A Garota traz versão monstruosa de Hitchcock

por Marcelo Seabra

The Girl

Do lado de cá da tela, todos se assustaram com Os Pássaros (The Birds, 1963), clássico do mestre do suspense Alfred Hitchcock (1899-1980). Do lado de lá, as coisas pareciam ser ainda mais horripilantes devido ao comportamento do famoso cineasta, que não se cansava de se insinuar sexualmente para a atriz do longa, Tippi Hedren. Esta é a história defendida por A Garota (The Girl, 2012), longa produzido pela HBO Films, em associação com a BBC, que se baseia em um livro polêmico, The Dark Side of Genius, de Donald Spoto.

Sienna MillerTippi HedrenO filme, em constante exibição nos canais HBO, começa com Tippi (à direita), vivida por Sienna Miller (de G.I. Joe, 2009 – à esquerda), sendo contratada por Hitchcock (Toby Jones, de Jogos Vorazes, 2012) para estrelar o primeiro longa de sua carreira, que até então era só de modelo. Hitch vinha do sucesso de Psicose (Psycho, 1960) e procurava uma nova loira, já que Grace Kelly havia se tornado princesa e não trabalharia mais no Cinema. Tippi seria a socialite que vai para a pequena Bodega Bay atrás de um namorado em potencial e acaba sendo atacada por diversos pássaros. As aves, inicialmente, seriam mecânicas, mas as verdadeiras acabam entrando em cena, no momento mais tenso do filme (de ambos, na verdade). Os tempos eram outros e um diretor do peso de Hitchcock realmente tinha muito poder, e é retratado como quase o dono da atriz. Julian Jarrold, da primeira parte da ótima trilogia Red Riding (2009), dirige.

Depois de uma série de entrevistas com Jim Brown, assistente de Hitchcock por muitos anos, a experiente Gwyneth Hughes escreveu o roteiro, mas Brown morreu antes do lançamento do longa. A viúva, Nora, foi a público dizer que as palavras do falecido foram distorcidas. Ela disse ao jornal The Daily Telegraph que o marido tinha total admiração e respeito por Hitch (como o diretor era conhecido), que ele tinha um senso de humor inteligente e que, resumindo, era um gênio. Tony Lee, autor de um livro sobre a produção de Os Pássaros, reforça o coro, dizendo que é errado sujar o nome de um homem que não está mais aqui para se defender. Kim Novak, outra loira do diretor, disse que nunca viu nada de errado no comportamento de Hitch e ficou muito triste com as alegações feitas contra ele.

Hitchcock with BirdsSpoto, consultor do filme, afirma que Hitch (ao lado) era de fato um sujeito sexualmente frustrado e obcecado por suas loiras. E a própria Tippi Hedren deu apoio à produção. Ainda segundo o Telegraph, ela disse, na pré-estreia em Londres: “Não sei se alguma de vocês teve a horrível experiência de ser o objeto da obsessão de alguém. É opressivo e assustador, você descobre que está sendo seguida e espionada. Você é exigida de coisas que nunca concordaria, em nenhuma circunstância”. Com alegações dos dois lados, não se sabe exatamente a verdade, mas é fato que Tippi passou maus bocados com os pássaros das filmagens e que sua carreira acabou quando quebrou o contrato, que ainda duraria mais dois anos. Nesse período, o diretor manteve o passe da atriz e teria recusado todos os convites feitos a ela. Histórias sobre a vida sexual praticamente inexistente de Hitch são conhecidas: ele seria impotente e teria concebido a filha na única relação que teve com a esposa, Alma, que estaria mais para irmã e colaboradora que para amante.

The Girl JonesJones (ao lado), com uma maquiagem pesada, repete o acontecido de alguns anos atrás: em 2005, sairiam duas cinebiografias sobre Truman Capote, e Jones estrelou a menor, que acabou na geladeira para não bater de frente com o ganhador do Oscar Philip Seymour Hoffman. Dessa vez, ele interpreta Hitch no mesmo ano em que Sir Anthony Hopkins faz o mesmo numa obra para o cinema, em mais um desses mistérios de filmes gêmeos. De qualquer forma, mesmo pendendo mais do que deveria para o vilanesco, Jones faz um bom trabalho. Assim como ele, a colega Sienna Miller também foi indicada ao Globo de Ouro por seu trabalho, como uma mulher vitimizada, mas nunca fraca ou frágil.

É impressionante pensar que um gênio do Cinema da grandeza de Hitchcock pudesse ser este monstro desprezível, como foi retratado. Mas, por outro lado, é perfeitamente possível que todos fizessem vista grossa a este comportamento anormal tendo em mente o poder que ele detinha. Mais estranho ainda é perceber que, mesmo tendo passado por diversos abusos durante as filmagens de Os Pássaros, Tippi Hedren ainda filmaria Marnie, Confissões de uma Ladra (1964) com o diretor. O contrato, inicialmente celebrado com a grande oportunidade, se tornaria uma prisão para ela. Como o próprio Hitch diz no filme, ele conseguiu ótimas interpretações da “Garota”, como se referia a Tippi. Mas a que preço?

The Girl Hitch

Jones, como Hitch, orienta a “garota”

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , , , , | 6 Comentários

Daniel Day-Lewis faz um Lincoln impecável

por Marcelo Seabra

Lincoln

Daniel Day-Lewis. Se é preciso uma razão para conferir Lincoln (2012), está aí. A nova produção de Steven Spielberg conta com mais uma atuação fantástica deste artista que, a exemplo de Meryl Streep, merece um prêmio por cada trabalho que entrega. O longa é um dos nove indicados pela Academia em 2013 como Melhor Filme e acumula outras 11 indicações, inclusive para Melhor Ator e Diretor. O ex-presidente americano já foi retratado em diversas obras, provando claramente que é uma das figuras históricas mais populares dos Estados Unidos. E pode dar ao ator seu terceiro Oscar, todos na mesma categoria.

Lincoln Day-LewisNascido em Londres e dono de um sotaque bem característico da cidade, Day-Lewis fez um ótimo trabalho para soar como Lincoln, natural do Kentucky. A construção do personagem foi extremamente detalhada, da fala à postura, sempre curvada. Lincoln era, além de muito alto, um tanto alongado, e parecia estar sempre abatido, com o cansaço impregnado nos ossos, como ele mesmo descreve. O diagnóstico médico real indicava melancolia, talvez agravada pela perda de dois dos quatro filhos que teve com a esposa, Mary Todd Lincoln. Um terceiro filho ainda morreria pouco depois do pai, levando a mãe a ser internada em uma instituição psiquiátrica para lidar com tantas tragédias. Apesar disso tudo, o presidente tinha um senso de humor apurado, dado a contar longas e engraçadas histórias, o que vemos claramente em cena.

