos, vendendo uma ideia que não tinha qualquer tipo de suporte. Não havia provas materiais, nada que corroborasse o caso. A não ser a confissão de meninos de 15 e 16 anos, assustados e famintos, que posteriormente afirmaram terem sido coagidos.

Fairstein sustentou a hipótese e, como vemos na série, em momento algum teve dúvidas da culpa dos jovens. A necessidade de dar logo uma resolução a um caso que acabou tomando grandes proporções, chamando a atenção da mídia, misturou-se à vaidade da promotora, que gostava de estar debaixo dos holofotes. No papel, Felicity Huffman (de Cake, 2014) mais uma vez mostra o tamanho de seu talento, proporcional à indignação que causa no público. Outra que tem efeito parecido é Vera Farmiga (de Godzilla 2, 2019), na pele da outra promotora do caso, Elizabeth Lederer.

Tanto na primeira fase (abaixo) quanto quando adultos, os intérpretes dos cinco acusados foram muito bem escolhidos. Temos desde o mais experiente Jovan Adepo (de Operação Overlord, 2018) ao novato Asante Blackk, e o elenco ainda conta com mais nomes conhecidos. John Leguizamo, Michael Kenneth Williams, Joshua Jackson, Famke Janssen, William Sadler, Blair Underwood e Logan Marshall-Green são alguns dos rostos facilmente reconhecíveis. Entre os produtores, temos Robert De Niro e Oprah Winfrey, para ficar nos mais famosos.

À frente da atração, Ava DuVernay (de Selma, 2014) reforça seu poder de levar luz a fatos históricos importantes tirando deles a sensação de serem algo distante. Os envolvidos são gente como a gente, em grande parte minorias que sofrem preconceito no dia a dia e precisam se esforçar para continuarem lutando. É fácil perceber na obra da diretora, roteirista e produtora o lado humano, as relações familiares e os laços de amizade. DuVernay demonstra grande sensibilidade para tratar questões importantes de frente, sem apelar a sentimentalismos e sem esvaziar temas profundos. Seus trabalhos invariavelmente levam a reflexões necessárias e sempre atuais, mesmo narrando acontecimentos de trinta anos atrás.

A situação dos cinco é tão atual que uma das figuras que frequentemente aparecem no vídeo é ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos. Na época conhecido como um magnata excêntrico e dado a opiniões polêmicas, para não dizer burras, Donald Trump foi à televisão pedir a volta da pena de morte. A campanha envolveu anúncios pagos em revistas e jornais, nos quais ele gastou uma fortuna. Muitos americanos podem ter sido influenciados por esse mau-caratismo, e essa pressão sobre a mídia certamente teve papel importante no resultado dos julgamentos. Em 2016, com o caso mais do que esclarecido, Trump seguiu contando suas mentiras, fingindo não ver que apoia uma injustiça. E foi eleito presidente de uma das principais potências do mundo.

Não foi à toa que Einstein disse que apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana – e do universo ele ainda não tinha certeza. Juntando a estupidez a outros pontos fracos da personalidade do ser humano, como preconceito, orgulho e vaidade, temos os causadores de muitas catástrofes históricas. Olhos Que Condenam trata de um desses episódios. Se você é do tipo que se envolve muito com o que assiste e fica se sentindo mal, cuidado. Mas de nada adianta se sensibilizar com uma série e seguir com piadinhas racistas no dia a dia, apoiando esse tipo de discurso.

A multidão se dividiu entre acusadores e defensores

Publicado em Estréias, Homevideo, Indicações, Séries | Com a tag , , , , , , , , | 2 Comentários

John Wick 3 não acrescenta nada

por Arthur Abu

Quem foi que pediu por uma sequência de John Wick? Ou melhor: duas? Eu pedi, e aparentemente muita gente também. O assassino também conhecido como Baba Yaga, que teve sua primeira aparição em 2014, retorna às telas em John Wick 3: Parabellum (2019).

Antes o caçador, John Wick (Keanu Reeves) se tornou a caça. Excommunicado por derramar sangue nas mediações do hotel Continental, quebrando a principal regra da alta cúpula, Wick agora tem pouco tempo, muitos inimigos e uma recompensa de 14 milhões por sua cabeça. A alta cúpula envia uma juíza (Asia Kate Dillon, de Billions) encarregada de investigar a situação de Wick e todos que o ajudaram, incluindo seu velho amigo Winstom (Ian McShane) e o “Rei dos Mendigos” (Laurence Fishburne). Dentre os incontáveis mercenários contratados para a caçada, Zero (Mark Dacascos, de Havaí 5.0) é o único que aparentemente tem habilidades equiparáveis às do perigoso fugitivo.

