Gravidade é muito mais que o trailer promete

por Marcelo Seabra

Gravity

Ao pensar num ambiente com falta de gravidade, sempre me vem à cabeça um episódio de Os Simpsons no qual Homer come batatinhas voando pela nave, rolando poeticamente no ar. Potencial cômico existe, e muito, mas as coisas podem pender para o terror facilmente, como já provaram Sigourney Weaver e companhia nos vários Aliens. O pior, no entanto, é o pânico que pode tomar uma pessoa vagando no espaço não por causa de criaturas esquisitas e ameaçadoras, mas por algo bem mais simples: a falta de controle do próprio corpo, que se mexe involuntariamente, e a falta de ar. É desse terror que trata Gravidade (Gravity, 2013), um longa maravilhosamente realizado que é facilmente um dos melhores do ano.

O cineasta mexicano Alfonso Cuarón já provou seu talento em vários gêneros, passando até pela série de Harry Potter (O Prisioneiro de Azkaban, 2004). Depois de um hiato de sete anos, quando fez o emocionante Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), ele partiu para uma história simples, escrita com seu filho Jonás Cuarón, e levou seu elenco para o espaço. Pode parecer uma ficção científica para um desavisado, mas trata-se de um drama, um estudo de personagem. Os Cuaróns colocam a protagonista em uma situação extrema e ela deve resistir e, como diz o cartaz, não se entregar.

Gravity Clooney

Sandra Bullock, na melhor interpretação de sua carreira, vive a Dra. Ryan Stone, uma astronauta de primeira viagem que precisa instalar um novo software no telescópio Hubble. A equipe da nave Explorer é liderada pelo experiente Matt Kowalski, vivido pelo esperto George Clooney (acima), que não se importa em ser coadjuvante desde que o filme seja bom. Stone e Kowalski saem da nave para cumprir sua missão, mas são surpreendidos por uma chuva de destroços. A partir daí, segue-se uma luta pela sobrevivência. Não é interessante descrever mais o enredo, até para evitar spoilers, e também porque a história não é o principal aqui.

Gravidade é o filme que melhor utiliza o recurso da terceira dimensão, dando diferentes perspectivas aos vários elementos que vemos na tela. Cuarón convocou seu colaborador tradicional, Emmanuel Lubezki, para cuidar da fotografia, e o resultado é digno de todos os prêmios possíveis. A câmera roda como se realmente não houvesse gravidade, e entramos no capacete da personagem sem pedir licença, trocando de ponto de vista. Não poderiam faltar imagens da Terra vista de cima, e Kowalski faz questão de marcar o quão belo é aquele momento. Além da beleza visual, o som é outro ponto a ser ressaltado. “No espaço, ninguém pode te ouvir gritar”, já avisava o cartaz de Alien (1979). E temos um uso fantástico do som, alternando períodos silenciosos com as falas dos personagens e, o que causa mais tensão, a respiração nervosa deles.

O trailer, quando divulgado, ajudou a aumentar a expectativa e muita gente não conseguia esperar para conferir o longa. Se uma amostra de dois minutos já conseguiu tamanho efeito sobre o público, imagine 90 minutos bem desenvolvidos? Gravidade é uma obra aparentemente simples, mas não se engane: Cuarón usa todos os recursos à mão para fazer ótimo Cinema. Sempre buscando veracidade, ele não precisa apelar a nenhuma fantasia, deixando o ser humano à sua própria sorte naquela vastidão aterrorizante.

Cuarón já é um dos indicados ao Oscar de direção, por minha conta

Cuarón já é um dos indicados ao Oscar de direção, por minha conta

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Amigos comediantes se reúnem pro fim

por Marcelo Seabra

This Is the End

Várias turmas de atores amigos ficaram famosas no Cinema. Provavelmente, o Rat Pack, liderado por Frank Sinatra, foi a maior. Os anos 80 tiveram o Brat Pack, com Demi Moore, Rob Lowe, Andrew McCarthy, Emilio Estevez e companhia. Em 2000 e pouco, a mídia inventou o Frat Pack, com Ben Stiller, os irmãos Wilson, Will Ferrell, Vince Vaughn, entre outros. Uma turma mais recente é encabeçada por Seth Rogen e Evan Goldberg, parceiros criativos em vários roteiros (como Superbad, de 2007) que decidiram encarar o desafio de dirigir um longa. Para ajudar, chamaram os camaradas e fizeram É o Fim (This Is the End, 2013), comédia que traz vários atores como eles mesmos, mas em uma situação inusitada.