O roteiro de Tony Kushner mostra Lincoln a partir dos quatro últimos meses de sua presidência, quando buscava incessantemente uma forma de acabar com a guerra civil que já havia destruído milhares de famílias. Ao mesmo tempo, ele trabalhava por uma aprovação da emenda constitucional que acabaria com a escravidão. A eleição fora garantida pelos votos nos cidadãos do norte e os sulistas, cuja economia girava em torno das grandes fazendas, não podiam nem ouvir falar em liberdade para os negros. Kushner trabalhou com Spielberg em Munique (Munich, 2005) e foi indicado ao Oscar pelos dois trabalhos, mais uma vez mostrando cuidado com os fatos históricos. Desta vez, no entanto, foram tomadas mais liberdades para fins dramáticos, como dizer que o rosto do presidente já estampava moedas de 50 centavos, quando isso aconteceu apenas anos após a morte dele.

Lincoln warOutra característica marcante no longa é a fotografia de Janusz Kaminski, abusando dos contrastes entre claro e escuro. Os cômodos chegam a ser deprimentes, sempre com muita penumbra, e por vezes o filme fica com jeito de ser mais velho do que é. A figura do protagonista, comprida e envolta em sombras, chega a lembrar o Nosferatu de 1922, o que faz imaginar como seria um filme de terror de Spielberg hoje. Os poucos cenários de guerra remetem a O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), com corpos distribuídos e destruição por todos os lados. Já algo que chega a irritar é a trilha sonora, que transforma momentos que deveriam ser grandiosos em piegas. John Williams tem um pé no sentimentalismo barato, como vimos (ou ouvimos) em Cavalo de Guerra (War Horse, 2011), e isso às vezes se torna mais evidente.

O Lincoln do filme, como vários americanos o vêem hoje, é tido como o “homem mais puro da América”, como é descrito por determinado personagem. Jovens declamam seus discursos decorados de terem ouvido apenas uma vez. Autodidata, ele estudou direito e se formou advogado, para depois se tornar o homem mais poderoso daquele país. E, então, se tornou um herói, o que o filme não se cansa de reforçar, fazendo parecer que ele sozinho resolveu tudo: a guerra e a escravidão. A corrupção empregada na votação da emenda, com uma compra de votos descarada, não macula a imagem do líder, já que ele é “só” o mandante, sem se envolver diretamente. E quando o suborno falha, o próprio Lincoln intervém, apelando aos princípios de seu interlocutor, o que soa bem forçado.

O lado família do longa fica mais discreto, dando maior ênfase à política e à politicagem. Dos dois filhos vivos, o mais velho (vivido por Joseph Gordon-Levitt, de Looper, 2012) tem aquele velho embate de gerações com o pai. Cada um parece saber o que é melhor para o rapaz e eles não se entendem, sendo o alistamento na guerra o principal motivo de atrito. A esposa, Mary (Sally Field, do novo Homem-Aranha, de 2012), tem um gênio forte e não se importa de ir contra o marido, mas aparece pouco e acaba ficando com uma imagem de encrenqueira e mandona. Enquanto a família carecia de melhor desenvolvimento, os aliados políticos roubam a cena, com destaque para Tommy Lee Jones (de Um Divã para Dois, 2012) e David Strathairn (de A Informante, 2010). Os inimigos se limitam a serem malvados e a fazerem malvadezas, e pronto. Há participações interessantes de gente como Jared Harris, Hal Holbrook, Michael Stuhlbarg, Jackie Earle Haley e James Spader.

No final, Spielberg parece soltar o freio do sentimentalismo e o nível de açúcar sobe. Os muitos discursos do protagonista servem mais para explicar para o espectador o que está acontecendo do que qualquer outra coisa, segurando a história um pouco – o que pode ter causado a longa duração (150 minutos). As intrigas e negociações conseguem segurar a atenção do público, além da presença magnética de Day-Lewis, discreto e poderoso. Como vários outros bons filmes vistos recentemente, não é dos melhores, mas tem o melhor dos intérpretes.

Ator e diretor lançam o longa pelo mundo

Ator e diretor lançam o longa pelo mundo

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades, Premiações | Com a tag , , , , , | 5 Comentários

Tarantino visita os faroestes com Django Livre

por Marcelo Seabra

Django Unchained

“Eu roubo de todos os filmes já feitos” e “Violência é umas das coisas mais divertidas de se assistir” são duas citações atribuídas a Quentin Tarantino que podem servir para descrever Django Livre (Django Unchained, 2012), novo trabalho de um diretor e roteirista que sempre cria grandes expectativas em torno de seus projetos. Dessa vez, não é diferente e todos aguardavam ansiosamente pela homenagem de Tarantino a um gênero que ele sempre amou: o faroeste italiano. O longa emplacou cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, e também cinco ao BAFTA, com Melhor Diretor no meio, entre outros.

Em 1966, foi lançado um western spaghetti que faria história, mesmo sem um roteiro finalizado ou um orçamento que atenderia os custos. Django, de Sergio Corbucci, definiu muitos clichês do gênero, deu origem a várias seqüências genéricas e, em 1987, teve o italiano Franco Nero de volta ao papel em Django – A Volta do Vingador (Django 2 – Il Grande Ritorno). Muitos espectadores ficariam marcados por produções como estas, e Tarantino se inclui nesta lista. Assim como fez em Kill Bill (2003 e 2004), ele fez uma colcha de retalhos com elementos de diversos longas para montar um original, e não poderia deixar de convidar Nero para uma ponta sentimental (abaixo, com Foxx). Russ Tamblyn é outro convidado. O Filho do Pistoleiro repete seu papel de 1966 em uma ponta e ainda traz  a filha, Amber Tamblyn.

