Vampiros voltam a ser temidos na TV

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

The Strain

Baseada na trilogia de livros co-escrita por Guillermo Del Toro (de O Labirinto do Fauno, Hellboy e Círculo de Fogo) e Chuck Hogan (cujo livro Prince of Thieves deu origem ao filme Atração Perigosa), a série The Strain chegou às telas norte-americanas através do canal FX para injetar sangue novo (trocadilho intencional) nas séries de vampiros. Esqueça os adolescentes bonitos e bombados que passeiam pela telinha hoje em produções como The Vampire Diaries (Warner/SBT) e The Originals (MTV) ou mesmo aqueles que tentam uma convivência pacífica com os seres humanos, como os personagens da recém-finalizada True Blood (HBO). O que temos aqui são os predadores noturnos clássicos e sedentos de sangue, com uma ou outra característica que remete bastante a demais trabalhos de Del Toro (que, aqui, além de ser um dos produtores executivos, dirigiu 3 e responde pelo roteiro de 11 dos 13 episódios da primeira temporada, ao lado de Hogan).

The Strain começa quando um avião com mais de 200 passageiros fazendo o trajeto Berlim-Nova York aterrissa no aeroporto JFK. Quando os procedimentos de pouso não são respeitados e nenhuma comunicação parte da aeronave, suspeita-se de que algo estranho está acontecendo. Uma equipe é enviada para investigar, apenas para descobrir que todos dentro da aeronave estão aparentemente mortos. Isso acende todas as luzes de alerta, que vão desde terrorismo a ataque químico-biológico. Entra aí a equipe do Centro de Controle de Doenças, liderada pelo Dr. Ephraim Goodweather (Corey Stoll, de Sem Escalas, 2014) e que conta ainda com a Dra. Nora Martinez (Mia Maestro, de Selvagens, 2012) e o Dr. James “Jim” Kent (Sean Astin, o Samwise Gamgee da trilogia O Senhor dos Anéis). Ao investigar o avião, Eph e Nora descobrem duas coisas: quatro pessoas sobreviveram ao que quer que fosse que aconteceu naquele avião e eles estão diante de um patógeno jamais visto antes.

The Strain gift

O ocorrido com o avião chama a atenção das autoridades norte-americanas, mas, graças à influência de um poderoso empresário, Eldritch Palmer (Jonathan Hyde) o incidente é minimizado, já que o ancião tem um interesse particular no que quer que aquela aeronave trouxera para a América e consegue manipular as autoridades certas a seu favor. Além de Eldritch, o único que parece saber exatamente o que realmente está por trás das centenas de mortes ocorridas no avião e as conseqüências que isso pode ter para a cidade de Nova York e, consequentemente, para o mundo como um todo, é Abraham Setrakian (David Bradley, de Game of Thrones), um sobrevivente do holocausto que, com a ajuda de Eph, tentará impedir o mal a todo custo.

O grande mérito de The Strain é a forma como a trama traz de volta o aspecto aterrorizante da figura do vampiro à TV. Del Toro e Hogan misturam aspectos mais conhecidos dessa figura mitológica com toques de modernidade para trazê-los para o século XXI de maneira bastante competente. Os sanguessugas aqui lembram bastante os reapers de Blade II (filme dirigido pelo cineasta mexicano) e há todo um clima de The Walking Dead em diversos episódios, ou seja, aquela sensação de tragédia iminente que só pode ser impedida por uma meia-dúzia de pessoas que enfrentam um mal – em tese – impossível de ser derrotado. Há ainda a forma criativa como a dupla abordou como os vampiros se reproduzem e se espalham, tornando tudo ainda mais aterrorizante.

Com Kevin Durand (Noé, 2014), Richard Sammel (de 3 Dias para Matar, 2014), Natalie Brown e Miguel Gómez completando o elenco principal da série, The Strain é uma das gratas surpresas de 2014 e tem agradado o público norte-americano. Antes mesmo da primeira temporada (com 13 episódios) ter sido encerrada, uma segunda já foi anunciada. O público brasileiro, no entanto, vai ter que esperar mais um pouco para poder conferir a série, já que o FX Brasil anunciou que ela desembarca por aqui apenas em janeiro de 2015, em data ainda a ser definida.

Del Toro e uma de suas criações

Del Toro e uma de suas criações

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Sargento da polícia vai livrar-nos do mal

por Marcelo Seabra

Deliver Us

Quem assistiu a O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose, 2005) e A Entidade (Sinister, 2012) sabe o que esperar quando Scott Derrickson decide fazer um filme de terror. Tensão, espíritos, cenas fortes, violência e um roteiro bem amarrado. Uma das maiores habilidades do diretor é criar um bom clima de suspense e é exatamente o que acontece em Livrai-nos do Mal (Deliver Us From Evil, 2014), novo trabalho que, assim como Emily Rose, é inspirado em fatos.