Vários nomes do humor atual se reúnem para uma festa na casa de James Franco. Estão lá, entre os principais, Rogen, Jay Baruchel, Jonah Hill, Danny McBride, Craig Robinson, Michael Cera e Christopher Mintz-Plasse, todos velhos conhecidos com trabalhos em comum. Juntam-se a eles outros que aparentemente não teriam relação, como Emma Watson e a cantora Rihanna, e temos a festa formada. Obviamente, o que cada ator interpreta é uma versão de si mesmo, e a graça está aí: eles brincam com a visão que o público aparentemente tem deles, ressaltando uma ou outra característica para ter um efeito cômico maior. Rogen é o mesmo cara que ele sempre vive, aquele que só quer se divertir e se recusa a crescer; Baruchel é inseguro, ligeiramente anti-social; Hill tenta ser simpático, mas é convencido e egocêntrico, Franco é pretensioso e parece estar acima dos demais. Estes são alguns exemplos, e o mais engraçado é o que foge completamente do que estamos habituados a ver: Michael Cera (abaixo).

This Is the End Cera

Em determinado momento, uma catástrofe cai sobre eles. Seria um terremoto? Uma invasão alienígena? Ou o apocalipse zumbi? Ninguém sabe, a televisão sai do ar e resta a eles ficarem juntos na casa de Franco, resistindo ao que vier. Num clima parecido com o de O Nevoeiro (The Mist, 2007), eles começam a discordar e discutir sobre qualquer coisa, e temos um divertido estudo sobre homens confinados vivendo com restrições. O que fazer, por exemplo, quando se tem apenas uma barrinha de chocolate? Alguns diálogos são absurdos, como numa versão mais jovem e drogada de Seinfeld, e não há nada politicamente correto.

Da mesma forma que O Segredo da Cabana (Cabin in the Woods, 2012), o final de É o Fim segue a lógica estabelecida, mas não deixa de ser exagerado – e engraçado. Os atores não param de rir de si mesmos até que os créditos subam, após uma surpresinha musical que, ao mesmo tempo, é irritante e faz sentido. Quem está familiarizado com o tipo de humor dessa turma e não fica escandalizado com a sujeira das piadas vai se divertir até! Só não espere uma sequência. Afinal, É o Fim!

O que seria essa catástrofe?

O que seria essa catástrofe?

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Idris Elba é a principal atração de Luther

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Luther capaAqueles que acompanham o Pipoqueiro regularmente sabem que temos um fraco por séries policiais, especialmente as britânicas. Prova disso é o fato de já termos publicado sobre várias séries da terra do Iron Maiden, como Sherlock e The Fall. Luther carrega semelhanças com elas, pois se trata de uma série policial cujo protagonista é um inspetor da polícia metropolitana de Londres com um jeito de trabalhar pouco ortodoxo, para dizer o mínimo, e também é uma produção da BBC. Além disso, Luther, assim como Sherlock e, em menor grau, The Fall, tem sua força principal na pessoa de seu protagonista, o detetive John Luther, vivido pelo experiente Idris Elba (de Círculo de Fogo, 2013).

Ator veterano da TV e Cinema (com participações de destaque em séries como The Wire e The Office original), Elba começou a se tornar mais conhecido fora da Inglaterra nos últimos anos graças a uma boa sequência de papéis em filmes de Hollywood, incluindo aí produções como Thor, Motoqueiro Fantasma: O Espírito da Vingança (ambos de 2011) e Prometheus (2012), além do recente Círculo de Fogo.  Luther se passa antes de tudo isso, já que a primeira temporada da série, com apenas seis episódios, foi produzida em 2010. A segunda, mais curta ainda, com quatro episódios, foi veiculada na Inglaterra em 2011, enquanto que a derradeira – também com quatro episódios – foi encerrada por lá recentemente.

Quando a série começa, John Luther está voltando de um período de sete meses em um hospital psiquiátrico. Seu colapso se deu após seu último caso, envolvendo um pedófilo assassino de crianças – isso é mostrado nos primeiros cinco minutos da série, não se trata de spoilers. Em sua volta, ele precisa resolver o caso de um assassinato misterioso, no qual um poeta e sua esposa são encontrados mortos pela filha do casal, a universitária Alice Morgan (Ruth Wilson, de O Cavaleiro Solitário, 2013 – abaixo), uma criança prodígio que, agora adulta, se torna a principal suspeita do inspetor.