Djangos Foxx & Nero

Em Django Livre, Jamie Foxx volta a protagonizar um longa de relevância, o que não fazia desde o Oscar ganho por Ray (2004). Com muito carisma e a disposição adequada, ele vive o personagem título, um escravo libertado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz) para ajudar a identificar irmãos procurados pela lei. Quando finalizam a missão e corre tudo bem, Schultz propõe uma sociedade a Django: ele ajudaria o alemão a cumprir os mandados e, em troca, teria uma mão para resgatar a esposa, Broomhilda (Kerry Washington, também de Ray). Schultz descobre que a garota foi comprada pelo rico escravocata Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) e eles devem bolar um plano para conseguir tirá-la da fazenda Candie Land pelas vias corretas, com um recibo de compra que lhe garanta a liberdade.

Django Unchained WaltzOs atores dão um show e o destaque é, sem dúvida, Waltz. O ator ganhou o Oscar de melhor coadjuvante por Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) e já estava na mente de Tarantino escrever outro papel para ele. A oferta para viver Schultz chegou em boa hora, o austríaco vinha aceitando uns papéis muito aquém de seu talento, como em O Besouro Verde, Água para Elefantes e Os Três Mosqueteiros, todos de 2011 (a exceção é Deus da Carnificina, do mesmo ano, também digno de nota). O Dr. Schultz tem um jeito muito interessante de lidar com as palavras e seus diálogos são sempre prazerosos de se acompanhar, e ele tem uma inteligência ímpar e parece se divertir com isso. Apesar de seu papel ter mais importância que qualquer outro na trama, Waltz novamente emplacou uma indicação ao Oscar como coadjuvante e já levou o Globo de Ouro na categoria (e o filme também ficou com Melhor Roteiro Original).

DiCaprio é outro que merece uma menção especial. Seus trejeitos ligeiramente afeminados e a forma como ele contorna situações de tensão quando é conveniente e como muda de humor são muito interessantes, mostrando um ator que claramente amadurece a cada novo trabalho. Ele demonstra, inclusive, certo tino para comédia, já que o longa é marcado por momentos de humor, talvez o que mais tenha essa característica na carreira do diretor. Em breve, veremos o ator como O Grande Gatsby e em outra parceria com Martin Scorsese, em The Wolf of Wall Street, que devem garantir algum prestígio em premiações. Samuel L. Jackson (de Os Vingadores, 2012), bem envelhecido pela maquiagem, está ótimo como o empregado racista e falastrão de Candie, e seus diálogos retratam bem a forma de falar de sua classe e época. E, como acontece sempre nas produções de Tarantino, um ator sumido tem uma grande chance de retorno: dessa vez, é Don Johnson, ídolo nos anos 80 por conta da série Miami Vice. Em participações menores, temos Jonah Hill (de Anjos da Lei, 2012), Robert Carradine (de Fantasmas de Marte, 2001), Tom Savini (de As Vantagens de Ser Invisível, 2011), Walton Goggins (da série Justified), James Remar (o pai do psicopata Dexter) e o próprio Tarantino.

Descontando-se os lugares-comuns relacionados ao bem estabelecido diretor e roteirista (como “ele nunca decepciona”) e as alegações ridículas de estímulo ao racismo, Tarantino de fato entrega um filme bem acima da média, que diverte como poucos. Como sempre, ele privilegia o estilo, e acaba até desrespeitando leis da física pelo simples efeito que a cena causa, mas nada disso é problema. A violência exagerada causa mais risos que asco ou repulsa e a trilha sonora permanece sendo um dos pontos altos, tanto a instrumental (com bastante Morricone, o original e como inspiração) quanto a pop e contemporânea, que inclui Jim Croce (I Got a Name) e Johnny Cash (Ain’t No Grave). A reconstituição da época, com objetos e figurinos muito bem cuidados, são outro diferencial, junto com a bela fotografia. Acabamos dando um desconto para a longuíssima duração (165 minutos) e aproveitando a viagem.

Foxx, Kerry, Tarantino, Jackson e Waltz na estreia em Paris

Foxx, Kerry, Tarantino, Jackson e Waltz na estreia em Paris

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , , | 1 Comentário

O amor segundo Haneke

por Marcelo Seabra

AmourA partir desta sexta, os brasileiros poderão conferir o novo trabalho do diretor Michael Haneke, Amor (Amour, 2012). O longa vem acumulando diversos prêmios, como a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, e concorre em outras tantas cerimônias a serem realizadas, como o Oscar (com cinco indicações). Boa parte da atenção recebida deve-se ao nome do diretor, ele próprio detentor de vários prêmios e já cercado por uma aura cult que torna seus filmes obrigatórios. Mas o casal de protagonistas realmente merece uma conferida: são os ótimos veteranos franceses Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.

O público, na condição de voyeur, acompanha a pacata vida de um casal que já passou dos oitenta e ainda demonstra grande carinho um pelo outro. Após sofrer um derrame, a senhora passa a demandar muitos cuidados, o marido passa a viver em função dela e a relação deles passa a ser testada diariamente. Assim como em A Professora de Piano (Le Pianiste, 2001), Haneke usa personagens ligados à música em um drama aparentemente simples, que logo começa a revelar suas outras camadas. Trintignant (de filmes como Z, de 1969, e A Fraternidade É Vermelha, 1994) e Emmanuelle (de A Liberdade É Azul, 1993) têm uma interação possível apenas a velhos amigos, e são acompanhados pela não menos competente Isabelle Huppert, a professora de piano do longa homônimo, que vive a filha do casal.

Amour scene

Enquanto, para observadores externos, pode parecer que o marido é quase um herói e todos o elogiam, já que ele demonstra todo o seu amor pela esposa em suas ações. Para ele, o suplício não é ter que cuidar dela, mas ter que vê-la naquela condição e saber que dentro daquele corpo deficiente há uma mente sadia aprisionada. E seria só o começo da decadência física. E, para a filha, é difícil, mas de outra maneira: ela não tem ideia do que fazer. Como se portar? Como ajudar? Por mais que se queira e se importe, como lidar com essa situação?

Com longas tomadas, Haneke nos lembra que a vida não é composta apenas pelas ações principais, esticando momentos além do que o Cinema tipicamente americano mostra para que possamos realmente conhecer os personagens. Nas pequenas ações, entendemos o porquê do título, bem genérico, mas apropriado aos idosos que mantêm o afeto e a cumplicidade mesmo tendo vivido tantos anos juntos. O apartamento onde eles vivem é espaçoso e confortável, e o diretor aproveita essas características para ressaltar a solidão em que se vê o marido quando a esposa fica debilitada. Quase como um reality show, acompanhamos a intimidade deles. É uma visão assustadora, mas realista, apesar de pessimista, do futuro que aguarda a todos nós.