Há nove anos aposentado, Ralph Sarchie era um sargento da polícia de Nova York que começou a ter contato com casos estranhos que ele logo entendeu envolverem aspectos sobrenaturais. Trabalhando com dois parceiros, um policial e um padre, ele alega ter participado de mais de 20 exorcismos paralelamente a seu trabalho para a corporação. Ele inclusive foi muito próximo do casal Warren, demonologistas famosos retratados recentemente em Invocação do Mal (The Conjuring, 2013). Após a aposentadoria, Sarchie escreveu um livro (com Lisa Collier Cool) relatando diversas investigações que, agora, chegam ao Cinema com várias liberdades artísticas, com roteiro de Derrickson e seu parceiro habitual, Paul Harris Boardman.

Bana & McHale

No longa, Sarchie é vivido por Eric Bana (de Circuito Fechado, 2013) e é retratado como um sujeito durão, com um relacionamento difícil com a mulher e a filha causado pela grande dedicação ao trabalho. Ele é frequentemente exposto ao mal que as pessoas causam umas às outras nas ruas e não lida muito bem com isso. Sua facilidade de identificar as ocorrências mais graves e demandantes é vista pelo parceiro (Joel McHale, da série Community) como um radar, e é esse sexto sentido que leva a dupla a investigar crimes isolados que acabam revelando uma conexão. E Sarchie cruza o caminho do Padre Mendoza (Édgar Ramírez, de O Conselheiro do Crime, 2013), um jesuíta nada convencional com bastante experiência em lutar contra demônios.

O desenrolar da ação lembra obras como O Exorcista III (The Exorcist III, 1990) e Possuídos (Fallen, 1998), pela mistura dos gêneros policial e terror. Um certo exagero, no entanto, é observado na tentativa de criar a atmosfera, com animais mortos, sustos fáceis, pessoas estereotipadas e uma recorrência besta de músicas dos Doors, além de alguns efeitos sonoros que passam da conta. Mas nada que atrapalhe a experiência, já que há muitos acertos. Bana, como de costume, não tem muita facilidade para expressar emoções, mas isso até contribui com o papel, já que Sarchie também é um tanto emocionalmente distante. McHale faz algumas piadinhas, para quebrar o gelo, e é um bom contraponto. Mas é Sean Harris (de Prometheus, 2012), que vive uma espécie de soldado do capeta, que é responsável por boa parte das cenas mais impactantes.

Assim como os outros longas assinados por Derrickson, apesar de não ser tão bem sucedido, Livrai-nos do Mal é para quem tem estômago forte. Com tanta experiência com este tipo de ambientação, o diretor cria expectativa para seu próximo projeto, a adaptação do mago dos quadrinhos Doutor Estranho, mais um a integrar o Universo Marvel. É outra jogada interessante do Marvel Studios, que tem contratado nomes inusitados para seus filmes. Se for tão acertada quanto Os Guardiões da Galáxia (The Guardians of the Galaxy, 2014), só temos a ganhar.

Derrickson apresenta o verdadeiro Sarchie

Derrickson apresenta o verdadeiro Sarchie

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Woody Allen elege nova musa para Magia ao Luar

por Marcelo Seabra

Magic posterMesmo lançando um filme por ano, ritmo que muitos realizadores mais jovens não conseguem acompanhar, o veterano Woody Allen mantém um nível de qualidade invejável. Seu novo trabalho, Magia ao Luar (Magic in the Moonlight, 2014), está em cartaz no país e mostra um diretor que se diverte com seus personagens numa trama leve e agradável. Pela primeira vez, ele tem Colin Firth (de Sem Evidências, 2013) como protagonista e alter-ego e ainda arrumou uma nova musa: Emma Stone (a Gwen da nova franquia do Homem-Aranha), e ela já até tem outro projeto engatilhado com Allen.

Como de costume, o próprio diretor assina o roteiro, que traz um mote nada inédito: um especialista em expor falsos médiuns e afins é chamado por um amigo para desmascarar uma simpática vidente que está nas graças de uma família rica. Apesar de batido, o tema ganha um tratamento diferenciado, já que este tipo de história geralmente se envereda pelo suspense (caso de A Colheita do Mal, de 2007, e O Despertar, de 2011). A simpatia da provável vigarista (vivida por Stone) contrasta com a rabugice do mágico cético de Firth, que não se cansa de atacar a jovem com comentários maldosos e cínicos acerca do mundo sobrenatural. Os tais ricaços, os Catledges, são sempre mostrados como, apesar de ingênuos, pessoas reais, que buscam acreditar em mais do que os olhos são capazes de ver, como acontece com frequência do lado de cá da tela.