Elba Wilson

O primeiro episódio já revela bastante sobre o que se esperar de Luther – tanto do protagonista quanto da série. John Luther é um detetive com bastante experiência, que mantém um distanciamento absurdo quando examina cenas de crimes, atento a qualquer detalhe que seus pares geralmente deixam passar. Apesar de ser um policial e, tecnicamente, ter a obrigação de agir dentro da lei, Luther não se importa de usar artifícios não necessariamente legais, se isso significa que o caso será resolvido e o culpado, preso. Não que ele seja um policial corrupto ou mesmo sujo. Ele apenas utiliza a filosofia dos “fins justificam os meios” quando necessário, forçando os limites do que pode se considerar ético ou mesmo moral dentro de sua profissão.

A exemplo de outras séries semelhantes, a cada episódio de Luther o inspetor é apresentado a um novo caso, enquanto uma trama maior corre em paralelo. Uma delas envolve a vida pessoal dele, na medida em que tenta reatar seu casamento com Zoe (Indira Varma, de Game of Thrones e Roma), uma advogada que decidiu separar-se no período em que ele se encontrava hospitalizado. A atração principal da série, no entanto, vai para o desempenho de Idris Elba, que consegue dar credibilidade a um personagem cuja série não se preocupa tanto em refletir a realidade. Os procedimentos forenses, por exemplo, passam longe de uma C.S.I. O instinto e a experiência valem mais que o manual da polícia.

Bem escrita e muitas vezes imprevisível, Luther já foi indicada a vários prêmios e Elba ficou com o Globo de Ouro de Melhor Ator de Série ou Filme para a TV. A série desembarcou no Brasil recentemente pelo canal por assinatura BBC Brasil HD, que a exibe todas as segundas às 22h, e via Netflix. Enquanto a BBC Brasil HD ainda exibe a primeira temporada, a Netflix já disponibilizou até a segunda para seus assinantes.

Merecido prêmio para um grande ator

Merecido prêmio para um grande ator

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Ator e diretor se reencontram no Lugar Onde Tudo Termina

por Marcelo Seabra

The Place Beyond The Pines

Depois de chamar a atenção com o elogiado Namorados Para Sempre (Blue Valentine, 2010), o projeto seguinte do diretor Derek Cianfrance era bastante esperado, e finalmente chegou ao Brasil – em homevideo, em muitas praças. O Lugar Onde Tudo Termina (The Place Beyond the Pines, 2012) repete a parceira com Ryan Gosling, que vai cimentando sua persona de anti-herói caladão. Este personagem podia muito bem ser a continuação para Drive (2011), por se tratar do ator como um andarilho misterioso bom de direção (agora com motos), que conserta carros nas horas vagas e tem uma atividade ilícita paralela. Mesmo tendo uma índole duvidável, ele consegue a simpatia da platéia devido ao carisma do intérprete.

Para quem não sabe nada a respeito, o longa será bastante surpreendente quanto à sua estrutura. Não pretendo estragar nada, darei apenas o contexto básico. Gosling é um artista circense com a moto que vê a necessidade de ganhar mais dinheiro e começa a cometer assaltos a bancos. O outro astro da produção, Bradley Cooper (visto recentemente no terceiro Se Beber, Não Case, 2013), vive um policial cujo caminho acabará se cruzando com o do outro. Nos papéis de esposas, namoradas ou algo assim, as belas Eva Mendes (de Holy Motors, 2012) e Rose Byrne (de Sobrenatural, 2011) completam o elenco principal. Ben Mendelsohn (de O Homem da Máfia, 2012) também merece destaque, sempre muito bom no que é destinado a ele – no caso, mais um desviante que busca uma saída fácil.

The Place Beyond The Pines GoslingGosling pode acabar classificado como limitado se continuar escolhendo esses papéis caladões. Numa possível tentativa de se tornar um novo Steve McQueen, ou mesmo Clint Eastwood, ele segue como o cavaleiro solitário do século XXI, de poucas palavras e pouca ação. Por algumas críticas já divulgadas, parece que em Only God Forgives (2013) as coisas não são muito diferentes, e ele já foi até chamado de “novo Keanu Reeves”. Cooper, como de costume, não faz nada de extraordinário, no papel de um detetive que conta com os conselhos do pai juiz. Correto, ele dá vazão aos questionamentos de seu personagem, que mesmo íntegro, não deixa de ter seu lado ambicioso. Dois jovens acabam tendo uma chance de aparecerem também, e Dane DeHaan (revelado em Poder Sem Limites, 2012) e Emory Cohen (da série Smash) não desperdiçam a oportunidade.