O diretor orienta seu elenco

O diretor orienta seu elenco

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Schwarzenegger volta a divertir-se no cinema

por Marcelo Seabra

The Last Stand

Divertido até! Isso define o primeiro longa como protagonista do ex-governador Arnold Schwarzenegger desde 2003, quando estrelou o terceiro Exterminador do Futuro. O Último Desafio (The Last Stand, 2013) chega aos cinemas apostando que muita gente vai querer ver de novo o sujeito durão que fez a felicidade de fãs do gênero ação nos anos 80 e 90. Apesar de claramente enferrujado, o ator consegue convencer num papel muito parecido com ele próprio: um veterano, cercado por jovens, que está pronto para a aposentadoria, mas ainda agüenta o tranco.

Tida como decepcionante por muitos, a participação de Schwarzenegger nos dois Mercenários não é nada perto do que ele precisa fazer em O Último Desafio. Até para o mano a mano contra um adversário bem mais jovem ele parte. No longa, ele é um ex-policial de Los Angeles que foi para uma pequena cidade do interior para levar uma vida calma como xerife. O máximo de movimentação que a cadeia local vê é um arruaceiro detido por estar bêbado. Um dos ajudantes quer ação e pede para ser transferido, e mal perde por esperar! A série de clichês é grande, mas não é problema.

The Last Stand NoriegaO pesadelo da reduzida e inexperiente equipe do xerife começa quando um grupo suspeito está tramando algo no campo e, paralelamente, há um poderoso traficante de drogas (ao lado) em LA sendo levado para a execução que consegue fugir. Ele mostra o tanto que o FBI é incompetente e o tanto que ele próprio é inteligente, quase vidente, já que consegue, da cadeia, traçar um plano perfeito para fugir para seu México natal em um possante preto mais rápido que um helicóptero. Para isso, no entanto, ele precisará passar pela tal cidadezinha do xerife Schwarza, o que não será nada fácil. Para a resistência (que está no título original), são convocados cidadãos que nada tinham com o peixe, mas que poderiam ajudar. Uma subtrama de namorados em guerra não poderia faltar, assim como momentos em que os demais cidadãos mostram como não se assustam com uns tiros disparados em suas ruas.

A violência é exagerada e algumas cenas são para rir alto. A história, escrita pelo novato Andrew Knauer, é das mais simples, e ainda precisou ser reescrita por Jeffrey Nachmanoff (de O Traidor, 2008) e teve como supervisor George Nolfi (de Os Agentes do Destino, 2011). Nada de inédito ou inovador será visto aqui, e frases de efeito são metralhadas sem dó. Obviamente, o protagonista brinca com sua idade avançada e arruma as soluções que são possíveis naquela situação, além de não dar confiança para o asno que coordena a operação do FBI, já que considera que um não tem jurisdição sobre o outro.

The Last Stand SantoroO elenco de O Último Desafio é internacional, o que traz um atrativo para vários países. O vilão principal é o espanhol Eduardo Noriega, conhecido por Abra os Olhos (Abra los Ojos, 1997), longa refilmado como Vanilla Sky em 2001. Cortez, o traficante bambambam, não passa de um playboy que se acha indestrutível, e Noriega faz o que pode para tornar o personagem interessante. Temos ainda o americano/coreano Daniel Henney, o portoriquenho Luis Guzmán, o sueco Peter Stormare e o brasileiro Rodrigo Santoro (acima), que realmente ganha importância e participa da trama. No time americano, aparecem Johnny Knoxville, lesado como de costume; Harry Dean Stanton, numa pequena participação; Jaimie Alexander, que não se contenta em ser apenas bonita e parte para a batalha; e Forest Whitaker, mal escalado e parecendo estar constrangido como o babaca mor do FBI.

O coreano Kim Jee-Woon, lembrado por O Mistério das Duas Irmãs (Janghwa, Hongryeon, 2003) e Eu Vi o Diabo (Akmareul Boatda, 2010), imprime um ritmo ágil no longa e mantém a peteca no alto, com perseguições, tiroteios e o que mais precisar. É basicamente o mesmo tipo de coisa que Schwarzenegger costumava fazer em seus tempos áureos, talvez com um pouco mais de humor. Para quem aprecia esse filão, é um prato cheio.

Pausa para foto da equipe do xerife

Pausa para foto da equipe do xerife

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Globos de Ouro 2013 – A Cobertura

por Marcelo Seabra

GoldenGlobes2013Pontualmente, às 23h de 13 de janeiro de 2012, começa a apresentação da 70ª edição dos Globos de Ouro. Comandando a festa estão as Duoestrelas da TV Tina Fey, da série 30 Rock, e Amy Poehler, de Parks and Recreation, que estiveram juntas no Saturday Night Live por vários anos. Depois de várias piadas, sacaneando diversas celebridades, elas chamam a primeira categoria da noite: Melhor Ator Coadjuvante. E o prêmio vai para Christoph Waltz, a pessoa que Tarantino tinha em mente desde o início para Django Livre. A seguir, Maggie Smith, que não pôde ir, ganha como Melhor Atriz Coadjuvante em uma Série, Minissérie ou Filme para TV por Downton Abbey, elogiada série inglesa que finalizou sua segunda temporada.

Fox FamilyAntes de Melhor Minissérie ou Filme para TV, somos surpreendidos pela visão do filho de Michael J. Fox, Sam Fox, apresentado como Mr. Golden Globe – ao lado de Francesca Eastwood, a Ms. Golden Globe. O rapaz é tão parecido com o pai que ninguém deve ter prestado atenção na bela colega. Game Change, ou Virada no Jogo, fica com a estatueta. A Melhor Atriz em Filme, como previsto, é a “Sarah Palin” Juliane Moore, da produção da HBO que acaba de ser premiada, Virada no Jogo. Catherine Zeta-Jones chama um clipe de Les Misérables e vamos a outro comercial.

Voltamos com umas palavras sobre a Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood, pela presidente da instituição, e vamos ao páreo duro de Melhor Ator em Série de TV. Em meio a Jon Hamm, Steve Buscemi, Bryan Cranston e Jeff Daniels, é coroado Damian Lewis, protagonista de Homeland ao lado de Claire Danes. Uma falha no teleprompter deixa Paul Rudd e Salma Hayek na mão, e entram as chamadas para as melhores séries de TV: é mais uma para Homeland. Depois de um clipe de Argo, com a participação do verdadeiro agente da CIA Tony Mendez, vem a categoria de Melhor Trilha Sonora Original, que fica com As Aventuras de Pi, para Mychael Danna, também indicado ao Oscar. E segue-se a Melhor Canção Original, a esperada Skyfall, de Adele, que agradece com seu forte sotaque inglês.