Queimando todas as fichas que tem, John vai colocar em perigo e cobrar favores de todos que um dia chamou de amigo, incluindo a chefe da máfia russa (Angelica Huston, de Ilha dos Cachorros, 2018) e a perigosa Sofia (Halle Berry, de Kingsman 2, 2017). A única vida que John não está disposto a arriscar é a de seu cachorro, de quem logo no início já garante a segurança – por um alto preço. Isso que é adoção responsável!

Dois dos criadores da franquia, o diretor e ex-dublê Chad Stahelski e o roteirista Derek Kolstad (que, nessa sequência, assina o roteiro com mais três colegas), mantêm a mesma linha que deu certo nos filmes anteriores. A história e os personagens continuam sem muita profundidade e quase nada é explicado. As coisas simplesmente acontecem, algumas com muita conveniência. A essa altura do campeonato, está faltando um antagonista mais interessante e talvez expandir esse submundo secreto em que todos os personagens parecem saber exatamente como tudo funciona, mas o espectador é mantido no escuro.

A fotografia varia um pouco entre os prédios e a chuva de Nova York, trazendo cor apenas numa passagem pelo deserto do Marrocos. O mais longo filme da franquia até o momento, tem também as cenas de luta e tiroteio mais extensas. São bem coreografadas, com efeitos visuais competentes, porém algumas são tão repetitivas que é quase inevitável não mexer no telefone no meio do filme.

Como mencionado em 2014, na crítica do primeiro filme, Keanu Reeves não sabia atuar na época e continua sem saber, mas sua reputação por ser fora das telas uma pessoa simples e escolher bons projetos (alguns) parece ser o suficiente para manter em alta seu carisma. Dacascos entrega uma atuação tão inconstante que parece um teste de elenco para o filme Fragmentado (Split, 2018). McShane, Fishburne e Huston são figurões cuja reputação os precede, todos seguros e confiantes. Berry traz a mesma confiança, mas ao contrário dos veteranos, precisa arregaçar as mangas junto a Keanu e se preparar para a guerra, caso queira ter paz.

Parabellum mostra que o personagem ainda tem muita lenha pra queimar e vai entreter os fãs da franquia e de filmes de ação. Mas terá que saber quando trocar as fichas e sair do cassino, pois está a um passo de se tornar John Wick: Veloz e Furioso. O filme é novo, mas não traz novidades.

A vingança chega a cavalo

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , | 4 Comentários

Fênix Negra encerra o arco dos X-Men

por Marcelo Seabra

A saga dos X-Men começou, no Cinema, em 2000, e teve algumas reviravoltas desde então. A trama voltou no tempo, conhecemos personagens rejuvenescidos, teve de tudo. Menos atores apenas cumprindo contrato e pagando as contas. Ao menos, não de forma generalizada. Isso, até Fênix Negra (Dark Phoenix, 2019), quando parece que uma apatia se abateu em todo o elenco. Um roteiro sem nexo, com vilões totalmente genéricos e nenhuma explicação, desperdiça uma das histórias mais importantes dos quadrinhos.

Com texto de Chris Claremont e arte de John Byrne e Dave Cockrum, o arco da Fênix Negra foi lançado entre 1976 e 1980, desenvolvido ao longo de várias edições. Alguns pontos já foram timidamente usados nos filmes anteriores, com Jean Grey conhecendo melhor a extensão de seus poderes e até mudando de lado, ficando má. Dessa vez, Simon Kinberg, depois de ter escrito três aventuras dos mutantes, decidiu partir para a direção e adaptar a Fênix Negra em sua totalidade. Teoricamente, é o último episódio dos X-Men como os conhecemos hoje.

O principal problema dessa franquia é a falta de um direcionamento, ou objetivo. No Universo Cinematográfico Marvel, por exemplo, cada filme nos levou mais perto de um clímax cuidadosamente construído ao longo dos anos, aumentando o escopo e a tensão pouco a pouco. Com os X-Men, isso não acontece. Cada filme é apenas mais uma aventura, uns sem conexão com os outros. Por isso, esse mais recente não tem cara de último, já que não encerra nada. E ele é fraco até como obra independente, com um argumento preguiçoso no qual as coisas acontecem por acontecer.

Para não dizer que tudo é uma lástima, é interessante ver como o Professor Xavier (James McAvoy) é retratado. Com o sucesso das missões de sua equipe e a ajuda que eles prestam à humanidade, Xavier ganha uma atenção e respeito inéditos, e fica vaidoso. Até o presidente dos Estados Unidos (Brian d’Arcy James, de 13 Reasons Why) o recebe em cerimônias de homenagem. Isso faz com que atritos internos surjam e acabem com a paz que reina na escola para jovens superdotados. Nesse contexto, temos Jean (Sophie Turner) arriscando a vida em uma missão, quando ela recebe uma carga de energia solar e se torna ainda mais poderosa.