Mesmo com toda a expectativa que muitos criaram, Cianfrance não desaponta, apesar de criar uma obra longa e, por vezes, cansativa. As tramas são interessantes até percebermos que apenas servem como amarras para a próxima. Mas as imagens são perfeitas, as atuações são boas e há momentos que fazem valer a pena os 130 e tantos minutos de projeção. Sean Bobbitt, o diretor de fotografia favorito do cineasta sensação Steve McQueen (Shame e Hunger), faz um belo trabalho entre as paisagens urbanas e rurais, incluindo aí as cidadezinhas que têm um quê de bucólicas, como Schenectady, Nova York. Com pouco esforço, a produção nos situa há 15 anos, para depois nos trazer ao presente. E a suave trilha sonora de Mike Patton é um bem-vindo bônus.

Cohen e DeHaan são a nova geração

Cohen e DeHaan são a nova geração

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R.I.P.D. é tão morto quanto os personagens

por Marcelo Seabra

RIPD

Hoje praticamente um gênero cinematográfico, as adaptações de quadrinhos costumam ter fãs cativos, que conferem a produção apenas por ser desse filão. O problema é que frequentemente os executivos não se preocupam muito com a qualidade, já que sabem ter público garantido. É assim que aberrações como R.I.P.D. – Agentes do Além (2013) vêem ao mundo. Com uma premissa engraçadinha, a trama não assume um rumo, fica megalomaníaca e só consegue aborrecer. Além, claro, de tentar ser uma cópia descarada de Homens de Preto, apenas tirando os aliens e colocando gente morta no lugar.

Baseado nos quadrinhos de Peter M. Lenkov, publicados pela Dark Horse, o roteiro revela a existência de um departamento de polícia dos desencarnados. Estes agentes (igualmente mortos) são incumbidos de trazerem sob custódia os espíritos que permanecem em negação, caminhando entre os vivos. É nesse contexto que chega o personagem de Ryan Reynolds, um policial morto em ação que precisa aceitar a oferta de reforçar a lei e a ordem do outro lado da vida. Ele é entregue a um parceiro experiente, o arredio xerife do velho oeste vivido por Jeff Bridges – uma paródia ruim de seu icônico Rooster Cogburn, de Bravura Indômita (True Grit, 2010).

RIPD scene

Se Reynolds é apático, Bridges está no outro extremo. Ao contrário de seu falante Deadpool (de X-Men Origens: Wolverine, 2009), Reynolds realmente parece estar em outra dimensão, se aproximando mais de Lanterna Verde (2011) ou de Hannibal King (de Blade: Trinity, 2004). Sem graça nenhuma, ele serve de escada para as situações criadas pelo exagerado Bridges, que tenta se divertir em cena mesmo quando as falas são absurdas ou insossas. A dinâmica entre os dois é claramente forçada e desequilibrada, fugindo completamente do resultado inspirado de MIB. A história de amor do jovem policial Nick chega a cansar, assim como o vilão repetitivo e mal explicado de Kevin Bacon (de X-Men: Primeira Classe, 2011). Completa o elenco principal a desperdiçada Mary-Louise Parker (da série Weeds – acima), que nunca mostra a que veio.

Há de se esperar que ao menos os efeitos especiais sejam bacanas, o que não acontece. E a maioria das piadinhas pode até funcionar isoladamente, mas não contribuem com o todo – como as identidades terrenas da dupla, que não ajudam em nada nas investigações por serem tudo, menos discretas. O diretor de R.I.P.D. conseguiu um resultado muito superior em outra adaptação de quadrinhos: RED – Armados e Perigosos (2010). Robert Schwentke abriu mão de comandar a sequência de RED para assumir esse novo projeto, e sua disposição para correr riscos deve ser exaltada. Mas, com tanto esforço para fazer um novo sucesso ao exemplo de MIB, o máximo que ele conseguiu criar foi algo próximo do pavoroso Dylan Dog (2010).

RIPD

Primo pobre de MIB

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Agents of S.H.I.E.L.D. leva o universo Marvel à TV

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Agents of SHIELD logo

Alerta: Agents of S.H.I.E.L.D. se passa após os eventos vistos em Os Vingadores e Homem de Ferro 3 e faz referências diretas a ambas as produções. Assim, algumas surpresas contidas neles podem ser estragadas aqui.