Kevin Costner, em sua quinta indicação e segunda premiação, fica com o Globo de Ouro de Melhor Ator em Minissérie ou Filme para TV por seu trabalho em Hatfields & McCoys, como o pior vizinho imaginável. Para o clipe de Lincoln, ninguém menos que o ex-presidente americano Bill Clinton, que menciona as negociações necessárias para se ganhar Jennifer Lawrenceuma eleição. “Nada sei sobre isso”, brinca Clinton. Diz Will Ferrell que assistiu a todos os filmes com atrizes indicadas na categoria Melhor Atriz – Musical ou Comédia, e ele e Kristen Wiig explicam todos os filmes – de maneira surreal. E Jennifer Lawrence (ao lado) comprova que veio para ficar, premiada por O Lado Bom da Vida (ou Silver Linings Playbook). Ela também concorre nos Oscars, e pela segunda vez, apesar da pouca idade.

Voltamos das propagandas e mais um prêmio para Virada no Jogo: Ed Harris é o Melhor Ator Coadjuvante em uma Série, Minissérie ou Filme para TV. Megan Fox e Jonah Hill entram para anunciar a Melhor Atriz Coadjuvante em um Longa, e ela não é Sally Field, nem Amy Adams. O prêmio vai Anne Hathaway, de Les Misérables, que faz questão de agradecer ao diretor, Tom Hopper, que não foi indicado este ano. Robert Pattinson e Amanda Seyfried chamam o Melhor Roteiro Original, o falante Quentin Tarantino, de Django Livre. Com Jeremy Irons, vemos um clipe de Amor Impossível (ou Salmon Fishing in the Yemen), e entram Lucy Liu e Debra Messing para Melhor Ator em uma Série de TV – Comédia ou Musical. Da fraca House of Lies, Don Cheadle recebe seu segundo Globo de Ouro e temos mais uma pausa.

No palco, Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger anunciam o Melhor Filme em Língua Estrangeira, e Schwarza chama o compatriota Michael Haneke, de Amor. Para Melhor Atriz em Série – Drama, Claire Danes leva seu quarto prêmio, de quatro indicações. Aproveitamento de 100%! Sacha Baron Cohen entra, sem graça nenhuma, para a Melhor Lena DunhamAnimação, que fica com Valente, da Pixar. Liev Schreiber apresenta o clipe de As Aventuras de Pi e dá lugar para Jason Bateman e Aziz Ansari, que vão chamar a Melhor Atriz em uma Série de TV. As apresentadoras, Tina Fey e Amy Poehler, estão entre as indicadas, mas o prêmio fica com Lena Dunham (ao lado), criadora e protagonista de Girls, da HBO.

Robert Downey Jr., amigo de longa data de Jodie Foster, apresenta o prêmio Cecil B. DeMille, o famoso “conjunto da obra”. Aos 50, como ressalta, Jodie é agraciada, e são 47 anos de carreira. Além de atriz, a competente diretora é homenageada com uma longa montagem de muitos de seus trabalhos. Mais longo é o discurso de agradecimento, em que ela menciona pessoas que a ajudaram ao longo dos anos, família e amigos, e promete continuar fazendo filmes significativos. Ser uma figura pública por tantos anos fez com que ela valorizasse muito sua privacidade, e ela aproveita para espetar a mídia, que pode ser bem invasiva.

Ben AffleckNo bloco seguinte, Ben Affleck (ao lado com a esposa, Jennifer Garner) passa na frente de Spielberg, Tarantino, Ang Lee e Kathryn Bigelow e emplaca como Melhor Diretor de um Longa. Argo merecidamente é honrado. Na sequência, o prêmio de Melhor Série de TV – Comédia ou Musical poderia ir para ninguém, é uma categoria difícil por, basicamente, falta de graça. Girls, de Lena Dunham, leva outra. Clipe de Silver Linings Playbook e descobrimos o Melhor Ator em um Musical ou Comédia: Hugh Jackman, o novo Jean Valjean de Les Misérables.

Jeremy Renner apresenta um clipe de A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty) e Dustin Hoffman entra para anunciar o Melhor Filme – Musical ou Comédia. Não tinha para mais ninguém: claro que ficou com Les Misérables. À medida que o final se aproxima, parece que os blocos ficam menores e os comerciais proliferam. George Clooney apresenta Melhor Atriz – Drama, e a operária destaque Jessica Chastain finalmente leva, por A Hora Mais Escura. Em dois anos de trabalho, ela fez “apenas” dez filmes. Clooney segue no palco, já que Meryl Streep está doente e não pôde comparecer, e anuncia o Melhor Ator – Drama: Daniel Day-Lewis, o inglês que vive o maior dos presidentes americanos em Lincoln.

ArgoCom todos os clipes devidamente exibidos, chega a hora do Melhor Filme – Drama. Affleck já levou como diretor, agora leva como produtor, ao lado de Clooney e Grant Heslov. Com essa categoria, a premiação é encerrada por Tina Fey e Amy Poehler, que pegaram relativamente leve no humor. Os prêmios foram equilibrados, dando oportunidade a Argo, Lincoln, A Hora Mais Escura, Os Miseráveis e Django Livre e até O Lado Bom da Vida, As Aventuras de Pi e Skyfall. Boa noite!

Publicado em Notícia, Personalidades, Premiações | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Tom Cruise politicamente incorreto parte para a briga

por Marcelo Seabra

Jack Reacher

Jack Reacher é um cara em busca de confusão. Esta é uma boa definição para um sujeito que vive perambulando pelos Estados Unidos procurando situações em que possa ser útil. Tendo passado a infância e a adolescência em academias militares, ele não conhece bem o país. Após dar baixa do exército, atingindo a patente de major, ele fica meio sem rumo, sem ter alguém que o conduza, como acontecia entre os militares. Esta é a base para o personagem título de Jack Reacher (2012), longa que no Brasil ganha o subtítulo O Último Tiro e chega às salas esta semana.