Fora Xavier e Jean, todos os demais mutantes são coadjuvantes, com raros e isolados momentos importantes. Ao invés de cada um ter seu peso, como nos Vingadores, todos parecem igualmente irrelevantes. Os vilões, liderados por uma apática Jessica Chastain (de Perdido em Marte, 2015), surgem repentinamente e não sabemos nada sobre eles. Não há regras estipuladas, apenas conveniências do roteiro de Kinberg e diálogos sofríveis. E, assim, Xavier e sua turma chegam a um fim melancólico, longe do brilhantismo de episódios anteriores. Vai ser difícil ter saudades.

Difícil saber quem está mais apático

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , | 3 Comentários

Meu Eterno Talvez é a diversão bobinha da vez

por Arthur Abu

Depois de tantas inconstâncias nas produções originais Netflix, comentar em voz alta que irá assistir a um de seus filmes é similar a pedir um canudinho de plástico em uma lanchonete: tem uma boa chance de receber olhares reprobatórios até de quem não conhece. E não é pra menos, já que pra cada acerto do serviço de streaming, estreiam três outros que não valem a pena nem assistir ao trailer. A comédia romântica Meu Eterno Talvez (Always Be My Maybe, 2019) chega sem muito alvoroço, mas pode agradar quem espera ansiosamente o fim de semana apenas para assistir a algo divertido e sem muito compromisso.

A história é centrada no relacionamento de Sasha (Ali Wong, de American Housewife) e Marcus (Randall Park, de Aquaman, 2018), vizinhos de porta na bela São Francisco. Os pais de Sasha são muito ausentes, praticamente abandonando-a em casa o dia todo. Ela se refugia na família de Marcus, junto a seu bem-humorado pai, Harry (James Saito), e a mãe, Judy (Susan Park), uma cozinheira de mão cheia. Os dois jovens se mantêm melhores amigos por anos, até que após a morte da mãe de Marcus, Sasha o beija e os dois acabam fazendo sexo pela primeira vez. A experiência evidentemente desconfortável no banco de trás de um Corolla Toyota e o sentimento de perda levam os dois a uma discussão, quando Marcus afasta Sasha de sua vida.

Dezesseis anos se passam sem se falarem, vivendo vidas bem distantes um do outro. Sasha, uma chef celebridade residente em Nova York, volta temporariamente a São Francisco para abrir um novo restaurante. Com a ajuda de Veronica (Michelle Buteau), uma amiga em comum de ambos, ela reencontra Marcus, que continua morando com o pai e cantando com sua banda de colégio, sem perspectiva ou ambição de sucesso. Apesar do rancor, diferenças socioeconômicas e de estarem em relacionamentos com pessoas diferentes, eles tentam uma aproximação que no começo parece bem forçada, mas que aos poucos os faz lembrar porque já foram tão próximos.

O roteiro, assinado pelos protagonistas, Wong e Park (que também são amigos de longa data na vida real), e por Michael Golamco (de Grimm) segue a linha das comédias românticas da década de noventa. Wong disse certa vez que queria fazer a sua versão de Harry e Sally – Feitos um Para o Outro (When Harry Met Sally…, 1989). As piadas são leves e flertam com alguns estereótipos – vale mencionar que os três roteiristas e a diretora são descendentes diretos de imigrantes asiáticos. A direção da estreante Nahnatchka Khan mantém o filme em um ritmo fácil de levar, mas sem arriscar muito. Ponto para a fotografia, que tira proveito das paisagens de São Francisco.

 A Netflix parece não ter confiado na história ou no carisma de Wong para chamar os espectadores, pois precisou de um ás na manga. Keanu Reeves (de John Wick) faz uma participação nada discreta, seu rosto aparece em qualquer pesquisa que se faça sobre o filme e o trailer já entrega o que poderia ser usado como uma surpresa. A presença de Reeves cria uma contradição, pois o filme parece querer dar peso e relevância a um elenco majoritariamente asiático, sem a ajuda de uma estrela hollywoodiana já conhecida. Fica a impressão de que as intenções iniciais eram ousadas, mas no fim mudaram de ideia e decidiram pegar emprestado um pouco do brilho do Neo de The Matrix. Vale mencionar outra obra que fez o mesmo por não confiar em um elenco predominantemente asiático: o malsucedido 47 Ronins (2013), também com Reeves. Coincidência, não?

Ali Wong é uma comediante e roteirista talentosa. No portfólio da Netflix, encontramos seus dois especiais de stand up, que são muito bons, nos quais ela brinca com sua cultura asiática, feminismo, sexo, seu casamento e vários outros assuntos, sem tabu ou papas na língua. Faltou um pouco disso em Meu Eterno Talvez, essa irreverência teria apimentado mais essa obra que ficou com medo de ser algo além de uma comédia romântica divertidinha.

Os amigos se divertiram divulgando o longa

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações | Com a tag , , , , , , | 1 Comentário