Em o Homem de Ferro (Iron Man, 2008), há duas cenas que, uma de maneira bem sutil e outra mais às claras, dão indicações de que a Marvel Studios sempre teve planos bem ambiciosos para seus personagens no cinema. Na primeira, a secretária de Tony Stark, Pepper Potts, é abordada por um membro de uma agência de segurança identificada como S.H.I.E.L.D. chamado Phil Coulson (Clark Gregg) que quer conversar com seu patrão sobre os eventos relacionados ao seu sequestro e quase morte no Afeganistão – eventos esses que levaram Tony a bolar a primeira versão da armadura do Homem de Ferro. A segunda cena, que inaugurou a tradição das sequências pós-créditos nos filmes da Marvel, mostra Nick Fury (Samuel L. Jackson), outro agente da S.H.I.E.L.D., abordando Stark a respeito de um projeto que ele chama de “Iniciativa Vingadores”.

Desde então, Coulson e Fury fizeram aparições em praticamente todos os filmes da Marvel Studios, as exceções sendo O Incrível Hulk (2008) e Homem de Ferro 3 (2013). Essas participações – fossem em pontas, como em O Capitão América, fossem em papéis maiores, como em Thor – logo se mostraram serem as ligações entre todos aqueles filmes, uma preparação para Os Vingadores. E, incidentalmente, tornou Coulson – um personagem original do cinema, criado especialmente para o primeiro Homem de Ferro – bastante popular, a ponto do mesmo ter feito o caminho inverso e migrado da TV para os quadrinhos. A comoção que sua morte no longa dos “Maiores Heróis da Terra” causou na internet à época do lançamento do filme pode dar uma idéia dessa popularidade. Coulson, afinal, é o agente secreto “nerd” e, muitas vezes, tem reações típicas de um fã que finalmente tem a oportunidade de trabalhar com seus ídolos, o que gera situações engraçadas.

Não é de se estranhar, então, que Phil Coulson seja o principal dos Agents of S.H.I.E.L.D. (acrônimo para Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão) na série que acompanha as repercussões de tudo o que o espectador viu nos filmes da Marvel até o momento. Ela começa poucos meses após a “Batalha de Nova York”, que revelou ao público a existência de seres super-poderosos, deuses e alienígenas caminhando entre nós. Em face desse acontecimento, a S.H.I.E.L.D. precisa montar uma divisão especializada com o objetivo de localizar novos indivíduos super-poderosos na medida em que eles aparecem e determinar se eles devem ser protegidos ou eliminados.

Agents of SHIELD cast

O piloto da série – a temporada tem 13 episódios – começa meio que convencionalmente. No momento em que um homem salva uma vítima de incêndio pulando com ela do alto de um prédio e caindo no meio da rua sem sofrer qualquer dano, imagens do ato inundam o Youtube e chegam ao conhecimento da agência, que tem dois objetivos: descobrir a identidade da pessoa que postou aquele vídeo na internet e a de seu protagonista. Para isso, Coulson e a agente Maria Hill (Cobie Smulders, de Os Vingadores, mais conhecida pela série How I Met Your Mother) montam um time que (clichê!) terão que aprender a trabalhar juntos: o agente Grant Ward, (Brett Dalton, de séries como Army Wives e Blue Bloods) é o típico operativo eficiente que trabalha melhor sozinho e precisa se adaptar à dinâmica do grupo; a agente Melinda May (Ming-Na Wen, de séries como Plantão Médico e Two and a Half Men) é a verterana especialista em artes marciais e veículos que fora colocada em funções burocráticas e reluta em voltar a campo; e a dupla Fitz-Simmons, formada pelo ansioso engenheiro Leo Fitz (Iain De Caestecker) e a empolgada bioquímica Jemma Simmons (Elizabeth Henstridge). Completa o grupo a hacker Skye (Chloe Bennet, da série Nashville), cuja entrada no grupo é estabelecida nesse episódio.

Com um ritmo interessante, um bom volume de piadas e sequências de ação decentes, com algumas surpresas reservadas tanto para o espectador regular quanto para os fãs de longa data dos quadrinhos da Marvel, esta nova série promete ser bastante divertida, como as outras produções lideradas por Joss Whedon (diretor de Os Vingadores e criador de séries como Buffy: A Caça-Vampiros e Angel). Basta manter as qualidades de seu piloto e lapidar melhor uma coisa ou outra. A exemplo do que acontece com produções como The Walking Dead (Fox) e Game of Thrones (HBO), os episódios de Agents of S.H.I.E.L.D. serão veiculados por aqui dois dias após sua transmissão nos EUA. A série estreou no dia 24/09 na terra do Tio Sam e no dia 26/09, às 21h, no canal pago Sony.