Criação de Lee Child, pseudônimo do escritor americano Jim Grant, Reacher já é protagonista de uma série de 17 livros, iniciada em 1997. Desde então, todo ano viu um novo lançamento do andarilho, com dois em 2010. Com uma carreira tão longa, já era hora de Reacher chegar à tela grande, e o produtor envolvido no projeto acabou assumindo a tarefa de vivê-lo. Era ninguém menos que Tom Cruise, que não viu problema em ser protagonista de outra franquia de ação além de Missão: Impossível. Ele já tinha, para a direção e roteiro, Christopher McQuarrie, que escreveu um de seus trabalhos, Operação Valquíria (Valkyrie, 2008). O personagem é descritos nos livros como um gigante de quase dois metros e mais de cem quilos, mas isso não era problema para o astro, grande em presença e determinação.

One ShotPara a estreia no cinema, foi escolhida a nona aventura, Um Tiro, que começa com um atirador acertando cinco pessoas aleatórias à distância. Ele foge e, com as evidências encontradas, a polícia acaba chegando ao atirador de elite do exército James Barr (Joseph Sikora, de Boardwalk Empire), que já até tinha participado de algo parecido antes. Ao ser interrogado, Barr pede a presença de Jack Reacher e, em seguida, entra em coma por ter sido agredido por outros prisioneiros. Reacher é praticamente uma lenda, um ex-militar extremamente habilidoso com armas e lutas que sai andando mundo afora e não pode ser encontrado. Para a surpresa de todos, Reacher aparece no momento exato e entra na investigação ao lado da defesa, mesmo que esteja disposto a provar a culpa de Barr. A advogada do sujeito, Helen Rodin, (Rosamund Pike, de A Minha Versão do Amor, 2010), coloca Reacher como investigador e essa dupla vai correr atrás da verdade.

Como uma espécie de mistura de James Bond e Sherlock Holmes, Reacher é bom em tudo e consegue tirar conclusões praticamente do ar. Ele é quase indestrutível e isso tira um bocado da graça, exatamente o contrário do que tem acontecido nos últimos filmes do Comandante Bond. Nada pode tirá-lo de seu alvo e sua obstinação faz até com que quebre leis, o que é moralmente questionável e traz um pouco de pimenta à mistura. Tom Cruise tem uma aura de herói que não é exatamente adequada e, mesmo sem fazer muito esforço para atuar, não chega a comprometer compensando com muita vontade de acertar (apesar de que um Woody Harrelson teria sido muito mais interessante). O elenco, que ainda inclui Herzogos veteranos Robert Duvall (de Coração Louco, 2009) e Richard Jenkins (de O Homem da Máfia, 2012), não tem grandes destaques. O que seria o maior chamativo, a presença do cineasta Werner Herzog (ao lado) como o maior dos vilões, acaba beirando o ridículo, com um personagem caricato que só não é pior por não aparecer muito.

McQuarrie fez fama com o roteiro de Os Suspeitos (The Usual Suspects, 1995), pelo qual levou um Oscar e um BAFTA, entre outros prêmios. Em 2000, ele comandou seu primeiro longa, o divertido e subvalorizado A Sangue Frio (The Way of the Gun), mas derrapou feio em 2010 com o fracasso O Turista (The Tourist). Por algum motivo, Cruise viu algo nele bom o suficiente para chamá-lo para revisar o roteiro de Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2011) e ele está em negociações para dirigir e escrever o quinto episódio da franquia. Em Jack Reacher, ele faz algumas escolhas acertadas, quanto a enquadramentos, ritmo (propositalmente mais lento), trilha e um certo ar setentista, daqueles filmes diretos e violentos como Operação França (The French Connection, 1971). Mas não decide o tom certo para o filme, quebrando um clima tenso com palhaçadas dignas de estreantes. O resultado não é memorável, mas tampouco é a bomba que alguns andam afirmando e pode marcar o começo de algo melhor, com os próximos e inevitáveis filmes.

O produtor David Ellison, McQuarrie e Cruise durante as filmagens

O produtor David Ellison, McQuarrie e Cruise durante as filmagens

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Novo Wachowski é bonito, longo e filosófico

por Marcelo Seabra

Cloud Atlas

“Nossas vidas não são nossas. Do ventre ao túmulo, estamos ligados a todos. No passado e no presente. E cada crime e cada boa ação definem o nosso futuro”. Algo assim é dito por uma personagem em determinado ponto de A Viagem (Cloud Atlas, 2012) e basicamente define a ideia à qual o filme volta sempre: pessoas diferentes, em tempos diferentes, estão ligadas, tudo tem uma conseqüência em alguma época, para alguém. Os irmãos Wachowski se uniram a Tom Tykwer na adaptação do livro de David Mitchell e criaram uma obra ainda mais ambiciosa que sua famosa trilogia Matrix, torrando um orçamento na casa dos 100 milhões de dólares.

Cloud Atlas bookMitchell criou seis histórias que parecem ser isoladas uma das outras, mas elas acabam se cruzando em diversos momentos. Indo de 1849 a um futuro apocalíptico em 2346, as histórias comprovam o quanto estamos ligados ao universo e aos outros seres humanos. Conceitos como verdade, crença, escolha, conseqüência e até carma são tratados nos seis núcleos, batendo nas mesmas teclas em situações diferentes. Para reforçar isso, os cineastas usaram os mesmos atores, tornando ainda mais óbvia a ideia de ciclo. Aí, já temos dois pontos negativos do longa: tentar deixar tudo o mais claro possível, já apostando que o público teria dificuldades para enxergar os temas principais; causar confusão e tirar a atenção do que importa, já que todos vão se pegar tentando adivinhar quem é quem na cena.

Como heróis das tramas, temos Jim Sturgess (de Um Dia, 2011), Ben Whishaw (de Skyfall, 2012), Halle Berry (de Noite de Ano Novo, 2011), Jim Broadbent (de A Dama de Ferro, 2011), Doona Bae (de O Hospedeiro, 2006) e Tom Hanks (de Larry Crowne, 2011). Eles têm que vencer basicamente o mesmo tipo de desafio, lutando contra antagonistas parecidos e contando com colaboradores similares. Na lista de coadjuvantes, temos Hugo Weaving, o ator-fetiche dos irmãos Wachowski mais lembrado como Agente Smith, Susan Sarandon (de A Negociação, 2012), Hugh Grant (de Cadê os Morgan?, 2009), Keith David (de Gamer, 2009) e James D’Arcy (de W.E. – O Romance do Século, 2011), para ficar nos mais famosos. Um grupo de uns 15 atores para viver em torno de 70 personagens, e haja maquiagem.