Apesar de à primeira vista formarem um casal improvável, separados por 28 anos, Firth e Stone têm uma química que é o ponto mais alto do filme. Não é a primeira vez que Allen retrata essa diferença de idade, e isso geralmente reflete numa diferença também na visão de mundo de cada um. Sophie não é burra como Stanley gosta de insinuar, e ele bem sabe disso, o que torna o duelo entre eles tão saboroso. As belas paisagens do sul da França, capturadas por Darius Khonji, o figurino e a rica trilha sonora apropriada para a época retratada, os anos 20, só contribuem. Cole Porter não poderia faltar, com You Do Something to Me. Como se pode perceber, várias características são recorrentes na obra de Allen, o que nos deixa com uma sensação de estarmos em terreno conhecido, quase revisitando, por exemplo, o universo nostálgico de Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011).

Magic couple

As perspectivas de acreditar na vida após a morte e de que não temos respostas para tudo trazem um novo fôlego a Stanley, que se torna uma pessoa mais alegre. Os caminhos pelos quais o roteiro passa revelam muito sobre seu autor, que certamente reluta em crer nesse tipo de coisa, como seu personagem. O desenrolar pode, sim, se mostrar previsível, o que não tira o charme da produção. É um prazer conhecer os coadjuvantes, muito bem escolhidos pelo diretor, como Jacki Weaver (de O Lado Bom da Vida, 2012), Marcia Gay Harden (de The Newsroom), Hamish Linklater (de 42: A História de uma Lenda, 2013) e Eileen Atkins (de Dezesseis Luas, 2013).

Não há muitas oportunidades para risadas desenfreadas, mas o público deve passar a projeção com um belo sorriso no rosto. Se o roteiro não é dos mais redondos que Allen já escreveu, também não chega a ser irregular, quebrando a suposta coincidência de Allen alternar trabalhos inferiores (como Para Roma, Com Amor, 2012) e brilhantes (como Blue Jasmine, 2013). Alguns diálogos são bastante inspirados, tornando o mágico de Firth um antipático bem afiado. Não seria má ideia assistir a mais histórias com estes personagens.

Magic Woody

O diretor comanda sua dupla principal

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Liam Neeson vive mais ação em Sem Escalas

por Marcelo Seabra

Non-stop

Há alguns anos, Liam Neeson se enveredou pelo Cinema de ação e parece ter gostado. Ele já foi Jedi (em A Ameaça Fantasma, de 1999), treinou o Batman (em Batman Begins, 2005), recuperou a filha sequestrada (nos dois Busca Implacável), enfrentou lobos (em A Perseguição, 2011), foi até líder do Esquadrão Classe A (The A-Team, 2010). Depois de se deparar com sua própria falta de memória em meio a uma trama de assassinato, ele se reúne ao seu diretor de Desconhecido (Unknown, 2011) para uma nova aventura, agora nos céus. Sem Escalas (Non-Stop, 2014), de Jaume Collet-Serra, já está disponível para aluguel.

O personagem de Neeson nesse novo projeto é uma versão recauchutada do pai ninja de Busca Implacável. Com um passado de traumas e fracassos, William Marks é um agente federal aéreo dos Estados Unidos que acompanha voos longos para garantir a segurança dos passageiros. Ex-policial expulso da corporação, ele agora ganha a vida nos céus, apesar de não gostar de aviões. Em mais um desses passeios corriqueiros, acontece o pior: Marks é contatado por alguém mal intencionado que pede 150 milhões de dólares ou matará um passageiro a cada vinte minutos. As mensagens de celular são trocadas em vários momentos e aparecem na tela, tornando as coisas mais ágeis e fazendo o espectador participar da conversa.

Non-stop Moore

O roteiro, que conta com três autores (John W. Richardson, Christopher Roach e Ryan Engle), estabelece alguns fatos para complicar a vida do agente, que caiu em desgraça e não atrairia nenhuma simpatia ou confiança das autoridades, mídia ou dos próprios passageiros. Neeson demonstra estar empenhado no papel, com muita vitalidade e disposição para correr, bater e apanhar. Julianne Moore, a nova sra. White de Carrie, a Estranha (2013), é uma passageira amigável, em meio a vários inclinados ao oposto. Destaque para Scoot McNairy, de O Homem da Máfia (Killing Them Softly, 2012), Corey Stoll, irreconhecível para quem o conhece de The Strain, Linus Roache (também de Batman Begins), a vencedora do Oscar Lupita Nyong’o (de 12 Anos de Escravidão, 2013) e Shea Wingham (de Boardwalk Empire), como o agente em solo.