A Disney convocou o elenco para o lançamento da série

A Disney convocou o elenco para o lançamento da série

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Família de mentira arranca muitas risadas

por Marcelo Seabra

We're the Millers

Sem realizar nada desde 2008, o diretor Rawson Marshall Thurber voltou a colocar a mão na massa e comandou Família do Bagulho (We’re the Millers, 2013), comédia que chegou aos cinemas brasileiros essa semana (sim, com esse título!). Se não é hilário o tempo todo, o longa ao menos tem alguns bons momentos e, nos demais, esbanja simpatia. Jennifer Aniston e Jason Sudeikis, como um casal de mentira, estão ótimos, com uma interação invejável, e seus filhos igualmente falsos não deixam a dever. E, como o assunto principal é drogas, não espere situações politicamente corretas.

Lembrado por seu primeiro longa, Com a Bola Toda (Dodgeball, 2004), Thurber mantém seu estilo pouco arrojado e caloroso. Suas comédias são bobinhas e previsíveis, mas também cativantes e com personagens carismáticos. Não são algo que você queira abandonar no trajeto, e mesmo já sabendo como será, você quer ver como vai terminar. O projeto já estava em desenvolvimento há anos, e foram necessários quatro roteiristas para chegarem à versão filmada. Depois de anunciados Aniston (a Rachel de Friends) e Sudeikis (de Quero Matar Meu Chefe, 2011), entraram a bordo Emma Roberts (de Pânico 4, 2011) e Will Poulter (descoberto em O Filho de Rambow, 2007), completando a família fictícia.

We're the Millers

Sudeikis vive David, um traficante peixe pequeno que se vê devendo uma bolada para um peixe grande (Ed Helms, da trilogia Se Beber, Não Case – acima). A solução é aceitar a proposta de trazer um carregamento de maconha do México, uma empreitada difícil que fica menos arriscada se houvesse mulher e filhos para acobertarem o crime. Partindo da lógica de que ninguém suspeitaria de uma família feliz de férias, eles partem para o país vizinho. Não faltam piadas com o México, seus habitantes e com as situações que são criadas. Algumas referências pop farão a felicidade dos mais atentos, e isso vale até para os erros de gravação, ao final. E o tempo das piadas é algo muito importante, não se rende nada mais do que o necessário.

Recentemente, outra família de mentira ganhou as telas, os Joneses (de Amor por Contrato, 2009), mas a realização era apática e falhava em criar interesse por seus personagens, rasos e até antipáticos. Jennifer Aniston também já havia vivido uma farsa parecida em Esposa de Mentirinha (Just Go With It, 2011), filme que não merece muita atenção apenas por ter Adam Sandler como protagonista. Não faltam mentiras familiares no Cinema, cada uma de uma forma e com um resultado. Muita coisa de Família do Bagulho já esperamos, outras conseguem surpreender e até arrancar algumas risadas. Não que não tenha clichês e furos, mas é tudo bem costurado para um fim apenas: divertir.

Elenco se junta ao diretor no lançamento em Nova York

Elenco se junta ao diretor no lançamento em Nova York

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O Tempo e o Vento é a nova novela de Monjardim

por Marcelo Seabra

O Tempo e o VentoEm 1949, foi publicada a primeira parte de uma saga que seria a obra definitiva sobre a formação do estado do Rio Grande do Sul. O escritor Érico Veríssimo planejou nos mínimos detalhes a estrutura de O Tempo e o Vento, incluindo aí a ficcional Santa Fé, vila onde se passa boa parte da trama. Estes personagens clássicos voltam ao Cinema em uma produção muito bem cuidada da Globo Filmes, que mostra que o diretor Jayme Monjardim aprendeu várias lições com o desastroso Olga (2004). O problema é tentar abraçar o mundo, contando uma história longa em duas horas.

Assim como Veríssimo, os roteiristas incumbidos da adaptação são do Rio Grande do Sul, o que deve ter pesado na escolha. Como Monjardim é paulista, trouxe Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski para ajudá-lo na missão. Em frente às câmeras, poucos são nativos, o que tornou o trabalho de preparação mais árduo. O característico sotaque gaúcho, por exemplo, passa despercebido na maior parte do elenco. A exceção é Thiago Lacerda, que praticou bastante para dizer “minha prenda” com autenticidade. O esforço do ator é tamanho que até dá para perdoar certa artificialidade nos diálogos, e ele acaba sendo o destaque, mesmo cercado de bons colegas. Impecável no uniforme do mítico Capitão Rodrigo, Lacerda tem uma presença forte e dentes brancos que doem o olho.