Jim SturgessTudo começa em 1849, quando o jovem advogado Adam Ewing (Sturgess – ao lado) é colocado de frente à questão da escravidão e deve tomar um lado; em 1936, Robert Frobisher (Whishaw) vai trabalhar como auxiliar de um músico veterano enquanto cria o que considera sua obra-prima; na San Francisco de 1973, uma jornalista (Halle) descobre uma conspiração sobre um reator nuclear e passa a correr risco de morte; em 2012, um editor precisa juntar fundos para pagar um escritor que agencia; pulando para 2144, uma garçonete clone (Doona) se vê no meio de uma rebelião contra o status quo; e, finalmente, chegamos a 2346 (aproximadamente), quando dois indivíduos de raças diferentes (Hanks e Halle) devem se unir para buscar a mútua sobrevivência.

Contando seis histórias, indo de forma competente de uma para a outra e voltando, fica até fácil ocupar 2h52min de projeção. Mas o filme é tão longo que não é difícil esquecer algo do início até que se chegue a uma resolução, além do fato de serem muitos personagens e muitas informações jogadas do espectador. Uma segunda sessão é praticamente obrigatória para que se conecte tudo, e ainda assim vai ter muita coisa escapando. Ao final, há um clipe e é possível conferir quem viveu qual personagem, já que o mesmo ator chega a viver seis deles. Hugo Weaving, o ator-fetiche dos irmãos Wachowski, fica sempre com vilões executores, digamos assim, enquanto Hugh Grant fica com os vilões mandantes. Tudo muito bem delimitado e tecnicamente perfeito. Os intérpretes chegam a trocar de raça e gênero, reforçando mais uma vez que não há nada que diferencie os seres humanos, estamos todos no mesmo jogo.

Na divisão de trabalho, os Wachowski ficaram com os segmentos mais fantasiosos, o passado mais distante e os dois do futuro, enquanto Tykwer ficou com os mais convencionais, o atual entre eles. Dessa forma, os irmãos Lana e Andy conseguiram imprimir suas marcas, inclusive levantando questões filosóficas que vão assombrar uns e outros por dias após a sessão. Tykwer, mais lembrado por Corra, Lola, Corra (Lola Rennt, 1998), já conduziu com êxito a adaptação de um livro considerado “infilmável”, Perfume – A História de Um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer, 2006), e deve ter sido uma ótima ajuda, mas o estilo que prevalece não é o dele. O problema é que, com tantos personagens e tanto estilo juntos, falta um coração ao filme, que parece resultar em algo frio, estéril. Entre a crítica, A Viagem vem atingindo ambos os extremos. Só falta motivar mais gente a assisti-lo.

Algumas das "encarnações" de Halle Berry e Tom hanks

Algumas das “encarnações” de Halle Berry e Tom Hanks

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

O balanço da TV em 2012

por Rodrigo Seabra

TVAs séries de TV norte-americanas fecharam mais um ano bem positivo em 2012. Os veículos de mídia especializados em acompanhar e noticiar as séries já divulgaram suas listas de destaques do ano, com poucas alterações em relação ao período anterior, apenas talvez não tão unânimes e com um pouco mais de diversidade e mais menções, mas ainda bastante consistentes no que diz respeito aos principais nomes.

Sem elaborar uma lista própria nem ordenar exatamente quem vem em cada posição do ranking, O Pipoqueiro dá uma revisada nas opiniões dos veículos mais respeitáveis e mostra as séries apontadas como melhores (e piores) do ano que passou. Pra quem se lembra do texto anterior, a respeito de como foi a televisão norte-americana em 2011, as novidades não são muitas, já que o ano não foi favorável a séries estreantes – basta ver que a novata com maior audiência da TV aberta americana foi a fraca Revolution – mas ainda uma excelente safra para séries veteranas.

Breaking Bad

Por exemplo, as excepcionais Breaking Bad e Homeland se sagraram mais uma vez como as melhores coisas da TV em 2012. A primeira continuou apostando na alta qualidade que vem trazendo desde seu início. Prestes a concluir sua trajetória, em 2013, a quinta temporada fecha o cerco em torno do protagonista Walter White, que adota de vez a postura de criminoso cruel e esquece que um dia foi um pacato professor de química que somente buscava estabilidade para a família. Já Homeland brindou os espectadores com uma segunda temporada eletrizante, ainda que unanimemente denunciada por alguns deslizes narrativos em sua metade final, o que não diminui o impacto da grande série. Todo o elenco principal de ambas as séries merece as indicações que já conquistou e as acolhidas que terá nas premiações que veremos este ano.

As duas vitoriosas foram obrigadas a abrir espaço para a também veterana Mad Men, que ficou de fora das listas de 2011 por não ter tido episódios exibidos naquele ano, mas voltou com mais uma excelente leva de episódios no ano passado. Na quinta temporada, Don Draper e Roger Sterling deram um passo pro lado e deixaram as personagens femininas da série mostrarem diversos aspectos da emancipação trazida pelos anos 1960.

Downton AbbeyEntre outras menções que não desmerecem um punhado de outras séries de alto gabarito, está a inglesa Downton Abbey (ao lado), que foi descoberta em 2012 pelos americanos (especialmente os mais velhos e os hipsters) e desencadeou uma certa moda, sem desbancar as líderes, mas sendo bastante lembrada entre as melhores produções do ano. Também Game of Thrones, apesar de ter tido uma temporada mais fraca que a primeira, ganhou posições entre as melhores. Uma certa zebra acabou sendo The Walking Dead, que conquistou elogios e uma audiência espetacular em uma terceira temporada bastante forte, depois de amargar muitas críticas. É de se salientar que, mais uma vez, os dramas da TV a cabo deram um banho nas séries da TV aberta americana, com a sempre honrosa exceção de The Good Wife, mais uma vez considerada a melhor entre os canais abertos, seguida de perto por Parenthood.

O ano foi particularmente bom no ramo das comédias. Louie continuou na dianteira, mais uma vez elevada à condição de melhor série cômica da televisão no ano passado. Infelizmente, não a veremos na lista de melhores de 2013, porque seu manda-chuva, o hilário Louis C.K., anunciou que precisava de um descanso, e os episódios inéditos só voltam em 2014.