Assim como acontece em Desconhecido, a trama mirabolante depende de coincidências e de uma execução sem erros para que o plano funcione. Collet-Serra sabe como criar suspense e Sem Escalas tem momentos tensos, bem orquestrados, que usam os clichês esperados a favor do filme. Se foi o caso de bobear e perder o longa em sua passagem pelos cinemas, esta pode ser uma boa oportunidade para se divertir em casa com as novas peripécias de Neeson. Mais um pouco e ele estará apto a participar de Mercenários 6 ou 7.

As mensagens são interessantes recursos visuais

As mensagens são interessantes recursos visuais

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The Knick leva Clive Owen à TV

por Marcelo Seabra

The Knick

Depois de concluir que fazer Cinema era algo desnecessariamente trabalhoso e que não queria mais ter que passar por situações como ter que levantar fundos e lidar com estúdios, Steven Soderbergh se despediu (temporariamente?) desta mídia. Lançou Terapia de Risco (Side Effects, 2013) e partiu para a TV, realizando o bem sucedido Minha Vida com Liberace (Behind the Candelabra, 2013). Seu projeto seguinte já está em exibição na HBO e promete ser igualmente interessante: The Knick, série que pretende mostrar casos médicos em um grande hospital americano. A forma de diferenciar o projeto dos demais dessa área é ambientar a trama no início do século XX, quando a medicina era executada por um misto de médicos, artistas e inventores.

Além de contar com um nome famoso na direção e ter esse diferencial temporal que pode trazer novos ares ao gênero médico da TV, a série ainda conta com Clive Owen à frente do elenco. Mais um a fazer a ponte para a telinha, Owen (de Confiar, 2010) é o médico chefe da equipe do Knickerbocker, hospital de Nova York que cuida prioritariamente de imigrantes e indigentes. Enfrentando casos complicados e/ou aparentemente sem solução, o Dr. John Thackery precisa ser criativo nas formas de abordar os problemas que surgem. Aparelhos elétricos e instrumentos soldados eram alguns dos recursos disponíveis, apesar de a própria energia elétrica ainda ser um desafio. Como bons moços estão em baixa na ficção, Thackery é dado a visitas a bordéis e mantém um forte vício em cocaína. Mas não deixa de ter grande empenho no tratamento dos pacientes e nas cirurgias que lidera, completando a personalidade paradoxal que todos os programas da atualidade parecem buscar para seus protagonistas.

The Knick duo

No primeiro episódio, conhecemos o Dr. Algernon Edwards (André Holland, de 42: A História de Uma Lenda, 2013), contratado para o Knick pelos benfeitores do hospital. Para que eles continuem bancando as contas, a permanência do novato é exigida. O problema é que se trata de uma sociedade altamente racista e, para a surpresa de todos, o protegido dos Robertsons é negro. Por sua recusa em trabalhar com o novo colega, Thackery pode ser colocado junto da multidão e visto como preconceituoso. Mas dois motivos práticos e plausíveis são apontados por ele para justificarem o veto: há um médico na equipe que merece o reconhecimento, o que seria mais justo que trazer alguém de fora; e a própria população da cidade é racista, o que traria problemas no atendimento a eles por um médico que não teria boa aceitação.

A reconstituição de época em The Knick é primorosa, com carruagens e prédios antigos nas ruas e instalações que realmente parecem ser do início do século passado. Além de todo o cuidado tomado com cenários e figurino, como na cena em que Cornelia Robertson (Juliet Rylance, de Frances Ha, 2012) se veste, há um notório consultor e estudioso da medicina, o Dr. Stanley B. Burns, dando consultoria, o que traz mais veracidade e aspectos curiosos à produção. Como tudo que cerca é extremamente bem cuidado e a performance de Owen é, como sempre, irrepreensível, basta o cerne funcionar para que a atração seja mais um sucesso exibido pelo grupo HBO. Os dez episódios desta primeira temporada vão dizer se veremos a segunda. Os criadores, Jack Amiel e Michael Begler, já estão empenhados.

De fato, ele se acha

De fato, ele se acha

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Paulo Coelho chega aos cinemas

por Marcelo Seabra

Não Pare na Pista

Na marca dos 25 anos de morte de Raul Seixas, quem ganha uma homenagem no Cinema é seu ex-parceiro, o consagrado Paulo Coelho. Não Pare na Pista (2014) é a cinebiografia do escritor e opta por ir e voltar no tempo para contar uma história mais interessante que qualquer outra que ele tenha escrito. Esse recurso, no entanto, se mostra vazio, é usado apenas para tentar tornar a obra menos convencional. E ainda afasta o espectador, que começa a se ligar ao personagem para logo perder o fio da meada, já que a história dá pulos no tempo.

A proposta da roteirista Carolina Kotscho, cuja estreia na função foi com Dois Filhos de Francisco, de 2005, é mostrar Coelho em várias épocas até chegar ao início da fama como escritor, quando sua trajetória já é bem conhecida. Antes disso, foi redator e editor de revista, compositor, produtor, além de um jovem tido pelo pai como problemático. A difícil relação entre os dois é um dos focos do filme, e eles chegam ao extremo quando Pedro envia Paulo a um hospício para tratamento com choque.

Não Pare na Pista Raul

No meio deste longo caminho, Paulo se envolve com ufologia, magia, estuda o ocultista Aleister Crowley e conhece Raul Seixas, com quem veio a compor sucessos como Al Capone, Tente Outra Vez, Medo da Chuva e Sociedade Alternativa, além daquele que dá nome ao filme. Meu Amigo Pedro, inclusive, toca em um momento delicado, um dos pontos altos da sessão. Seixas por si só é outro destaque, devido à interpretação firme e criativa de Lucci Ferreira (acima, à direita), e infelizmente ele tem pouco tempo de cena. Os irmãos Andrade também não fazem feio: Ravel, quando o personagem é mais jovem, e Júlio, na fase intermediária e na mais avançada, sob pesada maquiagem. Ambos defendem bem o papel e a caracterização física é bem eficiente. Apenas quando Paulo está mais velho, Júlio é sabotado pela máscara que tem que usar, algo que chama toda a atenção para a estranheza de seu rosto, tirando a força de seu trabalho. Sua competência já foi demonstrada em Gonzaga (2012) e Serra Pelada (2013).

Algumas passagens polêmicas da vida do biografado são deixadas de lado ou apenas pinceladas. O racha com Seixas, por exemplo, é indicado em um momento rápido, sem entrar muito em detalhes. A composição da canção Al Capone soa forçada e irreal, reinventada para caber na situação. Drogas são mostradas aqui e ali, assim como algumas das várias mulheres que teriam cruzado o caminho de Paulo. As três principais ficam a cargo de Letícia Colin (de Bonitinha, Mas Ordinária, 2013), Paz Vega (de Os Amantes Passageiros, 2013) e Fabiana Gugli (de Ensaio Sobre a Cegueira, 2008), cada uma numa fase da vida do sujeito. Como os pais de Paulo, Enrique Diaz (de Mato Sem Cachorro, 2013) e Fabiula Nascimento (de SOS: Mulheres ao Mar, 2014) não têm muito o que fazer, um batendo e o outro soprando. Menos ainda faz o veterano Luís Carlos Miele (da série Mandrake), como o avô que fala “oi” e “tchau”.

A estrutura pode ter ficado longe do convencional. Mas Não Pare na Pista não é dos melhores programas. Serve como uma amostra da vida de um escritor que está longe de ser uma unanimidade. Amado por muitos, destratado por outros tantos, ele continua vendendo livros pelo mundo inteiro, em várias línguas. Difíceis são as adaptações de suas histórias para o Cinema, há algumas lutando há anos para saírem do papel. Sua vida chegou na frente, com algumas frases de auto-ajuda pinceladas na tela, não deixando nada a dever a sua obra.

A maquiagem do velho Paulo é algo de outro mundo

A maquiagem do velho Paulo é algo de outro mundo

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Amantes Eternos e Chef são destaque nos cinemas

por Marcelo Seabra

Only Lovers Left Alive

Além dos blockbusters que acabam levando a maioria do público aos cinemas, há filmes menores que merecem uma conferida. Afinal, a vida não feita apenas de Guardiões da Galáxia, Tartarugas Ninja e Mercenários. Há também, em cartaz no país, Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), nova obra do cultuado diretor Jim Jarmusch, e Chef (2014), a volta de Jon Favreau aos filmes de baixo orçamento depois de entrar no Universo Marvel.

Depois de comandar longas como Daunbailó (Down by Law, 1986) e Flores Partidas (Broken Flowers, 2005), Jarmusch atingiu um status de cult, aumentando as expectativas sobre seus novos projetos. Mas nem assim os lançamentos chegam rápido ao Brasil. A estreia em Cannes ocorreu em maio do ano passado, e só agora Amantes Eternos entra no circuito comercial. Com Tom Hiddleston no elenco, mais conhecido como Loki, era de se esperar um tratamento melhor. E, fazendo par com o ator, temos a ótima Tilda Swinton (de Moonrise Kingdom, 2012).

Adam e Eve (vividos por Hiddleston e Swinton) são um casal nada convencional. Juntos há centenas de anos, eles moram em continentes diferentes e se encontram de tempos em tempos. Enquanto isso, cultivam seus hobbies de forma independente e crescem como indivíduos, se tornando mais cultos e refinados. Vez ou outra, precisam buscar sangue humano para saciarem a fome que insiste em voltar. Mas atacar pessoas (ou zumbis, como eles chamam) é coisa do passado, eles trabalham com fornecedores de confiança. Beber sangue contaminado pela variedade de drogas e doenças que vemos hoje deve ser bem complicado.

Only Lovers Left Alive

Com diversas referências pop, Jarmusch constrói personagens interessantes, evoluídos, que buscam felicidade e rejeitam violência, fama e qualquer outro prazer efêmero. Mas, em meio a toda esta tranquilidade, eles terão que aturar a visita da irmã mais nova de Eve, Ava (Mia Wasikowska, de Segredos de Sangue, 2013), que representa as gerações mais jovens e imediatistas e sempre significa problema. Completando o bom elenco, Anton Yelchin (de Star Trek) é o facilitador de Adam, que consegue o que ele precisa; John Hurt (de O Espião Que Sabia Demais, 2011) é o amigo e confidente de Eve; e Jeffrey Wright (de Jogos Vorazes) se encarrega de fornecer sangue a Adam. Todos muito bem em seus papéis, ajudando a construir um mundo rico e de possibilidades bem superiores aos outros muitos chupadores de sangues que vemos por aí.

Chef movie

A nova incursão de Favreau atrás das câmeras não tem o mesmo êxito. Chef é uma comédia mediana que comete o mesmo pecado que é mencionado no filme. O crítico de restaurantes interpretado por Oliver Platt (de A Filha do Meu Melhor Amigo, 2011) classifica a refeição do grande chef de cozinha de Favreau como mediana por seu autor não inovar em nada, preferindo ficar em terreno seguro. Essa crítica dá início a um filme que é exatamente isso: algo bonitinho, que não desagrada ninguém e termina em alto astral, com direito a música e tudo. Aliás, as músicas, muito inspiradas, acabam roubando as cenas em que tocam, se tornando o único diferencial do longa.

Chef Sofia MJPara garantir público e financiamento, Favreau chamou vários amigos para os diversos papéis que cruzam a tela. Por isso, vemos John Leguizamo, Bobby Cannavale, Scarlett Johansson, Dustin Hoffman, Sofía Vergara e Robert Downey Jr., uns com mais ou menos destaque. A maioria, no entanto, no piloto automático. Vergara (ao lado), ruim como sempre, e Hoffman, estranhamente apático, são os pontos baixos, e Downey Jr. faz uma versão mais afetada de seu Tony Stark.

Favreau realiza uma obra sem qualquer ambição e, mesmo sem correr riscos, ainda dá algumas derrapadas. Tudo se encaixa bem, tudo à volta do protagonista funciona, sendo ele a única peça que não ajuda. Basta ele perceber isso para sua vida fique perfeita. É muita artificialidade para um filme só. O negócio é se concentrar nas músicas, num ritmo que parece ser um jazz latino, e acompanhar o jovem Emjay Anthony, o garotinho que parece ser o único ali levando tudo muito a sério e, ao mesmo tempo, se divertindo.

Favreau levou para seu filme dois vingadores

Favreau levou para seu filme dois vingadores

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Stallone traz Os Mercenários para nova aventura

por Marcelo Seabra

The Expendables 3

Ao fazer o terceiro filme, Sylvester Stallone exaure uma fórmula que funcionou bem da primeira vez e se mostrou gasta já na segunda. Para Os Mercenários 3 (The Expendables, 2014), a solução foi dar uma renovada. Na verdade, mais entrou gente do que saiu, e há jovens e veteranos entre as novidades. A missão de Barney e companhia, dessa vez, é matar um ex-parceiro que se tornou traficante de armas e traiu a todos para lucrar. O papel do desafeto coube a Mel Gibson, que já havia sido o vilão do horroroso Machete Mata (Machete Kills, 2013), o que tira qualquer possibilidade de ineditismo. Além de repetir a si mesma, a série repete coisa pior.

Sem explicar direito, Stallone tira Bruce Willis da jogada e coloca como novo contato na CIA ninguém menos que Harrison Ford, que parece estar se divertindo muito no meio da ação. A trama, também escrita pela dupla Creighton Rothenberger e Katrin Benedikt (de Invasão à Casa Branca, 2013), engrena quando Barney descobre que o alvo atual do seu grupo é o na verdade ex-colega Stonebanks, que se supunha estar morto. O sujeito fere gravemente um membro dos mercenários (Terry Crews) e Barney decide buscar sangue novo e poupar os amigos velhos de guerra.

The Expendables 3 Gibson

Através de um olheiro amigo (Kelsey Grammer), Barney consegue quatro rostos novos para ajudar na missão contra Stonebanks. Mas os velhos mercenários (Jason Statham, Dolph Lundgren e Randy Couture) não deixarão o parceiro na mão. Wesley Snipes, o eterno Blade, vive um personagem que é resgatado da prisão, o que gera uma piada com a situação do próprio ator, que sai de uma pena de três anos por não pagar impostos. E o time ainda conta com Antonio Banderas como alívio cômico, um atirador com forte sotaque espanhol que praticamente implora para ser aceito. Arnold Schwarzenegger e Jet Li voltam para dar uma mão. Com tanta gente famosa em cena, é difícil querer desenvolver alguma coisa, e outra tarefa dura é dividir o tempo em cena desse povo todo.

O encontro de Stallone e Schwarzenegger em Rota de Fuga (Escape Plan, 2013) gerou um filme interessante e divertido, além de um meme engraçado com aquele recorrente grito do austríaco para que um colega entre no helicóptero (“Get to the chopper”). Pois Os Mercenários 3 consegue tirar a graça desse momento, e ainda insiste nisso. Os momentos de “bromance” também são constrangedores: os brutamontes param em cenas prolongadas rindo e “dividindo um momento”, e parece apenas erro de edição. E não poderia faltar uma música, boa, estragada por um karaokê de matadores mostrando um lado sensível. Esperemos que o diretor, Patrick Hughes, faça um melhor trabalho na refilmagem de Operação Invasão (The Raid, 2011), seu próximo projeto.

E os mercenários foram a Cannes!

E os mercenários foram a Cannes!

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Michael Bay produz mais Tartarugas Ninja

por Marcelo Seabra

TMNT

Quando se fala que um longa é produzido por Michael Bay, a expectativa vai lá para baixo. E isso pode até ajudar, já que não esperamos quase nada e qualquer coisa pode agradar. No caso do novo As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles, 2014), nem assim: o filme apenas bate com a expectativa baixa, com o resultado medíocre que esperamos ao entrar no cinema. Furos em massa no roteiro, atuações fracas, falas ridículas, vilões sem graça ou propósito e muita coisa recauchutada de outras obras compõem uma aventura chata, que tem seus eventuais momentos engraçadinhos e deve ser esquecida logo em seguida.

É engraçada a similaridade desse Tartarugas Ninja com a franquia dos Transformers, também comandada por Bay. Destruição desembolada, protagonistas genéricos criados por efeitos especiais, preocupação mínima com a lógica, a física e os personagens e muito marketing. Afinal, o importante é vender produtos, desde bonequinhos a pizza. E há a Megan Fox, que havia chamado Bay de Hitler publicamente, mas aparentemente voltaram às boas. Como velhas conhecidas do público, as tartarugas têm apelo suficiente para atrair espectadores, o que vem garantindo o primeiro lugar nas bilheterias e houve até o anúncio de uma continuação.

April O'Neil

A trama básica é a mesma de sempre. Revisitando a origem das tartarugas em flashbacks e acrescentando novos elementos, o filme introduz a repórter April O’Neil (Fox), que pretende fugir de suas matérias chatas habituais e vai atrás de um furo de reportagem séria. Ela começar a investigar os crimes da gangue conhecida como Clã do Pé e descobre que há um justiceiro, ou quatro, combatendo os assaltos. Sua recém adquirida proximidade com as tartarugas vai trazer problemas e elas terão que defender a garota. O chefe do Clã, Destruidor (Tohoru Masamune), tem um plano para dominação da cidade de Nova York e só quem poderá defender os bons cidadãos são Leonardo, Michelângelo, Donatello e Raphael, liderados pelo rato Splinter.

O primeiro problema que observamos é a escolha para a mocinha: a linda e insossa Megan Fox já mostrou em diversas oportunidades que não sabe atuar, e muito menos poderia carregar um filme nas costas. E ela não guarda nenhuma similaridade física com as Aprils que conhecemos de outras encarnações, diga-se de passagem. Will Arnett, ator e dublador talentoso (de Uma Aventura LEGO, 2014), é relegado ao papel de alívio cômico numa relação mais do que batida com a repórter. William Fichtner (de O Cavaleiro Solitário, 2013) vive um poderoso empresário que, desde o início, já conseguimos ler e prever. E o que a Whoopi Goldberg estava fazendo ali? Talvez, tenha sido uma tentativa falida de trazer humor. A necessidade de ter piadinhas é tão grande que há uma relacionada a uma música que é totalmente fora de lugar, além do fato de ter uma referência obscura que dificilmente alguém vai pescar.

Quando um vilão tem uma arma empunhada e simplesmente parece se recusar a matar os heróis, algo muito errado tem. Quando atiram e as balas magicamente não atingem, é até pior. O aparato tecnológico das tartarugas, em casa (ou esgoto) e no carro (?), é igualmente inexplicável. Como boa parte da história, aliás. Acreditar em tartarugas ninjas mutantes adolescentes, vá lá. O universo criado permite isso. Difícil é acreditar que esse Jonathan Liebesman (de Invasão do Mundo, 2011, e Fúria de Titãs 2, 2012) algum dia vá dirigir algo que preste, e ainda mais sob a batuta de Bay. Ao final da sessão, foram tantas frases feitas de autoajuda que pensei estar assistindo à cinebiografia de Paulo Coelho, que estava em exibição na sala ao lado. Talvez, tivesse sido melhor.

A beldade parece ter feito as pazes com o diretor/produtor

A dupla de Transformers parece ter feito as pazes

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Robin Williams foi O Melhor Pai do Mundo

por Marcelo Seabra

World's Greatest Dad

É claro que não havia como prever que o mundo ficaria sem um de seus grandes artistas. Robin Williams sucumbiu na guerra contra aquele que parece ser o mal do século, a depressão. Já há algum tempo, um dos muitos filmes dessa longa carreira está disponível em locadoras e no serviço Netflix, e ele passou batido pelos cinemas, restando como opção apenas assistir em casa. E é assustadora a conexão entre o longa e a morte do ator. O Melhor Pai do Mundo (The World’s Greatest Dad, 2009) nos apresenta a um pai cujo filho acidentalmente se mata por asfixia, o que é visto por todos como o suicídio de uma alma atormentada.

O detalhe é que o jovem morre durante uma tentativa bizarra de obter prazer sexual se enforcando. Para evitar um escândalo, ou uma grande vergonha, o pai decide acobertar o real motivo da morte, chegando a criar um bilhete de suicídio falso que comove toda a comunidade. Não sabemos se ele faz isso pela memória do filho ou se por ele próprio, para evitar uma situação ainda pior do que a morte do filho. Para um escritor frustrado, é hora de chamar atenção para seus escritos, várias vezes recusados por editoras.

Devido a esta morte estúpida e imprevisível, é natural que muitos busquem elogiar Williams, de fato um grande artista, na comédia e no drama. Em O Melhor Pai do Mundo, ele oferece uma performance irretocável, que permite todos os elogios cabíveis. Dentro das possibilidades do roteiro, escrito pelo também diretor Bobcat Goldthwait, Williams faz sua velha mistura de doçura e amargura para viver um personagem que não sabe mais como agradar os outros, de tanto que se esforça, mas que ainda procura ter alguma recompensa dessa vida injusta. Namorar uma colega professora mais jovem seria uma compensação, mas ela não o leva a sério como deveria.

World's Greatest Dad couple

Como um professor de poesia, assunto que não tem quase nenhuma aceitação entre os estudantes, abandonado pela esposa e tratado com descaso pelo filho (Daryl Sabara, da franquia Pequenos Espiões) e pela suposta namorada (Alexie Gilmore, de Refém da Paixão, 2013), Lance Clayton (Williams) acaba vendo no triste fim do filho uma oportunidade de trabalhar a memória sobre o garoto (há meninas disputando migalhas, algo que nunca ocorreu enquanto ele era vivo) e, ainda, de valorizar seu trabalho. Como escritor e como poeta, é o que ele precisava. O golpe é construído passo a passo e até o diretor da escola é enganado.

Em meio a frases feitas (como a velha “suicídio é uma solução definitiva para um problema temporário”) e provas falsas, fica um pouco chocante o tanto que a arte imita a ficção. O garoto Clayton é tido como herói por muitos, uma figura que paga o preço final por sua genialidade. Algumas falas dos personagens se encaixam perfeitamente na situação agora protagonizada pelo próprio Williams, do lado de cá das telas. Mais um bom trabalho do ator, num filme interessante e tragicamente irônico. Uma falta que será sentida por bastante tempo.

Fique em paz, e obrigado por tudo!

Fique em paz, e obrigado por tudo!

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