Um dos personagens mais famosos da literatura brasileira, o Capitão Rodrigo é o estereótipo do gaúcho: machão, beberrão, com acessos de violência, mas muito manso na conversa e na jogatina. Mas o forte da trama são as mulheres, talhadas para trabalhar, esperar por seus maridos e chorar. Ana Terra, vivida na maior parte por Cleo Pires, é provavelmente a mais famosa, seguida de perto por Bibiana Terra, que é interpretada por três atrizes em fases distintas: Marjorie Estiano, Janaína Kremer Motta e Fernanda Montenegro. O grupo de atores está bem coeso, sem ninguém destoando negativamente. Estão lá Paulo Goulart, Marat Descartes, Vanessa Lóes, Luiz Carlos Vasconcelos, Mayana Moura, Leonardo Medeiros, Suzana Pires, entre muitos outros. José de Abreu, inclusive, esteve também na versão para a televisão de 1985, que teve Glória Pires como Ana Terra – agora, substituída pela filha.

O Tempo e o Vento casal

Para os fãs dos livros, pode ser desapontador que outros vários personagens tenham sido deixados de fora, ou apenas mencionados e esvaziados de sua importância. Isso sempre acontece em adaptações entre mídias e é perfeitamente normal, mas muito do drama e do suspense se perdeu devido às escolhas feitas. Conhecemos os primeiros membros da família Terra e acompanhamos a passagem do tempo, descobrindo as próximas gerações, tudo muito rápido. Teria sido mais proveitoso focar em um trecho da saga, de preferência um menos conhecido, e deixar para outros cineastas e oportunidades a missão de completar a história. A velocidade com que tudo é pincelado torna a produção fria, não nos familiarizamos o suficiente com aquelas pessoas para nos identificarmos, e elas viram apenas tópicos a serem mencionados nas lembranças de Bibiana (Montenegro).

Monjardim ainda precisa dominar melhor a linguagem cinematográfica para que seus filmes não fiquem com essa cara de novela – o que já é bem provável de acontecer devido ao elenco de globais. Os diálogos e as metáforas visuais têm a sutileza de um elefante, como aquela em que a imagem de Ana Terra se funde à de uma fogueira. A fotografia, muito bonita e poética, não escapa de alguns clichês, como um contraluz com uma árvore no meio, enquanto o povo segue viagem, o que denota uma certa vontade de se tornar clássico. As cenas de guerra, inexistentes, fazem falta, já que não se pode ignorar o derramamento de sangue que marcou alguns dos períodos apresentados.

Outro ponto que causa estranhamento em O Tempo e o Vento é a conclusão com uma música estrangeira, em inglês, perdendo a oportunidade de tentar trazer um pouco de identidade ao filme. Passarim, de Tom Jobim, casou tão bem com a minissérie de 1985, e Monjardim perdeu a oportunidade de fazer algo tão marcante. Na verdade, várias oportunidades foram perdidas, e a produção ficou apenas no insosso. Mas, nem por isso, deixará de ser transformada em minissérie na Globo. Em breve, na telinha.

Cleo Pires venceu o trauma aceitou a personagem que foi da mãe

Cleo Pires venceu o trauma e aceitou a personagem que foi da mãe

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Amanda Seyfried brilha como estrela pornô

por Marcelo Seabra

Lovelace poster

Houve uma época em que era considerado chique e de bom gosto assistir a filmes pornográficos no cinema. Foi quando o famoso Garganta Profunda (Deep Throat) estreou, nos idos de 1972, e tornou sua atriz principal um ícone do Cinema adulto. Linda Lovelace, como ela ficou conhecida, tem sua história contada em Lovelace (2013), cinebiografia que chega agora às telas e traz um pouco de luz sobre essa figura que muitos conhecem de nome, mas sobre quem sabe-se muito pouco.

Linda, originalmente Boreman, é vivida por Amanda Seyfried (de Os Miseráveis, 2013) de forma melancólica, como alguém que se coloca na posição de dependente de outro, como se mesmo saindo da casa dos pais, ela continuasse submissa. Essa outra pessoa, na vida adulta, seria Chuck Traynor, mais um ótimo trabalho de Peter Sarsgaard (da série The Killing), que consegue ir facilmente do amável ao ameaçador. Essa dupla principal é o centro da produção, que acompanha o relacionamento deles do início ao fim. E o elenco de apoio é uma atração à parte: cada personagem que aparece teve seu intérprete escolhido a dedo e, na tela, vemos nomes como Sharon Stone e James Franco. Citar todos seria estragar uma agradável surpresa.

Couple

Como se trata de uma história real, uma reconstituição de época se fez necessária e ela realmente coloca o público nos anos 70, em um clima semelhante ao de Boogie Nights (1997), o que faz muita diferença. Imagens de arquivo de celebridades já falecidas, como Richard Nixon e Johnny Carson, ajudam no quesito veracidade, lembrando o espectador que não se trata de ficção. Linda virou uma estrela tendo apenas um longa no currículo e, para uma menina de 22 anos aparentemente ingênua, tudo aconteceu muito rápido. Essa é a imagem que é pintada de Linda, e Traynor acaba sendo o grande responsável por suas mazelas.

Ao fazer um recorte de muitos anos, o roteiro de Andy Bellin (de Confiar, 2010) é hábil ao focar em episódios mais relevantes, deixando pouca coisa de fora. Mas o reforço constante da figura de vítima incomoda. Linda, a personagem, parece deixar muito a dever à Linda figura histórica, e fica sempre à sombra de Traynor. Ao invés de identificação, empatia ou mesmo pena, o público pode acabar com raiva dela, tamanha é a passividade da moça. Se ela de fato era assim, não tinha mesmo o que inventar. Mas parece que nós, como as pessoas que conviviam com ela, só conseguimos ver o que ela deixa, o que não é muito fundo.

A atriz e a atriz

A atriz e a atriz

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Sandra Bullock se esforça em comédia sem graça

por Marcelo Seabra

The Heat posterApresentar um filme lembrando seu “parentesco” com Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) já deveria enterrá-lo de cara. Isso, em um mundo perfeito. No nosso, o filme está praticamente destinado ao sucesso. Um roteiro fraco que serve como mera desculpa para um desfile de piadas de mau gosto: essa também é a descrição de As Bem Armadas (The Heat, 2013), que falha até nos momentos engraçados que deveria ter. Melissa McCarthy é a eterna gordinha mal humorada e isso, por si só, parece ser garantia de bilheteria.

Como McCarthy não consegue segurar um filme sozinha (ela sempre precisará de um “escada” para depositar suas reclamações), temos no papel principal ninguém menos que Sandra Bullock, oscarizada por Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), mas mais lembrada pelos dois Miss Simpatia (Miss Congeniality, 2000 e 2005). Novamente no papel de uma policial competente mas inábil socialmente, ela é Sarah Ashburn, uma agente do FBI a um passo de uma promoção, ou assim ela acredita. Seu chefe (o desperdiçado Demian Bichir, de Selvagens, 2012) a designa para uma nova missão para que ela, além de provar sua competência, mostre que sabe trabalhar em equipe.

The Heat scene

Chegando em Boston para investigar o caso das drogas de perto, Ashburn se vê obrigada a colaborar com a desbocada Mullins (McCarthy), detetive local que tem um irmão metido no submundo. Portanto, as duas têm motivos fortes para capturar o traficante mor, mas antes precisarão descobrir quem ele é. Obviamente, na interação entre as duas, teremos situações que deveriam ser hilárias, apesar de já vistas em diversas outras produções. Bullock ainda consegue trazer certa simpatia para sua personagem, uma mulher travada, cheia de regras, que parece querer ser mais simples e relaxada, mas não consegue lutar contra a sua natureza. Já Mullins é o tipo de estereótipo que você não explica como durou na polícia. A produção se esforça para mostrar que, apesar de anticonvencional, ela é comprometida. Talvez, ela ainda esteja lá por ter um chefe banana que não sabe o que fazer com ela (papel de Thomas F. Wilson, para sempre lembrado como o Biff Tannen da trilogia De Volta Para o Futuro).

O roteiro, de Katie Dippold (da série Parks and Recreation), consegue visitar todos os clichês desse subgênero “policiais-de-personalidades-opostas-que-devem-se-ajudar”, e passa longe da graça que deveria ter. O diretor, Paul Feig, não traz nada de novo, apostando na fórmula que funcionou em seu Madrinhas de Casamento. Afinal, foram mais de US$288 milhões arrecadados pelo mundo. As Bem Armadas já levou mais de US$220 milhões desde o fim de junho, quando foi lançado nos Estados Unidos. A continuação, claro, já está garantida. Ao menos, poderemos tirar esse gosto ruim ao ver a esforçada Bullock na elogiada ficção-científica Gravidade (Gravity, 2013), que chega aqui em outubro.

Diretor reúne a equipe na premiere de NY

Diretor reúne a equipe na premiere de NY

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