Lena Dunham - GirlsNa segunda posição, aí sim, uma novidade que chegou com tudo: a estreante Girls, da HBO, foi certamente a meia-hora mais falada de 2012, muito apontada pelos veículos especializados como o grande destaque entre as estreias do ano (talvez o único…). Ocasionalmente odiada por conta de suas personagens ultra-problemáticas e da falta de um humor escancarado, a série de Lena Durham (ao lado) ganhou elogios pela forma realista como retrata as mimadas e confusas jovens adultas da classe média nova-iorquina.

Community, a segunda colocada do ano anterior, teve mais uma temporada exemplar carregada de criatividade e mereceu menções elogiosas de praticamente todos os veículos especializados. Mas a verdade é que muitas comédias fecham o ano em um empate técnico de alta qualidade que favorece os fãs de boas risadas. Mais uma vez, temos grandes representantes nesse segmento, como Parks and Recreation, Happy Endings, 30 Rock, Apartment 23, Suburgatory e a louca animação Archer. Em tempo: desde sua primeira temporada, Modern Family continua não fazendo a lista de ninguém como “a melhor comédia da TV”, como querem nos fazer engolir algumas premiações por aí.

No quesito “piores do ano” – por que sempre é tão mais fácil apontá-los? – destacaram-se duas bobagens sem tamanho que foram rapidamente canceladas, com razão. A pretensa comédia Work It! trazia como grande atrativo homens se vestindo de mulher. Não precisa dizer mais, precisa? Aliás, quando fica claro que a segunda pretensa comédia trazia o eterno Two Broke Girlssem-graça Rob Schneider casado com uma mexicana e lidando com a família dela, também não é necessário muito esforço para entender o fracasso colossal de ¡Rob!. O lado ruim do ano culmina com a renovação da péssima comédia de estereótipos 2 Broke Girls para a segunda temporada. A inexplicável boa audiência da série da bela e engessada Kat Dennings (ao lado) só se justifica por dois fatores importantes: o da esquerda e o da direita.

Os demais comentários positivos do ano passado vão para séries que se recuperaram bem de temporadas terríveis, como Dexter e The Office; para aquelas que continuaram apresentando um bom trabalho nem sempre premiado e citado, mas sempre digno da maior consideração, como Boardwalk Empire e Bob’s Burgers; e para as séries que cresceram em sua proposta e devem ser exaltadas por isso, como American Horror Story e a comédia New Girl.

 A TV nunca esteve tão bem servida e, por isso, fica até difícil para a maioria dos fãs de séries se atualizarem com tanta programação de qualidade. Mas siga as recomendações acima e as aguardadas novidades que são prometidas para este ano (muitas continuações, e ainda The Following, House of Cards, Da Vinci’s Demons e o retorno de Arrested Development e de Michael J. Fox a um papel fixo, inspirado em si mesmo) e boa TV não faltará em 2013.

Homeland segue como uma das melhores séries da TV

Homeland segue como uma das melhores séries da TV

Publicado em Indicações, Listas, Séries | Com a tag , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Detona Ralph traz vida aos estúdios Disney

por Marcelo Seabra

Wreck-It Ralph

É comum vermos filmes sobre personagens titubeantes, que não têm grande fé em si mesmo, e acabam se vendo na posição de heróis, ou mesmo de salvadores. Essa jornada de descobrimento é usada mais uma vez em Detona Ralph (Wreck-It Ralph, 2012), nova animação dos estúdios Disney que chega aos cinemas essa semana. E há um ótimo bônus para a geração que nasceu ou cresceu na década de 80: os personagens vivem num mundo de fliperama e é até possível ver alguns rostos conhecidos.

Wreck-It Ralph & VanellopeO Ralph do título é um gigante vilão de um jogo que tem como herói um sujeito parecido com o Super Mario, uma espécie de mestre de obras que tem um martelo mágico. Ralph destrói, Felix conserta, e tem sido assim por 30 anos. Até que, um dia, Ralph se cansa de ser deixado de lado pelos colegas, que o vêem como mau e o evitam mesmo fora do horário de “trabalho”. Quando o salão de fliperama fecha, o mundo dos jogos ganha vida, algo similar ao que acontece em Toy Story, e é quando o grandão se sente ainda mais triste, indo sozinho para o lixão onde mora.

Quando percebe que o que diferencia um herói é a medalha que ele ganha ao completar o jogo, Ralph sai em busca de sua própria medalha, para provar que é bom o suficiente. Em seu caminho, ele vai conhecer e interagir com vários personagens dos jogos vizinhos e terá que vencer percalços dignos de um Ulisses. A mais difícil de suas tarefas é fazer os demais verem nele algo a mais do que um vilão valentão que não precisa pensar, mas o faz assim mesmo. A programação externa pode ser forte, mas cada um deve se esforçar para pensar por si só, e esta é apenas uma das muitas lições que se pode tirar desse desenho.

John C ReillySem nomes muito famosos no elenco de dubladores (ao menos, por aqui), Detona Ralph prima pela competência dos profissionais contratados, e à frente está John C. Rilley (ao lado), visto recentemente em Deus da Carnificina e Precisamos Falar Sobre o Kevin, ambos de 2011. Ele tem algo de deslocado que cai muito bem ao personagem. Ao lado de Rilley, ouvimos Jane Lynch (a professora durona de Glee), a comediante Sarah Silverman (que está séria em Entre o Amor e a Paixão, de 2011), Jack McBrayer (da série 30 Rock), Alan Tudyk (de Transformers 3) e o eterno “Al Bundy” Ed O’Neil. A direção está nas mãos de Rich Moore, que faz sua estreia em um longa após várias experiências na televisão em desenhos como Os Simpsons, O Crítico e Futurama. Dentre os produtores está o todo poderoso da Pixar, John Lasseter, atual chefe criativo dos estúdios Disney.

Como não poderia deixar de ser, tratando-se de um produto da Disney, Detona Ralph tem bastante apelo às crianças, mas agrada também ao público adulto, como acontece com as melhores animações já lançadas. As tais lições aparecem aqui e ali de forma bem dinâmica, como parte da trama, e a experiência não se torna cansativa ou aborrecida. Pelo contrário, os personagens são adoráveis e o resultado é bom entretenimento. Os efeitos da animação, que acompanham os movimentos dos personagens de videogame, são perfeitos e remetem diretamente ao espírito dos jogos. É programação para todos, especialmente os saudosistas dos anos 80.

"Meu nome é Ralph e eu tenho um problema..."

“Meu nome é Ralph e eu tenho um problema…”

Publicado em Animação, Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário